Notas iniciais
Como podem ver, essa história é uma Novel, ou seja, alguns capítulos contém ilustrações que eu mesmo desenhei. Vocês podem encontrar aqui no meu blog: http://yaoibrasileiro.wordpress.com/cold-heart-novel/ Curtam também a página do Facebook para saber mais: https://www.facebook.com/segredos.do.destino.henrique.2014

Cheguei em casa e troquei minha roupa, aquela cena do café caindo na minha roupa veio de relance em minha mente e inevitavelmente fiquei constrangido, essas coisas só acontece comigo, aquele rapaz do hospital foi bem gentil, fiquei um pouco idiota lembrando do sorriso dele que acabei tropicando no móvel do quarto.

Aii, porra.

Troquei de camiseta, peguei um pedaço da torta de limão que eu tinha feito ontem na geladeira, me joguei no sofá e liguei a televisão. Meu celular estava vibrando no meu bolso, peguei e vi que era meu amigo Rodrigo me ligando.

Oi Ro.

Porque não veio hoje para faculdade Ju?

Tive um pequeno acidente no hospital, esbarrei em um cara e derrubei o café na minha camiseta, não esperava que eu chegasse aí com uma mancha preta na roupa, né?

Ahh, a aula vai ser chato sem você... Me conta, esse cara que você esbarrou é bonito?

Rodrigo também é gay, mas ao contrário de mim ele é assumido e sua família aceitou-o super bem. Para mim ele é um amigo que eu posso confiar a minha vida e contar sempre os meus segredos e pensamentos. Sempre saímos juntos na sexta feira, meu pai o odeia e sempre tem discussão em casa quando eu saio. Rodrigo é um garoto descolado que gosta de conversar e puxar assunto com todo mundo. Ele faz faculdade de moda na mesma universidade que eu que faço faculdade de história, ele gosta de se vestir bem, fazer cortes diferentes no cabelo e seguir a tendência. Muitos amigos o incentivaram a se tornar um modelo, mas ele recusou porque seu sonho sempre foi ser estilista. Sua pele é morena, cabelo incrivelmente liso, resultado de tantas progressivas e tratamento, corpo magro e atraente.

Não... Nem tanto. – Menti.

Humm, nem tanto? – Rodrigo estava me provocando. – Nem te conto, sabe aquele rapaz da Sala 38 que veio conversar comigo?

Sei, aquele que você viu falando da gente?

Sim, aquele do cabelo raspado, eu soube pela amiga dele que ele queria ficar comigo.

Sério?? Eaí?

Sexta feira vamos nos encontrar e veremos como vai rolar, você vem né?

Eu acho que sim...

Você também devia ficar com alguém Ju, tem um monte de gente querendo ficar com você...

Não...

Não gostava quando entravamos nesse assunto, Rodrigo sempre tenta me convencer a ficar com alguém que estava interessado em mim toda sexta feira, mas ainda não estava pronto para ficar com ninguém. Era inevitável que vários rapazes gays e bissexuais que se juntavam em nosso grupo tentam uma chance comigo e eu sempre corto e saio fora. Rodrigo quando está do meu lado tenta uma chance com esses rapazes depois que eu os dispenso e algumas vezes ele consegue e outras vezes ele é simplesmente ignorado.

Ainda está bolado por causa do acidente da sua mãe? Porque não dá uma chance para alguém?

Já falamos um milhão de vezes sobre isso, Ro. Estou passando por um momento difícil...

Tudo bem... Mas tenho certeza que algum dia alguém vai te fazer mudar de ideia. Não acredito que você está desperdiçando seu dom de conquistar tanto cara.

Ri sem graça, ele estava certo, não posso negar que vários rapazes que vieram se oferecer para mim são bonitos e meu “dom” de conquistar tanto cara sem mover um dedo dava muita inveja em todos os meus amigos e as garotas em minha volta que me olham com nojo. Mas esse dom vem com um preço, eu sou motivo de cantadas na rua tanto homens quanto mulheres que é insuportável. Infelizmente por causa do “acidente” da minha mãe, eu tenho dificuldade de aceitar minha sexualidade e ficar com alguém sem sentir uma enorme culpa.

Ficamos conversando algumas horas e depois ele teve que desligar para ir para a aula e combinamos de nos ver amanhã na universidade.

Já que não fui para a faculdade e tinha o dia livre, fui à cozinha arrumar um pouco a bagunça na pia e guardei as louças. O filho da minha vizinha Mercedes estava passando na rua e me lembrei de que ela tinha me pedido para ir a casa dela pedir para o filho dela os bolinhos que tinha preparado para mim. Pensei em deixar para mais tarde, não queria incomodar o rapaz, mas resolvi ir logo.

Sequei minhas mãos com o pano de prato e fui lá fora até a casa da vizinha que mora do lado direito da minha casa e vi o filho dela abrindo a porta com a chave.

Ah... Danilo. – Chamei-o pelo portão.

Ele virou seu rosto sério para mim e não demonstrou surpresa a me ver.

Sua mãe me disse que deixou uma coisa para mim e me pediu para falar com você quando você chegasse.

Minha mãe não me disse nada. – Disse ele.

Oh... – Virei meu rosto para o lado um pouco constrangido. – Então espero sua mãe quando ela chegar e depois falo com ela sobre isso. – Olhei para ele com um sorriso gentil e me virei voltando para minha casa.

Ah, espere, acho que acabei de me lembrar, minha mãe disse que deixou uns bolinhos para você, acho...

Virei surpreso.

É isso mesmo.

Entre aí que eu pego para você. – Disse ele abrindo a porta da sua casa.

Se quiser, posso esperar por aqui, não quero incomodar.

O portão está aberto, pode entrar. – Disse ele entrando.

Tive a impressão que ele não ouviu então resolvi entrar e esperei em pé perto da porta.

Julien?

Ouvi pela cozinha a voz do Danilo me chamando, me dirigi até o corredor em frente da porta de entrada e entrei pela primeira porta da cozinha a direita, já estava acostumado a visitar a Dona Mercedes em sua casa várias vezes, então já sabia onde ficava cada cômodo. Danilo estava de costas e virou para mim.

Eu acho que é aquela cesta, minha mãe deixou ali em cima do armário. – Olhei para cima do armário onde Danilo estava apontando e realmente tinha uma cesta lá. – Já volto, se quiser pode pegar.

Danilo saiu da cozinha e foi para o seu quarto, olhei para a cesta e estranhei. Dona Mercedes é baixinha, como é possível ela ter colocado a cesta lá em cima? Poderia ter colocado lá para evitar que pegassem? Fui até o armário e me estiquei para pegar a cesta. Estava muito alta, realmente impossível que a mãe do Danilo tenha colocado a cesta naquela altura, ela é mais baixa que eu.

Não alcança?

Virei-me e vi Danilo na porta encostado com um olhar zombeteiro, minhas bochechas ficaram rosadas de vergonha.

Eu... Não alcanço... – Balbuciei.

Eu pego para você. – Ele disse vindo em minha direção querendo rir.

Me afastei envergonhado e ele pegou a cesta com facilidade, espiou por dentro do pano e me entregou.

É essa cesta mesmo.

Obrigado. – Peguei a cesta.

Detestava ser baixinho, obviamente Danilo estava achando graça daquela minha situação.

— Minha mãe reclama todo dia por ser baixinha e sempre me enche o saco pedindo para pegar alguma coisa lá no alto. – Danilo deu uma risadinha.

Aquele era a primeira vez que o vejo rindo. Aquele cara sério tinha um sorriso muito bonito.

Você não foi para faculdade? – Ele me perguntou e não pude evitar mostrar surpresa, ele estava querendo puxar assunto comigo.

— Tive que faltar, aconteceu um acidente no hospital e derrubei o café na minha camiseta.

— Sério? Que chato. – Ficamos alguns minutos em silêncio e decidi voltar para casa.

Obrigado pela cesta, diga para sua mãe que depois eu passo aqui e falo com ela. – Andei até a porta de saída.

Tudo bem, até mais tarde vizinho.

Dei uma risadinha e voltei para casa. Voltei para o sofá e degustei alguns dos bolinhos da Dona Mercedes que estavam maravilhosos e fiquei pensando no que aconteceu agora há pouco. Por um momento imaginei que a partir de hoje Danilo abriu uma brecha para ganhar minha amizade, o que é bom porque não será mais constrangedor visitar Mercedes com o filho dela andando para lá e para cá com uma expressão tão séria. A visinha sempre me contava que o filho dela vivia trancado no quarto dele quando estava em casa e passava horas no computador que a deixava preocupada, seu filho nunca demonstrou ser uma pessoa ambiciosa e parecia desinteressado em fazer qualquer faculdade, ele trabalha depois do almoço em uma empresa de advogados.

Depois de ficar satisfeito com os bolinhos que comi sentado no sofá, guardei alguns para os meus irmãos e meu pai. Fui para a cozinha preparar o almoço para os meus irmãos que logo chegariam juntos da escola.

Meu irmão Eduardo tem 14 anos e desde que a mãe entrou em coma ele consegue se virar sozinho na cozinha sem a minha ajuda e do papai, no começo foi uma grande surpresa para todos nós, mas depois nos contou que pediu para mamãe ensinar tudo que ela sabia sobre cozinhar para ele e ela ensinou muito feliz. Edu sempre gostou de cozinhar, ele me contou que sempre quis ser um chefe de cozinha e todos apoiaram sua decisão menos o meu pai que achou aquela ideia um absurdo, dizendo que cozinhar é coisa de viado. Edu gosta de deixar seu cabelo curto e bem arrepiado, seu rosto é parecido com o nosso pai com um furinho no queixo e sua altura bate bem em meu ombro. Também estuda na mesma escola que minha irmã Maggie que tem 9 anos, então sempre vão e voltam juntos da escola.

Maggie tem o rosto mais parecido comigo e com a mamãe, tem um rosto redondo e cabelos encaracolados e loiros. Infelizmente, ela ficou muito depressiva depois que soube que nossa mãe ficaria dormindo no hospital sem saber se ela iria acordar ou não. Estava ruim na escola e tiravas notas baixas, não conseguia se animar com os colegas e nem responder as perguntas da professora, passava horas chorando sozinha no intervalo. Eu tentei conversar com ela todas as noites e fazia de tudo para me divertir com ela, que no começo dava certo, mas depois ela ficava triste e perguntava sempre da mãe.

Quando encontrei nossa mãe deitada no chão, fiquei desesperado e gritei feito um louco e não vi que minha irmã estava assustada no seu quarto, aquilo se tornou uma experiência muito traumática para ela e não pude deixar de me culpar por causa disso também.

Edu nos primeiros meses sofreu por causa desse incidente, mas depois se acalmou e não ficou mais triste por causa dela. Essa atitude do meu irmão me trouxe dúvidas, imaginei que ele não tivesse mais afinidade com a nossa mãe, mas não queria perguntar nada para não deixa-lo arrasado de novo.

Eu preparei um estrogonofe de frango que era preferido da Maggie e fritei costelinhas de porco que era as preferidas do Edu, o almoço estava quase pronto quando ouvi o barulho da porta e ouvi-os chegarem.

— Não foi para a faculdade hoje, Ju? – Perguntou Edu.

— Sujei minha camiseta e tive que voltar. Aproveitei e preparei o almoço para nós.

— Sério? – Edu estava contente e foi até a cozinha se servindo.

— Maggie, como foi a escola? – Perguntei depois que a vi entrando atrás do Edu tirando a mochila das costas, ela estava com o cabelo preso.

— Foi legal... – Ela respondeu séria, estou com saudades de quando ela saía daquela porta toda alegre e louca para contar para a mamãe como foi o dia dela.

— Preparei estrogonofe de frango que você gosta.

Maggie não demonstrou felicidade nenhuma e foi até a cozinha também se servir. Eu também fiz como os meus irmãos e sentei-me à mesa com eles. Maggie estava inexpressiva, triste e comia calada sua comida.

— Maggie, como está indo a escola? Está difícil as lições? – Perguntei tentando tirar aquele silêncio desconfortante da nossa mesa.

— Não... A professora leu um livro sobre A Bela Adormecida e me lembrei da mamãe... – Contou Maggie sem olhar para os meus olhos. – Será que se o pai beijar na boca dela, ela acorda?

Maggie levantou a cabeça contente com aquela ideia.

— Maggie... – Eu disse com um meio sorriso.

— Você por acaso tem 5 anos? Isso nunca vai acontecer com a nossa mãe. – Disse Edu.

— Por que não?! – Maggie perguntou brava.

— O pai não ama mais a mãe, é por isso!

Os olhos da Maggie se encheram de lágrimas, ela pegou o seu prato e correu para o seu quarto.

— Maggie... – Chamei-a, mas ela ignorou. – Edu!

Edu comia calado e emburrado, tive a impressão que ele ficou com uma cara de criança.

— O que eu falei sobre falar assim da mãe com a Maggie? O psicólogo falou...

— Que se dane o que o psicólogo falou, a Maggie algum dia tem que aceitar que a mãe pode nunca voltar para casa e parar de criancice. – Edu estava irritado e fiquei chocado.

— Quem disse que a mãe não vai voltar? Edu, ela só está em coma, o médico disse que ela tem grande chance de acordar...

Edu largou o prato e se levantou.

— Eu vou na casa do Guto. – Edu andou as pressas até a porta da sala.

— Edu, nós ainda não terminamos a nossa conversa! – Falei no tom rude.

BAM. Depois de ouvir o barulho da porta, apoiei meu cotovelo na mesa, minha testa na mão e dei um longo suspiro.

Edu tem se comportado dessa forma bastante insensível há um tempo, eu achava que essa era sua melhor forma de superar essa dura realidade, mas esse comportamento que a cada dia piora tem me deixado bastante estressado.

Nunca gostei de ser o irmão mais velho porque desde que minha mãe nos deixou, eu ocupei o lugar dela e me tornei responsável pela educação dos meus irmãos mais novos enquanto meu pai está ausente e ocupado. Sempre desejei ser o irmão do meio porque eu seria aquele que ensina para o meu irmão mais novo e ao mesmo tempo aprende com meu irmão mais velho.

Subi até o quarto da Maggie, a porta estava fechada, antes de chegar até ela pude ouvir minha irmã chorando a soluços. Dei três batidas:

— Maggie... Posso entrar?

Não obtive resposta, coloquei minha mão na maçaneta e abri a porta que pensava que estava trancada. Entrei no quarto da Maggie que era todo azul claro com vários ursinhos de pelúcia na estante em cima de sua escrivaninha com vários livros de escola abertos, a mochila estava jogada no canto, provavelmente quando subiu ela jogou com raiva e se jogou na cama. Ela estava deitada na cama olhando para a parede com o corpo encolhido e soluçando baixinho. Meu coração doeu vê-la daquele jeito, ela é muito sensível e chora facilmente. – Vou ter uma séria conversa com meu irmão.

Sentei na cama dela e acariciei o cabelo encaracolado de minha irmã.

— Não liga para o Edu! Ele só estava te chateando, você sabe que seu irmão não gosta de conto de fadas. – Maggie parou de soluçar. – Quer saber de uma coisa? Achei muito fofo sua comparação da Bela Adormecida com a mamãe, elas são igualmente lindas.

— Sinto muita falta dela! – Confessou ela entre soluços.

— Eu sei meu amor, eu também sinto falta dela, mas você tem que ter paciência.

— O médico disse que dia que ela vai acordar? – Minha irmã virou o corpo olhando diretamente para mim agarrada no travesseiro.

— Não gosto de mentir para você, mas o médico da mamãe está com boas expectativas de que ela pode acordar logo logo!

— O que isso quer dizer?

— Que pode ser que a qualquer momento ela pode acordar. Mas prometo que quando ela acordar vai fazer uma surpresa para todos nós. – Eu mesmo me empolguei dizendo isso, minha irmã sorriu. – Mas quando mamãe voltar e souber que você ficou triste ela vai ficar muito chateada.

Dei cócegas na barriga dela e ela gargalhou bem alto.

— Agora chega de tristeza e vamos nos arrumar que vamos sair! – Me levantei e me encaminhei até a porta.

— Aonde vamos? – Perguntou minha irmã confusa.

— Vamos aproveitar que eu faltei da faculdade e tomar sorvete.

— Então tá. – Ela concordou contente.

Vesti minha camisa xadrez azul claro de mangas curtas, calça justa de jeans preta e um simples tênis preto. Não posso esquecer os acessórios que amo usar, como por exemplo, pulseiras e anéis. Coloquei três pulseiras no meu braço esquerdo e dois no direito com mais alguns simples anéis prateados.

Maggie ficou pronta antes de mim que estava uma gracinha com uma camiseta branca de mangas curtas, short azul marinho e uma sapatilha roxa com um laço preto na frente.

Peguei minha carteira, meu celular e desci com a Maggie pela escada. Deixei a porta destrancada para o caso do Edu voltar da casa do amigo.

— O Edu não vai com a gente, Ju? – Perguntou Maggie quando passamos pelo portão.

— Ele foi à casa de algum amigo dele...

Chegamos à sorveteria há cinco quadras de nossa casa, pedimos um pote grande de sorvete para nós dois e sentamos perto da porta de entrada.

— Meu colega da minha escola levou uma bronca da professora hoje, foi muito engraçado o que ele aprontou. – Contou Maggie cutucando o sorvete com a sua colher.

— O que ele fez? – Perguntei curioso.

— Ele colocou um apagador na porta da nossa sala e quando um aluno entrou, o apagador caiu na cabeça dele e a classe inteira riu. – Ela riu e eu também não pude deixar de rir também.

— Coitado do menino.

— Verdade, mas foi hilário.

— E depois?

— Ele reclamou para a professora e depois ela brigou com o meu colega que fez essa brincadeira.

— Imagino a cena.

Ficamos algum tempo conversando sobre a escola dela e degustando o sorvete todo, fiquei muito feliz de ver minha irmã se abrindo para mim como fazia alguns tempos atrás, vê-la feliz me deixou com um sentimento de alívio.

Justamente quando quase terminamos de comer o sorvete todo apareceu nossa vizinha conhecida que deve ter a mesma idade que a mamãe, um pouco gordinha, cabelo amarrado, pele morena e roupas um tanto dona de casa.

— Oi Julien e Maggie! Tudo bem com você?

— Oi Sandra. – Cumprimentei-a me levantando e beijando em seu rosto. Ela passou a mão nas costas da Maggie que retribuiu com um sorriso e voltou sua atenção ao sorvete.

— Como está a mãe de vocês?

Não acreditei que ela fez aquela pergunta perto da minha irmã que obviamente para alguém da idade dela não é bom falar sobre isso. Maggie mudou sua expressão de séria para tristeza de novo.

— Ela está melhorando a cada dia que passa. – Respondi. — O doutor disse que ela tem grande chance de acordar.

— Isso é ótimo. – Exclamou ela. – Deve ter sido difícil para vocês três.

— Sim, mas temos fé de que ela vai voltar logo. – Eu estava louco para acabar com aquele assunto, mas ela insistia em continuar.

— Estou feliz de ver vocês dois alegres aqui tomando sorvete. Me lembro que meu irmão também entrou em coma e demorou muito tempo para acordar... Quanto tempo sua mãe está em coma?

— Seis meses. – Balbuciei, não queria responder e nem falar mais sobre esse assunto perto da minha irmã, tive vontade de me levantar e sair de perto dela.

— O meu irmão demorou 2 anos acredita?

— Dona Sandra...

— Mas eu estou orgulhosa de vocês por ser fortes, eu chorava e chorava bastante pensando que meu irmão ia morrer.

— Vamos embora Maggie! – Me levantei e peguei a mão dela e deixei aquela mulher falando sozinha. Foi bom já ter pagado e poder sair direto de lá.

Maggie continuava triste, aquela megera acabou com o nosso momento nos fazendo lembrar o que estávamos tentando esquecer, senti que aquela vizinha fez de propósito.

— Maggie, se você quiser podemos ir ao parque...

— Não... Eu quero ir para casa... – Acrescentou ela desanimada.

Voltamos para casa e minha irmã voltou a se trancar no quarto dela. Suspirei e sentei no sofá pensativo.

À tarde Edu chegou com um amigo de skate no braço e usando boné – Eduardo gosta de andar de skate com seus amigos. Eu estava na sala assistindo televisão e cumprimentei-o. Tentei chamar a atenção do meu irmão, mas ele correu até seu quarto e se trancou com o seu amigo que eu nem sabia qual era o nome.

— Está fugindo de mim Eduardo, mas não vou deixar por isso mesmo. – Murmurei para mim mesmo olhando para a televisão mudando de canal.

Subi as escadas, Maggie continuava trancada em seu quarto, fui para o meu quarto mexer um pouco na internet do meu computador. Entrei em minha rede social e recebi notificações de fotos marcadas pelo meu amigo Rodrigo de quando fomos para um bar na semana passada, curti e comentei algumas bobeiras. Recebi notificações de jogos de parentes, algumas pessoas curtiram minha foto de perfil – Principalmente homens – Recebi alguns comentários, respondi, recebi mensagens privadas e respondi algumas. Uma mensagem que chamou muito a minha atenção foi a mensagem da Alícia, minha amiga do hospital, me enviou um link de um perfil com o seguinte comentário.

[Migo, encontrei o perfil do cara gato mais comentado do hospital, dá só uma olhada!]

Cliquei e ao perceber a foto de perfil, reconheci ser o mesmo cara que eu acidentalmente esbarrei hoje cedo, seu nome era Johnson Gilbert. Cliquei nas “Fotos” e depois senti uma pontada de culpa porque eu estava invadindo a privacidade do cara, porque algumas fotos ele estava sem camisa e pude notar o seu corpo definido e em seus braços dava para notar suas veias saltando. O álbum que mais me chamou a atenção foi “Minha Noiva” que tinha fotos de casamento. Era obvio que ele era casado. – Foi o que eu pensei desde que o vi pela primeira vez ou até imaginava desde que ouvi sobre ele.

A noiva dele estava bastante bonita e elegante em seu vestido de noiva em que pude notar na foto dela com o seu marido. Seu rosto era redondo, bochechas gordinhas, cabelo loiro, bastante natural, liso e amarrado para traz, com uma franja jogada para o lado que dava a ela um charme e com um rosto de Barbie. Não sabia se era por causa da maquiagem, mas a noiva era realmente muito bonita e aparentemente elegante, seu olhar era como de uma pessoa bastante vulgar e malvada, ela parecia uma atriz vilã de novela. A primeira impressão que tive é de ela ser uma pessoa desagradável, mas posso estar errado como sempre. Fora isso, os dois formam um casal muito bonito, aquelas fotos seriam ótimas para revista sobre casamento.

Embaixo da foto havia vários comentários elogiando a cerimônia, que os noivos estavam formidáveis, que estavam realmente chocados pelo que aconteceu na festa de casamento e desejaram força para o casal principalmente para a noiva.

— O que será que aconteceu? – Pensei depois de ler alguns comentários da foto que também desejaram forças para o Johnson como “Você vai se superar” “Vai dar tudo certo, tenho certeza”.

Voltei para o álbum e descobri que não tinha nenhum álbum de lua de mel como normalmente os recém-casados postam. Cheguei à conclusão de que se esse tal Johnson é bastante comentado no hospital já faz um tempo então deve ter acontecido alguma coisa nesse casamento que o levou para o hospital.

Interrompi meus pensamentos quando ouvi meu pai chegando de carro em casa e desliguei meu computador.

— Julien! – Chamou meu pai lá em baixo.

Desci as pressas pela escada e saí de casa, meu pai estava de terno abrindo o porta-malas do carro, se virou para olhar para mim.

— Julien, me ajude com essas caixas! Leve ele lá para dentro. – Ordenou ele.

Ele carregou uma caixa para dentro e eu peguei outra caixa com muita dificuldade que estava bastante pesada, fiz algumas caretas que deixava a situação cômica.

— Você é muito molenga! – Resmungou meu pai pegando a caixa dos meus braços com facilidade na sala e colocando-o no sofá.

— O que são essas caixas? – Indaguei ignorando a alfinetada de agora a pouco.

— É a papelada do escritório, tive que trazer alguns trabalhos para casa porque a secretária pediu licença... – Respondeu ele abrindo algumas caixas e revisando o material. – Você fechou a porta do carro?

— Não...

— Porque você não fechou quando tirou a caixa de lá?

— A caixa estava pesada então não deu para...

— Você é um molenga mesmo... – Repetiu meu pai.

— Ok, vou lá fechar a porta. – Recitei saindo de casa e indo até o carro.

Meu pai adorava me implicar por qualquer coisa e isso tem piorado desde que me assumi para ele. Meu pai era um homofóbico assumido e detesta os meus amigos que também são gays, ele acredita que fiquei com esse “mal” por causa de péssimas companhias. Tomas Marques, meu pai tem um rosto bastante carrancudo, de botar medo em qualquer jovem que ele encarar. Cresci com ele falando “Nunca seja um boiola como esse ridículo na televisão se não quiserem um bom cascudo” ou aquela famosa frase “Seja macho que nem seu pai moleque!”. Meu pai é jovem e tem 35 anos, quando se casou com minha mãe eles eram bem jovens, quando os dois se conheceram foram obrigados pelos seus pais a se casarem depois que minha mãe acidentalmente engravidou de mim.

Até um tempo o casamento foi feliz, os dois se amavam como qualquer outro casal. Decidira fazer mais 2 filhos, mas depois que Maggie nasceu, o relacionamento dos dois esfriou e ambos não se amavam mais. Todo dia os dois discutiam aos berros e socos sem motivo nenhum. Quando minha mãe entrou em coma, esse assunto de separação nunca mais foi mencionado e meu pai continuou conosco.

Em pensar que eu me alegrei por causa desse divórcio que me faria ficar um tempo longe das implicâncias do meu pai. Me questionava sobre esse comportamento do meu pai e porque eu nunca revidava, cheguei a conclusão de que aceitei isso como parte do meu castigo.

Terminei o jantar, minha irmã desceu se serviu e subiu levando o prato para o quarto. Edu tinha descido com o amigo que estava bastante à vontade, se serviram e subiram juntos até o seu quarto.

— Meu pai e eu nos servimos e comemos na mesa da cozinha. Na mesa não havia conversa, apenas o barulho do garfo batendo nos pratos. Eu estava com vontade de falar sobre a mamãe do comportamento do Eduardo para ele.

— A Maggie me contou que acredita que a mãe é uma bela adormecida e se você beijá-la, ela acordará... – Relatei como se fosse uma criança contando o dia que tive.

Ele não respondeu, continuou comendo com uma cara séria de sempre.

— Pai... O Eduardo tem se comportado mal de novo.

— Ele ainda está abalado por causa da mãe. – Disse sem expressar nenhuma reação.

— Sim... Mas ele tem reagido estranho esses últimos dias, não tem como o senhor falar com ele?

— Olha filho, desde que sua mãe não está mais aqui, você se tornou o responsável por esses dois. – Ele largou o garfo, cruzou os dedos perto da boca com os cotovelos na mesa olhando para mim.

— Eles não querem que eu dê atenção a eles e é você que é o pai dele! Eu não posso me tornar pai e mãe deles se eu também preciso de atenção dos meus pais e viver minha própria vida.

— Esqueceu o porquê que sua mãe está naquela cama?

Aquilo me atingiu como uma facada no peito, ele me culpa pelo que aconteceu com a minha mãe sem dúvidas nenhuma.

— Primeiramente, você tem o dever de dar atenção para a sua família! Não admito que você vire as costas para os seus irmãos e se jogue nesse mundinho sujo de viados. – Me levantei bruscamente da mesa e encaminhei até a porta. – EU AINDA NÃO ACABEI. – Parei de andar. – Eu estou de olho em você! Está me entendendo?

Eu virei para olhar para ele também sério.

— Eu sei pai. Preciso me arrumar para acordar amanhã. Boa noite! – Subi a escada e fui para o meu quarto e me tranquei.

Respirei bem fundo. Não posso chorar. Comecei a arrumar meu quarto para me distrair. Não vou chorar. Respirei fundo de novo. Ouvi o barulho da porta do quarto do meu irmão que era em frente ao meu quarto. Saí, Edu estava com o amigo na frente da porta do quarto dos meus pais. Provavelmente Edu foi falar com o nosso pai.

— Valeu paizão! – Exclamou meu irmão voltando para o quarto com o amigo seguindo-o.

— Eduardo, precisamos conversar agora! – Principiei eu.

— Agora não dá! Vou arrumar o quarto para o Leo se instalar, porque o pai o deixou passar a noite aqui e vamos jogar video game até tarde. – Retrucou ele.

— Ah... Tudo bem. Mas ainda preciso falar com você... – Insisti.

— Amanhã Ju! Agora não! Vamos Leo! – Edu entrou em seu quarto junto com o amigo e fechou a porta.

Não acreditei quando Edu fechou a porta na minha cara. Meu irmão está zangado comigo? Eu sei que estava sendo chato, mas só queria conversar. O que mais me impressionei também é meu pai não ter falado nada para o meu irmão sabendo que pedi para dar um sermão nele. Afinal, sempre soube que ele fosse o filho preferido do pai. Entrei em meu quarto com uma leve dor de cabeça.

Já estava na hora de dormir, escovei meus dentes e me joguei na minha cama. Antes de apagar fiquei pensando em mil coisas. Meu irmão, minha irmã, meu pai, minha mãe e até naquele cara do hospital que esbarrei acidentalmente e adormeci.

Eu estava andando no corredor do hospital da minha mãe como faço todos os dias, decorei todos os caminhos do hospital que é enorme e por dentro é muito parecido com um labirinto totalmente branco. Quando vejo aquele homem que eu descobri que se chama Johnson estava vindo em minha direção.

— Ei você! – Ele estava chamando a minha atenção. – Seu viadinho! – Prosseguiu aquele homem com uma expressão de deboche no seu rosto.

Ele pegou meu pescoço com aquelas mãos enorme e me jogou na parede violentamente com fúria, não senti dor, mas estava em estado de choque.

— Está com medo de mim? Eu sei que você gostou de olhar para minha foto no computador.

— Me solte! Ugh! Me solte! – Gritei desesperado olhando para todos os lado procurando por ajuda, foi quando percebi que meu pai estava no corredor olhando para nós com os braços cruzados e expressão de nojo no rosto. – Pai! Socorro! Me ajude! – Ele não mexeu nenhum músculo, só continuou olhando para mim.

Meu rosto estava de lado olhando para o meu pai, eu estava respirando muito rápido, aquele homem que estava segurando meu pescoço aproximou seu rosto perto da minha orelha e o lambeu, fechei meus olhos de vergonha e abri logo em seguida pensando.

“Meu pai está vendo!”

Mas ele não estava mais lá olhando para nós, olhei para frente e vi que não era mais o homem de cabelos ondulados, era o meu pai.

— VOCÊ ME ENVERGONHA! AGORA SEU PAI VAI TE ENSINAR COMO SER HOMEM!

Acordei em um pulo na cama encharcado de suor e respirando freneticamente. Coloquei minha mão no pescoço, estava sentindo certo desconforto, mas ninguém tinha me enforcado de verdade. Levantei da cama e desci até a cozinha para beber um pouco de água, fiquei aliviado que aquilo era apenas um pesadelo. Foi muito assustador.

Subi de volta para o meu quarto, parei na porta quando ouvi cochichos no quarto do Edu. Ainda estão acordados até essa hora?

“Fique quieto... Tem alguém no corredor...”

Estranhei e voltei para a cama, tentando esquecer aquele pesadelo e pensando em outra coisa. O que estaria aprontando Edu e o amigo no quarto? Olhei para o relógio digital que eram 3:15 da madrugada e dormi com esses pensamentos.

FIM DO CAPÍTULO 02

Continua...