Com amor, Olaf

1 A caixa de flocos de neve


O dia estava chuvoso. O céu totalmente nublado e cinza. A janela pela qual Anna observava a chuva cair já mostrava traços de que o frio estava ficando cada vez mais intenso. O vento também estava ficando um pouco mais forte. Um relâmpago atravessou o céu e logo veio o trovão, seu companheiro.

Anna estava perdida em seus pensamentos... Tanta coisa havia acontecido na última semana! Sua mãe, Manuella, havia brigado com seu pai na última semana e decidiram se divorciar. Claro que não foi apenas por essa briga; as diferenças entre o casal começaram a aparecer há mais de um ano. A adolescente sabia que tudo acabaria na separação, era evidente.

Seu pai decidiu não brigar por sua guarda, nem pagar pensão. Seus progenitores agiram como adultos que eram e resolveram todas as questões sem precisar do auxílio da justiça. Venderam a casa e repartiram o dinheiro, cada um ficou com seu próprio carro e Anna ia passar um final de semana com seu pai a cada duas semanas.

Para uma adolescente, ela achava que estava levando isso na mais pura leveza possível. Pensava que, por conta da constante troca de hormônios que seu organismo fazia nesta idade, sofreria muito ou teria algum problema psicológico. Mas não, estava tudo bem e calmo. Até agradeceu por não ter que ver mais seus pais discutindo apenas pela presença um do outro.

Sua psicóloga, Júlia, estava orgulhosa da garota e auxiliava ela em todos as questões que estavam em seu alcance. Anna dedica a ela o não desenvolvimento de alguma patologia. Júlia ajudava mesmo Anna a colocar a mente no lugar e passar tranquilamente (ou o mais calma que conseguia) pelos obstáculos que a vida impunha em seu caminho.

Com a venda da casa, Mannu ficou visivelmente preocupada de onde iria morar junto com a filha e Anna também tinha essa questão na cabeça, afinal não se acha uma casa para morar assim de um dia para o outro.

Quando Carlos, amigo de Manuella ficou sabendo da separação de sua colega, logo tratou de prestar ajuda. Tio Carlos — como Anna o chamava – cedeu o sobrado onde morava para que elas pudessem viver. Ele estava cansado de tantos quartos vazios, afinal morava sozinho.

Anna ficou feliz com a mudança de bairro e de ares. A escola também foi fácil para se adaptar pois seus colegas foram muito receptivos e acolhedores. Mas a garota confessa para si mesma que não tem muito o que fazer quando esta desocupada pois, por morar no centro da cidade, a casa de Carlos não ficava perto de nenhuma praça. A mais perto era a três quadras dali e Anna sentia muita preguiça só de pensar em andar até lá.

O único local que a menina podia considerar visitar e ficar horas por lá era a biblioteca municipal que ficava na esquina do próximo quarteirão. Ela adorava ler, então era comum ela almoçar em casa e depois passar a tarde toda estudando ou lendo algum livro para se distrair na biblioteca.

Mannu também não parava muito em casa: enquanto Carlos trabalhava em uma empresa de tecnologia perto dali, Manuella conseguiu mudar seu trabalho para uma escola ali do bairro mesmo. A mulher que beirava a casa dos quarenta anos amava lecionar. Era satisfatório pensar que, mesmo que um pouco, ela mudava a vida de seus alunos.

Era sábado a tarde. A programação na televisão era péssima e nenhum canal pago estava passando algum programa que agradasse a garota. Ela conseguia ouvir a mãe mexendo no sótão afim de limpar o lugar que há tempos não via uma boa limpeza – não era por menos, pois Carlos odiava limpar os cômodos normais, imagina o sótão.

Com a cabeça encostada na janela, Anna voltou para a Terra quando sua mãe a chamou no sótão. Lenta e preguiçosamente, a menina subiu os lances de escada que eram necessários para chegar ao cômodo e encontrou a mãe saindo com uma caixa.

— Lixo. – comentou – Poderia terminar de organizar as tralhas que Carlos deixou? Já tirei todo o pó e fiz um limpa geral. Preciso muito fazer o almoço, estou morta de fome.

A garota assentiu lentamente.

— Tudo bem com você?

— Sim, apenas esse dia que me deixa preguiçosa.

A mãe riu e saiu com a caixa lotada de lixo debaixo do braço.

— Seu tio chega as 16h.

— Okay.

Carlos estava enfrentando um terrível problema nos servidores da empresa. Ele até contou para suas garotas no jantar da noite passada, mas Anna nem prestou atenção. Tecnologia era demasiadamente cansativa para ela.

Eram 11h e nenhum raio de sol passava pelas nuvens lá fora. A janela circular no fundo do pequeno aposento mostrava bem as nuvens cinzas e a visão de todo o material contido no cômodo só era possível por conta da lâmpada que estava acessa.

Anna respirou fundo e reuniu toda a coragem que não tinha e começou a trabalhar. Empilhou algumas caixas ali, outras ali. Colocou alguns copos de plásticos e revistas na estante de madeira envernizada, junto com os livros espalhados aqui e acolá. Quando mexia na parte de cima móvel, um pequeno baú de madeira caiu no chão e, por sorte, não quebrou e muito menos abriu.

A menina desceu do banco onde subira e pegou o objeto. Era uma espécie de caixa, mas ao mesmo tempo um pequeno baú azul escuro com floes de neve brancos pintados por toda sua extensão. Um cadeado protegia seu conteúdo.

Curiosa, a garota subiu novamente no banco de plástico e tateou a cobertura da estante para descobrir se a chave estava lá. Por sorte e com um pouco de esforço, ela achou.

Respirando fundo, ela colocou a chave no pequeno cadeado e girou. Destrancou. Ela arregalou os olhos.

De repente, uma batalha moral começou em sua mente: ela deveria ou não abrir? Mexer nas coisas do seu tio de consideração parecia errado mas ao mesmo tempo, sua curiosidade falava mais alto.

Ela se sentou no chão e decidiu abrir. Na tampa que jogou para trás, um papel estava grudado com fita adesiva:

“’Penso, logo existo’

— Descartes

Por pensar, escolhi existir. E como consequência, veio o sentir.”

Anna já havia visto a citação ao filósofo em suas aulas e livros de filosofia. Achou curiosa a analogia com o sentir. Ficou curiosa... “Sentir em que sentido? De ver e ouvir, ou de ficar alegre ou triste?”

Ela constatou que o conteúdo do pequeno baú eram diversos envelopes com o que parecia ser, uma folha dentro de cada. Sem demora, pegou um dos envelopes. Na frente, haviam apenas duas letras e, no verso, letras sem sentido algum:

“GF”

“Rafvab Zrqvb / Snphqnqr”

A garota ficou totalmente confusa. O que aquilo significava? Por se tratar de uma carta, ela sabia que precisava de um remetente, no caso o tio, e um destinatário, que parecia ser o tal de GF. Mas ainda assim faltava outras informações, como endereço e CEP, por exemplo.

A única coisa que pairava em sua cabeça era o quão estranho aquilo parecia. Agora a guerra moral de sua mente havia cessado. A curiosidade havia ganhado. Ela abriu o envelope e começou a ler a carta.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Coment'ai, a mão não vai cair ahahahaha