Cold Dream
1 I
Notas iniciais
Moscou, CI edição do Campeonato Mundial de Patinação Artística no Gelo, 2011.
Livre. O vento em seu rosto; o sangue correndo em suas veias. Aquela sensação era inigualável. Podia sentir-se como um tigre correndo por uma floresta, como um pássaro voando pelo céu. Sim, ela era livre e infinita. Naquele momento, Thalia era exatamente o que queria.
Sentiu seu corpo queimar, a dor não poderia ser descrevida. O mundo parou de girar como estava acostumada, ela perdera o controle. Suas asas caíram; a floresta desaparecera. E, antes de chegar ao chão, só conseguia pensar em voltar para onde antes estava seu paraíso.
✧❃✧
Thalia acordou. Sua cabeça latejava e ela não conhecia o lugar que estava. Olhou para o lado, seu pai, sua treinadora e suas colegas de equipe estavam ali. O homem sorriu e as garotas tentaram, mas tinham um semblante triste no rosto.
– O que aconteceu? – Perguntou, tentando se sentar. E, nesse momento, percebeu que suas pernas não obedeciam aos seus comandos. Prendendo a respiração, olhou para elas. Ambas estavam engessadas. Prendeu a respiração, e com voz dolorosa, sussurrou: – Minhas pernas!
– Filha... – Seu pai colocou a mão em seu ombro, tentando acalmá-la. – Estava perfeita, a falha não foi sua. Havia uma irregularidade no gelo. Eles não perceberam. Seus patins se prenderam, eu sinto muito.
– Está tudo bem, não é a primeira vez que quebro nenhuma das duas. – Sorriu, pensando positivo. Seria apenas esperar que ambas melhorassem, então poderia voltar no ano seguinte e ganhar, afinal, a falha não havia sido dela. Como seu pai disse, ela estava perfeita. – Quanto tempo até melhorarem? Três meses?
– Não. – O homem suspirou. Realmente não queria ser ele a dar a notícia, mas não havia outra opção. – Filha, mesmo quando retirarem o gesso, você não poderá mais fazer esforço com a perna. Eles acreditam até na possibilidade de usar cadeira de rodas por um tempo.
– Não! – Arregalou os olhos e passou-os por cada pessoa naquela sala. Todos desviaram o olhar. – Não! Não! Não! Não! Definitivamente não! Isso só pode ser brincadeira! Diga-me que é pai! Por favor, fale que só está brincando, que eu posso me apresentar no ano que vem e no seguinte e no outro depois dele! Por favor! Por...
Ela caiu em um choro dolorido, não fisicamente. Seu coração fora partido, e vê-la chorando daquela maneira machucava todos naquela sala. Suas colegas sabiam a dor que estava passando, apenas pensar em estar no lugar dela já as fazia querer chorar. E sua treinadora, que acompanhou aquela pequena garotinha se tornar a mulher talentosa que era, ver seu sonho despedaçar-se assim a destruía. Ninguém tentou confortá-la, sabiam que qualquer coisa apenas pioraria a situação. Deixaram-na chorar tudo o que precisava, quebrando-se cada vez mais.
Nova Iorque, outono de 2012.
– Está pronta para finalmente sair dessa cadeira de rodas, querida? – Zeus perguntou, entrando no quatro da filha. Ao contrário do que esperava, ela não tinha um sorriso no rosto, aliás, parecia mais triste do que ficara o ano inteiro. – O que foi filha?
– Eu acho que todo esse tempo estive usando essa cadeira de rodas como desculpa para mim mesma. Acho que eu estava conformada até agora por causa da cadeira. – Ela olhou para ele com o azul dos olhos quase apagado. Tudo o que o homem mais queria era ver a filha com aquele brilho nos olhos de novo, mas sabia que isso não voltaria se ela nunca mais pudesse pisar em uma pista de patinação novamente. – Mas, podendo andar sozinha de novo, nada vai estar entre mim e a patinação a não ser eu mesma, e isso dói.
– Não fale isso, minha querida. – Ele se aproximou de sua filha. – Pense que vai poder andar novamente, vai poder sair com seus amigos, ir aos lugares sem depender de ninguém. Será independente de novo, meu amor.
– É, acho que sim. – Sorriu. – Obrigada pai.
Nos últimos dois meses, o médico disse que Thalia já estava apta a andar, mas precisaria treinar com muletas antes, pelo tempo que passou com a perna parada. As cinco primeiras semanas que tentara, duas horas por dia, foram incrivelmente dolorosas, mas logo Thalia foi se acostumando e agora já não sentia dor nenhuma. O doutor Apolo declarou que ela já poderia se livrar da cadeira.
Ele bateu na porta e entrou, sorrindo. Apolo era primo de Thalia, e acompanhara todo seu tratamento desde o início. Vira de um ponto médico toda a dor da garota, mental e física. O homem ajudou-a a se levantar e dar os dois primeiros passos, então a deixou sozinha. Thalia ainda tinha certa dificuldade em se equilibrar, por isso precisava sempre de um apoio, mas logo não seria mais necessário. Então, ele iniciou uma série de exercícios que ajudou ela a se acostumar.
✧❃✧
– Vamos Lia, você precisa socializar, se divertir um pouco! – Annabeth sorriu. – Eu juro que se não estiver gostando te trago em casa de volta!
Thalia se sentiu na cama, suspirando. Sabia que a loira não desistiria tão cedo. Levantou-se, algo que ainda era estranho fazer sem nenhum apoio, e andou até o guarda-roupa, pegando a primeira roupa melhorzinha que vira e vestindo-a. Annabeth riu e ajudou à amiga.
Quando no carro, Thalia se perguntava o porquê de ter aceitado. Não via a maior parte daquelas pessoas há um bom tempo, e estava bem assim. Chegaram ao local e a garota já queria pedir para que voltassem.
Sorriu para as pessoas que diziam oi, e respondia algumas perguntas vez ou outra. Para sua felicidade, não havia muita gente – no máximo dez pessoas, e todas elas respeitavam seu espaço.
– Venha aqui, tem alguém que quero que você conheça. – Annabeth a puxou de leve, sabendo que andar normalmente ainda era estranho para a amiga, e a levou para um canto mais afastado, onde dois garotos conversavam, um deles era Percy, namorado da loira.
– Oi Lia, fico feliz que esteja andando! – Percy a abraçou e a garota retribuiu. Ele, então, a ofereceu um copo de refrigerante – ela não gostava de bebidas alcoólicas.
– Esse aqui é Nico di Ângelo. – Annabeth gesticulou para o outro garoto. – Nico, essa é a Thalia.
– Aquela que sofreu um acidente há um ano? – O garoto, Nico, perguntou. Annabeth concordou com a cabeça. – Eu fiquei sabendo, sinto muito. Eu quero dizer que sinto mesmo. Não superficialmente, eu realmente sinto. Sei como um acidente pode acabar com a vida de alguém. Fico feliz que tenha aceitado meu convite para vir.
– Annabeth não me contou que estava sendo convidada pelo dono da festa. – Thalia sorriu. – Mas mesmo assim, obrigada, por, você sabe, sentir de verdade. Não superficialmente.
Os dois se olharam por um breve momento e riram baixo da pequena confusão.
– Percy, você viu a Reyna por aí? – Annabeth perguntou. – Eu preciso falar com ela.
– Ela estava na cozinha da última vez que a vi. – O garoto respondeu, então se lembrou que a namorada nunca havia ido na casa de Nico antes. Suspirou. – Vem comigo, eu te mostro onde é.
Thalia encostou-se à parede, ainda cansava ficar em pé. Nico se encostou ao lado dela e olhou para as pessoas na festa.
– Há seis meses minha irmã entrou em coma porque um cara perdeu o controle do carro e atropelou ela. – Começou a falar. Thalia olhou-o. – Quando Annabeth me explicou a sua situação, e tudo o que você está passando, eu senti vontade de te conhecer. Talvez porque você realmente entenda o que eu sinto, também perdeu algo importante em um acidente, ou porque eu pensava que você também precisava de alguém que te entendesse. Fico realmente feliz que esteja aqui.
– Obrigada. – Sorriu. Nico olhou para ela. – E sinto muito pela sua irmã. Sei que isso é a pior coisa que podem falar para você, mas é a verdade.
– Eu sei. – Sorriu. – Obrigada por me entender.
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