Coletânea
9 Scars
Notas iniciais
Desde quando começara a ser excluído das coisas por seus colegas de turma, esquecido por eles? Desde quando tudo começara a piorar de uma forma quase insuportável? Quando deixara de ser amado para ser odiado e enojado pelos próprios pais?
A vida decidira que ele seria aquele que mais sofreria? Não...Existia pessoas numa merda pior que a sua. Sabia que existia, portanto, jamais deveria se sentir injustiçado.
— Que garoto estranho...- ouvira alguém sussurrar enquanto saía da escola. Sempre era notado por conta de sua aparência acabada.
— Não conhece? Foi ele quem tentou se jogar do terraço certa vez.
— ...- antes que sequer pudesse ouvir qualquer outra coisa vinda das vozes de um grupo qualquer de alunos, ele colocara o capuz de sua blusa sobre a cabeça, desligando-se do mundo real ao afundar no vazio de sua mente. Não se importaria se um carro atropelasse-o antes de conseguir chegar em casa. Ninguém se importaria mesmo. Talvez jogassem seu corpo numa vala qualquer, onde seria esquecido rapidamente.
Por desligar-se do mundo, não percebera que era observado por atentos olhos dourados. Um sorriso misterioso despontava nos lábios daquele que o observava das sombras.
O caminho de volta para casa, por mais que o garoto desejasse o oposto, fora rápido e sem obstáculos. Ou carros lhe atropelando. Logo que avistara a casa com a pintura velha, seu corpo estremecera. Temia o que lhe esperaria quando chegasse. Por ter desmaiado, não pudera fazer o que lhe fora mandado por seu pai...
Que tipo de punição poderia estar lhe esperando agora?
Sentira a garganta fechar-se com as inúmeras possibilidades e as cicatrizes em suas costas formigarem com lembranças da última vez que não cumprira com suas obrigações.
— Por favor...- sussurra em súplica para o céu.- Se existe algum deus...Me salve.- repetira seu mantra num fio de voz, limpando a maquiagem em seu rosto para revelar uma cicatriz fina que começava abaixo de seu olho esquerdo, marcando a olheira daquele olho, e terminava em seu queixo, antes de entrar em casa.- M-Mãe...?- sua voz saíra pouco mais que um murmúrio. Não queria irritar ninguém...E torcia que eles ainda não tivessem chego.
— Menino...- ouvira a voz dura e fria de sua mãe vinda da cozinha. Seu corpo arrepiara. Tinha muito medo de seu pai, mas também de sua mãe quando estava bêbada. Ambos poderiam lhe ferir.- Por que você não fez o que lhe foi mandado?- a mulher retornara a perguntar quando vira a figura encolhida de seu filho na porta da cozinha.
— D...Desculpe...- sussurrara com medo da mulher.- E...Eu...D-Desmaiei ontem e...- mordera o lábio inferior, com medo da reação dela.
— ...- a mulher somente encarara-o com um olhar assustador e de reprovação. Porém, ela somente tragara de seu cigarro, sem se importar realmente.
— ...- o garoto não sabia o que fazer agora, não recebera permissão para sair e ela não parecia querer dizer mais nada.- P...Posso...Fazer agora?- arriscara perguntar, recebendo um olhar que dava muito medo.
— Já o fiz para você...Mas não espere que o faça novamente.- respondera, seca.
— ...- pensara em algo para perguntar, mas não viera nada a sua mente. De súbito, sentira tontura e, sem querer, dera passos para trás para se apoiar em algo. Sentira-se gelar com o medo do que poderia acontecer por ter se mexido sem permissão.- D-Des...
— Já pode ir, criança indesejada.- cortara-o, saindo com uma garrafa cheia de alguma bebida alcoólica em mãos.- Deveria ter te abortado quando tive a chance.
— ...- suspirara de alívio, mesmo sentindo-se magoado com suas palavras e frieza. Sempre desejara conseguir um sorriso doce dela, mas, sabia, era impossível. Ela odiava-o...Como todos os outros o faziam.
Já no primeiro andar da casa, encontrara seu pai perto da porta do quarto dele. Sentira o ar faltar com a expressão dele. Escapara de sua mãe, mas...Não escaparia dele.
— O...Olá...- sussurrou, procurando não fazer contato visual. Um erro grave de sua parte.
— ...- o homem somente segurara o queixo do filho, puxando-o com brusquidão para olhá-lo nos olhos.- Olhe para mim quando for falar...- ameaçou.
— C-Certo...- gaguejara, temendo o que poderia ocorrer.
— Criança imprestável, fiquei sabendo que não fez o trabalho que mandei. Nem pra isso serve?!
— M-Mas...
— EU NÃO LHE DEI PERMISSÃO PARA FALAR!!- gritara, dando um forte tapa em sua bochecha esquerda, avermelhando aquela pele de um branco pálido, doentio. Mesmo fraco, conseguira manter-se de pé.
O garoto sentira a visão escurecer por um segundo com o tapa, sentindo-se tonto, mas não caíra...Ainda. Tinha sintomas de anemia severa, sabia. Mas ninguém se importaria se morresse...Ninguém.
— D-Desc...- antes que pudesse falar algo, levara outro forte tapa no mesmo local, dessa vez não conseguira se manter, caindo e quase perdendo a consciência novamente.
Antes que pudesse processar algo, levara um chute na barriga que fizera-o encolher-se. E mais outro. E outro...Perdera a conta de quantos chutes levara, sabia somente que vomitava sangue e, talvez, algumas costelas tivessem se partido.
— Escuta aqui, garoto...- puxara-o pelos cabelos negros um pouco abaixo dos ombros, fazendo-o olhá-lo nos olhos.- Da próxima vez que lhe mandarem algo, faça. Nem que esteja morrendo, faça.- mandara, soltando-o para que caísse novamente e saindo como se nada tivesse feito.- Seja útil uma vez na vida, pelo menos!
— ...- sorrira minimamente, limpando o sangue que escorria de sua boca com a manga de sua camisa. Não choraria, pois não tinha mais lágrimas pra chorar. Não lhe restava mais nada.- Inútil...- sussurrara, levantando-se com dificuldade e se arrastando para o quarto, trancando-se lá.- Inútil...- murmurou novamente, suas barreiras cedendo à tristeza e dor. Estava no limite fazia semanas e agora...Ele finalmente se rompera. E tudo ruiu.
Talvez pudesse acabar logo com isso...
Retirara sua camisa, revelando cicatrizes, inúmeras cicatrizes na pele exposta. Pulsos, pescoço, costas, toráx...Umas eram regulares, aquelas que ganhara por cada punição que recebera de seus pais. Outras eram irregulares, novas em cima de velhas, cicatrizes que ele mesmo fizera. Muito mais profundas que a maioria de seus pais...Em exceção das quatro que cobriam suas costas.
Além disso, tinha um corpo muito magro. Sua pele delineava os ossos pela falta de carne, músculo. Mas não era algo tão grave quanto outros tinham. Nada de ruim era grave para alguém como ele. Merecia tudo de ruim e mais um pouco. Merecia ser surrado pelo mundo.
Sentando-se na cama, tirara do bolso da calça um pano dobrado cuidadosamente, dentro tinha uma lâmina pequena, mas muito afiada.
— Tão simples...- murmurou, tocando o pulso direito com aquela fria lâmina. Estava cansado de viver nessa merda de vida, queria que tudo acabasse logo. Queria deixar de respirar logo.
Mordera o lábio inferior, lembrando-se de cada palavra horrível, de cada sentimento ruim que lhe era dirigido. Lembrara do sorriso do irmão. E...Como uma facada, lembrara-se de alguém que antes não lembrava.
— ****, quando crescermos, prometes se casar comigo?- vira-se quando ainda era uma criança, sorrindo para um garoto de marcantes olhos dourados enquanto estendia o dedo mindinho para ele. Quem era...? Por que não conseguia ver seu rosto?
— O que nos impede, Elizier...Né?- sorrira, selando a promessa infantil.
— Aaaah, meu irmãozinho já arranjou um pretendente!- exclamou o irmão mais velho que ele tanto amou com animação.- Que lindinho!
— G-Glen!- o garoto desconhecido exclamara, corando enquanto Elizier sorria sem entender o verdadeiro significado da promessa que fizeram.
— Q-Quem...- arregalara os olhos, as mãos começaram a tremer, sentia-se vacilar. Respirara fundo várias vezes. Não deveria se importar agora, ele nem deveria lembrar-se mais dessa promessa.- Você me odiaria se me visse agora...?- perguntara para o vento, sentindo seu coração pulsar com uma emoção que desconhecia.
Fechando os olhos, decidindo se o faria ou não seu ato final, ele não notara que alguém subira na árvore que tinha ao lado da janela de seu quarto, observando-o em cada ato, cada respiração. O olhar marcante percorria cada cicatriz do garoto com ódio e preocupação.
— Ninguém se importaria...Nem mesmo você...- murmurara, sorrindo de canto ao sentir a lâmina cortando-lhe as veias com a força que exercia. Deixando que o sangue escorresse em abundância e pingasse no chão.
Sentia-se ficando mais frio e fraco a cada segundo que passava, porém, não hesitara em fazer mais cortes. Sorria de forma vazia e, dessa vez, algumas lágrimas escorriam. A emoção de ver sua vida se esvaindo era imensa, porém, não sabia se era medo ou alegria que sentia em seu coração agora.
Com a visão tornando-se turva e a consciência afundando para uma escuridão sem volta, não notara quando alguém entrara pela janela aberta. Só o fizera quando sentira as mãos ásperas, mas com um toque delicado, em seus braços, fazendo-o parar de se cortar. A respiração de quem quer que fosse batia em seu ouvido, causando-lhe ainda mais frio.
— Jamais deixaria de me importar com você, amor...- ouvira o desconhecido sussurrar, tocando seus lábios nos dele levemente antes de perder completamente a consciência, mas não sem antes encontrar olhos dourados olhando diretamente para sua alma com carinho e amor.
*
O garoto acordara, assustado, a respiração pesada. Já era noite. Tudo estava confuso em sua mente, mas lembrava-se dos olhos dourados que vira e do sussurro junto à sensação de lábios quentes tocando os seus. Mesmo sem compreender, seu rosto ficara quente e sentia-o salpicar com uma emoção nova, totalmente desconhecida para si.
Poderia ser um sonho, mas, logo que vira os pulsos com bandagens um pouco ensanguentadas e que estava trocado, tivera a comprovação de que não fora meramente um sonho.
— Quem...?- conseguiu sussurrar, a garganta raspava e ardia por algum motivo do qual não se importava agora. E estava ainda mais fraco do que antes.
Pelo canto do olho, vira um bilhete branco ao lado de onde deitava-se antes. Com a curiosidade atiçada, ele pegou o bilhete, abrindo-o. Perdera o fôlego com o que lia. Não sabia o que deveria sentir com isso...
"Com toda sinceridade, quero matar seus pais, amor...Mas conversaremos sobre isso e sobre Glen quando nos encontrarmos de verdade. Tenho tanto a lhe perguntar...Você me deixou tão preocupado. Sabe...Eu voltei para cumprir a nossa promessa de infância, então...Marry me, Elizier?
~Luca"
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