Colisão

3 3. Um estranho intrometido


Notas iniciais
Olá, abelinhas! Como vão? Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a Dany Mellark pelo comentário que deixou de presente para a fic, fiquei muito feliz mesmo quando vi que ainda havia alguém por aqui, rsrs. Por mais que eu esteja escrevendo Colisão para desafogar, é sempre bom saber que a fic não fica abandonada às traças. Hoje, trago uma proposta um pouquinho diferente do que vinha postando até agora. Voltando bastante no tempo rumo ao primeiro episódio da S2, escrevi uma versão um pouquinho diferente do primeiro encontro Kanthony. Não que eu tenha mudado o encontro em si (vocês vão notar isso quando lerem), apenas decidi incrementar um pouco do que eu imagino que tenha ocorrido antes de eles se verem pela primeira vez. Inclusive, levei mais tempo do que o esperado para terminar a one. Eu quis trazer e ressaltar, na medida certa, não apenas os contrastes, mas também as semelhanças entre Kate e Anthony. Acho que, mesmo de formas diferentes, ambos sentiam a mesma coisa quando se conheceram, um vazio, uma falta de algo que não sabiam nominar, e quando se viram, tudo fez sentido. Claro, o amor deles não foi à primeira vista, longe disso. Entretanto, acho curioso como alguns aspectos da vida deles podiam ser tão parecidos, quase como se eles fossem o espelho um do outro. Almas gêmeas são assim, afinal. Bom, não quero me prolongar muito por aqui. Desejo apenas que apreciem a leitura e me digam o que acharam, se tiverem vontade de fazê-lo, rsrs. Ficarei feliz em saber sua opinião, seja ela qual for. Boa leitura!

As ondas iam e vinham, e lá estava outra vez aquele sentimento que não a abandonava.

Fazia meses que observava a mesma paisagem monótona se alongando até onde a vista podia alcançar, e a saudade de casa se tornava cada vez mais dolorida ao passo que os dias se passavam sem que nada mudasse. Ela não gostava de investigar muito a origem de tais sentimentos, pois isso talvez fizesse com que desistisse de tudo; porém, como não havia maneira de aquilo acontecer, apenas se distanciava o máximo que conseguia das outras pessoas, como naquele momento, escorando-se na balaustrada e observando a ondulação das águas, decidida a ignorar a angústia crescente em seu coração.

Kate sentia a brisa salgada do mar bater em seu rosto, as pálpebras cerradas a fim de evitar o enjoo devido ao balanço do navio. O céu estava de um cinza repleto de nuvens, porém alguns fios brilhantes dos raios solares ainda conseguiam se infiltrar por entre as camadas menos densas, iluminando a água abaixo e a deixando com um aspecto curioso, com manchas alaranjadas desenhando aquarelas na escuridão do oceano.

Ainda era bem cedo na manhã. Embora Kate soubesse que não era a única pessoa desperta no convés, conseguira se isolar na popa da embarcação, contente com a ausência de vozes humanas. Os únicos sons que se ouviam de lá eram o ronco das cristas roçando o casco do navio e as esporádicas gaivotas que voavam no céu. A natureza sempre tinha um efeito calmante sobre Kate, mas até ela tinha de admitir que, depois de tanto tempo, não via a hora de pisar no solo firme da cidade novamente.

— Didi? — Kate abriu os olhos de supetão ao som conhecido da voz que murmurava nas proximidades. Virou o pescoço a tempo de ver sua irmã parada não mais que a dois palmos de distância, encarando-a com um meio sorriso nas feições tenras, como se tivesse previsto que Kate se assustaria com sua aparição. Kate, por sua vez, tratou logo de se recompor, balançando a cabeça como se para afastar os pensamentos enfadonhos. Abriu um pequeno sorriso para a irmã mais nova, murmurando:

— O que faz aqui, Bon? Você não devia estar em nossos aposentos?

— Eu estava, mas você não estava lá quando acordamos e mamãe me pediu que a encontrasse. — Edwina deu alguns passos para a frente e se posicionou ao lado da irmã, suas mãos delicadas pousando na balaustrada em forma de apoio. Seguiu o olhar de Kate e fitou o horizonte por um momento, então suspirou. — Eu sei por que está aqui. Você sempre detestou lugares fechados. Esta viagem deve estar sendo horrível para você.

— Claro que não, Bon. — Retrucou Kate, meneando a cabeça com firmeza. — Eu só precisava de um pouco de ar fresco, só isso.

— Você tem precisado de bastante ar fresco nos últimos dias. — Disse Edwina, seu tom indicando que queria dizer bem mais do que suas palavras realmente indicavam. Kate a conhecia o suficiente para saber que ela tentava descobrir o que se passava em seus pensamentos, sentindo que havia algo de errado com a irmã. Kate suspirou, decidindo contar uma meia verdade apenas para contentá-la.

— Eu acho que esse tempo todo no mar tem me deixado amuada. Sinto falta do ar livre do campo.

— Ah, eu suspeitei que fosse algo do tipo, mas mamãe comentou que nós estamos quase chegando em terra firme. Logo mais estaremos em Londres, e você não precisará se preocupar mais com as náuseas causadas pelo balanço do mar.

Edwina estendeu a mão enluvada e abraçou Kate pela cintura, descansando a cabeça em seu braço. Como era bem mais alta que a irmã, Kate teve de se inclinar um pouco para poder devolver o afago, contente em afastar as preocupações de Edwina.

— Você está certa. Logo estaremos em Londres e tudo estará acabado. — Kate se ouviu dizer aquelas palavras, mesmo que não acreditasse nem por um segundo nelas. Não achava que tudo estaria acabado quando aportassem na Inglaterra; ao contrário, seu trabalho estaria apenas começando. No entanto, Kate tinha um plano sólido, e objetivos a seguir. Tivera todo o tempo da viagem para pensar e repensar nas inúmeras implicações que poderiam ocorrer, e estava esperançosa de que tudo daria certo.

Então, por que continuava sentindo aquele aperto no peito?

—•O•—

Apesar da perspectiva de que estivessem próximas de aportar em terra firme, levou quase um dia inteiro para atracarem na Inglaterra. Edwina, sentindo a impaciência de Kate, tentara distraí-la naquele meio tempo, fosse ao convencê-la a dar uma volta pelo convés, fosse ao forçá-la a jogar baralho. Mas Kate se via cada vez mais ansiosa para sair daquela embarcação e, quando enfim foi anunciada a sua chegada, ela foi a primeira a se erguer sobre os calcanhares e disparar em direção às bagagens de mão, agarrando-as em tempo recorde e tratando de empurrar sua madrasta e Edwina para o lado de fora.

Edwina tinha um sorriso divertido no rosto ao observar a pressa da irmã, ao passo que Mary olhava para a enteada com repreensão, mesmo que se mantivesse em um silêncio resignado. Kate sabia que a madrasta não concordava com o seu comportamento espevitado e afoito, mas também sabia que ela havia desistido de pedir que agisse de modo diferente. Kate não lhe daria ouvidos mesmo, como de costume.

Ao descerem do trapiche bambo e colocarem os pés no cais, Kate enfim pôde respirar em puro alívio. Não importava que o ambiente cheirasse a peixe podre e a esterco de animais, ou que as pessoas se aglomerassem aos montes ao seu redor, enfiando-se nos espaços apertados a fim de ultrapassá-la para chegar aos entes queridos. A única coisa que importava era que estava a um passo mais próxima de colocar um fim à sua missão.

— Nós precisamos nos apressar agora. — Murmurou Mary, esticando a mão para segurar o braço de Kate. Ela olhava ao redor, parecendo em busca de alguma coisa. — Temos que alugar uma carruagem e um transporte para as malas, antes que os cocheiros mais confiáveis fiquem indisponíveis. Eu creio que vi um logo ali à frente.

— Será que ele se importará em levar Newton? — Interpelou Kate.

Mary interrompeu o passo para lhe lançar um olhar exasperado.

— Newton? Prefiro não arriscar, querida. Já será uma grande vitória se conseguirmos um bom transporte por um preço condizente às nossas condições, não creio que devamos abusar.

— Mas o pobre Newton será levado junto com as bagagens? — Edwina se pronunciou, fazendo Mary suspirar.

— Assim é melhor, querida. Não é costume transportarem animais em carruagens.

— Nós levávamos Newton na carruagem quando estávamos em Bombaim. — Kate argumentou.

— Bem-dito, meu bem. Mas não estamos mais em Bombaim, estamos?

— Não. — Infelizmente, Kate completou em pensamento.

— Então está decidido. Vou buscar o cocheiro! — Por certo com o intuito de evitar os protestos das filhas, Mary saiu em disparada na direção do cocheiro que avistara mais cedo. Era o mais depressa que Kate vira a madrasta se locomover em todo o tempo em que a conhecia, o que era algo bastante significativo, visto que Mary se casara com seu pai quando ela era ainda uma menina. Kate permaneceu no mesmo lugar, próxima de Edwina, e ambas observaram abismadas a desenvoltura da mãe ao abordar o homem, iniciando uma conversa cheia de sorrisos e acenos dramáticos.

— Mamãe disse que não queria retornar à Inglaterra, mas parece que uma parte dela está voltando a se acostumar muito bem com o país. — Kate murmurou em tom reflexivo. Em seguida, lançou uma olhadela para o lado e notou que a irmã estava fixada, assim como ela, nos movimentos de Mary.

— Velhos hábitos, eu presumo. — Edwina respondeu, encontrando o olhar de Kate e abrindo um sorriso espertalhão.

— O que será que estão dizendo? — Sem precisar de maiores incentivos, as irmãs seguiram no encalço de Mary, a tempo de vê-la convencer, em tempo recorde, o cocheiro a lhes prestar os serviços desejados por uma bagatela. Kate acreditava que a bela aparência da madrasta tinha contribuído de maneira considerável para aquele feito, visto que o pobre homem se mostrara imensamente solícito ao carregar as suas bagagens de mão e mais ainda ao ordenar a seus empregados que organizassem os pertences das três mulheres de modo que não machucassem o roliço Corgi de Kate, posto em uma gaiola pequena, porém confortável, à dianteira do compartimento, onde havia maior quantidade de ar fresco.

Kate observou o veículo se afastar pela estrada apinhada de gente, seguindo em direção a Londres. Ele faria um caminho bem diferente por estar portando uma carga pesada, enquanto a carruagem delas seguiria pelas estradas principais até Westminster. Ela havia dado instruções claras aos dois jovens que tomariam conta de Newton, mas sabia que eles poderiam simplesmente ignorá-la e tratar o cachorro como bem entendessem.

— Ele vai ficar bem, não se preocupe. — Edwina murmurou ao notar a preocupação de Kate.

— E se algo acontecer a ele?

— Tenho certeza de que não irá acontecer nada. Aqueles dois cavalheiros seriam muito estúpidos por ignorar suas ordens depois do olhar que você lançou a eles.

— E que olhar seria esse? — Kate inquiriu.

— Ora, querida. — Mary se intrometeu, passando pelas filhas a fim de adentrar na carruagem. — Não finja que não sabe o efeito que a sua carranca causa nos homens.

E assim, com um sorrisinho de lado fixado no rosto, Kate, seguida de Edwina, acomodou-se nas poltronas nem tão confortáveis do veículo que lhes serviria de transporte pelas próximas horas. Sentiram o balanço da cabine quando o cocheiro tomou seu lugar no coche, e outro mais forte quando ele chicoteou de leve os cavalos, os quais relincharam pouco antes de iniciarem um trote pela estrada. Não havia mais nada que as mulheres pudessem fazer além de esperar a noite cair sobre as suas cabeças, uma vez que ainda havia um longo percurso pela frente.

—•O•—

Do outro lado da cidade, o Visconde Anthony Bridgerton largava a pena que usara sobre a mesa de mogno e procurava aliviar a dor das juntas rígidas ao fechar e abrir os dedos. Sentia a familiar agulhada de dor ameaçando despontar em suas têmporas, e já não suportava mais ler, nem que fosse por um segundo, nenhuma daquelas declarações de impostos que pareceram tão importantes meia hora atrás.

Virou a cabeça e admirou a escuridão da noite através da janela. Estivera tão absorto nas tarefas que sequer reparara no passar das horas. Na verdade, fazia alguns dias que ele mal saía do escritório, nem mesmo para comer, visto que algumas das refeições eram servidas bem ali. Era sempre assim no período que antecedia o início da temporada londrina. Parecia que a maior parte dos compromissos dobrava, os camponeses desejavam acertar suas contas, os locatários a pagar os aluguéis em atraso, e assim por diante. Talvez a estação mais quente tivesse alguma influência nos ânimos coletivos, mas isso já era uma especulação de sua parte.

Com um suspiro cansado, ergueu-se da cadeira e foi em busca da casaca, tratando de partir da residência Bridgerton. Era tarde, mais tarde do que Anthony supusera, e tudo estava às escuras. Ele sabia, porém, que apenas as mulheres da família e as crianças estavam em casa. Benedict certamente se encontrava fora farreando em alguma de suas festas clandestinas, e Colin, bem... Colin ainda não voltara de suas viagens pelo mundo, então era óbvio que não lhe serviria de companhia.

Ao pisar na calçada, notou que seu cocheiro imediatamente ficou a postos, esperando por tempo o bastante para que Anthony se aproximasse antes de lhe fazer uma reverência.

— Para o White’s, senhor? — O cocheiro lhe dirigiu a pergunta assim que abriu a porta da carruagem para que o visconde pudesse passar. Anthony não disse nada, apenas meneou a cabeça levemente, ao que o homem assentiu em compreensão. O Sr. Smith era seu empregado havia anos, e sabia muito bem o que alguns gestos do patrão significavam. Por isso, palavras não foram necessárias para que compreendesse que deveria levá-lo diretamente à zona menos nobre da cidade, e não ao respeitável clube para cavalheiros.

Os prédios altos foram rareando conforme o andar da carruagem, dando lugar a casas menores e desprovidas do luxo aristocrático. Não tardou para que Anthony avistasse a fachada discreta e familiar de um dos bordéis de sua preferência, o Red Velvet.

Ele foi forçado a rir de si mesmo quando se deu conta do pensamento. Não havia percebido o nível de sua decadência até aquele instante. Porém, procurar companhia em bordéis se revelara muito mais fácil do que se arriscar a manter uma amante, e ele estava farto de complicações para uma vida já complicada o suficiente.

— Deixe o meu cavalo aqui. — Ordenou Anthony ao sair da cabine. — Eu pretendo passar a noite, então o senhor está dispensado.

— Obrigado, milorde. — Respondeu o cocheiro, apressando-se em fazer como lhe fora mandado. Anthony sequer esperou que ele soltasse um dos cavalos, nem que o guiasse até os estábulos que ficavam na parte de trás do prédio. Seguiu andando a passos firmes e atravessou as portas do bordel, não se incomodando em anunciar o seu nome. O homem sentado atrás do balcão o conhecia o suficiente para saber o que ele desejava, e também não se preocupou em lhe dirigir a palavra. Anthony passou por ele e se dirigiu a um dos quartos no andar de cima, prontamente removendo a casaca pesada e a pendurando no espaldar de uma cadeira.

— Boa noite, milorde. — Uma voz feminina sussurrou de repente, tirando-o de seus pensamentos. Anthony ergueu o olhar a fim de admirar a mulher que adentrara no cômodo, sem mover um músculo do lugar. Ela tinha fartos cabelos louros — ele preferia mulheres morenas, mas não tinha do que reclamar —, com seios grandes e redondos, além de quadris largos, e usava apenas um penhoar para cobrir o corpo.

— Boa noite. — Ele respondeu, sentando-se no colchão. Não perguntou o nome dela, nem mesmo gostaria de saber. Anthony sabia que elas preferiam assim, de qualquer forma, então não perderia tempo se sentindo culpado pela indelicadeza.

Notou-a se aproximando lentamente, posicionando-se de joelhos diante dele, suas mãos logo tratando de subir por suas coxas para chegar ao centro das pernas.

Anthony se retesou.

— Não. Eu gostaria de observá-la primeiro.

Um sorriso malicioso se abriu nos lábios dela.

— Me observar fazendo o quê, milorde?

— Deite-se na cama. Sem isso. — Ele estendeu a mão e puxou um dos lados da fita que mantinha o penhoar da mulher preso no lugar, e a peça de roupa se abriu para revelar a pele nua escondida por baixo. Logo em seguida, levou-a a cada um dos ombros dela e tratou de empurrar as mangas pelos seus braços, despindo-a completamente.

— Como quiser. — Ela murmurou, dirigindo-se para a cama, onde se esparramou com as pernas bem abertas na sua direção, deslizando as mãos até os seios fartos para apertá-los entre as palmas. Anthony permaneceu um tempo apenas olhando, os dedos lânguidos abrindo uma a uma as casas dos botões do colete, então da camisa. Ao terminar de desnudar a si mesmo, estava pronto para possuí-la.

—•O•—

— Senhorita, tem certeza de que vai sair assim? É perigoso. — O semblante de puro terror do cavalariço apareceu no campo de visão de Kate quando ela estava prestes a montar na sela, com um dos pés já firmes no estribo e o corpo tencionado para se erguer. Ela observou a mão dele atravessada à sua frente com insatisfação, desejando removê-la dali com uma bofetada. Não fez um movimento para tirá-la do caminho, no entanto, mas deixou claro pelo seu olhar que estava descontente com a situação.

— Não se preocupe, Sr. Malcolm. Eu estou acostumada a cavalgar pela manhã, fazia isso quase todos os dias na minha terra. — Para ela ainda era estranho ouvir a si mesma falando em outro idioma. Mesmo que fizesse esforço para abafar o sotaque forte, ele escapava naturalmente em algumas palavras.

— Mas cavalgar escarranchada? E sem uma criada? Ah, não, não, não. Eu não acho que a minha senhora vá gostar de saber disso.

Kate fechou os olhos por um momento e exalou o ar em frustração.

— Sua senhora não precisará saber se o senhor não contar, não acha?

— Como? Senhorita, eu não posso simplesmente não cont...

— O que Lady Danbury dirá quando souber que seu cavalariço de confiança deixou uma hóspede recém-chegada andar a cavalo sozinha pelo parque?

Ele apenas a encarou, piscando.

— Mas eu não deixei, senhorita.

— Ham dekh lenge [1]. — Com um sorriso travesso, Kate se apressou em montar no cavalo. Em nenhum momento da conversa ela havia tirado o pé do estribo, então só o que precisou fazer foi reunir as forças para um novo impulso e subir. Antes que o pobre cavalariço pudesse proferir uma palavra de protesto, Kate havia esporeado as ancas do alazão e trotava rapidamente na direção do portão do estábulo.

Atrás de si, ainda era capaz de ouvir a voz dele berrando:

— Senhorita Sharma! Senhorita! Espere! Não saia desta forma... ah, merda! — Ambos sabiam: era tarde demais. Ela já havia arrancado e se afastava da residência Danbury com uma velocidade espantosa, deixando nada mais que o vento para trás.

Kate não conteve a risada que lhe escapou dos lábios, mal sendo capaz de acreditar que fora tão fácil enganar o cavalariço. Claro que fora sincera ao dizer que costumava andar a cavalo durante as manhãs, mas não imaginou que o feito fosse se repetir tão cedo.

De qualquer forma, agora que estava livre para seguir seu caminho, tratou de deixar para trás qualquer pensamento que não estivesse relacionado ao momento presente. Kate sentia a brisa campestre bater no rosto e se permitiu respirar fundo a fim de que o ar puro preenchesse seus pulmões. Como fazia alguns meses que não cavalgava e o animal debaixo de si ainda não a conhecia bem o suficiente, ela começou por um trote firme pelo campo, acariciando-o no pescoço como uma forma de ganhar a sua confiança.

O animal bufava de vez em quando, porém não tardou para que os dois firmassem uma amizade. Com um olhar decidido no rosto, Kate apenas virou um pouco a cabeça para divisar um ponto de referência antes de se abaixar para que seus lábios ficassem próximos das orelhas do cavalo, chamado de Isis.

— Vamos ver se você pode correr? — Ela sussurrou, então esporeou as ancas de Isis com um pouco de força, ouvindo-o relinchar e sentindo os seus poderosos músculos tremerem quando enfim iniciou uma galopada pelo campo, ambos rumando velozmente para o Oeste, em direção ao Hyde Park.

—•O•—

Enquanto isso, Anthony recém despertava de seu sono inquieto.

Ao abrir os olhos, levou um tempo para se orientar, mas logo o odor forte do perfume da mulher que dormia ao seu lado o relembrou de onde estava. Notou a luz do sol começando a se infiltrar no cômodo, pelo que presumiu que ainda fosse bem cedo na manhã. Ele jogou as cobertas para o lado e arrastou o corpo pela cama, movendo-se em direção às roupas que estavam empilhadas sobre um móvel. De um dos bolsos, sacou três libras e as despejou na mesa ao lado, apressando-se em se vestir. Não desejava acordar a moça, que parecia serena em seu sono, então simplesmente deixou o aposento em silêncio, esperando nunca mais ter de voltar a vê-la.

Como na chegada, partiu sem se dirigir a ninguém, o que foi ainda mais fácil, considerando que o salão estava praticamente vazio. Os remanescentes eram bêbados estirados de qualquer jeito em cima das mesas. Anthony os encarou com repulsa, imaginando o que levava um homem a perder a dignidade daquela maneira deprimente.

Dirigiu-se ao estábulo e localizou Osiris bebendo água do cocho. O cavalo bufou animado assim que o viu, reconhecendo-o de imediato. Anthony estendeu a mão e acariciou o lombo do animal, o primeiro sorriso sincero em dias surgindo em sua face ao sentir a maciez da pelagem. Montou no cavalo negro e partiu do bordel, imergindo nas ruas da cidade. O dia ainda estava coberto pela neblina da aurora, sinal de que seria ensolarado. Talvez fosse mais interessante galopar pelo Hyde Park do que entre todos aqueles prédios. Tinha certeza de que o nascer do sol seria muito mais bonito de se apreciar entre o verde das árvores do que entre o cinza da cidade.

É claro que ele estava certo ao pensar assim, só não se dera conta de que teria de cavalgar em direção ao Oeste por um tempo antes de se dirigir para o Leste, o que significava que o lindo nascer do sol estava acontecendo bem às suas costas. Anthony quase riu de si mesmo por todo o azar. Bem, pelo menos a temperatura estava agradável, e a neblina começava aos poucos a baixar, apesar de alguns resquícios da névoa ainda se acumularem aqui e ali.

Sua mente estava inquieta enquanto Osiris trotava pela grama verde. Anthony, mesmo tendo saciado os desejos do corpo, não se sentia descansado, e os efeitos do sono intranquilo logo se fizeram presentes para atormentá-lo. No entanto, aquela sensação já era uma espécie de rotina, e constatar a sua presença não foi nenhuma surpresa. Seus músculos doíam um pouco pelo balanço do cavalo, e a cartola pesava sobre sua cabeça. Para se distrair, pegou-se admirando dois gansos de penugem branca que andavam desengonçadamente pouco à frente de Osiris. Ele achou uma graça que as aves estivessem se locomovendo mais rápido do que o grande equino, o que dizia muito sobre a situação lastimável de ambos.

De repente, um ruído característico de cascos sulcando o solo começou a soar pelas redondezas, fazendo os gansos baterem as asas e grasnarem assustados.

O rosto de Anthony se ergueu imediatamente, em alerta. Ele apreciava os cavalos. Tendo aprendido a montar desde muito cedo, desenvolvera um carinho especial pelas criaturas de quatro patas, sabendo, por instinto, o que um simples relincho ou esporeada significava. O cavalo que se aproximava bufava alto, e seu passo não era um mero trote matinal. Onde quer que estivesse agora, ele com certeza vinha correndo rápido.

Por Deus, quem estaria cavalgando com tanta urgência a essa hora?

Dentre as árvores de tronco fino, Anthony avistou a origem da balbúrdia: alguém galopava pelo parque, montado em um robusto cavalo castanho que cruzava o campo em uma velocidade estupenda. O cavaleiro estava usando uma longa capa e, por baixo... um vestido verde escuro? Ele piscou algumas vezes e olhou novamente, para se certificar.

Sim, era definitivamente um vestido verde por baixo daquela capa.

A visão o pegou momentaneamente desprevenido, e Anthony levou um instante para sua mente processar aquela informação. Não, não estava enganado. Apesar de estar montada escarranchada, não na maneira tradicional como as damas montavam, que era de lado, o cavaleiro era definitivamente uma mulher. Anthony conseguia divisar até mesmo o contorno de suas meias brancas aparecendo debaixo da roupa!

— Alto! — Gritou assim que ela se aproximou o suficiente para captar o som de sua voz, mas o animal apenas seguiu em frente, veloz. — Senhorita! Está em apuros?

Mas a mulher não se virou ou deu qualquer sinal de que o tivesse escutado, simplesmente continuou em seu percurso, imperturbável. Anthony se viu preso em um dilema. Mesmo que a jovem o tivesse ignorado, de uma coisa ele tinha certeza: ele não poderia ignorar o que acabara de ver. Não era comum uma mulher sair para cavalgar sozinha e, certamente, não naquela velocidade. Anthony temeu que a moça pudesse ter perdido o controle sobre a montaria e o equino tivesse disparado sem controle pelo campo.

— Vamos lá! — Grunhiu para Osiris, esporeando suas ancas em uma tentativa urgente de fazê-lo despertar da inércia na qual ambos pareciam mergulhados há apenas alguns minutos. Ele sabia que não conseguiria se perdoar se deixasse uma donzela indefesa destinada à própria sorte no meio de um parque isolado e inóspito.

Osiris não tardou a abandonar o torpor, iniciando um trote firme pelo campo e passando rapidamente a um galope. Cavalo e homem foram acometidos por uma emoção nova. Era quase como se estivessem aguardando por esta oportunidade, uma centelha de algo que lhes servisse de propósito para avançar e abandonar de vez a monotonia.

E assim, Anthony seguiu no rastro do alazão, mantendo o olhar firme em suas ancas para não o perder de vista, embora os campos nos quais estivessem galopando fossem amplos o suficiente para notá-los a partir de uma distância muito maior. Entretanto, conforme seguia no encalço da donzela, mais e mais a sensação de que havia algo de estranho naquela situação tomava conta de sua mente.

Talvez, apenas talvez, as coisas não fossem bem como ele havia imaginado em um primeiro momento. Quanto mais observava a silhueta da moça, sua capa esvoaçante sendo jogada para trás pelo impacto do vento, mais a certeza lhe atingia. Fazia vários minutos que ela montava na mesma posição, as rédeas firmes nas mãos, sem nenhuma hesitação. Era claro que era habilidosa e tinha o controle absoluto de sua montaria. E ele jurava ter visto a cabeça dela, ainda coberta pelo capuz, mover-se sutilmente para trás, em sua direção, como se conferindo se estava sendo seguida, apenas para impulsionar o cavalo com mais destreza ao constatar que sim.

Esta mulher, quem quer que fosse, não estava em perigo de forma alguma — pelo contrário. Sua cavalgada rápida e imprudente era intencional. Estaria ela brincando com ele, então, provocando-o de alguma maneira?

— Vamos! — Ele grunhiu novamente para Osiris, desta vez não com a intenção de resgatá-la, mas de alcançá-la, superá-la. Seus olhos se estreitaram, mantendo-se firmes nos movimentos dela, e Anthony espelhou cada um deles, fosse em uma curva pelas cercas, fosse em um disparo a galope pelo campo aberto.

A excitação começou a tomar conta de seu corpo conforme ela avançava, sempre persistente, não permitindo que ele a ultrapassasse em nenhum obstáculo, tentando distraí-lo, persuadi-lo a parar. Estava claro que ela era uma concorrente a sua altura, senão superior a ele. Suas habilidades equestres iam além de tudo o que Anthony havia visto, em especial em uma mulher. Quanto mais ela dificultava a sua perseguição, mais obstinado ele ficava. Ainda que o vento cortasse a pele de seu rosto e o frio se infiltrasse pelas brechas de suas vestes, continuou seguindo firme, tentado a vencer o desafio que ela havia proposto.

Até que, mais à frente, Anthony avistou uma cerca-viva atravessada paralelamente à linha do horizonte, longa o bastante para impedir que eles a circundassem e alta o suficiente para forçar uma paragem. A moça, no entanto, seguiu firme. Em uma breve reflexão calculada, Anthony pensou que ela talvez estivesse testando os limites dele, segurando-se até o último segundo para interromper a corrida. Preocupado, Anthony lhe lançou um grito de advertência, pedindo que ela tomasse cuidado.

Um pedido que foi ignorado.

— Pare! — Ele berrou, não conseguindo conter a si mesmo. Ela não seria tão imprudente a ponto de saltar a cerca-viva, seria?

Observando, abismado, ao seu passo ininterrupto, teve a sua resposta: ela seria, sim.

Diante de seu olhar, a dama habilmente empinou com o cavalo e, em um belo movimento arqueado, ambos saltaram a cerca-viva e pousaram com graciosidade no outro lado.

Anthony puxou as rédeas de Osiris para pará-lo antes de chegar ele mesmo ao local, e o cavalo relinchou alto em protesto, mas ele não prestava atenção ao companheiro. Seus olhos só conseguiam acompanhar os contornos da longa capa verde-escura que cobria a silhueta da moça enquanto ela calmamente guiava o trote do alazão colina acima.

Chegando ao topo da pequena elevação, ela parou. Sua mão subiu para o capuz e, em um rápido movimento, desceu-o sobre os ombros, revelando seu rosto.

Seu coração parou.

Uma jovem o encarou de volta, ofegante. Anthony lamentou a distância e a parca luz da aurora por impedirem que a observasse em detalhes, pois tinha a certeza de que se tratava de uma face belíssima. Conseguiu ver, entretanto, que ela tinha seus cabelos escuros presos em uma longa trança lateral, e um olhar penetrante e desafiador ao observá-lo.

É claro, ele se deu conta. Imprudente como havia se mostrado, ela queria esclarecer quem dos dois havia vencido aquela competição silenciosa.

Perplexo e completamente rendido à centelha faiscante daquele olhar, Anthony lhe ofereceu uma breve reverência, reconhecendo com gosto que havia perdido aquela batalha. A jovem devolveu o seu gesto ao ergueu a cabeça em um cumprimento, um singelo sorriso brincando em seus lábios.

Enquanto respirava com dificuldade, ainda incapaz de acreditar em seus olhos, observou-a virar o cavalo novamente e seguir para longe, deixando-o com um sorriso incrédulo no rosto e uma agitação no fundo do peito que não sentia fazia muito tempo.

Por Deus, quem era aquela mulher?

—•O•—

Kate suspirou em contentamento assim que avistou uma estrada cortando caminho entre as árvores. Seu coração batia forte no peito e os lábios estavam secos. A excitação pela perseguição de instantes atrás ainda corria em suas veias, embora ela soubesse que não deveria se sentir daquela maneira. Fora descuidada e permitira que um cavalheiro a visse cavalgando pelo parque, quando sabia bem que aquela era a única regra que não deveria ser quebrada jamais. Havia uma razão pela qual a Kate fosse concedido o luxo de tamanha liberdade, porque ela era responsável e sabia tomar conta de si.

O salto que dera com Isis na cerca-viva parecia ter refreado os esforços do homem, pelo menos o suficiente para que Kate escapulisse antes que ele a alcançasse e começasse a lhe dirigir montes de perguntas que ela não poderia responder.

Na Índia, estava acostumada a explorar os longos hectares das terras do Marajá sem que uma viva alma se interpusesse em seu caminho, mas em Londres aparentemente não teria a mesma regalia. Sequer se dera conta de ter avançado para além da propriedade de Lady Danbury até ser tarde demais, e agora tentava encontrar o caminho de volta sem que a sua presença fosse notada por mais ninguém.

— Apreciando a volta da vitória? — Uma voz masculina ecoou no ar da manhã.

Descrente, Kate percebeu que reconhecia o dono da voz. O mesmo cavalo negro, a mesma cartola, as mesmas roupas escuras. Era o cavalheiro que a seguira no parque. Ele a havia encontrado de alguma forma, para seu eterno descontentamento.

Ela jurava que tinha se livrado dele, mas, ao que parecia, estava enganada.

— Baap re [2]! — Praguejou em voz baixa, lastimando a sua total falta de sorte.

— A senhorita não disporá de uma vantagem tão ampla desta vez, eu lhe garanto. — Ele continuou, enquanto se aproximava com sua montaria até que estivessem lado a lado na estrada. Kate rapidamente perscrutou os arredores em busca de uma rota de fuga, mas o homem a havia encurralado na beirada da estrada. Ela não poderia se arriscar em partir a galope bem ali, onde qualquer um pudesse notá-la.

Por isso, optou por uma estratégia diferente. O sujeito não parecia consciente de que ela tentava escapar. Se engatasse em uma conversa cordial com ele, talvez conseguisse distraí-lo por tempo o bastante para escapulir por um caminho lateral.

— Me desculpe, senhor. Não era minha intenção causar preocupação a ninguém.

— Sua criada sabe que monta escarranchada?

— Eu não tenho criada.

— Ah, então é casada? — O tom macio que sua voz atingiu ao saber daquela informação fez com que uma carranca se formasse na face de Kate, e a reação dela rapidamente apagou o sorrisinho acintoso do cavalheiro. — Perdoe-me. Então, está perdida.

Kate preferiria cair dura no chão antes de admitir uma coisa daquelas.

— Eu também não estou perdida, estou no meu caminho de volta a Mayfair, é logo ali à frente.

— Mayfair? — Ecoou ele, incrédulo. — Está bem, então.

— Eu aprecio a sua atenção, senhor, mas eu lhe garanto que estou perfeitamente segura. Talvez possamos fingir que este encontro nunca aconteceu? O senhor me permite seguir o meu caminho, e depois segue o seu. — Para a sua completa exasperação, o homem não apenas a ignorou solenemente, como seguiu em um trote firme ao seu lado, aparentando não estar nenhum pouco intimidado com a dureza das palavras dela.

Kate sentia o olhar dele cravado em seu rosto, observando, sondando. Se ambos estivessem em outro local, em circunstâncias diferentes, ela poderia até apreciar a forma como ele parecia tão compenetrado em manter aquele diálogo, mas não ali.

Ali ele não passava de um sujeito irritante e intrometido.

— A senhorita teme ser vista. — A voz dele era jocosa, e o fato de ter adivinhado com tanta facilidade o que ela lutava para esconder esgotou a sua tentativa de ser amável.

— O que temo é encontrar homens estranhos em parques durante o alvorecer que não me deixam em paz com todas as suas perguntas. — E toda a sua impertinência, completou em pensamento, mas achou por bem deixar aquela observação de fora.

— O seu segredo está a salvo comigo, eu não contarei a uma viva alma.

— Ah, como fico grata. — Respondeu com ironia, mirando o caminho à frente e o ignorando na esperança de que ele a deixasse em paz.

Um breve silêncio se seguiu, suficiente para fazer com que Kate acreditasse ter se livrado do cavalheiro, mas, para a sua completa surpresa, ele murmurou, quase para si mesmo:

— Perder corridas para mulheres desconhecidas ao alvorecer. Só posso imaginar o tipo de pergunta que me fariam.

E, simples assim, as peças começaram a se encaixar em sua mente.

— Era disso que se tratava? Uma corrida? — Ela puxou as rédeas de Isis e o fez parar na estrada, pela primeira vez se permitindo realmente olhar para o estranho que insistia em se intrometer em seu caminho, não a fim de dissuadi-lo a deixá-la em paz, mas para analisá-lo. Ao contrário do que imaginara, ele não a importunava por estar cavalgando desacompanhada no parque, e sim por ter seu ego ferido durante a prévia perseguição — ou a corrida, nas palavras dele — havida entre ambos.

— E não era? — Ele a questionou, encontrando seu olhar com uma expressão de dúvida. Kate o mediu durante alguns instantes, abismando-se com o impacto que sua beleza lhe causou. Estava acostumada com cavalheiros arrogantes, que pensavam ser melhores do que ela simplesmente pelo fato de serem homens. Porém, havia algo neste cavalheiro em especial que a fazia pensar que, apesar do claro ressentimento em ter perdido, ele a reconhecia e apreciava como uma igual. Kate notara isso na forma como ele acenara para ela ainda na cerca-viva, como a observara com admiração. O olhar que lhe dirigia agora não era muito diferente do que havia sido naquele instante.

Mesmo assim, Kate não deixaria escapar a oportunidade de arruinar um ego masculino, por mais belo que fosse. Ergueu as sobrancelhas para ele, abrindo um sorrisinho jocoso.

— Não é preciso um verdadeiro competidor para apostar uma corrida? — Como previra, o semblante do cavalheiro se fechou em indignação.

— A senhorita poderia zombar se tivéssemos decidido uma linha de chegada juntos, mas infelizmente não fizemos tal acordo.

— Ah! Vejo que o senhor não é alguém que aprecia perder.

— Ou talvez a senhorita... — O cavalheiro se calou, vencido. Kate não conseguiu impedir que o sorriso se ampliasse ainda mais ao vê-lo sem palavras, e inclinou o queixo como que para enfatizar o seu ponto. Ele também sorriu, virando o rosto para baixo para ajustar as rédeas de seu cavalo ao redor das mãos enluvadas. — Nas raras ocasiões em que acontecem, eu não teria dificuldades em admitir, nem que estivesse perdido, nem que estivesse equivocado, mas receio que o mesmo não possa ser dito da senhorita.

Kate franziu o cenho, indignada.

— Perdão?

— Mayfair não fica para lá. É inteiramente na direção oposta. — Ele apontou com o dedo indicador na direção que ambos seguiam, então o girou para mostrar o outro lado, apontando o caminho às suas costas. — Que não estava perdida, a senhorita ia dizendo?

Naquele momento, o som de vozes despertou Kate de seu torpor. Ao olhar para frente, em choque, percebeu que havia dois cavalheiros cavalgando pela estrada defronte à qual eles estavam. Ela arregalou os olhos ao perceber que, mais uma vez, deixara-se distrair e estava a ponto de ser vista não por uma, mas por três pessoas — talvez até mais, considerando que as horas deveriam ter avançado muito mais rapidamente do que pensava.

Ignorando o sujeito ao seu lado, Kate se apressou em girar Isis para o Leste. Agora que sabia para onde deveria ir, poderia se livrar dele e retornar para casa.

— Tenha um bom dia, senhor. — Foi a única coisa que disse antes de esporear seu cavalo, instigando-o a ir mais rápido e deixando para trás o cavalheiro, que a encarava com uma expressão que mesclava surpresa e incompreensão.

— Nós ainda não fomos apresentados! — Ele gritou às suas costas.

— Receio que não seja possível, não quando tenho uma volta da vitória para aproveitar! — Kate gritou de volta para ele, erguendo a mão em um aceno de vitória. Uma risada de pura alegria reverberou de seu peito, mesmo sem saber explicar o motivo. Se tivesse se dignado a olhar para trás, veria que um sorriso igualmente amplo estava aberto no rosto dele, e saberia que talvez o efeito que causara nele tivesse sido maior do que imaginara.

[1] Do hindi: vamos ver.

[2] Do hindi: oh, céus.

Notas finais
Olá de novo! Agora que vocês chegaram ao final, gostaria de fazer alguns comentários explicando o motivo de eu ter tomado algumas decisões para esta one. Primeiro, acho que a Mary da série não tem nem um por cento do potencial aproveitado como é nos livros. Agora que estou finalmente lendo O Visconde que me Amava, vejo que a Mary é bastante diferente em personalidade, e admito que gosto dela bem mais nos livros. Por causa disso, decidi explorá-la um pouco mais, ainda que tentando deixá-la dentro de uma realidade plausível para a série. Como disse inúmeras vezes, eu gosto da série, muito mais do que gosto dos livros, mas também não sou hipócrita de não reconhecer o que há de bom nos livros e de ruim na série, a Mary sendo claramente uma dessas coisas. Então, espero que tenham curtido a minha "reinterpretação" da mamãe de Kate. E por falar em Kate, queria segredar uma coisa a vocês. Desde que assisti a S2, eu me tornei uma pessoa obcecada por Bridgerton, mas especialmente por Kanthony. Eu já perdi as contas de quantas vezes assisti as cenas deles, ou reações de outras pessoas pela internet, ou li comentários de fãs, dos diretores, dos produtores, dos próprios atores etc. Em uma dessas aventuranças, me deparei com uma entrevista com Chris Van Dusen. Ele estava comentando sobre essa cena em específico, e eu acabei conseguindo ler um pequeno fragmento do roteiro original. Se teve alguém que pensou que a Kate tenha tido uma reação diferente para essa cena do primeiro encontro, receio que esteja redondamente enganado. Por mais que me dê repetecos no estômago, a Kate realmente não estava muito se importando com o Anthony naquele momento. Tudo no que ela pensava era em escapar dele e de todas as suas perguntas intrometidas, então eu segui a mesma linha de raciocínio que o Chris Van Dusen interpretou, mantendo os pensamentos de Kate daquela forma. Para resumir, nada do que escrevi foi exatamente uma invenção minha ou falta de vontade de que fosse diferente. Quero dizer, não é que tivesse realmente vontade, só acho que seria bem fofinho. Porque, afinal, o momento que a Kate realmente dá um close no Anthony é no primeiro baile, "your character is as deficient as your horsemanship", eu amoooooooo. Como último ponto, queria desabafar que estou chocada com a completa incapacidade de os tradutores da Netflix de fazerem um trabalho decente. Eu assisti a série toda em inglês, e quando fui começar a traduzir essa cena, me bateu a curiosidade de saber o que era dito nas legendas em português. Pra quê! Fiquei chocada com o quanto eles não traduziram bem. Eles deixaram passar um monte de falas, além de distorcerem bastante algumas delas. Esse diálogo deles dois é o mais próximo do original que consegui fazer, e talvez possa surpreender alguns de vocês pela novidade, ainda mais, creio, daqueles que assistem dublado (nem quero imaginar o desastre que fizeram, kkk), mas garanto que está tudo certinho. Enfim, pessoal, era isso. Como disse antes, espero que tenham gostado, e até a próxima!