Notas iniciais
Como podem ver, essa história é uma Novel, ou seja, alguns capítulos contém ilustrações que eu mesmo desenhei. Vocês podem encontrar aqui no meu blog: http://yaoibrasileiro.wordpress.com/cold-heart-novel/ Curtam também a página do Facebook para saber mais: https://www.facebook.com/segredos.do.destino.henrique.2014

Na quinta-feira de manhã eu acordei mais tranquilo, desliguei o despertador que me acordou, lavei o meu rosto no meu banheiro, arrumei meu cabelo e desci para preparar o café para todo mundo. Normalmente eu era o último a sair, meu pai vai para o escritório e levava meus irmãos de carro até a escola e eu vou de ônibus ao hospital e depois para a faculdade.

Naquela manhã me deu vontade de sair de casa primeiro que todos, pois eu não estava com cabeça para ver o meu pai e nem os meus irmãos. Tomei meu banho, escovei meus dentes, me arrumei, saí de casa e segui até o ponto de ônibus. Encontrei algumas pessoas, nesse caminho não me encontrei com a Mercedes como sempre e nem o André, o garoto que conheci no ônibus, peguei o ônibus e esperei até chegar ao hospital.

Chegando à recepção, uma mulher que eu não conhecia me atendeu. A outra mulher que eu conheço e me atende normalmente deve trabalhar no turno depois dela.

— Bom dia! – Cumprimentou ela.

— Bom dia! Vim visitar minha mãe Marieta Marques, eu venho todo dia, mas hoje eu resolvi vir mais cedo.

— Ah, tudo bem. Qual é o seu nome?

— Julien Marques, eu sou o filho dela.

A moça mexeu no computador, digitou e olhou atenta para a tela depois autorizou minha entrada para o segurança que estava na porta.

— Fique a vontade. – Disse ela apontando para a porta onde eu deveria seguir.

Agradeci a recepcionista e encaminhei até o quarto a minha mãe.

No quarto dela estava uma enfermeira de 50 anos com uma prancheta na mão anotando.

— Bom dia! – Cumprimentei-a fechando a porta, ela olhou para mim.

— Bom dia! Você é? – Perguntou ela.

— Eu sou Julien Marques, o filho dela. – Estiquei minha mão para a enfermeira.

— Prazer Julien, eu sou Andreia Carla. – Ela apertou minha mão com um sorriso gentil. – Eu sou a nova enfermeira da sua mãe, a Joana tirou licença.

— Ah, entendo. Como minha mãe está hoje?

— Está muito bem, ela é uma mulher forte. – Disse olhando para minha mãe.

Sorri e puxei uma cadeira para perto dela, me sentei e segurei em sua mão. Não tirava meus olhos do rosto dormindo dela.

— Tem razão... Minha mãe é uma mulher forte. – Disse eu beijando sua mão.

Algumas horas depois de conversar com a enfermeira, fui pegar um pouco de café na garrafa térmica que fica ao lado do bebedouro. No meio do caminho encontrei um homem de cabelos ondulados de costas rodeado com várias enfermeiras rindo e conversando. Passei entre elas e ouvi o mesmo rapaz se despedindo das enfermeiras e indo até minha direção chamando minha atenção.

— Ei rapaz!

Parei de andar e virei para saber quem me chamava. Estava na minha frente o homem que derrubou o café na minha roupa, ele estava de camiseta branca um pouco justa em seu corpo grande e musculoso. Como nas fotos dele que vi na internet, pude perceber seus braços fortes e também grandes com algumas veias saltando, usava uma calça jeans verde.

— Me desculpe por ontem do café. – Principiou ele.

— Não se preocupe, não foi nada demais.

— O café não te queimou?

— Por sorte que não, o café estava frio.

— Ainda assim me sinto culpado pelo ocorrido. Deixe-me te recompensar. – Insistiu ele.

— Não se incomode, já disse que está tudo bem, a culpa foi minha... – Me virei para ir embora. – Com licença.

— Ei, eu estava indo agora para a lanchonete aqui perto, quer vir comigo? – Convidou ele.

— Não vai dar, eu logo tenho que ir para a faculdade.

— É rapidinho, comemos umas besteirinhas. Eu insisto.

— Se for rápido tudo bem. – Me rendi.

— Eu sou Johnson e você? – Disse ele esticando sua mão enorme para mim.

— Julien. – Apertei a mão dele e notei uma aliança, ele apertou forte a minha quase quebrando os ossos dela. Demonstrei um sorriso sem graça e ele não pareceu notar.

Fomos a uma lanchonete que fica do lado esquerdo da entrada do hospital que por sorte não tinha muita gente e sentamos perto da janela de vidro.

— Então Julien. – Começou Johnson olhando para mim. – Soube que você vem há bastante tempo aqui no hospital. – Assenti com a cabeça. – Visita?

— Eu venho todos os dias visitar a minha mãe nesse hospital e depois vou para a minha faculdade. – Respondi.

— Ela está bem?

— Infelizmente está em coma.

— Sinto muito. – Respondeu com um rosto sério e preocupado. – Há quanto tempo?

— Já faz seis meses... – Expressei sem emoção.

— Se você não quiser mais falar sobre isso, eu paro de perguntar.

— Não! Não se preocupe, por mim está tudo bem.

— O que desejam? – Perguntou um rapaz que trabalha na lanchonete com um caderninho na mão.

Ele estava com um uniforme amarelo com o logo da lanchonete no peito direito. O rapaz era moreno com cabelos bem curtos jogados para o lado.

— Eu gostaria de um refrigerante de guaraná. – Pedi.

— Traga para mim também um refrigerante, mas de coca-cola e um desses lanches que está aqui no cardápio. – Johnson pediu apontando para o menu. – Por favor, Julien, não conte para o meu personal trainer porque se ele descobrir que estou comendo gordura ele me mata.

Nós rimos, Johnson mostrou uma fileira de dentes muito bonito e muito bem alinhado. Até o garçom caiu na graça e mostrou um belo sorriso tímido e sem graça. Eu estava achando aquilo muito fofo.

— Ok, logo trago para vocês. Com licença. – Se retirou ele.

— Temos algo muito em comum Julien. – Prosseguiu Johnson.

— Como assim? – Perguntei.

— Eu também venho visitar a bastante tempo uma pessoa que também está em coma. – Disse ele sério.

— Sério? Eu... Sinto muito. – Juntei minhas mãos em cima da mesa e fiquei olhando para elas depois de alguns segundos. – Quem é? – Perguntei mesmo sabendo qual será a resposta.

— Minha mulher. – Declarou ele olhando para mim, pude notar em seus olhos um sentimento de culpa.

Confirmei minhas suspeitas, aquela mulher da foto de casamento dele que estava em coma.

— Há quanto tempo sua mãe está em coma? – Perguntou Johnson interessado.

— Há 6 meses. – Relatei.

— O que aconteceu?

— Ela... Sofreu acidente de carro. – Menti.

— Minha mulher também sofreu acidente de carro, isso já foi a 2 anos atrás. Depois da festa do nosso casamento ela correu na rua e foi atropelada por um carro que estava correndo, suspeitaram que o motorista estivesse embriagado.

Fiquei surpreso com aquele relato, aquela pobre mulher está em coma a mais tempo que minha mãe e isso podem trazer sequelas graves quando ela acordar. Fiquei com pena do Johnson, eu entendi o que ele estava passando já que ambos passamos pela mesma coisa.

— Eu... Realmente sinto muito Johnson... – Balbuciei.

— Aqui está. – Disse o garçom trazendo nossos refrigerantes e o lanche do Johnson.

— Valeu cara. – Agradeceu Johnson para o rapaz tímido que se retirou com satisfação.

— Por que só ouvi falar de você nesse hospital esse mês? – Indaguei tomando um gole do refrigerante no canudinho e Johnson estava dando uma grande mordida em seu lanche.

— Eu casei em outra cidade, minha mulher ficou internada lá um tempo. Eu decidi trazer ela para cá, para perto de casa e da família.

— Entendo.

— Deve ser difícil para você e sua família sobre sua mãe... – Disse ele olhando para mim com um olhar de ternura.

— No começo foi bastante difícil, principalmente para os meus irmãos mais novos.

— Você tem irmãos? – Indagou ele curioso.

— Tenho. Uma irmã de 10 anos e um irmão de 15.

— E você tem?

— 22.

— Sério? – Perguntou Johnson me encarando achando que eu estava brincando com ele.

— Verdade. Por que a surpresa? – Indaguei.

— É que não parece que você tem 22 anos. Parece ser bem menos que isso.

— Obrigado. – Sorri envergonhado com o comentário e chupei o canudo.

— Está namorando?

— Não... Por enquanto não estou pensando nisso.

Olhei para o meu celular e faltava uma hora para ir para a faculdade.

— Me passa seu número e depois combinamos de nos encontrar por aí, quero te apresentar aos meus amigos. – Pediu Johnson pegando o seu celular no bolso.

Normalmente eu não passo meu número a ninguém, principalmente os caras que dão em cima de mim. Mas Johnson era exceção, pois estava sendo amigável e não estava com segundas intenções. Seria praticamente impossível esse cara ser gay, ele é recém-casado que por maldade do destino não está nesse momento em lua de mel com sua esposa. Passei o meu número para ele e ele me passou o dele.

Gostei de conhecer o Johnson, ele é um cara encantador e muito gentil, além de bonito mostra um sorriso galante e um humor cativante. Ele é tão bonito quanto um galã de novela.

Coversamos um pouco há mais de meia hora, Johnson me contou um pouco mais de sua vida. Soube que a família dele é bem conhecida na cidade de onde ele veio e bastante rica. A mulher com quem ele se casou é filha de um grande empresário também muito conhecido e amigo da família dele. Johnson tem um meio-irmão, um ano mais velho que ele.

— Somos irmãos do mesmo pai e nunca o vi como irmão bastardo, sempre foi o meu mais amado mano. – Contou ele. – Vivemos juntos desde pequenos com nosso pai e minha mãe.

— E a mãe ele? – Perguntei curioso.

— Ela mora em outro país e deixou o filho com o nosso pai. Aquela mulher é muito egoísta e minha mãe a odeia.

— Entendo. – Disse ouvindo tudo com muita curiosidade.

— Desde que minha mulher entrou em coma, Daniel foi um grande irmão para mim.

— Apoio de família e de amigos é sempre reconfortante em momentos como esse. – Complementei.

— Concordo Julien.

Johnson olhava para mim com um olhar feliz, tive impressão de que ele estava gostando de conversar comigo sobre sua vida. Não me importei, porque senti que ele estava precisando de um amigo para conversar, ele deve ter sofrido muito ao ver sua amada mulher entrar em coma bem depois do casamento.

— Falei demais de mim, você deve estar me achando um tagarela. – Disse ele em tom de brincadeira.

— Claro que não, te acho divertido.

— Valeu. – Disse ele sem graça. Nesse momento me senti afetado pelo sorriso gentil dele, ele realmente era um rapaz muito bonito.

— Bom... Acho que já está na hora de eu ir pro meu ponto. – Disse pegando minha bolsa e depois tirando o dinheiro.

— Não se incomode que eu pago. – Falou Johnson limpando a boca com o lenço de papel e tirando a carteira do bolso.

— Não posso aceitar, deixa que eu pague.

— Eu faço questão. – Disse já colocando as notas na mesa. – Eu também estou saindo, quer uma carona?

— Não precisa, vou de ônibus. – Levantei da mesa colocando a bolsa no meu ombro.

— Assim você não precisa esperar no ponto e te levo direto para lá, vamos, vai ser rápido. – Insistiu ele.

— Já estou acostumado de ônibus. Foi um prazer te conhecer Johnson. – Estiquei minha mão para ele com um sorriso.

— igualmente Julien. – Ele levantou e apertou minha mão forte novamente se curvando um pouco para mim. – Na próxima vez que nos encontrarmos eu te levo no meu carro!

Dei uma risadinha e ia dizer uma coisa, mas Johnson não esperou eu responder e avisou ao garçom que o dinheiro já estava na mesa junto com a conta. Meu ponto estava alguns metros longe da entrada do hospital. Enquanto eu esperava sozinho no banco, na rua passou um carro andando devagar, o motorista passou me acenando. Retribui o aceno do Johnson com um sorriso e o carro foi embora.

Cheguei à faculdade já esperando me encontrar com o Rodrigo na porta me esperando como combinamos alguns minutos atrás no whatsapp.

— Oi Ju! – Cumprimentou Rodrigo me vendo descendo do ônibus.

— Oi Ro, tudo bem? – Abracei meu amigo.

— Você não sabe da última novidade que tenho para te contar.

— Conta logo!

— O Michel vai voltar para a cidade! – Disse Rodrigo feliz como uma criança.

— Sério? – Respondi surpreso e feliz. – Que ótimo! Faz tempo que não nos vemos, que saudades dele.

Michel é meu grande amigo como o Rodrigo que também é assumidamente gay. Conheci-o na época de colegial pelo Rodrigo quando estudamos na mesma escola quando tínhamos 15 anos. Lembro-me daquela época de quando o vi pela primeira vez, fiquei impressionado com seu corpo magro, roupas pretas, correntes na calça, tachas nas camisetas e botas pretas, sem contar a enorme caveira estampada em suas costas, seu cabelo era liso e grande que cobria um de seus olhos frios e arrepiado para trás. Antes de Rodrigo me apresentá-lo, Michel era bastante conhecido na escola como o “garoto esquisito” ou “estudante zumbi”. Quando perguntei para o meu amigo quem era, ele me respondeu que o tal garoto era muito divertido e engraçado, fiquei tão curioso em conhecê-lo que Rodrigo me prometeu apresentá-lo depois que falasse com ele.

Chegando o tão esperado dia, Michel não demonstrou qualquer interesse em me conhecer e a primeira impressão que tive dele foi que ele não gostasse de mim.

Michel era um garoto muito sério e não cumprimentava ninguém, Rodrigo me contou que ele já foi para a diretoria várias vezes por não responder as perguntas das professoras e agredir garotos maiores que ele. O mais incrível é que ele sai ileso e os brutamontes terminam a briga com arranhões no rosto e machucados. Todos se perguntavam como um garoto magricela como Michel derrotava os garotos mais “fodões” do colégio. Rodrigo me revelou que o segredo dele era as aulas de luta livre que ele pratica há bastante tempo. Minha admiração por ele aumentava a cada vez que eu o conhecia, mas me incomodava com seu comportamento de desconforto com a minha presença.

Tudo mudou quando corri chorando nos braços do Rodrigo contando que dois moleques mais velhos mexeram comigo, eu estava tremendo de tão assustado. Michel que estava ao lado estava com uma expressão de raiva olhando para mim e me perguntou aonde me agrediram, respondi que foi na entrada da escola há alguns minutos atrás e foi um garoto gordinho com outro garoto alto magro de boné. Quando mal terminei de completar a frase, Michel saiu em disparada até o portão, Rodrigo chamou a atenção dele perguntando aonde ele iria, mas foi ignorado. Eu e meu melhor amigo nos encaramos e fomo atrás dele, quando chegamos encontramos o garoto magro caído de costas no chão limpando o nariz sangrando, o garoto gordinho estava ajoelhado no chão com cara de dor, Michel estava atrás dele mobilizando seu braço.

— Responda! Acha isso engraçado? – Disse Michel em fúria. – Gosta quando faz isso com meninos menores que você?! Hein? Eu estou amando fazer isso com você!

— Ai! Ai! Desculpa! Eu não faço mais, não faço mais! – Gritou o garoto desesperado.

— É bom que não faça mesmo, porque se eu descobri que você mexeu com aquele garoto... – Michel apontou para mim que estava olhando aquela cena em estado de choque. – Ou mexer com qualquer garotinho, pode garantir que não vou pegar leve com você e nem com aquele imbecil do seu amigo e quebro seu braço! Entendeu?! Responda!

— Sim! Sim!

Michel deu um empurrão no garoto que caiu no chão igual a um saco de batata e os outros estudantes que estavam ali assistindo o espetáculo foram se dissipando.

Rodrigo esteve gritando vivas de alegria a favor do Michel e eu fiquei sem o que dizer.

Infelizmente aqueles garotos reclamaram para o diretor e o garoto punk levou suspensão. Fiquei esperando ele sair da sala para falar com ele com um sentimento de culpa.

— Des... Desculpe por ter te metido em encrenca! – Balbuciei com os meus olhos fechados e chorando. – Eu... Eu vou falar com o diretor e dizer que eu fui o culpado de tudo!

— Você não vai dizer nada! – Retrucou Michel olhando para mim. – Se o diretor ficar sabendo que eu menti, vou ficar mais fodido ainda.

— Mentiu?

— Eu disse que aqueles babacas mexeram comigo e dei uma lição neles.

— Desculpe. – Murmurei fitando o chão, mais lágrimas rolaram nas minhas bochechas.

— Não me peça desculpa, apenas me agradeça! – Resmungou ele.

— Muito obrigado! – Expressei envergonhado. – Eu pensei que você me odiava...

— Eu não te odiava, só não gostava da sua personalidade! Você é muito sentimental e chora por tudo, isso me irrita. – Reclamou Michel, eu o olhei surpreso com sua sinceridade. – Você tem que parar de chorar e lutar contra esses panacas! Escute o que eu digo, chorar faz você parecer um fraco. Não espere que o mundo seja mais gentil com você, acredite. Viemos nesse mundo para passar por dificuldades e se você não lutar vai sofrer o resto da sua vida nas mãos desses idiotas.

Eu olhava para o Michel diferente, minha admiração por ele aumentou desde que o vi pela primeira vez. Ele era uma pessoa forte e não só na força física, mas de espírito, desde aquele dia quis ser como ele e prometi a mim mesmo que nunca mais eu iria chorar e demonstrar minhas fraquezas para ninguém.

— Você ainda não gosta de mim? – Perguntei para ele.

— Gosto. Por um lado eu acho você fofo.

Sorri de contente por ouvir um elogio da pessoa que eu admirava que futuramente irá se tornar o meu melhor amigo assim como o Rodrigo se tornou.

— Até acho bom ficar em suspensão! Vou ficar três dias em casa. – Disse Michel cruzando os braços e relaxando na parede.

Michel se abriu mais comigo com o tempo.

— Combinamos de nos encontrar juntos na sexta feira. – Prosseguiu Rodrigo. – Vai ser ótimo nós três juntos de novo como antes.

— Estou muito ansioso! – Exclamei.

— Olha aquele garoto ali, Ju. – Rodrigo me cutucou e apontou para um rapaz conversando com seu amigo.

— É ele?

— Sim! O nome dele é Vinícius. Não é gatinho? – Indagou ele com entusiasmo

O garoto que o Ro me mostrou era aparentemente bonito, um pouquinho mais alto que nós dois que temos a mesma altura, sua barba era rasa revelando um cinza, tinha um olhar brincalhão, cabelo raspado, um corpo normal, camiseta vermelha e branca, short jeans, notei que ele tinha pernas peludas.

— É bonito mesmo. Boa sorte para você!

— Você também, Ju. Está precisando ficar com alguém também!

— Nem pensar!

— Seu chato! – Rodrigo deu um soco de leve no meu ombro e ambos rimos.

Chegamos à minha sala e nos despedimos combinando de nos encontrar mais tarde na hora do almoço.

O meu dia foi normal, mas estava cansado e me joguei na minha cama deixando a bolsa em cima do meu notebook. Quando cheguei, meus irmãos já haviam almoçado e se trancado em seus quartos como sempre. Deitado em minha cama não deixei de pensar no Johnson. Eu estava enganado quanto a ele quando o vi, julguei mal pela capa. Mesmo ele sendo muito bonito, não me vejo atraído por ele e nem com vontade de tê-lo em meus braços como muitas mulheres pensam por aí.

— Imagine se Rodrigo o ver, vai ficar louco. – Pensei.

Penso em Johnson como um bom amigo que pretendo levar a vida toda sem segundas intenções, aliás, eu não sou um mocinho da novela e o Johnson o galã que vai ficar perdidamente apaixonado por mim. Engraçado eu pensar assim, porque será que pensei que Johnson seria o personagem principal se tenho tantos pretendentes por aí? Que autor usaria um personagem como eu que é tão chato e sem graça e nem ao menos consegue ficar com um cara sem que a culpa dentro de mim me incomode? Minhas pálpebras estavam pesando, fechei meus olhos e dormi.

Acordei com o barulho da campainha, desci as pressas pela escada resmungando.

— Porque que os preguiçosos do meu irmão não atendem a porta?

Abri a porta e fiquei de frente com o filho da visinha que estava com uma camiseta preta justa, short preto e com o cabelo jogado para trás.

— Oi Julien. – O cheiro de perfume dele invadiu meu nariz, era um cheiro bom.

— Oi Danilo, por favor, entre. – Convidei.

— Eu queria te pedir para ir lá em casa, porque quero te mostrar uma coisa.

— Ok. – Saí e fechei a porta.

Fomos até a sua casa e eu estava morrendo de curiosidade, era a primeira vez que ele me chamava para ir á casa dele, a não ser a mãe dele.

— Vamos para o meu quarto. – Disse Danilo quando entramos na sala.

Era a primeira vez que entrava no quarto do Danilo, sempre passei por aquele corredor e a porta ficava fechada. O quarto era grande e azul com teto branco, guarda-roupa de 6 portas e 3 gavetas da cor cinza e preto, a cama estava bagunçada com o edredom jogado para o lado, tinha uma guitarra no canto do cômodo com uma caixa de som preta perto de uma porta que supus que seria o banheiro.

— Minha mãe me disse que você está fazendo faculdade de história, certo? – Indagou Danilo.

— Faço sim.

— Eu tenho um amigo que gosta de colecionar fotos, ele tem várias fotografias antigas. Quando ele me mostrou a coleção dele, comentei para ele que eu tinha um amigo que fazia faculdade de história. Minha mãe comentou também que você gostava de estudar com arquivos antigos, né? – Eu assenti.

Eu não sabia se ficava surpreso pelo Danilo ter me chamado de amigo ou por ele saber um pouco sobre mim.

— Meu amigo me ofereceu algumas fotos para dar para você. – Prosseguiu Danilo.

— Sério?

— Sim. – Danilo abriu a gaveta da sua mesa e tirou um envelope um pouco gordinho.

Quando o abri, tirei várias fotos de 10x20 cm, cada um estava em um plástico que presumi ser um meio de preservar o arquivo. Ao bater o olho naquele documento meus olhos brilharam e meu coração deu pulos de alegria, sorri feito uma criança ganhando um presente de natal. Estava segurando um registro da nossa cidade nos anos 1870 até 1920 tiradas no alto que dava para ver várias casas antigas, prédios com estruturas clássicas e janelas com torres com muitos detalhes, Igrejas de duas torres com sinos enormes, vários homens nas ruas com ternos e chapeis e mulheres com vestido e chapéu florido, carros que pareciam carroça, comerciantes carregando frutas em seu carrinho de mão. Outra foto que também me fascinou registrava um porto com várias pessoas perto do mar, barcos com mercadorias e casarões no fundo.

Olhei para o Danilo muito contente com um sorriso de orelha a orelha, agradecendo pelo presente. Danilo ficou sem graça.

— Eu vou ao banheiro... Já volto... Fique a vontade, Julien. – Balbuciou Danilo saindo de seu quarto.

Olhava uma foto e outra com bastante entusiasmo que nem percebi que o Danilo estranhamento não usou o banheiro do seu quarto que era aqui do lado. Sentei na mesa do computador e coloquei as fotos na mesa. Foi que nesse momento vi embaixo da mesa onde fica o teclado um pedaço de um papel para fora, não pude evitar minha curiosidade, pois consegui ver em um canto de um desenho feito com lápis uma mão muito bem feita. Puxei para mais perto de mim, quando consegui ver pela metade me espantei com a beleza do desenho de uma mulher que no começo acabei me confundindo com um rascunho de obras do renascimento, as sombras pintadas com lápis ficaram maravilhosas. Puxei mais um pouco para ver rosto da mulher e derrubei um monte de folhas que estavam embaixo desse desenho quase cobrindo o chão inteiro de papéis.

— Puts!

Me senti como uma criança que acabou de aprontar e sabe que vai receber uma bronca da mãe, me joguei no chão desesperado começando a recolher as folhas antes do Danilo aparecer. Mesmo com o coração na mão, parei de recolher surpreso com outro desenho de uma mulher deitada na cama nua, mas não me impressionei com sua nudez, mas com a perfeição dos detalhes de cada parte do corpo, sombreamento nos lugares certos, a expressão da mulher relaxada e sem preocupação. Havia vários desenhos assim, até que notei um desenho no meio de vários papéis um pedaço de um corpo de um homem que também estava muito bem desenhado, eu estiquei minha mão para pegá-lo.

— Mas que merda você está fazendo?

Levei um susto e olhei para a porta, Danilo estava olhando para mim chocado, como se tivesse sido pego tomando banho ou trocando de roupa, como se eu tivesse invadindo sua privacidade. Meu coração acelerou e pela primeira vez vi a expressão de desespero do Danilo.

FIM DO CAPÍTULO 03

Continua...