Colisão

1 1. Noite de tempestade


Notas iniciais
Olá, abelinhas!

Gostaria de dar alguns avisos antes de vocês começarem a leitura, para o caso de sofrerem de algum gatilho. A primeira one é uma releitura da cena da biblioteca, quando a insônia faz com que Kate e Anthony se encontrem no escritório de Edmund.

Como mencionei anteriormente, as minhas histórias não têm compromisso com o material original de Bridgerton, por isso o motivo do medo da Kate não tem a ver com a morte da mãe, mas sim outra coisa. Se algum de vocês for sensível a temáticas que envolvem assédio sexual, sugiro que não leia, mas já deixo claro que o conteúdo da one não é tão pesado. Eu apenas menciono um episódio incômodo da adolescência da Kate, nada de mais, mas para alguns pode ser um tema delicado, então já deixo avisado aqui para não correr nenhum risco.

Boa leitura!

As gotas de chuva batiam lá fora com uma fúria gloriosa. A noite estava clara por causa dos trovões que golpeavam o solo, cada impacto causando um som estrondoso. O cômodo estava parcialmente iluminado em um tom azulado e cristalino, os raios da lua se projetando para dentro até alcançar o homem deitado entre os lençóis da cama.

Ele não dormia, não podia. Seu corpo inquieto se remexia de um lado para outro, eriçado pela tensão, consumido pelo fogo que subia em labaredas desde suas profundezas. Seu torso nu subia e descia velozmente devido ao agito da respiração, uma expressão de puro sofrimento e frustração gravada em seu rosto. Ele já havia perdido a noção da hora há muito tempo. Provavelmente era tarde, muito tarde. Só de pensar nas inúmeras tarefas que tinha para o dia seguinte, as pilhas intermináveis de papéis aguardando sua atenção em cima da mesa, os livros de contabilidade, as cartas...

Ah, a quem ele queria enganar?

Não era nas finanças que seus pensamentos estavam perdidos. Era nela.

Kathani Sharma, o motivo de sua insônia, de seu desespero, de sua ruína. Anthony Bridgerton encontrava cada vez mais dificuldades de se lembrar do homem que deveria ser, daquele do qual seu pai se orgulharia, conforme mais e mais imagens dela lhe invadiam a mente, nenhuma tendo sido convidada a entrar.

Era inevitável. A súplica de seus olhos escuros ficara gravada a fogo em sua memória, olhos que pareciam dizer coisas que seus lábios não ousavam pronunciar. Anthony também não ousara perguntar, por medo de saber a resposta. Kate era como a tempestade trovejando lá fora, uma fúria incontrolável, potente, mortal, e só o fato de cogitar a possibilidade de ser o causador de sua ira já era suficiente para acovardá-lo.

Logo ele, que não era um covarde.

Mas quando se tratava dela, ah, Anthony perdia o seu chão. E o mais desesperador de tudo era que não tinha medo de cair. Na verdade, ansiava por mergulhar no desconhecido de seus braços, afundar nas curvas de seu corpo, apertá-la com tanta intensidade contra si ao ponto de se fundirem em um só. Virando-se mais uma vez em seu leito, desta vez com o peito voltado para cima, mordeu o lábio inferior ao imaginar como seria o gosto de sua boca, se seu beijo seria tão carregado de selvageria quanto seus olhos.

Anthony ardia pelo desejo reprimido. Cerrou as pálpebras e se permitiu um breve momento de deleite, sua mão deslizando pela própria pele em chamas, sentindo seu pênis começar a latejar dolorosamente entre as pernas. Precisava parar com isso, e logo. Se o corpo não estava disposto a obedecer, ele o forçaria a isso, de um modo ou de outro.

Suspirando profundamente, lançou as cobertas que o cobriam para o lado e arrastou o corpo pelo colchão até estar sentado com as pernas penduradas para fora. O volume em sua calça o deixava desconfortável, o tecido o apertando dolorosamente. Ele desejava se livrar daquela sensação, mas se recusava a tocar em si mesmo. Então, foi atrás de uma jarra com água fria e jogou o líquido contra o rosto, a gelidez golpeando a pele quente e causando um bem-vindo choque de realidade. De imediato seu corpo começou a tremer, com os dentes tiritando uns contra os outros e os arrepios esborcinando sua coluna.

Descansou as mãos em punho uma de cada lado da jarra, sentindo os músculos se tensionarem. Desceu o rosto em direção ao peito e respirou fundo, contando cada inspiração na esperança de que a última fosse o suficiente para acalmá-lo; porém, quando chegou a vinte e duas e nenhuma mudança aparente parecia a ponto de acontecer, desistiu.

Precisava de ar. Precisava sair. Precisava fugir de sua mente, daquelas lembranças que não o deixavam em paz, daquele maldito perfume que não saía de seu sistema.

Com um breve aceno decidido direcionado a seu reflexo no espelho, Anthony deu as costas à cômoda e alcançou a camisa branca de botões que vestira naquela tarde. Com mãos trêmulas, abotoou apenas as primeiras casas, deixando um espaço aberto na altura do peito, e a ajeitou dentro da calça pouco antes de deixar o aposento.

Anthony não tinha exatamente um destino em mente quando resolvera perambular pela casa de madrugada, somente deixou que seus pés o guiassem, sem rumo. Tomava apenas o cuidado de evitar os cantos mais escuros, sabendo que sua mãe detestaria se ele quebrasse algum de seus preciosos vasos de porcelana. Aubrey Hall era muito diferente à noite do que parecia de dia. Seus corredores vazios não combinavam com as lembranças vívidas de sua infância, nas quais havia sempre montes de pessoas perambulando por aí, e Anthony detestou a maneira como aquela visão o fez se sentir, como se a lugubridade da escuridão espelhasse seus sentimentos mais medonhos.

No entanto, uma chama de esperança pareceu se acender diante dele, na forma de uma poça amarelada de luz que imergia da soleira do escritório de seu pai. Por um breve instante, seu peito se aliviou com a presença daquele brilho tremeluzente, mas logo as suas sobrancelhas se franziram ao se dar conta do que ela significava.

Teria ele esquecido uma vela acesa na biblioteca?

Com passos apressados, dirigiu-se até o escritório e abriu a porta, mas estacou no lugar quase no mesmo instante ao se deparar com a imagem que o aguardava lá dentro.

— Lorde Bridgerton? — Kate exclamou assim que o viu entrar no cômodo. Sua mão se fechou ao redor do livro que segurava, provocando um som abafado. Ele mal foi capaz de registrar sua presença, em pé logo acima do primeiro degrau da escada de madeira que servia para alcançar os livros mais altos da estante.

— Eu não quis alarmá-la. Eu vi uma luz, e pensei que tivesse deixado a vela acesa. — Ele explicou, desviando o rosto imediatamente para baixo.

— Não, sou apenas eu. — Disse ela, voltando a descer a escada. Kate estava em seus trajes de dormir, uma camisola branca de tecido fino coberta parcialmente com um xale à volta do corpo, seus cabelos caindo revoltos pelo ombro direito. Ao mesmo tempo que ele não queria encará-la por saber que era inapropriado, não conseguia lutar contra seus olhos teimosos, que a espreitavam em cada movimento.

Anthony não foi capaz de conter seus lábios ao murmurar:

— Não conseguiu dormir? — A suavidade presente em seu tom de voz assustou a ambos. Os olhos de Kate se abriram, as escleras arregaladas se destacando na escuridão. Anthony pigarreou um momento depois, complementando: — Se os seus aposentos não estiverem confortáveis, então...

— Não. É a tempestade. Eu sempre as achei perturbadoras. — Ela o cortou, calando qualquer tentativa frustrada de Anthony em disfarçar seu desconforto. — Meu pai costumava ler para mim durante as monções, e agora a chuva me faz lembrar dele. — A silhueta de Kate foi assomando em seu campo de visão conforme ela dava a volta na mesa do escritório e se posicionava diante das grandes janelas de vidro. Anthony cogitou seriamente virar as costas e se retirar do aposento, seu corpo praticamente voltado para o lado de fora da porta, mas então ele sentiu o aroma do perfume dela ondulando pelo ar, e o anseio pela presença dela acabou vencendo a sua força de vontade.

A passos cautelosos, hesitantes, Anthony se aproximou dela com a mão esticada em um pedido mudo para que ela lhe entregasse o livro que se encontrava em sua posse. Cada movimento seu era suave o bastante para não a assustar, embora ele mesmo estivesse sentindo um embrulho peculiar no estômago. Kate passou o objeto para suas mãos sem muito refletir e, ao sentir a maciez da pelica na palma aberta, Anthony enfim relaxou. Era curioso, ele pensou, que Kate tivesse escolhido justamente aquele livro.

— Esta biblioteca é do meu pai. — Disse Anthony, sua voz não mais alta que um sussurro ecoando no espaço entre os dois. — Esses livros eram parte de seus bens mais valiosos. Eu perdi as contas de quantas vezes entrei nesta mesma sala e o vi fumando um charuto enquanto folheava as páginas de um destes. — Um olhar nostálgico tomou seu rosto ao se recordar da imagem vívida de Edmund naquele aposento. Kathani o observou com atenção enquanto recebia o livro de volta, os dedos cuidadosamente o envolvendo.

Anthony apreciou a forma como ela o pegou, com delicadeza. Ela era a primeira pessoa de fora da família a entrar ali, certamente a única mulher que não fossem sua mãe e suas irmãs a chegar tão perto de conhecer a maior de suas relíquias: seu amor ao pai.

— Como ele morreu? — Kate interrompeu o silêncio. A pergunta não era exatamente uma surpresa; mesmo assim, fez Anthony soltar um pesaroso suspiro.

— Ele foi picado por uma abelha. — Respondeu, erguendo o olhar para encontrar o dela. Acompanhou, resignado, enquanto um lampejo de compreensão cruzou sua face, a expressão mudando rapidamente de curiosidade para choque.

— Milorde? Eu... eu sinto tanto. Eu...

— Ver um grande homem ser derrubado por uma criatura tão pequena foi, uh... — Anthony hesitou, em busca da palavra certa. — Foi humilhante, para dizer o mínimo. Tudo aconteceu tão depressa. Em um instante ele estava parado bem ali, ao meu lado... e no outro, estava estirado desfalecido em meus braços.

— O senhor o viu então? Quando... — Ela deixou a frase pairando no ar, incompleta, mas Anthony pôde compreender perfeitamente o que ela lhe perguntava.

— Eu estava com ele quando aconteceu, sim. — Explicou, em tom de confidência. — Mas preferia não ter estado.

As sobrancelhas de Kate formaram um franzido na testa.

— Não diga isso, milorde. — Repreendeu em tom suave, mas firme. — Pelo menos o senhor esteve ao seu lado nos últimos momentos.

— E isso me assombra desde então. — Anthony se ouviu expor aquelas palavras e não soube dizer de onde tinha vindo o impulso para falar tão abertamente sobre aquele assunto. Ele geralmente mantinha aqueles sentimentos guardados a chefe chaves em seu peito, detestando revelar a qualquer um que eles ainda o abalavam. Anthony não era um homem acostumado a admitir suas fraquezas, e a morte do pai era um dos poucos tópicos que ainda o deixava vulnerável. Porém, Kathani não parecia julgá-lo, nem querer zombar dele. Ela o encarava fixamente nos olhos, os traços do rosto suavizados por uma doçura testemunhada em raras ocasiões. Anthony queria confiar aquele segredo a ela, queria que ela soubesse que havia um lado seu capaz de sentir, nem que fosse a dor do luto. — Mas a senhorita deve saber a que me refiro, não é? Sei que também perdeu o pai, e quando era ainda mais jovem do que eu. Consegue precisar a minha dor.

Kathani abriu um sorriso triste, acenando com a cabeça.

— Consigo. — Ela murmurou. — Embora... eu creia que a minha situação tenha sido um pouco diferente. Seu pai se foi em um rompante, o meu se foi de pouco em pouco. — Anthony notou que as mãos de Kate se apertaram com força ao redor do livro, em um gesto praticamente involuntário que provocou uma pontada em seu peito. Precisou conter o impulso de envolvê-las com as suas próprias, quase se arrependendo de ter tocado naquele assunto que tão claramente a deixava desconfortável. Mas então ela o encarou, e deve ter visto algo em seus olhos, pois logo relaxou. — O meu pai era um homem alto, robusto e saudável. Tinha uma postura elegante, o queixo sempre erguido com orgulho...

— ... como a senhorita. — Ele completou, fazendo-a abrir um singelo sorriso.

— Como eu, sim. Mas a doença o derrubou em poucos dias. Não importava toda a sua saúde, não importava toda a sua elegância. Aquele homem tão bonito foi virando uma sombra de si mesmo. Seu rosto murchou, seus músculos atrofiaram, sua pele empalideceu, seu vigor se esvaiu. Eu passava os dias ao seu lado, agarrada à sua mão, rezando para que, se não fosse para ser curado, que o levassem de uma vez, porque já não suportava vê-lo daquela forma. — Kate afastou seu olhar de Anthony, a respiração agitada. — Sei que é algo horrível de se dizer, mas o que senti quando ele morreu foi quase alívio.

— Não, não é nada horrível. Eu a entendo completamente, a senhorita o amava tanto que não suportava a ideia de testemunhá-lo definhar.

— Sim. É exatamente como me senti. — Anthony assentiu com vigor, querendo demonstrar que a compreendia. — Mas não estou certa de qual situação deva ser a pior. Se alguém se vai sem que tenhamos a chance de nos despedir, ou se a ida desse alguém se prolonga tanto no tempo que todo dia se torna uma longa despedida. E a dor nunca vai embora.

— Acredito que o problema seja a despedida em si. — Ele murmurou, dando um passo na direção de Kate. Anthony não havia notado que seu corpo se movera, mas parou assim que percebeu seus olhos se arregalarem, não com surpresa, mas com receptividade. Havia um magnetismo que fazia com que os corpos de ambos orbitassem ao redor um do outro. — Não acho que um dia alguém estará pronto para dizer adeus a quem se ama. Todos esses anos se passaram e eu ainda gostaria que meu pai estivesse aqui comigo. E eu não acho que algum dia esse sentimento vá desaparecer.

Ele olhou para cima então, de volta para o rosto de Kathani. Ela o encarava com a sua usual seriedade, porém havia algo de novo em seu olhar. Seu corpo estava completamente virado para o dele, as mãos pendendo frouxas à frente do tronco, o semblante aberto, curioso. Anthony sentiu o calor fazer sua pele formigar conforme seus olhos permaneceram presos um ao outro. Se esticasse a mão, nem que fosse um pouco, seus dedos se tocariam. Bastaria um singelo gesto, uma aproximação, para que seus lábios tomassem a boca dela. O cheiro de seu perfume tomava conta de seus sentidos, mais intenso agora que estavam tão perto um do outro.

Ela era linda, tinha de admitir. Com seus grandes olhos castanhos, nariz arrebitado e queixo marcado, as madeixas negras avolumadas ao redor do rosto, descendo como uma cascata pelas costas, era uma tentação contra a qual Anthony já não encontrava mais forças para lutar. Desde a manhã em que estiveram a sós no jardim, ele via cada vez mais dificuldades em afastá-la dos pensamentos, seus lábios, seu cheiro, as curvas de seu corpo. Tudo o que mais desejava era tomá-la nos braços e segurá-la firmemente junto a si, fazendo-a sentir o seu vigor. Anthony estava certo de que ela o corresponderia na mesma intensidade, mesmo com toda a inexperiência que sua castidade lhe impusesse. Ele via, refletido naquele olhar, o mesmo desejo, a mesma paixão. Ambos poderiam não se permitir pensar nisso com aquele nome, mas era o que sentiam, e nem um nem outro estava disposto a se afastar.

Os lábios de Anthony haviam sido recém-abertos — se para beijá-la ou se para ordenar, talvez implorar, que ela se retirasse do cômodo, ele não sabia — quando o som estrondoso de um trovão irrompeu o silêncio da noite. A força do impacto fez com que Kate pulasse para trás, derrubando o livro que ainda se encontrava em sua posse.

— Isso não é...! — Ela resmungou, inclinando-se para pegar o objeto do chão. Não terminou a frase, mas Anthony não achou que precisasse, e assim que Kate se levantou, ele enfim se permitiu estender a mão para tocar em seu antebraço desnudo.

— Está tudo bem, está tudo bem. — Murmurou, desejando acalmar mais a si mesmo do que a ela. — É só um trovão. Aqui em Kent eles são um pouco mais frequentes por causa dos campos abertos, mas a senhorita não precisa se preocupar. A tempestade já vai passar.

Ela soltou um pesado suspiro, meneando a cabeça.

— Detesto tempestades. Eu devia me recolher aos meus aposentos.

— Senhorita Sharma, por favor... eu não me perdoarei por saber que a deixei sozinha em uma situação tão delicada. Deixe-me ajudá-la.

— Não há nada que o senhor possa fazer, milorde.

Anthony teve de conter um suspiro de frustração. Ela nunca concordava com nada do que ele dissesse, retrucava-o em tudo. Geralmente ele não se importaria em discutir de volta, mas Anthony via claramente a angústia em seus olhos. Kate estava se sentindo desconfortável, e não era por causa dele, o visconde sabia. Ela mencionara detestar tempestades, mas será que aquela era a totalidade de suas preocupações? Enquanto mirava suas feições suaves, Anthony foi tomado pela sensação sufocante de que não a conhecia. Kathani Sharma podia ser uma mulher intensa e direta, mas também era como um baú cheio de segredos. Ela se escondia atrás da máscara da irmã mais velha, da protetora da família, e não permitia que ninguém se aproximasse dela. De seu coração. De sua alma.

Anthony nunca quis tão desesperadamente ter a chave daqueles tesouros.

— Eu poderia ajudá-la se a senhorita me dissesse como.

— Milorde, eu agradeço a sua preocupação, mas realmente não...

— A senhorita está tremendo. — Ele a interrompeu, ignorando os seus protestos. — Na manhã em que foi picada pela abelha, eu não sei o que se passou comigo, mas seja o que for que a senhorita tenha feito, conseguiu me acalmar. O mínimo que eu poderia fazer em troca seria acalmá-la também.

Sua expressão se endureceu.

— Eu não fiz aquilo pensando em lhe cobrar um favor, Lorde Bridgerton.

— Eu sei, não pensei que seria assim. O que quero dizer é... — Anthony pausou a frase, suspirando. Não sabia o que mais dizer para convencê-la, e, para ser sincero, não sabia sequer por que estava tentando tanto. Por fim, apenas deu de ombros, soltando os braços pesadamente em cada lado do corpo. — Eu só não queria vê-la tão abalada. Isso me deixa desolado.

Os olhos arregalados de Kate foram de encontro aos dele de imediato. O silêncio tomou conta do ambiente ao redor, ambos chocados com a sinceridade das palavras de Anthony. Ele não esperava ter dito aquilo, sequer sabia que se sentia assim até que as palavras saíssem de sua boca. Mas não desejava retirar o que dissera. Ele apenas olhou para ela com um semblante aberto, esperançoso. Aquela era sua última tentativa, ele sabia. Se Kate não quisesse permanecer ali com ele, ele mesmo os impulsionaria para fora do escritório, deixando-a ir para seus aposentos.

Um longo momento se passou sem que Kate proferisse uma palavra. Anthony via a dúvida presente em suas feições, evidente pelo vinco que marcava sua testa. Tamanha hesitação o magoou tanto que ele foi forçado a fechar os olhos, incapaz de continuar a encarando. E quando estava prestes a sugerir que se retirassem, ouviu-a suspirar.

— Eu detesto tempestades porque elas me lembram meu pai. — Começou ela, repetindo o que dissera antes. — Mas isso não é tudo. Quero dizer, pelo menos não é a história completa.

— A senhorita pode confiar em mim, eu prometo que não revelarei o seu segredo a uma viva alma. — Brincou Anthony, fazendo-a menear a cabeça, abrindo um lindo sorriso.

— Eu lhe contei que meu pai costumava ser o secretário da família real na Índia, não contei?

— Contou, sim.

— Mas ele não era o único. Havia cinco secretários, cada um cuidava de um assunto específico. Meu pai lidava mais com os assuntos diplomáticos, ele era o tradutor oficial da coroa, e sabia falar mais de sete idiomas. Certo dia, chegou ao palácio um lorde francês, e meu pai foi chamado para fazer a comunicação entre ele e a coroa. Parece que o lorde desejava estabelecer uma propriedade latifundiária nas terras do Marajá, ou algo do gênero. Eu estava com o meu pai naquele dia, e como ele vinha me ensinando mais sobre sua função para que eu pudesse ajudá-lo, acabou me levando junto. Eu tinha aproximadamente 13 anos na época. — Kate fez uma pequena pausa para ajeitar o xale ao redor dos ombros. — Assim que os olhos do lorde pousaram sobre mim, eu soube que havia despertado o seu interesse. Ele me acompanhava em cada pequeno gesto que eu fazia, me analisando com olhos claros e famintos. Se o senhor me perguntar qual assunto foi tratado com o Marajá, eu não saberia responder. Não sei sobre o que eles conversaram, porque só o que eu conseguia pensar era naqueles olhos que me devoravam.

Anthony sentiu um nó apertar a sua garganta, e subitamente ele se viu com dificuldade de respirar.

— Ninguém percebeu nada? — Ele questionou.

Kathani abriu um sorriso.

— Na Índia o casamento de moças jovens não é tão absurdo. Na verdade, é muito comum.

— Ele lhe propôs casamento? — Anthony estava em choque.

— Não de imediato. Senti que ele começou a sondar minha família, desejando fazer a corte comigo, imagino. Meu pai, no entanto, nunca concordou com a tradição de casar moças tão jovens, e foi enfático ao dizer a Sua Graça que procurasse esposa em outro lugar.

Anthony sentiu o ar ser expelido de seus pulmões e se deu conta de que vinha prendendo a respiração por todo aquele tempo. Mal podia conceber a imagem de uma Kate de apenas 13 anos sendo prometida em matrimônio enquanto ainda era tão jovem. De certa forma, aquele pensamento o enfureceu.

Kate prosseguiu com seu relato:

— Infelizmente, aquele homem era qualquer coisa menos um cavalheiro. Além de ignorar a posição de meu pai, ele começou a me perseguir em segredo pelo palácio. Costumava me encurralar nos cantos dos corredores, nos jardins, nos salões. — Os punhos de Anthony se flexionaram de imediato ao saber daquele fato, a visão tomada de vermelho. Tinha certeza de que se visse aquele homem em sua frente lhe acertaria com um tiro no meio do peito sem nenhuma hesitação. — Eu não era ingênua o bastante para permitir que ele continuasse me seguindo, e sempre que podia tomava a direção contrária da dele quando o via. Até que...

— Senhorita Sharma... — Anthony sussurrou, querendo garantir que ela não precisava lhe dizer mais nada se não fosse o seu desejo, mas Kate se limitou a acenar com a mão, indicando que estava tudo bem.

— Era uma noite de tempestade como essa. Eu estava sentada na biblioteca do palácio, havia perdido completamente a noção das horas, tanto que não percebi quando os criados começaram a fechar as portas e os acessos aos jardins. Durante as monções, pode chover com tanta força que o vento é capaz de carregar uma pessoa. Eu deveria estar em casa a tempo para o jantar, e só posso imaginar a preocupação de meus pais quando não apareci. — Kate soltou um curto suspiro e fechou os olhos por um instante, o semblante tumultuado pelas lembranças. — Ainda não sei dizer como aconteceu, mas meus ouvidos captaram o som do trinco da porta se abrindo, e eu soube que era ele que havia acabado de entrar na biblioteca. Seus passos foram se aproximando devagar, e ele espreitou ao meu redor como um tigre cercando a presa. O lugar estava tão silencioso que só o que eu conseguia ouvir era a minha respiração agitada, mas me forcei a ter calma e me esgueirei para debaixo da mesa, rastejando até estar bem escondida.

Anthony acompanhava vidrado cada movimento de seus lábios enquanto ela lhe contava sua história, sentindo a própria respiração se agitar conforme mais detalhes se revelavam. Kate, apesar de manter a voz firme, direcionava os olhos para qualquer lugar que não fossem os dele, parecendo reviver aquele terrível momento de seu passado.

— O que aconteceu? — Ele a incentivou a falar, com suavidade.

— Eu vi a sombra de seus pés cobrir a luz da lua que passava pelas vidraças. Eu estava com tanto medo que não me dei conta de que a minha própria sombra também se projetava para trás, ele havia me visto assim que dobrou na curva do corredor. — Kate trincou os dentes, meneando a cabeça com insatisfação. — O desgraçado estava brincando comigo. Ele se abaixou até que nossos olhos se cruzassem no escuro, e tudo o que fui capaz de ver foi aquele sorriso repugnante voltado na minha direção. Mas eu não deixaria que ele me pegasse, então deslizei mais pelo chão e, enquanto ele rastejava para me encontrar, levantei-me e saí correndo na direção da saída.

— A porta não estava trancada? — Perguntou, imaginando que o homem deveria ter garantido que a jovem dama não conseguisse escapar.

— Sim, estava. — Kate abriu um sorriso travesso. — Mas eu escapei pela janela.

— Meu bom Deus. — Anthony pousou a mão no peito em profundo alívio. Mal era capaz de conceber o pensamento de que alguma coisa pudesse ter acontecido a ela.

Kate voltou aquele mesmo sorriso na direção dele ao notar sua reação.

— Quando saí, fui direto ao encontro da chuva, e em poucos segundos já estava ensopada. Mesmo assim, continuei correndo — acho que nunca corri tão rápido em toda a minha vida. Mas não conseguia ouvir os seus passos atrás de mim e, quando me virei para olhar para trás, vi que ele ainda estava parado na janela, olhando para mim. — O corpo de Kate foi acometido por um leve tremor. — Aquele sorriso não saía do seu rosto. Nós dois sabíamos que as portas do palácio estavam trancadas, não havia outro lugar por onde eu pudesse entrar que não fosse por aquela janela, então pensei: o que seria pior, voltar e ficar à sua mercê ou permanecer ali onde estava e morrer de frio na chuva? — Ela soltou um riso seco e amargurado. — Eu preferia muito mais a segunda opção.

"Depois disso, comecei a perambular pelos jardins, procurando qualquer brecha para me enfiar, e teria conseguido chamar um dos criados se não fosse tão tarde na noite. Tudo estava escuro e silencioso, e cada vez mais eu perdia as esperanças de me livrar dos açoites gelados dos pingos de chuva. Até que me encolhi em um canto e esperei e esperei — pelo quê, não sei dizer, mas ajudava pensar que alguma coisa fosse acontecer para me tirar daquela situação... e aconteceu, realmente. De longe, consegui ouvir a voz de meu pai, ele chamava por mim fazia bastante tempo, mas eu estava tão absorta pelo medo e pela dor que não o notei. Ele foi se aproximando de mim, cada vez mais perto, e minha garganta estava tão apertada que nem consegui chamá-lo de volta. No fim, não precisou. A última coisa de que lembro quando estava na chuva foi de ser erguida em seus braços e sentir o calor do seu corpo no meu. Acho que devo ter desfalecido a partir daí."

Kate permaneceu em silêncio, admirando as gotas furiosas da chuva golpearem as vidraças diante dela. Anthony só conseguia encará-la, perdido nos contornos de seu rosto e nas ondas volumosas de seu cabelo. Ele notou que suas mãos remexiam nervosamente o xale rosado que envolvia sua cintura, mas lutou contra o impulso de mirá-la abaixo da linha do pescoço. Era tentadora demais a visão de seu corpo iluminado à luz bruxuleante das velas, o branco do tecido das vestes de dormir contrastando com o tom escuro de sua pele. Ele achava absurda a ideia de que Kate estivesse tão indiferente a seu desejo, mesmo sabendo que era exatamente o caso. Não que pudesse culpá-la. Kate jamais seria capaz de imaginar o tipo de pensamento que rondava sua mente, e Anthony faria questão de impedir que eles seguissem para aqueles lados obscuros.

— A partir daquela noite, meu pai vinha ao meu quarto sempre que havia uma tempestade. Ele se sentava ao meu lado na cama, abria um livro e começava a sussurrar as palavras da história até que eu pegasse no sono. Acho que foi quando Edwina se interessou por literatura. De tanto ouvir meu pai contar suas histórias fantásticas, ela acabou adquirindo um amor pelos livros. — Anthony abriu um sorriso ao imaginar a cena, visualizando duas pequenas meninas esperando ansiosamente pelo pai em dias de chuva, que atravessava a porta do quarto com um livro em mãos pouco tempo depois, sem nunca decepcionar a expectativa das filhas. — E agora, sempre que há uma tempestade, eu não consigo me aquietar, por mais que eu tente.

— Por que a chuva a faz lembrar do desprezível sujeito? — Ele especulou.

Kate meneou a cabeça firmemente.

— Não, deixei de temê-lo há muito tempo. Meu coração somente se enche de rancor quando penso sobre ele, e mesmo isso não acontece com frequência. As tempestades me deixam assim por causa de meu pai, o homem que eu mais amava no mundo. Quando as gotas de chuva estão caindo, me basta fechar os olhos que sou capaz de jurar que ele está ao meu lado, lendo para mim com aquela sua voz grave... — Kate interrompeu o que dizia ao sentir uma lágrima quente despontar de seu olho. A generosa gota deslizou por seu rosto e pingou no carpete do escritório, o único vestígio de sua tristeza.

Anthony observou Kate erguer a mão para esfregar a lágrima e teve de conter o impulso de lançar seus braços ao redor dela a fim de consolá-la. Kate parecia tão frágil naquele instante, uma imagem tão diferente daquela que ela costumava mostrar a ele.

Ele soltou um suspiro.

— Gostaria de tê-lo conhecido. Ele parecia ser um homem honrado. — Murmurou, fazendo-a abrir um tímido sorriso.

— E era. Nunca conheci homem mais bondoso do que ele. Eu também gostaria que o tivesse conhecido. Tenho a impressão de que ele teria gostado do senhor.

Anthony ergueu uma sobrancelha.

— Contrariando as opiniões da própria filha mais velha?

— Pode acreditar ou não, milorde, mas meu pai e eu nem sempre concordávamos em tudo, e esse teria sido um assunto em que definitivamente não teríamos nos acertado.

— Porque eu a desagrado, é claro.

— Precisamente. — Ela concordou. — O senhor talvez não tivesse despertado a mesma ira em meu pai que despertou em mim.

— Ah, fico contente em saber disso.

Ela assentiu, e ambos permaneceram em silêncio depois disso. Anthony acompanhou com atenção a expressão de Kathani, temendo que a tristeza fizesse com que ela se sentisse amuada. Mas havia uma serenidade em seu semblante que encheu o peito dele de contentamento. Apesar do rastro da lágrima ainda estar marcado em seu rosto, Anthony poderia dizer que ela parecia quase... aliviada. E isso o fez sentir aliviado também.

— A senhorita se sente melhor? — Ele perguntou, mais uma vez lutando contra a vontade de esticar a mão e tocar na dela.

— Muito melhor. Nunca pensei que falar sobre ele fosse me trazer essa sensação. Eu me sinto quase em paz.

— Eu posso ser um bom ouvinte. — Ele gracejou.

— Certamente, milorde. — Seus olhos se encontraram, e o sorriso de Kate vacilou. — Está tarde, eu deveria ir para a cama.

— Amanhã será um longo dia. — Ele concordou, mesmo que no fundo não quisesse que ela saísse daquele cômodo. No entanto, não havia nada que pudesse fazer para detê-la quando ela se curvou para ele e caminhou até a porta, deixando um resquício de sua fragrância inebriante para lhe servir de lembrança.

Ao alcançar o corredor, entretanto, Kathani hesitou.

— Boa noite, milorde. — Murmurou ela, encontrando seus olhos pela última vez antes de desaparecer no escuro.

— Boa noite. — Anthony sussurrou de volta, sabendo que ela não estaria mais lá para ouvi-lo.

Notas finais
Olá de novo!

Estou aliviada porque agora que chegaram até o final, posso falar mais abertamente sobre a cena da biblioteca. Alguém mais achou que a cena tinha muito mais potencial do que foi mostrado? Eu sei que esse momento no livro é bem diferente mesmo, mas como disse, minha fidelidade está mais voltada à série, então acabei guiando a one pelo caminho levado por ela. Não acho necessariamente que a série teria mostrado o diálogo que eu escrevi, isso foi apenas uma hipótese que eu levantei depois de ter pensado muito sobre o assunto. A verdade é que a angústia da Kate pelas tempestades pode derivar de qualquer motivo, eu só apresentei um que tinha lógica. Só isso. Mesmo assim, penso que Noite de Tempestade está de acordo com o caminho que a série trilhou e é definitivamente um momento que eu gostaria de ter visto, ainda mais porque Kanthony estava sozinho ali, e os olhos do Anthony imploravam pela atenção da Kate.

Espero que tenham gostado da leitura! Me digam se a forma como eu levei as coisas foi como vocês imaginaram também ou se vocês imaginaram algo completamente diferente.

Beijos,
Roberta.