Coletânea

10 Prelúdio I


A garota corria tão rápido quanto suas pernas aguentavam, ignorando os músculos insuportavelmente doloridos. Seus pulmões ardiam e os olhos lacrimejavam pelo esforço além do limite. Porém, não podia parar quando mais de 20 soldados do rei atual de Lamur, soldados cruéis e sem escrúpulos, perseguiam-na por crimes que nunca cometera. Era essa a vida dos Escolhidos do deus sombrio, da morte sem honra, das maldições e rei do Submundo, Hers, tinham em Lamur. Sempre fugindo por suas vidas amaldiçoadas. Até mesmo filhos da deusa da morte honrosa, das proteções e milagres de batalha, Anaik, e da deusa da estratégia em batalha e bençãos, Heirun, eram tratados assim. Ou qualquer outro Herdeiro de qualquer outro deus que eles acreditassem. Por isso quase não tinham mais Escolhidos sobre as terras.

Em certo momento, seu pé afundara numa poça de lama, o que quase acarretara em sua queda, porém, conseguira manter-se, mesmo com o ritmo desacelerando com o esgotamento de seu corpo. Não comia fazia dias para evitar o risco que as tropas na cidade representavam para si e para Aykos...

Aykos. A imagem do menino de apenas 10 anos oscilara em sua mente. Se fosse capturada, ao menos sabia que ele estaria razoavelmente protegido por Akayo pelos próximos meses, mas...E depois? A mulher de meia idade jamais poderia arriscar a vida dela e de seus filhos somente para manter uma criança viva. Ainda mais sabendo o que ele era...

— Não pense nisso agora, Sillyren...- murmurara num fio de voz entrecortada pela falta de ar em seus pulmões, reprovando seus devaneios num momento tão inoportuno.- Concentre-se em fugir...

Com as orelhas pontudas tampadas pelas bandagens que ainda cobriam seus olhos e a respiração pesada demais, não notara, ao virar a esquina, o esquadrão que lhe esperava do outro lado até que se chocara contra o peito duro de um deles e caíra com a força do impacto no chão enlameado pelas chuvas primaveris. Tentara se recuperar e fugir o mais rápido que conseguia, porém, era tarde. Os soldados logo cercaram-na, apontando suas espadas e lanças para si. Xingara a si mesma de forma baixa, inaudível. Era burra por não prestar atenção no que era importante agora, assim selando sua própria sentença e a de Aykos em consequência.

Com seu poder selado, não poderia tentar usá-lo para escapar e, como por inconveniência para si, nenhum animal de seu "protetor" estava por perto para protegê-la. Zombara internamente, por isso não confiava em deuses. Eles ajudavam somente quando lhes era conveniente. E quando não havia perigo para eles.

— Senhor...- ouvira a voz ofegante do tenente que lhe perseguia com seu pequeno esquadrão próxima. Mesmo que abafada pelas bandagens e pelos longos e desgrenhados cabelos castanhos com as malditas mechas lilases que lhe denunciavam quando os olhos ou as orelhas não o faziam. Lembrava-se vagamente do soldado que arrancara sua capa de si como um esforço inútil para lhe pegar momentos atrás.- Eu...

— Não desejo ouvir suas desculpas, tenente.- a voz fria do principal general do rei cortou as explicações do tenente de forma que quase fizera-a rir, se não fosse pelo fato de que sua atenção logo focou-se em si.- Ora. O que temos aqui hoje...- comentou com a mesma voz feita de navalhas de gelo endurecido em aço. Encolhera-se ligeiramente. Conhecia a fama daquele homem. Não era totalmente humano...Seu sangue pertencia ao reino distante de Azenare. Conhecia as histórias daquele reino do outro lado do mar...Nenhuma boa, se valia acrescentar.- Se não é uma Herdeira.- ouvira o sorriso cruel na voz dele com a ênfase da palavra considera amaldiçoada.- De que deus será...?- antes que percebesse, o homem arrancara suas bandagens, obrigando que seus olhos vissem a luz depois de um longo tempo em escuridão. Ouvira os murmúrios antes de conseguir enxergar parcialmente suas expressões de pânico ao verem seus olhos, a única característica que lhe denunciava qual deus lhe dera sua herança.

— E-Ela é...- ouvira um soldado qualquer murmurar com medo e espanto, provavelmente um novato. Não acostumado com a guerra ou com os Herdeiros.

— Ora...- ouvira a risada do homem, chamando-lhe para olhá-lo. O homem era bonito, não podia negar, mas sua beleza era cruel. Os cabelos curtos e rebeldes tinham a cor das nuvens de uma tempestade, os olhos como o mar profundo e congelante das Ilhas de Gelo, as orelhas levemente pontudas para indicar sua herança. A pele bronzeada de alguém que passa horas no sol e os músculos de um guerreiro poderoso, além de um sorriso torto e cruel que lhe adornava os lábios.- Então, nossa fugitiva é Herdeira de Hers...Que interessante. Acho que nosso rei amará sentenciá-la.

Somente com a menção ao rei mais abominável dessa era, a garota sentira seu coração quase parar. Não...Não poderia deixar que a levassem para lá. Aquele homem era...Cruel, para dizer o mínimo. O motivo de não poder mais usar seus poderes, de não poder mais se proteger de outros manipuladores de magia que não fossem algum Herdeiro, de se proteger do ódio sem motivo da população.

— Nem pense nisso, jovem dama.- o general avisara, como se pudesse ler sua mente.- Antes que consiga sequer se levantar, sua cabeça já estará descolada de seu corpo e rolando pela rua.- algo como prazer brilhou naqueles olhos. Como se imaginar a cabeça dela rolando fosse algo divertido. Seu estômago completamente vazio embrulhou e se contorceu com a visão que imaginara.- Você virá conosco, gatinha, e aceitará sua sentença como a boa mulher que é.- algo como malícia brilhou naqueles detestáveis olhos quando ele ergueu-a por um braço e começou a andar, arrastando-a consigo. Não conseguira controlar o impulso de rosnar e ameaçar mordê-lo com seus caninos longos, finos e muito afiados, sendo que ele somente desviara seu rosto ao puxá-la pelos cabelos com um sorriso de escárnio.- Opa! Parece que temos uma cadela brava aqui...- zombou enquanto outro rosnado retumbava de seu peito e escapava de seus lábios finos e rachados.- Capitão, dê-me a coleira e a focinheira dessa cadela brava.- ordenara para algum idiota qualquer.

— É pra já, senhor!- algo como prazer cantou naquela voz e, em questão de segundos, ela pôde ouvir as risadas maldosas dos homens enquanto o capitão trazia as correntes que tilintavam e machucavam seus ouvidos.

Olhara pelo canto dos olhos ao ouvir o tilintar de correntes, logo trancando a respiração ante a visão. A "focinheira" nada mais era que uma máscara de metal normal, mas de aparência apertada, que renderia dores excruciantes no rosto, porém, o medo veio das correntes...Feitas de um material raro, um metal chamado Ober. Eram correntes que prenderiam seu pescoço e atariam suas mãos nas costas, além de diminuir o movimento de seus pés para passadas curtas e lentas ao serem presas em seus tornozelos, além de haver um tipo de guia para alguém segurá-la.

Isso ia doer muito...Ober era o ponto fraco de qualquer Herdeiro, bruxas, guerreiros de Azenare ou...Qualquer um que abrigasse magia no centro de sua alma. Esse material metálico queimava somente ao toque, era forte demais para ser quebrado por meios normais e anulava qualquer tipo de magia. Até mesmo as de cura, as únicas que poderiam aliviar a sensação de que seus ossos derreteriam. A sensação de aço derretido e ácido percorrendo suas veias, nervos e ossos eram suas características mais marcantes. A outra era...As cicatrizes que doíam eternamente e marcavam qualquer tipo de pele numa cor rosada misturada com um verde doentio.

— Que expressão mais bela...- ouvira-o dizer, jogando-a contra dois soldados, que seguraram-na antes que pudesse agir.

E enquanto tentava se soltar desesperadamente para fugir, o guerreiro colocava luvas de couro pesado para protegê-lo quando fosse arrastá-la com essas correntes pela cidade vazia.

Olhara em volta com desespero, tendo a doce ilusão de que alguém iria ajudá-la...Contudo, não havia ninguém na rua, tudo estava fechado e em um silêncio mortal. Todos deram as costas à garota que sofreria pelas correntes de Ober.

— Prendam-na ao chão.- mandou e logo o fizeram, chutando seus joelhos fracos pelos limites da corrida que tivera para fugir...Em vão,valia acrescentar.

Logo que seus joelhos gritaram de dor quando ela aterrissara sobre eles, os dois soldados que agora lhe seguravam obrigaram-na a deitar no chão, afundando seu rosto na lama como forma de humilhá-la, enquanto o capitão aproximava-se com aquela ferramenta de tortura.

— ...- debatia-se sobre os braços que lhe esmagavam ao chão e tentavam lhe afogar em lama. Precisava encontrar uma forma de fugir logo ou...

— Ergam seu rosto.- ordenara aos soldados de baixa patente e eles o fizeram, rindo de seus esforços inúteis para escapar e pela lama em seu rosto e pescoço.- Não vai implorar por sua liberdade, mulher?

— ...- o silêncio fora sua resposta. Não se humilharia tanto por algo que também seria em vão. Eles não teriam piedade de si.

— Capitão...- o general chamara, entediado.- Pode colocar a focinheira e a coleira nessa cadela raivosa.

O capitão, que segurava a máscara de açoqueprenderia-a em seu rosto por tiras de couro que seriam amarradas atrás de sua cabeça, aproximou-se com um sorriso cruel e satisfeito. A garota tentara se soltar, impedir que ele colocasse tal coisa em seu rosto, porém, os soldados que lhe seguravam imobilizaram-na pelos cabelos.

— Não se preocupe, bonitinha, não vai doer tanto...- um dos soldados comentara próximo ao seu ouvido, nauseando-a.

E, quando sua atenção voltara-se para o homem que lhe provocara, o capitão forçara a máscara contra seu rosto, amarrando-a com força esmagadora, rasgando a pele por conta da pressão e permitindo que a lama em seu rosto se misturasse com o sangue dessas novas feridas. Porém, o que mais lhe desesperava era saber que não havia como fugir. Seria morta da pior forma possível e deixaria o pobre Aykos sozinho contra tanta gente odiosa.

E, sem qualquer piedade, os soldados logo afundaram seu rosto na lama novamente, o que só causou ainda mais dor nos ossos quando o aço se pressionara ainda mais, abrindo as feridas. E antes que qualquer reação pudesse ser tida, o capitão começara a acorrentá-la, prendendo as algemas com a mesma força utilizada para a máscara. E a dor agora tornara-se insuportável demais para conter o grito que tentava segurar. Um grito alto de pura dor que somente rendera risadas dos homens.

A sensação do metal era ainda mais aterradora do que qualquer pessoa tivesse descrito. E a dor que causava era tanta que chegava a ameaçar sua consciência, tentando empurrá-la para a escuridão violentamente.

— Levantem-na.- o general ordenara após momentos apreciando a dor da jovem garota. Logo fora obedecido pelos dois soldados, que arrastaram-na para perto do general. Com um cuidado estranho para alguém tão cruel, ele puxara seu queixo enquanto segurava a ponta das correntes, erguendo-o para olhar em seus olhos semi abertos, enevoados pela dor. O guerreiro não parecia ter medo de ser engolido pela profundidade daquela escuridão com somente um círculo prata para dar luz e separar a pupilas das íris.- Ela ainda pode se mover...- constatou, soltando-a e empurrando-a para frente para que andasse sozinha. Um resmungo fora sua resposta quando as correntes prensaram-se em seu pescoço, pulsos e tornozelos quando ela quase caíra.- Mexa-se.- ordenara, começando a andar ao lado dela, sempre com um olho em si para ter certeza de que não seria atacado.

*

Já fazia algumas semanas que estava presa no calabouço real, sem qualquer tipo de contato com a luz do sol ou um ar mais puro que não fedesse a cadáveres em decomposição e merda de rato.

Mal se movera nessas semanas, pois seu corpo gritava de dor toda vez que movia um músculo e, também, ainda estava acorrentada ao Ober. A máscara de aço, por piedade fingida, fora retirada no momento em que jogaram-na nessa cela para apodrecer.

Mesmo que a dor continuasse presente em cada respiração, estava começando a se acostumar com a sensação. Mal comera ou bebera nessas semanas e, quando o fazia, vomitava tudo momentos depois, deixando-a ainda mais fraca a cada dia.

Às vezes escutava a conversa de um ou outro soldado que fazia ronda no calabouço, porém, era sempre tudo muito abafado. Sua mente estava sempre em outro lugar e sua consciência oscilava constantemente. Tudo era um borrão de sons e cheiros...Estava delirando na maior parte do tempo, sabia. E sua mente estava livre para imaginar diversas coisas ruins que poderiam ter ocorrido com Aykos nesse meio tempo.

*

— Aykos...- ouvira-se murmurar certa vez, imaginando como o pobre garoto deveria estar. Em resposta, o som de uma porta se abrindo fora ouvido. Era a porta do calabouço provavelmente. Imaginava que sua sentença seria dada neste dia.

Os passos de botas pesadas ecoaram sob o chão sujo da calabouço até pararem em frente à sua cela. Ela ouvira uma fungada e um resmungo de nojo antes de erguer a cabeça por alguns poucos centímetros, somente para olhar nos olhos de quem viera lhe "visitar".

— Está num péssimo estado, cadelinha.- o general comentara, sua expressão estava endurecida. Não havia nem mesmo o esboço de um sorriso. Ele parecia diferente da última vez que o vira quando o mesmo jogara-a nessa cela, como se algo tivesse mudado em seu interior.

— ...- Sillyren sorrira para ele em resposta antes de virar a face para um lado e vomitar o que tinha em seu estômago: nada. Somente bile saíra. De ambos os lados, havia vomito que não tinha sido limpo, um pouco manchara suas calças e somente não arruinara seu cabelo, pois as correntes impediam-a de tombar por qualquer lado que fosse.- Minha morte finalmente virá?- sorrira para ele novamente, mexendo-se um pouco para se ajeitar.

— Talvez...- ele lhe sorrira dessa vez, porém, era um sorriso bem torto e que não chegava aos olhos intensos do general.- Mas antes, você precisa de um banho. Está fedendo como um porco morto.

— Talvez eu seja um porco morto, general.- fora sua resposta bem humorada e sarcástica, mas dita num sussurro fraco e quebradiço.

— É...Talvez seja.- e o silêncio reinou por breves instantes após sua concordância. O homem parecia pensar em algo com muita concentração, perdendo-se.- Já lhe adianto sua sentença, Herdeira de Hers...- começara, quebrando o silêncio e puxando-a de volta para a realidade.- Você vai passar o resto de sua vida em Diamandra.

— ...Interessante.- Sillyren somente pôde sorrir enquanto o homem saía sem mais uma única palavra ou olhar para seu estado deplorável.

Então...Faria trabalho escravo por três meses e depois morreria de fome, frio ou por infecções. Mesmo com um destino tão cruel pesando em suas costas, ela não pôde deixar de zombar do seu destino amaldiçoado desde o nascimento.

— E agora, meu Protetor?— murmurara para si com escárnio, rindo roucamente ao abaixar a cabeça em derrota.- Me deixará morrer naquele local ou terá coragem de encarar a realidade, Hers?

Notas finais
Herdeiro, Escolhido e Amaldiçoado são usados para se referir a estas mesmas pobres crianças caçadas. Só depende de que está falando. Escolhido é a nomenclatura oficial, Amaldiçoado é como a maioria dessas crianças se referem a si mesmas e Herdeiro é utilizado pelos soldados do continente de Lamur.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.