Colidir
2 Você tem chiclete?
Notas iniciais
Capítulo 1 — Você tem chiclete? — Dois anos depois.
─ Ei, você tem chiclete? — A voz de Milo chegou aos ouvidos do destinatário, embora o local estivesse numa perfeita desordem, e a música ensudercesse os ouvidos de todos. Milo trabalha como letrista de uma banda, que de certo modo fazia sucesso, e não ganhava tão bem assim. Mas ele não precisava, porque seus pais biológicos lhe davam uma alta quantia mensalmente. Milo apenas trabalhava para não ficar entediado em casa, precisava de atividades. Milo é um rapaz festeiro, mas naquele dia em especial, não parecia tão empolgado assim com a balada, não havia nem se quer pedido um drink — o que não passou despercebido pelo ouvinte, que por sinal, era um de seus melhores amigos e o conhecia perfeitamente.
─ Pra que você quer chiclete? — A voz do outro se fez presente agora, chegando aos ouvidos do loiro, que o fitou como se parecesse óbvio. Shura era seu nome, como seu pai era espanhol, também o falava, e tinha um belo sotaque, que soava engraçado para Milo ─ Você está um saco hoje. Devia ter ficado com o Afrodite naquele restaurante.
─ Fiquei com ele ontem. — Riu divertido, ainda mais quando notou os olhos de Shura sobre si, fuzilando-o. ─ Que seja. Eu quero chiclete. — Afirmou então, levantando-se do banco.
─ Vá arrumar o seu chiclete, que eu vou arrumar outras coisas, bem mais interessantes, sim? — Sorriu cheio de malícia, aquele espanhol caliente de cabelos negros espetados e músculos bem definidos.
─ E eu vou mesmo arranjar o chiclete. — Sorriu, indo em direção ao banheiro, porque antes da caça ao chiclete, ele precisava "dar uma mijada".
Se dirigiu calmamente até o último mictório, onde abriu o zíper da calça jeans e arreou a box branca que vestia, para aliviar-se. Logo depois, se arrumou, e lavou as mãos, para no final dar uma ajeitada na blusa com decote "V" de cor lilás que vestia. Deu um sorriso satisfeito para o espelho, e deu um tapa de leve no rosto, realmente se sentindo demais. Saiu do banheiro cantarolando qualquer coisa, e foi à procura de alguém que pudesse lhe dar um chiclete.
O que poderia fazer? Naquele ambiente repleto de pessoas das mais diferentes raças, ninguém parecia ter algo além de álcool nas ideias. Suspirou, e dirigiu-se para fora da casa de shows. A noite não estava bonita, era apenas mais uma noite sem estralas, um tanto fria e com ruas movimentadas. Essa gente não dorme, não é possível, nem Milo entendia muito bem. A qualquer hora, aquela cidade parecia alerta, sempre.
Pegou o celular do bolso, e digitou uma mensagem para Shura, avisando que ficaria bem e que voltaria para casa de metrô porque não queria ficar na balada hoje. Passaram-se dez minutos e nada de respostas, sabia muito bem o porque.
Na estação, sentou-se no banco para esperar o metrô calmamente. Ali sim estava um pouco vazio, engraçado: Naquela cidade as pessoas pareciam só enchergar taxis e carros, o metrô ficava as moscas de madrugada — Claro, porque as pessoas que precisam usar, não estão em baladas, mas sim em casa descansando depois de um longo dia de trabalho.
A verdade para não querer ter ficado com Afrodite, era porque estava sendo um fraco, assim como Shura, que tentava esquecer isso na balada. Mas Milo não conseguia, ficava inquieto, mas também não queria ficar com Afrodite, seria algo muito fúnebre, quieto. Hoje, fazem dois anos desde que Oliver Hansson e Sara morreram naquele trágico acidente. E Milo era fraco por não conseguir ficar ao lado do melhor amigo neste dia tão doloroso, que deixava marcas até hoje. Estava sentado esperando o metrô, sozinho, deprimido, e sem esperanças de encontrar alguma lojinha aberta e mascar algum chiclete, até que sentiu o cheiro da vitória no ar.
Canela, seu preferido, tinha certeza de que era o que estava pensando. Olhou para o lado, onde um rapaz sério sentava-se com uma pasta preta. Não parecia alguém acostumado a pegar metrô. Tinha longos cabelos ruivos, a coluna era a mais ereta que já havia visto em toda a sua vida, mas o melhor estava por vir: O ruivo tinha na mão direita um pequeno pacote que acabara de abrir, e levava até a boca uma goma de cor salmão. Era um chiclete sem açúcar de canela, e Milo detectou por ser seu preferido.
─ Ei! Você me dá um? — Perguntou com os olhos brilhando, mas não houve resposta. O ruivo por acaso está o ignorando, ou não sabe que está falando com ele? ─ Você, do cabelo vermelho. — Agora sim, o ruivo o fitou com um enorme ponto de interrogação na testa.
─ Sim? — Indagou, hesitante. Não parecia do tipo que dava bola para qualquer um.
─ Me dá um chiclete? — Pediu calmamente, dando um sorriso em seguida.
─ Uh? — Não conseguiu dizer algo, apenas entortou os lábios e franziu a testa. Nem o conhecia, porque aquele loiro estava pedindo um chiclete? Então percebeu que o loiro estava quase a babar ali, então tirou uma das gomas de dentro do pacotinho, e entregou a ele.
─ Muito obrigado. — Sorriu, tirando do papel e colocando na boca. Fechou os olhos, relaxando no banco, parecia estar em paz agora, mascando um chiclete de canela.
Mas logo o ruivo percebeu que ter dado aquele chiclete para o loiro foi a pior coisa que poderia ter feito. Ou a melhor, mas aí é outra história.
─ Com o que você trabalha? Qual é o seu nome? Onde você mora? Podemos sentar juntos no metrô? Tem celular? Qual o número? — Milo estava sufocando-o de perguntas, e sempre que ia respondê-las, o loiro lançava mais uma.
─ Cale a boca. — Perdeu a cabeça por um instante, mas aparentava estar calmo, pelo menos. ─ Alguém consegue te aturar? Meu nome é Kamus, Kamus Acher. E não, não vamos sentar juntos.
─ Mas você é grosso, hein. — O loiro comentou sentindo-se desafiado. ─ Kamus, me chamo Milo. Você não tem cara de que pega metrô.
─ E por que pensa isso? — Antes de se dar conta, já havia puxado assunto.
─ Porque você está usando um terno muito caro, está com uma pasta e com cara de perdido. — Sorriu, levantando-se junto do ruivo, porque o metrô já estava parando.
─ Não estou perdido. — Pegou a maleta. ─ Meu carro quebrou.
─ Por que não está de táxi? — Adentraram no metrô, haviam apenas algumas pessoas ali, loucas para chegar em casa.
Sentaram-se. Na verdade, Kamus sentou-se, Milo apenas foi atrás e sentou-se ao lado, sorrindo de forma travessa.
─ Se eu soubesse que seria assim, não teria nem olhado para você. — O ruivo afirmou, revirando os olhos.
─ Mas você olhou e me deu chiclete. — Riu para o ruivo, que manteve-se sério, assustadoramente sério. ─ Mas que cara feia, Kamus. Parece até que um vento passou e ficará pra sempre. — Riu alto com a piada ridícula que fizera.
─ Pois é. — Bufou, perdendo a paciência já. Pegou o iPhone do bolso, e começou a enviar mensagens.
Estava distraido mandando as mensagens para seus clientes, quando sentiu um cheiro bom invadir-lhe as narinas, canela. E logo deu-se conta de que Milo respirava tão perto de si que o fez corar. Milo estava observando curiosamente cada letrinha que Kamus digitava, e só o fitou quando este parou de fazê-lo.
─ Mas que diabos está fazendo?! — Indagou, tampando a tela do celular.
─ Então você é advogado. Claro, sempre se achando melhor que os outros. — Sorriu divertido. ─ Você é do tipo certinho, ou do tipo que defende comedores de crianças?
─ O que?! Está me ofendendo, rapaz. — Alertou, estreitando o olhar de maneira perigosa.
─ Rapaz? Fala sério. Você é um chatão, mas deve ter a minha idade. — Riu ainda mais, para irritar. ─ Mas não se ofenda, sim?
─ Hm.
Mas a ação seguinte deixou o ruivo completamente embasbacado. Sentiu ter a nuca puxada na direção do loiro, e logo teve os lábios roubados por ele. Manteve-se de olhos abertos, estático, enquanto o outro abria passagem para sua língua explorar sua boca.
Nunca havia tido aquela sensação. De todos os beijos que deu, esse era o mais inédito, e o mais quente. Milo conseguia fazer coisas incríveis com aquela língua, provocar sensações prazerosas com apenas um beijo em Kamus. Mas o advogado não teve a razão afetada por aqueles impulsos, ele empurrou o corpo de Milo, para poder sair dali, e enraivecido levantou-se, pegando a mala e pisando fundo para fora do metrô — que havia parado já em outra estação. Preferia esperar outro metrô do que ficar ali com aquele maníaco tarado.
─ Todos loucos, loucos! — Saiu resmungando.
E Milo não fez nada para parar o ruivo, já havia ganho o dia — ou melhor, a noite. Se não fosse por um detalhe, Milo esqueceria logo logo aquele rapaz, mas ele viu caído no chão do metrô uma caderninho com capa de couro, e foi até ele enquanto as portas fechavam-se. Era a agenda do rapaz, cheia de contatos importantes. Milo engoliu em seco, procurando algum endereço, precisava devolver aquilo, não queria prejudicar o trabalho de ninguém.
Guardou no bolso então, certo de que logo encontraria o rapaz e se desculparia. Sorrindo, fez uma bola com a goma que tinha dentro da boca, e a estourou em seguida, para sentar-se novamente e esperar até a estação mais próxima de seu destino. Depois, seria só pegar um táxi, e fazer o que tinha que fazer.
Trinta minutos depois, aproximadamente, encontrava-se em frente à porta de um apartamento — uma cobertura, na realidade. Era a nova casa de Afrodite, que ao perder os pais, quis livrar-se das lembranças naquela mansão. Shura não era mais um mordomo, e sim dono de um bar que só abre as sextas, sábados e domingos — estavam numa terça-feira. Bateu na porta três vezes, e como ninguém atendeu, levantou o tapete, encontrando ali uma chave.
Se algo acontecesse, a chave estaria ali, e Afrodite seria salvo. Tudo estava apagado, e perfeitamente arrumado. Milo sempre achou engraçada a forma de como Afrodite se virava para limpar aquele apartamento sozinho — principalmente no dia seguinte que Milo dormia lá, que a casa ficava uma bagunça.
Não era sempre que dormia na casa de Afrodite, apenas depois de festas que iam juntos ou coisa parecida. Tirou os sapatos, e a camisa calmamente, além de colocar a agenda sobre a estante da sala. Foi na direção da suíte master tirando a calça e jogando pelo caminho, ficando apenas com a box branca. Afrodite não se importava.
E como esperado, a luz do abajour estava acesa no quarto de Afrodite — porque desde pequeno ele tinha uma mania esquisita de dormir com a luz acesa. E lá estava, a cascata de cabelos azuis sobre a cama, dormindo calmamente, quando derrepente Milo joga-se na cama, agarrando-o pela cintura de forma possessiva.
─ Hm... Milo. Pare de me encher. — Disse sonolento, virando o rosto para encarar o amigo.
─ Sh sh, volte a dormir, belo. — Pediu sorrindo, aplicando um rápido selinho nos lábios do amigo.
─ Isso é chiclete de canela? — Perguntou Afrodite, sentindo o cheiro. ─ Não vá dormir com isso na boca. E tome um banho, está fedendo a metrô.
─ Você é muito metido, sabia? — Riu, afastando-se, e levantando-se.
─ Aham... Boa ... Noite. — Disse, cobrindo-se mais e encolhendo-se.
Milo sorriu calmamente, e foi até o armário de Afrodite, onde pegou uma cueca — porque Milo e Shura tinham roupas na casa de Afrodite — e um pijama azul com listras brancas.
Na banheira, em nada pensava, até que um certo ruivo invadiu-lhe a cabeça. Céus, por que isso estava acontecendo? Era para ser apenas implicância, mas ele até teria que devolver a agenda do cara. E o ruivo era grosso, o pior de tudo era isso, o cara era um grosseirão, e não merecia os pensamentos de Milo.
Fala sério, com um azulado daqueles naquela cama de casal, quem iria pensar num ruivinho sem sal feito aquele? Quem? Milo, é claro. Bufou, e ao sair do banho, vestiu-se calmamente, para ir de encontro à cama. Remexeu-se ali, e sentiu mãos macias envolverem seu corpo num abraço carinhoso, que o fez sorrir sinceramente, e acariciar aqueles cabelos azuis.
─ Boa noite, dite. — Desejou, ainda com o sorriso.
─ Então aí estão vocês! — Shura surgiu sabe-se lá de onde. Não cheirava a álcool, pelo contrário, parecia ter tomado banho. ─ Saí logo depois que foi procurar o chiclete, tava um tédio. Passei em casa, tomei banho, e quando venho pra cá, vocês estão aí nesse agarra-agarra? — Riu.
─ Isso tudo é ciúmes? — Provocou Afrodite, que afastou-se de Milo.
─ Ciúmes? De quem eu teria ciúmes? — Riu Shura.
Shura logo vestiu um pijama, escovou os dentes e logo se enfiou debaixo das cobertas, do outro lado da cama. Era assim na maioria das vezes que os dois dormiam lá, Milo na esquerda, Afrodite no meio, e Shura na esquerda. Era patético de se ver, mas é o que há. Eram só amigos, não é? Não havia nada de errado nisso, não é? De qualquer forma, eles só queriam se divertir, nada era sério ali. Pelo menos, era o que estavam pensando.
E foi assim que a noite seguiu, com os três deitados na mesma cama, conversando em voz baixa. O engraçado era que Milo estava ali para fazer companhia ao amigo, e Shura também. Até seus pensamentos eram parecidos. Talvez fosse a convivência exagerada que tiveram.
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