Colisão

4 4. Quão profundo é seu amor


Notas iniciais
Olá, pessoal! Como estão? Faz um tempinho que eu havia ficado em hiatos com esta fanfic, e queria explicar um pouquinho do motivo que me levou a ficar tanto tempo sem escrever. Não foi por falta de vontade de atualizar, mas esses últimos meses têm sido bem difíceis para mim. Eu perdi o meu querido avô no mês passado, dia 08 de setembro, e ainda antes disso ele havia ficado internado no hospital por várias semanas. Simplesmente fiquei tão triste, tão abalada, que não consegui encontrar forças nem vontade para escrever. Até tentei atualizar algumas coisas, em especial os meus projetos originais, e comecei várias ones para Colisão, sem concluir nenhuma. Foi apenas há alguns dias que eu me comprometi e resolvi terminar esta aqui que vou postar hoje. Não sei se ficou uma das melhores coisas do mundo. Pessoalmente, eu teria esperado um pouco mais para que a história decantasse e fosse revisada antes de postar, mas estava há tanto tempo (uns três meses, acho) sem publicar nada que não poderia me importar menos. Enfim, sobre a one, ela é de um momento muito especial e um dos meus capítulos favoritos da segunda temporada. Na verdade, é o meu capítulo favorito. Episódio 7, a primeira vez de Kanthony. Queria demonstrar um pouquinho mais do ponto de vista do Anthony naquela cena e acabei fazendo toda ela no POV dele. Ela não segue à risca as falas dos personagens na série e tem algumas extras que eu coloquei em prol da continuidade da narrativa, mas o contexto geral é praticamente igual. Espero que se divirtam! Boa leitura!

Assim que o ar gelado da noite golpeou o seu rosto, Anthony respirou em alívio. O frio vinha sendo um grande aliado nos últimos tempos, capaz de lhe conferir clareza onde só havia confusão. Em sua mente, os pensamentos se misturavam uns aos outros em uma massa caótica, nunca o deixando respirar, nunca o deixando relaxar.

Exalando o ar profundamente, com os punhos cerrados ao lado do tronco, andou a passos firmes de um lado para o outro no jardim dos fundos da Casa Bridgerton, incapaz de se manter inerte. Seu corpo fervilhava, a frustração o inflamando como carvão, o bastante para que chamasse a atenção da curiosa criadagem. Anthony, mesmo em meio à sua agitação, foi capaz de entreouvir um barulho abafado vindo do interior da residência. Olhou naquela direção, pegando no ato duas criadas o espiando pela vidraça. O lado de dentro da casa estava às escuras se comparado à luminosidade do jardim, mas o tecido reluzente do uniforme não deixava dúvidas de quem se tratava.

Ao notarem o olhar do visconde, ambas ainda tentaram se esconder atrás da cortina, em vão. Ele não precisou sequer dar dois passos à frente para que as criadas se sobressaltassem e dessem um jeito de sair correndo de seu alcance. Por sorte, elas pareciam ter sido as únicas a testemunhar a sua recente perda de controle.

Não que Anthony se importasse que a criadagem o visse furioso. Na verdade, parecia que aquele estado de espírito era o único que costumavam observar em sua presença. Só que, naquela noite, não queria nenhuma testemunha. Queria estar sozinho.

Sentia uma ânsia cada vez maior de fugir para algum lugar, qualquer lugar.

Por isso, aproveitou a aparente retirada das criadas e tratou de escapulir para a parte de trás do jardim, onde as folhagens eram mais densas. Perambulou um pouco por ali, sem se fixar em nenhum detalhe da paisagem, até chegar ao gazebo.

A construção de teto cônico era completamente cercada pela maior variedade de flores, que haviam desabrochado e liberavam um perfume intoxicante. Anthony passou reto por ele, sem dar muita atenção ao odor das plantas, fingindo que seu corpo não se eletrizara somente ante o ínfimo pensamento de que a fragrância lembrava o perfume dela.

Meteu-se no meio das folhagens e lá permaneceu, pois pelo menos ali não havia risco de pensar mesmo em nada. Sentia o peito queimar, e uma ira de proporções titânicas tomar conta de si. Não por Eloise, embora ela sem dúvida merecesse uma boa lição depois do que fizera, mas por si, por saber, lá no fundo, que não havia outro a culpar além dele.

Talvez, se não tivesse sido tão ausente, não de corpo, mas de mente, nada daquilo teria acontecido. Somente agora percebia quão estúpido havia sido. Eloise dera todas as pistas de que vinha agindo mal, inventando desculpas para sair de casa, ausentando-se de todos os eventos sociais, dando um jeito de se esconder pelos cantos. Anthony tinha de admitir que acreditara que aquele comportamento fosse normal para jovens da idade dela, mas então, dava-se conta de que aquela fora apenas uma justificativa fácil. A verdade era que ele não dedicara muito tempo à Eloise, borrara-a da mente assim como todo o resto.

O que havia de errado com ele?

Antes que pudesse pensar em alguma resposta para aquela pergunta, a plenitude do jardim de repente foi invadida por um som baixo, mas que, pelo silêncio contido ali dentro, ecoou até Anthony, mesmo que a contragosto. Um suspiro.

Respirando fundo, e já pronto para espantar o invasor de seu refúgio improvisado, ele se lançou à frente com ímpeto, apenas para ter de frear os pés no instante seguinte, quando seus olhos tiveram o primeiro vislumbre de quem também buscava refúgio por lá.

Era ela.

Como sempre, a visão de Kate o deixou momentaneamente sem fôlego. Com seus trajes cintilantes, naquela noite de um tom profundo de rosa, sentava-se em um dos bancos do gazebo, parecendo distraída enquanto observava um ponto aleatório à frente. Anthony se permitiu admirá-la por apenas um instante, dizendo a si mesmo que não havia nada de absurdo no fato, mas, enquanto suas mãos ainda formigassem pela lembrança de tê-la nos braços enquanto dançavam no salão de baile, não conseguiria responder por si.

Finalmente, e antes que sua mente pudesse tentar persuadi-lo da ideia que lhe invadira, subiu os poucos degraus que o separavam dela, as mãos presas às costas enquanto adentrava no gazebo.

— O que está fazendo aqui fora? — Lançou ele, e foi somente então que ela pareceu notar a sua presença. Ao reconhecer sua voz, seus penetrantes olhos castanhos se moveram até encontrar os de Anthony, que apertava os lábios para disfarçar a satisfação.

— Me desculpe. — Disse Kate, apressando-se em se levantar, como se a sua aparição ali a impedisse de continuar dividindo o mesmo espaço com ele.

Porém, Anthony não desejava, nem por um segundo, que ela se afastasse. Não quando a tinha tão próxima, depois de ter praticamente lhe implorado por um momento a sós e ela o recusara, afirmando que deveriam fingir que o beijo trocado nunca acontecera.

Como se Anthony pudesse esquecer uma das melhores coisas que lhe aconteceram.

— Não, não. Por favor, fique. — Pediu, em tom suave. Uma leve agitação tomava conta de seu estômago, e ele se perguntou se Kate podia sentir o mesmo, mas era difícil saber. Kate não era uma mulher fácil de ler, e o modo como seu semblante começava a se fechar não lhe passava muita confiança de que aquela conversa tomaria um rumo positivo.

— Mas o senhor estava aqui primeiro. — Retorquiu Kate, depressa.

— Não seja por isso, eu estava mesmo de saída.

— Esta é a sua casa, milorde.

— Isso não significa nada.

— Talvez devesse significar. — A reprimenda constante em sua voz, como se ela estivesse enfatizando um ponto óbvio, fez Anthony franzir o cenho, sem acreditar que Kate tivesse escolhido justamente aquele momento para contradizê-lo.

Ou talvez, pensando melhor, não devesse ter ficado tão surpreso assim.

Ele simplesmente a encarou.

— Precisa fazer isso sempre? — Disparou.

— O senhor é quem está insistindo.

— E a senhorita não resiste em me contrariar, não é mesmo?

— Oh, pelo amor de... tenha uma boa noite, milorde! — Cuspiu, mais uma vez virando-se para partir, mas, incapaz de deixá-la escapar de seu alcance, nem que para isso tivesse de receber as adagas lançadas por seus olhos ou ser o alvo de sua língua afiada, Anthony deu um passo à frente, como se compelido na sua direção.

— Será que pode concordar comigo pelo menos uma vez? — Desabafou ele, e como previra, suas palavras a prenderam no lugar. — A senhorita tem agido desse modo desde o momento em que nos conhecemos naqueles bosques!

Ela soltou uma risada seca.

— E que modo seria esse?

— Obstinada. Inflexível. Resistente ao mais razoável, simples senso comum.

Os olhos dela faiscaram, estreitando-se até formarem duas fendas.

— Eu posso entender por que isso seria tão incômodo para um homem como o senhor. — Kate devolveu com rispidez, sem rodeios. — Um homem acostumado a sempre conseguir o que quer, um homem acostumado a dar ordens...

— Eu não lhe dou ordens. — Como ela poderia pensar aquilo? Kate era a criatura mais teimosa da face da terra, nem se quisesse poderia lhe obrigar a fazer algo contra a sua vontade.

Só que ela não parecia concordar.

— O senhor me dá ordens e espera que eu lhe dê ouvidos, mas eu não dou!

— Talvez não doesse tanto se me ouvisse de vez em quando! — Revidou ele, sentindo o descontrole e a frustração escorrerem de seu corpo com estridência.

— Oh, eu nunca deveria ouvi-lo, ou a qualquer um de quem eu discordo completamente! — Ela bradou com uma intensidade que espelhava a dele, e suas vozes exaltadas ecoaram no silêncio do gazebo pelo que pareceu uma eternidade. Anthony tremia pela miríade de emoções, e a única coisa que pôde fazer diante de seu olhar cortante foi bufar em insatisfação, perplexo com o fato de que, apesar de tudo, só o que podia pensar era em como ela era a criatura mais linda, mais intrigante, ainda que frustrante, que ele vira na vida.

Aparentemente não satisfeita com a sua resposta nada articulada, ela seguiu em frente, o queixo empinado em uma postura desafiadora, ao dizer:

— Não me surpreende o senhor ter levado tanto tempo para entender o que estava acontecendo, para aceitar esse fato...

— A senhorita quer saber por quê?

— Eu sequer estou certa de que o senhor saiba o porquê. — Desdenhou ela.

— Eu sei por quê.

— Oh, aqui vamos nós. — Kate estendeu a mão em um gesto que o convidava a continuar com a explanação. — Por favor, milorde, me ilumine com o seu autoconhecimento, e com toda a sabedoria que acha que possui a respeito próprio.

— É porque eu nunca conheci ninguém como a senhorita. — Assim que as palavras foram ditas, Anthony se deu conta do quanto seu peito devia estar apertado, pois alívio o inundou quando o coração deixou de pesar, passando a bater em ritmo acelerado.

Seus olhos estavam firmemente fixados no rosto de Kate, acompanhando cada pequena mudança de sua expressão, por isso notou o momento exato em que ela ficou desarmada, obviamente sem esperar aquela declaração tão sincera. Porém, honestamente, Anthony estava começando a se cansar daquele jogo que eles vinham jogando desde que se conheceram. Ele acreditara ser forte o bastante para suportar o tranco, agir conforme as regras e vencer, mas, pela primeira vez, não queria vencer. Só queria se ver livre daquele sentimento que tanto o atormentava, e se, para isso, tivesse de abrir o coração, que fosse.

— A senhorita é teimosa, é pomposa, acha que sabe de tudo, e eu...

— Não é... — Ela tentou interrompê-lo, mas Anthony não se refreou.

— Eu não deveria achar isso tão fascinante, mas é só no que consigo pensar, dia e noite. É de enlouquecer! A senhorita conseguiu consumir cada fibra do meu ser. — Kate soltou o ar com força, os olhos arregalados. Estava sem palavras. — A minha família está à beira da ruína. Tenho quase a certeza de que cada um dos meus irmãos secretamente me despreza — aliás, até a minha própria mãe é capaz de me desprezar —, apesar de eu ter dedicado os melhores anos de minha vida a eles. Ainda assim... ainda assim, a única coisa que ronda meus pensamentos, a única coisa capaz de me fazer respirar... é você.

Ela continuou em silêncio. Parecia estar mergulhada em uma espécie de transe, as írises acompanhando cada movimento dos lábios dele.

— Acha que eu queria estar nesta posição? — Anthony sentiu a própria voz vacilar com a intensidade daquele olhar que lhe queimava a pele, vendo-a menear a cabeça levemente em resposta à pergunta que tivera a intenção de ser retórica. — Acha que eu queria estar tendo de lutar contra os pensamentos que me invadem, de querer estar em nenhum outro lugar que não seja com você? De querer largar tudo e fugir com você?

Suas palavras circularam no ar entre eles, e tiveram o poder de encorajá-lo a dar os passos derradeiros na direção dela. Kate estava tão próxima, e seu perfume começava a fazer com que perdesse o sentido lógico. Enquanto caminhava para perto, sua voz ia atingindo uma ressonância grave, quase sussurrada, como se murmurasse um segredo lascivo.

— Todos os dias, eu me vejo obrigado a lidar com os mais impuros, proibidos desejos, não importa quantas vezes eu lembre a mim mesmo... — Quando enfim a alcançou, permitiu que seu nariz escorregasse sobre o de Kate, seus olhos fincados nos dela. — Eu sou um cavalheiro, e você é uma lady. Com esse... — Cedendo ao desejo que o vinha consumindo, Anthony inclinou-se e deslizou o nariz ao longo da curva do pescoço dela, respirando a maravilhosa fragrância impregnada naquela pele de seda. Seu cheiro o invadiu, tomando conta de seu corpo a tal ponto que ele achou que fosse perder os sentidos, mas não antes de entreouvir o suspiro sôfrego que ela emitiu em seu ouvido. Ele estremeceu. — Ah, esse perfume... ficou grafado em minha memória desde a noite do baile, em que a encontrei no jardim. A mais doce fragrância de lírios.

É isso, pensou Anthony. Seus sentimentos estavam expostos em uma bandeja, seu peito aberto como nunca estivera antes. Por outro lado, sabia que não tinha o direito de exigir nada, muito menos que ela o retribuísse. Só que Kate tornava tudo tão difícil. Aquela distância o estava matando, ao mesmo tempo que perto, tão longe de seu alcance. Seus narizes ainda eram o único ponto do corpo de ambos que os conectava, e Anthony sentia Kate mover a cabeça de um lado para o outro, as pálpebras levemente cerradas, soltando aquele grunhido de frustração que ela costumava exclamar em sua presença, como se aquilo fosse demais, como se...

Como se ela também o quisesse.

— Você tem que parar. — Anthony sussurrou em aviso, tentando apelar para sua consciência. Os dois sabiam muito bem que, dentre ambos, ele era o menos capaz de se controlar, e ele temia o momento que aquela faísca que ainda o mantinha íntegro se apagasse de vez.

— Eu tenho que parar? — Kate sussurrou de volta.

— Receio que não haja outro curso a ser percorrido. A senhorita deve parar agora.

Aquilo arrancou uma reação dela.

— Isso é sua culpa. — Antes que pudesse piscar, Kate se moveu para longe dele outra vez. No mesmo instante, sentiu o vento frio açoitar o seu corpo, e um tremor o percorreu, como se ele tivesse sido atirado a um lago congelado. Virou-se para buscar o seu calor novamente, mas Kate já impunha uma distância considerável entre eles, a postura rígida ao cerrar os punhos ao lado do tronco enquanto o encarava. — Foi o senhor esse tempo todo, chegando para tirar o meu mundo dos eixos, me fazendo reconsiderar tudo o que já disse a mim mesma que jamais faria, que jamais pensaria. Vim até aqui decidida a salvar a minha família. Esse era o meu único objetivo. Tudo o que fiz, tem sido p...

— Tem sido por elas. — Ele completou, porque a conhecia, porque a entendia. Não houvera um momento em que Anthony não a admirasse por ser daquela maneira, por amar a família com tanto ardor, uma qualidade que ambos compartilhavam.

Kate assentiu, impotente.

— Tem sido por elas. — Ela repetiu, confirmando suas suposições.

— Eu sei.

— Você é quem deve parar. — Ela chorou, encarando-o com os olhos tomados de sofrimento, mas decididos. Anthony sentia em seu âmago que Kate estava a ponto de entrar em colapso, e ambos brincavam à beira do abismo, testando até que ponto o outro ia para chegar até o limite. — Você é quem deve parar. — Repetiu ela. — Antes...

Ele deu um passo à frente, sem se conter.

— Antes de quê? Antes de nós dois finalmente fazermos algo por nós mesmos?

De olhos arregalados, Kate apenas o encarou. Porém, Anthony podia ver claramente que as suas palavras a atingiram com força. Ele escrutinou sua face, vendo que aquelas mesmas emoções ardentes que o tomavam estavam refletidas em seu rosto.

Anthony segurou o ar nos pulmões, mal se atrevendo a respirar. Se se permitisse inalar o ar, se por um segundo sentisse aquela maldita fragrância de lírios nas narinas, tinha a certeza de que mandaria às favas o decoro, a polidez, e a agarraria bem ali, no gazebo.

— Por favor, vá para dentro. — Pediu ele, sofregamente. E é claro que ela não obedeceu, teimosa que era. Apenas estreitou os olhos em desafio, e ele soltou um rugido de frustração, sabendo que aquele não era o momento para discutirem, não quando ele estava chegando ao seu limite. Por isso, tentou mais uma vez, enfatizando cada palavra como se assim pudesse fazê-la perceber a urgência daquele apelo: vá... para... dentro.

Kate ergueu o queixo.

— O que eu disse sobre o senhor e suas ordens?

Aquilo foi o fim.

De imediato, sua mente apagou qualquer pensamento coerente. A única coisa que ele era capaz de ver era Kate. Seu corpo iluminado pelas luzes amareladas das velas parecia reluzir, implorando para ser tocado; e a boca de lábios curvados e macios, reivindicada. Ele não tinha mais forças para resistir, e o mais importante, não queria mais lutar.

O som de seus corpos se chocando um contra o outro foi o que o alertou para o fato de que havia se movido na direção dela. Isso, e a sensação inebriante de sua boca de encontro à dele. Anthony foi acometido de uma sensação bestial enquanto devorava os lábios dela, um gemido de puro prazer lhe escapando da garganta sem que pudesse se dar conta. Só a havia beijado uma única vez e estava sedento, ardente, pedante.

Suas mãos ganharam vida própria, assim como as dela. Anthony sentiu os braços de Kate envolverem seu pescoço, puxando-o para mais perto, como se quisesse se fundir a ele, ao que prontamente retribuiu. Seu corpo estava quente de encontro ao dele, e Anthony não resistiu a apertá-la bem firme de encontro a si, deixando-se moldar a cada pequena curva ou reentrância dela. Naquele meio tempo, seus lábios nunca interromperam sua dança.

Porém, ao sentir que Anthony lentamente erguia as saias de seu vestido, Kate desgrudou a boca da dele, olhando-o com uma expressão intrigada e repleta de expectativa, que lhe deu o incentivo de que precisava para deslizar os dedos lentamente pela parte interna de sua coxa, finalmente encontrando o centro de seu prazer feminino, com o qual fantasiara desde que... bem, ele já nem se lembrava. Parecia que desde que pusera os olhos nela.

Seu toque inesperado fez com que um gritinho surpreso escapasse dos lábios dela, e suas mãos agarrassem seus ombros com força. Sinos de alerta soaram na mente de Anthony, e ele se afastou como se ela o tivesse queimado.

Ele ergueu os braços em rendição, respirando com dificuldade.

— Eu vou parar. — Afirmou, categórico, mas ela fora mais rápida e o recapturara com o seu olhar, cortando a distância entre os dois mais que depressa.

— Não pare.

— Eu vou parar. — Repetiu ele, mas sua convicção caiu por terra quando foi puxado com fervor pela lapela da casaca.

— Não se atreva a parar. — Ela rugiu, e o beijou. E se Anthony pensara que havia alcançado o limite, estivera redondamente enganado. Havia algo tão excitante na forma como ela o procurara, como consentira seu toque, que ele não teve outra escolha senão cair em seu encanto. E que outra opção tinha?

De repente, suas mãos estavam em todos os lugares ao mesmo tempo; emboladas em seu cabelo, segurando-o pela nuca, pousadas com firmeza em seus ombros. Anthony amava a maneira como ela o mantinha perto, com total entrega, como se confiasse nele completamente. E ele próprio não a decepcionou, pois suas mãos não conseguiam largá-la nem que fosse por um segundo. Anthony a apertou com firmeza, mergulhando a língua fundo em sua boca, deixando-a brincar com a dela, experimentar.

Kate podia não ter muita experiência, Anthony percebera isso naquele dia na capela, pela maneira hesitante com que ela o beijara, como se fosse a primeira vez, mas era inegável que era disposta e aprendia depressa. Logo, Kate tomava parte naquela dança e forçava a própria língua de encontro à dele, enroscando-a deliciosamente entre seus lábios, e com isso fazia com que seus sentidos se perdessem um pouco mais a cada instante.

A fim de tomar fôlego, Anthony separou suas bocas, partindo depressa para a curva delgada de sua mandíbula. Ele adorava a forma do queixo dela, como as linhas rígidas formavam um desenho simétrico e proeminente, quase como se esculpido em mármore. Sua língua explorou com ardor aquela área sensível, sentindo o gosto de sua pele, então migrou para o pescoço e continuou descendo vagarosamente.

— Esse seu perfume ainda vai me matar. — Ele sussurrou, enquanto inalava a fragrância de lírios diretamente da fonte, um ponto logo abaixo da orelha dela, onde a essência era mais intensa. Anthony tinha de respirar mais daquilo, por isso a girou em seus braços, o corpo imediatamente a imprensando por trás. Mais uma vez buscou a saia de seu vestido, erguendo-a com lentidão enquanto os lábios trabalhavam na pele do seu pescoço.

Não tardou para que suas mãos gulosas encontrassem a carne macia entre as pernas dela e, com um suspiro de prazer, notou o quanto Kate estava úmida na região. Seus dedos se aventuraram por ela, experimentando e tocando. Não havia pelo algum em seu caminho, o que muito o surpreendeu, mas o pensamento evaporou no mesmo momento, quando se deu conta de que a pele macia deslizava com ainda mais facilidade sem eles.

Com um gemido, voltou a atacar o seu pescoço, sentindo-a se contorcer sob ele, a cabeça inclinada lhe dando livre acesso. As mãos dela cobriram as dele, e não levou muito tempo para que de seus lábios começassem a imergir sons deliciosos de prazer.

Os olhos de Anthony faiscavam, atentos a cada expressão que ela fazia. Notou que seus olhos estavam fechados, o cenho franzido em puro deleite e os lábios levemente partidos. Ele aproveitou o momento para levar a mão livre até suas costas e começar a abrir um a um os botões de seu vestido, que deslizou de seus ombros um momento depois.

Kate se virou novamente para ele, voltando a capturar sua boca em um beijo faminto, as mãos o circundando com desespero, como se não suportasse ficar sem tocá-lo. Ainda que sem perceber, esfregava as pernas uma na outra, impaciente. Anthony sabia exatamente o que ela sentia no meio delas, pois era muito semelhante ao que ele mesmo sentia, aquele anseio incontrolável por algo que só o outro podia dar, pela junção dos corpos em um.

Agarrou a perna dela e a ergueu sem parcimônia até a sua cintura, enrolando-a ao redor do quadril. Kate ainda vestia as roupas de baixo, mas o tecido era tão fino e macio que o contato parecia quase com a pele. Ela se enroscou a ele sofregamente, puxando-o em sua direção com ainda mais vigor, e Anthony foi deslizando a mão pela extensão de sua coxa desnuda até encontrar uma das nádegas dela, apertando-a com firmeza e permitindo que ela se esfregasse nele o quanto precisasse, o quanto tivesse vontade.

Mas aquilo não parecia lhe bastar.

Anthony poderia ter ficado embasbacado com a vivacidade com a qual ela correspondia à sua luxúria se não estivesse ele mesmo tão imerso naquele mesmo sentimento. Por isso, continuou o delicioso trabalho de desnudá-la, esticando as mãos para remover suas luvas de cetim. Não era a primeira vez que via seus braços sem as luvas, ou suas mãos, mas era a primeira vez, sim, que tinha total liberdade de tocá-los. E sem conseguir aguentar mais um instante daquela agonia, levou ambas as mãos dela ao seu rosto, demonstrando que queria que ela o acariciasse ali, e em muitos outros lugares.

Kate não o decepcionou.

Com os fios de cabelo da nuca entrelaçados aos dedos dela, Anthony soltou um gemido gutural que reverberou na boca dela, e ela pareceu engoli-lo com satisfação. A sensação de seus beijos era inebriante, mais quente que o fogo, e começava a deixá-lo fora de si.

Sem muito raciocinar, Anthony começou a desatar os nós do lenço que levava ao pescoço e, em seguida, remover a casaca e a camisa de botões, atirando os agora inúteis componentes da vestimenta de lado. Os olhos curiosos de Kate acompanharam cada movimento seu, espreitando cada linha revelada de seu torso, e ele não conseguiu deixar de sorrir.

— Solte os cabelos. — Pediu ele, em um murmúrio, ao que ela prontamente acatou.

Ainda com os olhos colados aos dele, ela esticou os braços para cima e deliberadamente soltou cada uma das forquilhas que mantinha suas madeixas presas no alto. Mecha atrás de mecha, as ondas negras e volumosas de seus cabelos caíam como uma cascata por seus ombros desnudos, uma visão que deixou Anthony sem fôlego. A única vez em que a havia visto daquela forma fora no escritório do pai ainda em Aubrey Hall, e na época fora difícil controlar o desejo de mergulhar as mãos neles para descobrir se eram tão sedosos quanto aparentavam. Agora, então, resistir àquele impulso era praticamente impossível.

Puxando-a delicadamente pela mão, Anthony fez aquilo que vinha ansiando há tempos, e enterrou os dedos nos cabelos dela, primeiro ao escovar para trás da orelha as mechas que lhe caíam sobre o rosto, depois simplesmente ao agrupá-los nas mãos. Kate fez menção de inclinar a cabeça para um novo beijo, e ele permitiu que os lábios dela encontrassem os seus, mas não sem antes se ajoelhar aos pés dela em veneração.

O corpo de Kate era uma perdição. Cada curva era bem desenhada, suave e convidativa. Os lábios de Anthony logo voltaram a trabalhar nelas, preocupados em não deixar nem um mísero cantinho esquecido, enquanto descia uma trilha de beijos molhados por todo o seu abdome, beliscando cada fibra de pele que podia encontrar. Mesmo quando removeu sua roupa de baixo, vendo o tecido deslizar suavemente por suas pernas e se agrupar em um amontoado lilás no chão, a boca não conseguia ficar quieta, nem as mãos, famintas que só ao explorar cada pequeno pedacinho de pele.

As meias foram as últimas peças de roupa removidas. Ele tirou cada uma delas com uma calma assombrosa até para seus próprios termos, e Kate imediatamente reagiu àquilo.

— Anthony... — Sussurrou, olhando-o de cima com seus enormes olhos castanhos, olhos que contavam centenas de histórias diferentes, tantas que ele não soube dizer qual delas explorar primeiro. Havia um misto de emoções guardadas ali. Excitação, expectativa, um pouco de incerteza, talvez, pelo desconhecido da sua primeira vez. Ao se dar conta disso, Anthony percebeu que queria que ela fosse memorável. Queria deixá-la tão desnorteada que a única coisa presente em sua mente seria ele, e a única coisa que sairia de seus lábios seriam murmúrios do mais sincero e visceral prazer.

— Espere um momento. — Ele disse, movendo-se imediatamente para longe dela.

— Aonde vai? — Kate o repreendeu, fazendo menção de puxá-lo de volta, mas, por mais que Anthony estivesse muito tentado a atender ao seu pedido, sabia ser seu dever manter o foco por pelo menos um momento a mais, a fim de preparar, ainda que de improviso, o cenário perfeito para aquele desenlace.

Teve de rir ao ver sua expressão amuada.

— Não se preocupe, eu não irei para longe. — Vendo-a remexer as mãos, inquieta, ele se apressou na direção dos bancos que haviam sido dispostos abaixo da cúpula do gazebo. Com um puxão, removeu a capa e as almofadas que descansavam ali em cima, tratando de reacomodá-las no chão aos pés de Kate, como uma espécie de cama improvisada. Não era, nem de longe, o lugar ideal para uma dama como ela se deitar, mas, considerando as suas parcas opções, era o melhor que Anthony podia fazer.

E pela maneira aberta e sincera com a qual ela o admirava, aquilo sequer importava.

Seu corpo se moveu de imediato de volta para o calor dos braços dela, enroscando-se em seu abraço. Apesar de ser uma mulher bastante alta, sua constituição era miúda e leve, o que possibilitou que Anthony a acolhesse com delicadeza em seu colo, enroscando a parte de trás de seus joelhos e a erguendo do chão apenas para repousá-la entre as almofadas.

Assim que ela repousou a cabeça sobre o tecido escuro, Anthony teve de se segurar para não deixar que a emoção se sobrepujasse àquele momento. Com os cabelos longos espalhados ao seu redor e a pele de ébano reluzindo à luz bruxuleante das velas, Kate parecia uma obra de arte, pintada nos mínimos detalhes e com as mais belas cores.

Anthony não resistiu a esticar a palma e pousá-la em seu rosto anguloso, sentindo-a fazer o mesmo com ele. Não sabia o que ela via quando o olhava, mas tinha certeza de que não poderia ser nada menos do que a mais pura adoração.

Ele a veneraria, tal qual faria um brâmane diante de uma de suas deusas hindu.

— Você é tão linda, tão linda. — Ouviu-se dizer em um sussurro, enquanto se esticava a seu lado sobre a colcha. Encaixou seu peito às costas dela, o restante do corpo se acomodando conforme o ondular de suas curvas. Sentia seu pênis constrito de maneira dolorosa dentro da calça, mas não podia se importar menos. Talvez aquela fosse a primeira vez na sua vida em que o próprio prazer deixara de importar. Na verdade, saber que ele era capaz de lhe dar prazer era tão ou mais estimulante do que recebê-lo.

Seus lábios voltaram a se encontrar, sedentos. Kate imediatamente esticou um dos braços por trás da cabeça a fim de encontrar seus cabelos, em um movimento que abriu caminho para que Anthony a explorasse com toda a permissividade. Sua mão deslizou com calma pela pele macia, eletrizado com o calor que emanava dali. Grudou a pélvis à curva de seu traseiro, esfregando-o de modo deliberado para que ela sentisse a extensão de seu prazer. Kate gemeu em sua boca, os quadris se movendo com os dele quase sem perceber.

Ela esfregava as pernas com cada vez mais frequência uma na outra, tanto que Anthony chegou a pensar que a veria explodir bem ali, diante dele. Antes que isso acontecesse, no entanto, gostaria de ter tido o privilégio de provar cada gota da essência de seu gozo.

Virou-se novamente ao seu lado, subindo o corpo para pairar sobre o dela. Kate espelhou o movimento e se inclinou até que estivessem de frente um para o outro, mas Anthony a impediu de tomá-lo com a boca novamente, começando um deslizar suave dos lábios que se dirigia cada vez mais para o sul, beliscando e chupando a pele de sua barriga até que o rosto estivesse bem-posicionado entre as suas pernas.

Anthony se permitiu apenas uma olhadela para conferir sua expressão ansiosa antes que os olhos se fechassem e ele se afundasse nela com a boca.

A reação foi instantânea. Kate soltou um grito de surpresa, e o seu quadril subiu para vir de encontro a ele. O gosto dela era uma delícia, uma mistura irresistível de mulher, lírios e sal. Anthony gemeu junto com ela enquanto a chupava, os lábios trabalhando vigorosamente nas dobras e reentrâncias de sua feminilidade, dando uma atenção especial a seu clitóris inchado, o qual devorou com devoção. Conforme sua língua passeava pela carne úmida, seus olhos ficaram atentos para as reações que causava nela. Kate começou a contorcer o corpo à volta dele, a cabeça se movendo de um lado para o outro enquanto seus gemidos se tornavam mais e mais altos. Anthony, sem poder resistir à tamanha demonstração de prazer carnal, esticou as mãos até os seios dela e os apertou com força.

— Ah! — Foi sua resposta imediata. Aquele som era indescritível, uma exclamação que continha toda a delicadeza de sua voz, misturada a arquejos descompassados que passaram a ocupar o lugar de sua respiração. Anthony estava certo de que jamais se esqueceria daquela melodia, e de que dali em diante a levaria para sempre na memória.

Um momento mais tarde, Kate deslizou a mão e a pousou em cima da dele sobre os seus seios. Anthony virou a própria mão para cima e permitiu que ela o segurasse. Parecia a ponto de explodir, pela maneira como sua respiração estava acelerada e os seus gemidos escapavam com mais intensidade a cada segundo.

Sabendo que ela estava perto, Anthony se empenhou ainda mais em sua tarefa, querendo levá-la ao limite e, quando ela finalmente o fez, soltando um urro quase selvagem, ele se afundou ainda mais em suas dobras e sugou até a última gota de seu orgasmo.

Aliás, ele mesmo quase teve um orgasmo bem ali.

Passando a língua sobre os lábios, Anthony lentamente subiu o tronco até pairar novamente sobre Kate, que sem hesitação abriu as longas pernas para que ele se acomodasse entre elas. Seu encaixe era assustadoramente perfeito, e por um momento ele ficou estático no lugar, apenas assimilando a enormidade daquela constatação.

Kate parecia ter sido moldada para ele, e ele para ela, e Anthony não pensava apenas nos atributos físicos. Ambos se assemelhavam em praticamente tudo, e isso não era bem uma novidade, mas o impressionou que as similitudes pudessem chegar até o sexo.

Enquanto sua mente divagava, Kate aproveitara para capturar seu rosto nas mãos. Ela o olhava com deslumbramento, seu dedo polegar deslizando suavemente pelo lábio inferior de Anthony. Quando ela subiu os olhos para encontrar os seus, ele mal foi capaz de conter o coração de pular de seu peito. Aqueles enormes globos oculares brilhavam como duas esferas prateadas, reluzindo na noite tal qual diamante.

Por um ínfimo instante, Anthony se sentiu o homem mais imbecil do mundo. Procurara em tantas outras aquela pedra preciosa, quando a tinha bem ao alcance das mãos o tempo todo. Kathani Sharma, o motivo de sua ruína, mas também de sua salvação; a mulher por quem vinha esperando a vida toda, mesmo sem saber que a esperava.

Voltou a beijá-la com fervor, colando seu corpo ao dela. Depois daquele ato, não saberia dizer por quanto tempo seus lábios continuaram explorando, descobrindo, reivindicando, e nem achava que contar as horas tivesse qualquer relevância.

Porque, depois de tantos anos sedento, Anthony Bridgerton finalmente fazia amor com uma mulher.

Aquela era a primeira vez dos dois.

Notas finais
Espero que tenham gostado! Como eu disse, a one não ficou exatamente da maneira como eu queria, mas decidi desapegar disso para que vocês tivessem a chance de ler alguma coisa. Tenho recebido bastante mensagens pedindo por atualização (não daqui, mas do Wattpad), e entendo o sentimento de ansiedade. Eu mesma ainda não me saturei de conteúdo Kanthony e continuo atenta a qualquer novidade, qualquer ínfima atualização ou história nova, então venho fazer a minha parte para manter esse fandom ativo! haha