Colidir
1 Prólogo -
Notas iniciais
Aceito críticas, elogios, espero que gostem ♥
Prólogo — Dois anos atrás.
Chovia muito naquela madrugada de inverno, e estava apertando cada vez mais. Neste momento, crianças cobriam-se na esperança de se verem salvas dos trovões assustadores que faziam-se presentes. Sobre o criado mudo de um pequeno quarto abarrotado de CDs e instrumentos musicais, o telefone tocou escandalosamente, acordado quem dormia na cama de casal — que fora colocada ali por um milagre, porque aquele quarto era realmente pequeno. Impaciente, o loiro descabelado atendeu o celular.
─ Alô?! — Perguntou sem paciência alguma.
─ Milo ... — Uma voz chorosa respondeu o chamado. E o loiro reconheceu muito bem aquela voz.
─ Afrodite? O que houve? Sabe que horas são? — Indagou seguidas vezes, sentando-se na cama. Levou as mãos até o rosto, para manter-se acordado.
─ Me... Desculpe. — Pediu, ainda com aquela voz. Parecia que estava travado, e não conseguia mais falar.
─ Desembucha, Afrodite! — Disse, perdendo mais uma vez a paciência.
─ Você poderia ... Passar aqui? — Perguntou, parecendo controlar o choro, só então Milo percebeu.
─ Você tá chorando, Afrodite? — Foi uma pergunta óbvia, coisa muito comum para Milo, que desde criança era apelidado "carinhosamente" com o nome de "capitão óbvio".
─ Milo ... Aconteceu uma coisa ... Horrível. — Disse tentando parecer calmo, mas não estava, Milo estava percebendo, eram amigos há anos.
─ O que aconteceu, Afrodite? — Perguntou, completamente acordado desta vez. Estava preocupado com o amigo, muito preocupado.
─ Meus pais ... Eles foram ... Estão mortos ... Milo.
─ O que?!
Os pais de Afrodite desde quando Milo era pequeno, o acolhiam sempre que fugia de casa, eram como se fossem seus pais também. Iriam sair em viagem nesta madrugada mesmo, por isso deduziu que fora um acidente, de carro provavelmente. Percebendo que o outro lado da linha ficou mudo, disse algo, mesmo que sua voz estivesse difícil de sair.
─ Dite, eu... Sinto muito. Quer que eu vá aí?
─ Sim.
─ Onde está? — Foi saindo do apartamento, sentia-se mal. Estava triste, até porque havia atendido de má vontade, e fazia sim ideia de como o melhor amigos estava, sentimental da forma que é.
─ Eu estou em casa ... Shura me aconselhou para que não fosse ao cemitério, ele cuidará de tudo...
Shura é o mordomo — da idade de Afrodite — da família Hansson, filho do antigo, que sempre esteve na casa da família, desde criança, e crescera junto com os dois. Eram todos muito amigos, e agradeceu mentalmente por Shura ser tão prestativo.
─ Certo. — E viu que Afrodite havia desligado o celular logo após a "despedida", sem que pudesse falar mais alguma coisa.
Estava confuso. Tudo tão derrepente, não saberia o que fazer ou falar quando chegasse na mansão, não fazia a menor ideia de como deveria agir. Desceu do elevador, e dirigiu-se ao estacionamento para motocicletas, onde montou na sua, colocando o capacete, e partiu para a viagem.
─ Sair a essa hora, senhor? — O porteiro questionou, enquanto apertava o botão para a abertura do portão.
─ Sim, sim. Problemas. — Disse atordoado, sem prestar atenção. Partiu tão depressa que o idoso porteiro assustou-se.
Durante a viagem, sentiu o celular vibrar na calça. Impossibilitado de atender, teve que deixar como estava, e prosseguir com atenção pela pista molhada. Após cerca de meia hora de mato — sim, porque a mansão ficava longe de tudo e todos — o rapaz estacionou a moto em frente ao local, e seguiu a pé pela entrada, até chegar à porta, onde tocou a campainha educadamente. Então lembrou-se de que Shura provavelmente estava ocupado demais cuidando do velório ou qualquer coisa do tipo, arriscou-se.
Abriu a porta calmamente. A mansão estava escura, como se todos dormiam. Seguiu para dentro, fechando a porta com o pé direito. Olhou para a grande escada que levava ao segundo andar, e avistou um ponto de luz. Engolindo em seco, começou a subir depois de tirar os sapatos e pendurar o casaco. A luz não vinha do quarto de Afrodite, mas sim do quarto de seus pais. Sentiu o coração acelerar a cada centímetro que se aproximava, até poder ver uma pequena parte do cômodo, justamente a cama de casal.
Adentrou sem bater, eles eram amigos há muito tempo, não precisavam disso. O quarto era absurdamente imenso, muito bem decorado pela Sra. Hansson, as paredes cinzas, móveis em madeira branca, enfeites coloridos por todos os cantos. A cama por exemplo, estava repleta de travesseiros coloridos, e uma longa cascata de cabelos azuis espalhados, além de um Afrodite completamente desolado, abraçado à um grande porta-retratos com a foto de seus pais e eles numa viagem que fizeram na Alemanha no ano passado.
─ Dite ... O que aconteceu de verdade? — Tinha que perguntar, precisava. Sentou-se na beira da cama, levando a mãos até a cabeça do amigo, afagando calmamente.
─ Eu estava dormindo. — Disse o sueco, que deitou o rosto nas pernas de Milo, tentando conter as lágrimas. ─ Eu estava muito cansado, passei a noite estudando o texto para o exame de hoje ...
Afrodite tinha um sonho: Ser um ator. Seria fácil adentrar neste ramo, tendo os pais que tinha, mas ele não queria que fosse fácil, ele queria merecer, e começar a trabalhar em teatros, para um dia alguém descobrir seu talento e aí sim poder estrelar nos cinemas e tudo mais. Ele tinha falado do exame para Milo, um exame para poder fazer parte do grupo de teatro do bairro, e estava estudando muito o texto para tudo sair mais que perfeito.
─ Eu dormi. Eu não consegui acordar quando eles saíram, para desejar-lhes uma boa viagem... E então, Shura me acordou, preocupado, e me contou. — Um minuto de silêncio para o jovem se recompor. ─ No caminho para o aeroporto, um caminhão perdeu o controle e atingiu o carro onde meus pais estavam... — Fungou dolorosamente. ─ Então...
─ Não precisa contar. — Milo não queria forçar o amigo a isso, e nem mesmo ouvir porque era doloroso demais, os pais de Afrodite eram importantes para o loiro. Deitou-se ao lado de Afrodite então, e o abraçou carinhosamente.
Desde pequenos era assim. Shura era o mais velho, Afrodite era o do meio, e Milo o mais novo, só que Afrodite era diferente; Mais frágil, e como Milo não tinha muitos afazeres como Shura, se via na obrigação de proteger o mais fraco. Eram muito unidos, sempre foram melhores amigos.
Permaneceram abraçados por longos e dolorosos minutos, até Afrodite parar de chorar, o que realmente custou bastante. O rapaz havia pintado os cabelos de azul piscina, por causa de uma peça no colégio ainda, e estava até hoje desta forma. Milo achava engraçado a forma de como os cabelos do amigo pareciam ondas de um lago cristalino, mas no momento, só preocupava-se em acariciar as ondas, acariciar para dar conforto, mesmo sabendo que de nada adiantaria, de nada.
─ Milo — Afrodite chamou, enquanto ainda o abraçava.
─ Sim?
─ Eu ... Também ... Sinto muito. — Disse, apertando aquele abraço, fazendo o loiro arregalar os olhos.
Afrodite acabara de perder os tão amados pais que tinha, e mesmo assim, lembrou-se de como eram importantes para o melhor amigo. Afrodite estava ciente do amor que Milo nutria por seus pais, e sabia o quanto ele também estava triste pela notícia, era tão amável — e ingênuo — que até nas horas mais difíceis, ele gostava de confortar as outras pessoas, sem se importar com o resto.
─ Tenho certeza que vamos ...
─ Vamos o que? — Indagou, fitando os olhos azuis do loiro, quem encararam os seus. Viu um sorriso formar-se nos lábios dele.
─ Que vamos ficar bem, por eles. — Acariciou o rosto do amigo, ainda com o sorriso no rosto.
─ Sim. — Foi a primeira vez que Afrodite sorriu, depois de saber da morte dos pais.
─ Você me promete?
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