Jane pára o carro em frente da casa de Maura, de acordo com o GPS, e respira fundo antes de abrir a porta. A noite lá fora é fria, apesar de não ter nevado nos últimos dias, e o céu está limpo, iluminado fracamente por uma lua minguante. Suas mãos tremem levemente ao subir a pequena escada que leva até a porta da casa da loira, mas dessa vez, não é de frio, mas ansiedade. É a primeira vez que elas saem juntas desde que Maura voltou e de que Jane descobriu sobre Evelyn. A princípio, a morena achou que fosse existir um clima pesado entre as duas, por conta da omissão, mas ela concluiu pela troca de mensagens de que tudo estava bem entre elas. Exceto que, agora, ela se sente incerta, fora do lugar.

Ela toca a campainha e espera. Não muito depois, a porta se abre, e como sempre Maura está impecável: cabelo preso num rabo de cavalo, maquiagem sútil e bem-feita, um casaco azul marinho já vestido e amarrado na cintura. Ela sorri timidamente quando seus olhos se encontram com os de Jane, e parece hesitar um pouquinho, talvez decidindo se deve convidá-la para entrar e oferecer algo antes de saírem.

‘Uau, você tá linda.’ A morena diz e oferece um sorriso amigável, e a outra parece relaxar um pouquinho.

‘Obrigada, Jane. Você também não está nada mal.’ Ela oferece em simpatia, seus olhos se demoram sobre a morena, aparentemente agradada pela escolha de figurino da mulher — botas pretas, calça preta, um casaco que termina acima dos joelhos na cor pastel e um cachecol verde queimado em volta do pescoço.

‘Pronta para ir?’ A mais alta pergunta, e Maura parece aliviada, provavelmente porque não sabe ao certo o que fazer. Jane também não tem certeza, e é por isso que a pergunta cai bem como um escape.

‘Sim!’ Ela responde um tanto animada e sorri. Seus olhos verdes parecem mais escuros essa noite, talvez por conta da iluminação fraca da rua, e Jane não consegue deixar de pensar em como tudo em Maura carrega um tom de mistério.

Elas andam até o carro e Jane abre e fecha a porta para a mulher, mais pelo fato de ser a primeira vez que ela está dirigindo a loira do que outra coisa.

Uma vez na estrada, é Jane quem começa a conversar.

‘Como foi suas férias?’ Ela pergunta sem tirar os olhos do caminho.

Maura ajeita o cabelo com a mão e sorri. ‘Perfeitas. Eu estava com saudades da minha irmã, e ela de nós. Fomos só nós três durante esses dias, o que foi ótimo para que a gente se reconectasse.’ Ela oferece um pouco mais de informação do que qualquer outra vez que já saíram juntas, e Jane se sente um pouco mais relaxada, embora ainda um tanto decepcionada por, primeiro, não ter sequer visto Evelyn nessa noite, e segundo, porque o motivo da omissão ainda não é claro. ‘Como foi para você?’ Maura pergunta.

Jane se lembra dos momentos com Olivia e sua família e sorri. ‘O melhor de todos, eu acho.’ Ela diz e não consegue evitar uma risadinha no final, quando se lembra de Tommy tocando violão em casa, com todos eles cantando juntos. ‘Muita neve em Colorado?’

Maura ri baixinho e balança a cabeça em sim. ‘Mais do que já tivemos aqui em Boston, se você acredita.’ Ela esfrega uma mão na outra, como se só a menção da neve congelasse seus dedos.

Jane meneia a cabeça e pára num sinal vermelho. ‘Eu tenho que dizer que fiquei surpresa em te encontrar no aeroporto.’ Ela comenta com leveza, mas quando Maura morde o lábio inferior e verbaliza a pergunta, ela sabe que deveria ter escolhido melhor como se expressar.

‘Por causa de Evelyn?’ Ela pergunta em voz baixa, como se culpada, e Jane sente que toda abertura que tinha sido concedida, foi perdida, e agora existem paredes e mais paredes para serem quebradas até que ela alcance Maura de novo.

‘Não!’ Ela exclama, rápido demais, perplexa consigo mesma. ‘Eu quis dizer por causa da probabilidade de encontrar alguém conhecido, assim, do jeito que te encontrei.’ Ela se explica e Maura meneia a cabeça, mas não diz nada. ‘Você nunca mencionou crianças.’ Jane diz um segundo depois, esperando que Maura entenda que ela não se sente incomodada com a existência de Evelyn. ‘Por que?’

A loira suspira e aperta uma mão na outra, e só então encara Jane. ‘Eu não quero... Expor minha filha. Ela é muito nova, e eu quero protegê-la dos males que podem vir de outras pessoas. É instinto materno.’ Ela justifica. ‘E eu não estava esperando...’ Ela hesita agora, e Jane aperta as mãos no volante sem nem mesmo perceber. ‘Eu não acreditei que, você sabe, essa relação fosse se estender.’

‘E então você nunca a mencionou, porque considerando a proteção dela e que você não me veria mais, achou que a informação seria dispensável.’ Jane conclui por Maura, agora mais aliviada por entender suas razões. É apenas natural esperar que uma mãe queira proteger seus filhos. ‘Eu entendo, Maura.’ Ela oferece com empatia, e a mulher ao seu lado sorri levemente. ‘Por que você achou que isso não se estenderia?’ Ela pergunta, claramente se referindo à relação delas.

Maura dá de ombros e abaixa os olhos, como se estivesse na quarta série e sua professora tivesse feito a pergunta mais temida e difícil de todas. ‘Por que você estenderia?’ Ela devolve, tão incerta e insegura como Jane nunca a ouviu antes.

A morena levanta as sobrancelhas e ri, tentando entender se Maura está falando sério ou se sua autoestima é mesmo tão negativa.

‘Você tá brincando, certo? Eu devo começar pela tua beleza ou pela inteligência?’ Ela oferece os dois elogios em disfarce, e Maura revira os olhos e ri, dessa vez um tanto constrangida.

‘Jane...’ Ela diz, mas não oferece mais nada. Suas bochechas estão coradas, e ela morde o lábio inferior como se mordesse e matasse o constrangimento.

E, agora que a Jane repassa a conversa em sua cabeça, ela entende. A confiança de Maura está abalada, e é por isso que ela teme relações com as pessoas. Só pode ser isso.

‘Maura, eu sei que a gente mal se conhece, ok? Mas, primeiro, eu não estaria investindo em você se eu não achasse que valheria a pena. E, segundo, sua filha é a criança mais linda e fofa que eu já vi, e eu jamais faria algo para machucar vocês duas.’

A frase parece causar algum efeito em Maura, mas Jane não sabe dizer se é um bom ou ruim. Suas feições permanecem imutáveis, e quando o silêncio se torna longo demais e a morena acha que deve acrescentar algo, Maura finalmente se expressa.

‘Eu não quis dizer que você soa como perigo. É só que...’

‘Você não me conhece bem.’ Jane completa por ela. E eu preciso me provar primeiro. E pensa consigo mesma. ‘Eu entendo. Ok, Maura?’

Ela meneia a cabeça, e a o assunto agora parece esclarecido para as duas.

‘E então, o que você fez?’ Jane brinca. ‘Tirou as baterias da menina para você poder sair de casa e só liga ela de novo quando você voltar?’

Maura ri com a piada, antes de explicar que Evelyn ficou com uma babá.

...

A exposição de arte causa arrepios em Jane, mas Maura parece empolgada e até mesmo feliz com cada escultura que vê, ou máscara, ou até mesmo quadros. Ela explica para Jane que a exposição de arte também pode ser vista como uma entropológica, considerando que os objetos ali são praticamente relíquias resgatadas de uma outra cultura, e que cada um deles conta a história de costumes, crenças a hábitos entre aquela tribo — africana — em específico. Jane não poderia se importar menos com a aula de história (antropologia?) que Maura tem a oferecer, mas ela presta atenção em cada palavra, cada expressão se desenhando no rosto da loira. Depois de percorrerem a maior parte da instalação, Maura decide fazer uma doação à universidade, e Jane se junta a ela, escrevendo um próprio cheque ela mesma, mais em consideração ao nome da univerdade que estudou do que ao departamento de artes em si.

Depois, ambas se servem de uma taça de vinho branco, e Jane é distraída por uma ex professora do seu primeiro ano ali, e as duas passam minutos conversando enquanto Maura se ocupa em estudar outras obras e, mais tarde, manter uma conversa com um homem alto, de cabelo preto e sério — que não escapa aos olhos de Jane. Enquanto a morena troca palavras com a professora, ela checa Maura vez ou outra, a fim de se certificar de que a menor está bem. Quando uma terceira pessoa é acrescentada na conversa, e ela nota que a loira não está tão mais confortável assim, Jane encerra a conversa educadamente e se dirige na direção da menor.

‘Eu me candidatei à vaga de surpervisão de projetos para o segundo trimestre.’ O homem de cabelo preto diz, e Jane está perto demais para ouvir o resto da conversa. ‘Quer dizer, uma experiência dessas é o equivalente a uma estrela dourada no meu currículo.’

‘Eu também,’ Maura diz séria, de um jeito que Jane nunca ouviu. Ela parece tensa e nada confortável ali. ‘Mas meu objetivo é apenas intelectual. Deve ser gratificante orientar projetos e aprender algo novo como ganho secundário.’

‘Ah.’ O homem diz, sua feição carregando, primeiro, superioridade, depois se transformando em desdém. ‘Eu não tinha o conhecimento de que você também tinha aplicado para o cargo.’

A voz carregada de descaso e arrogância é o que faz as pernas de Jane se moverem antes que ela possa notar que está se mexendo. Ela cola seu ombro com o de Maura, e sorri cinicamente para ele.

‘Por que? Você não considerou que alguém com desempenho acadêmico maior e inteligência a cima da média fosse se interessar, também, pelo mesmo cago cujo qual você deseja enquadrar?’

Maura vira a cabeça para ela, claramente espantada, horrorizada e, também, agradecida. Jane sabe que ela é educada demais para responder alguém dessa forma, e que provavelmente escolheria uma saída mais diplomática do que essa provocação cuja qual fere diretamente o ego do outro. ‘Perdão pela intromissão,’ ela continua, mas não parece nada arrependida, ‘Maura, eu preciso da sua atenção com urgência, se você não se importa.’

A loira oferece um sorriso educado — e um olhar com um levantar de sobrancelha que deixa um aviso para que não se metam com ela novamente — diz, ‘com licença’, e pega o braço que Jane oferece para que saiam dali.

Duas sessões de exibição depois, ela se vira para Jane com a boca aberta e só então ri. ‘Oh, Deus! Você viu a cara dele?’

Jane ri baixinho e dá de ombros. ‘Eu espero que não tenha te causado nenhum problema.’ Ela oferece, e a mão de Maura aperta em seu braço.

‘Não, imagino que não. Ele sempre é desagradável, não é um problema particular comigo.’

Jane revira os olhos e suspira. ‘Bem, espero que ele te deixe em paz agora. De qualquer forma, eu espero que você consiga o cargo.’ Ela oferece, e isso arranca um sorriso da loira.

‘Obrigada, Jane.’ E do jeito que ela diz as duas palavras, e pelo modo como seus olhos parecem mais vivos e radiantes, Jane imagina que ela fez a coisa certa, e todas as paredes foram derrubadas.

...

Sua teoria é confirmada quando ela estaciona em frente da casa de Maura, na volta do evento. Ainda são nove e meia, e quando ela sai do carro (Maura dessa vez abre a porta por si mesma, embora Jane ofereça a mão para ela segurar ao sair) nenhuma parece lidar como se aquele momento fosse o de encerrar a noite. A loira ainda está lhe contando sobre como Cailin, sua irmã, pretende mudar para Boston no próximo ano, por causa de Evelyn.

‘Ela realmente gosta de crianças, mas não quer ter uma por enquanto. Acho que ela prefere o papel de tia.’ Maura conclui e dá de ombros. Suas mãos vão parar no bolso do casaco, e ela se vira para Jane, já na porta, parecendo ponderar sobre o que dizer agora. ‘Você... Gostaria de entrar? Se você não tiver outros planos, quero dizer.’ Ela pergunta, um tanto nervosa.

‘Claro.’ Jane responde com um sorriso, pega de surpresa pelo convite. É um grande avanço esse que tiveram essa noite, e ela reza para que esse clima agradável e leve continue entre elas pelos próximos dias também.

Maura destranca a porta, e Jane a segue para dentro da casa. A primeira coisa que Maura faz é pagar a babá, agradecê-la e dispensá-la pela noite. A mulher se despede das duas, desejando boa noite e fechando a porta atrás de si. Só então ela apresenta o primeiro andar da casa para Jane.

É uma casa de tamanho médio, com uma sala, cozinha, sala de jantar e banheiro, e na parte de cima Jane imagina ter três quartos, a julgar pelo ambiente. É um tamanho ideal para um casal e uma criança morarem ali, e a decoração é de extremo bom gosto, mas nada extravagante. Combina com o que ela conhece da loira, e a não ser pela decoração, o restante da casa é similar à de Jane.

‘Você se importa se eu checar Evelyn antes de continuarmos?’ Maura pergunta, parecendo ansiosa e um tanto aflita.

‘Nenhum pouco.’ Jane sorri.

‘Por favor, se sinta em casa.’ Ela oferece e se retira para o andar de cima, depois de Jane dizer que ela não precisa se preocupar.

A morena senta no sofá da sala e folheia uma revista de medicina enquanto espera. Não leva mais do que dois minutos, e Maura já está de volta. Ela parece mais aliviada agora, e oferece um sorriso para Jane quando seus olhos se encontram.

‘Dentes nascendo.’ Ela suspira. ‘Quando não é febre, são noites mal dormidas e choro.’

‘Ah, não. Eu sinto muito, Maura.’ Jane diz, sabendo muito bem como é uma fase difícil por experiência dos anos de adolescência em que era babá de alguns bebês do seu bairro.

‘Faz parte do desenvolvimento, mas dói em mim também.’ Ela oferece um sorriso triste e balança a cabeça. ‘Posso te oferecer uma bebida?’

Jane retorna o sorriso e estreita os olhos. ‘Cerveja?’

Maura abre um sorriso como pedido de desculpas pela falta, e esclarece. ‘Eu só compro vinho.’

‘Vinho também é ótimo. Algo suave?’

‘Eu tenho um perfeito!’ A loira diz com um toque de empolgação, e Jane não consegue evitar o encantamento que sente toda vez que Maura se anima com coisas pequenas.

Duas taças servidas, as duas se sentam no sofá e Jane mostra a revista que estava lendo para a mulher. ‘Então estão tentando desenvolver um tratamento para problemas cardíacos estudando as folhas do espinafre, hum?’ Ela diz, curiosa e intrigada, e Maura parece se iluminar com a chance que tem de explicar o assunto.

Ela conta como cientistas substituiram as células vegetais do sistema vascular da folha de espinafre, que é tão fino como o dos humanos, por células humanas, e depois que a formação ficou parecida como um pequeno coração, eles bombearam fluídos para provar que o sangue poderia correr por aqueles canais.

A narrativa é feita com tanta paixão que Jane se vê hipnotizada. Ela tenta memorizar o máximo que consegue porque, quando tiver a oportunidade, vai repetir isso tudo para outra pessoa, apenas pelo prazer de dividir algo que Maura dividiu com ela.

‘Bem, seu trabalho parece muito mais interessante do que o meu, eu confesso.’

Maura ri baixinho e balança a cabeça. ‘Não diga isso. Ser uma promotora de justiça te dá a oportunidade de mudar diversas vidas, Jane.’ E ela diz com tanta convicção que a morena, prestes a dizer que nem se compara com as descobertas científicas, aceita a observação em silêncio e agradecida.

Elas continuam conversando por tanto tempo que Jane perde a noção, e é a primeira vez que ela vê Maura estando completamente espontânea, confortável, obviamente porque está em sua própria zona de conforto. Isso coloca um sorriso em seu rosto, porque essa deve ser a verdadeira Maura.

O que quer que a loira esteja dizendo é interrompido pelo choro que vem do andar de cima. Duas cabeças viram para a escada, e Maura se levanta rapidamente do sofá.

‘Sinto muito, eu preciso checá-la. Você se importa em esperar uma segunda vez?’ Ela perguntando com um pedido de desculpas na voz, e esperança nos olhos.

‘Não, eu entendo. Ela precisa de você.’ Jane oferece, nenhum pouco perturbada.

Maura sorri e sobe as escadas com pressa, e Jane não resiste a urgência de observá-la para se certificar de que ela não vai perder um degrau e cair. Quando ela dobra o corredor, já lá em cima, Jane volta sua atenção para a mesma revista que lia antes, e depois se lembra de conferir o horário. Onze e treze. Ela piscou os olhos, achando que tinha visto errado. O tempo tinha mesmo voado enquanto elas conversavam. Ela escuta quando o choro da criança morre, e a voz de Maura vindo suave e baixa lá de cima. Minutos se passam, e só então ela escuta os passos de Maura voltando.

‘Você quer dizer oi para Jane?’ Ela pergunta.

A morena entende, então, que ela tem a filha nos braços. Ela se vira em direção à escada, um sorriso involuntário no rosto. ‘Ei, Evelyn.’ Olhos pequenos de sono e lacrimejados a encaram, mas dessa vez a menina não sorri. Ela parece cansada e infeliz, e Jane se levanta, um tanto assustada. ‘Ela tá bem?’ Agora ela pergunta para Maura.

‘Sem febre, mas, sem dúvidas, com dor.’ Maura se lamenta e ajeita a menina no seu braço. Ela tem um macacão rosa de ovelhinhas brancas e saltitantes, e os pézinhos contraem e descontraem, uma mão na boca. A loira beija a cabeça da menina, mas o gesto parace quebrar a atenção sobre Jane, e ela começa a choramingar mais uma vez.

‘Eve, querida.’ Maura diz e devolve a chupeta para a boca da criança, mas de novo ela é dispensada. ‘Eu sinto muito pela interrupção, Jane.’ Ela diz enquanto balança com gentileza a menina no colo.

‘Sem desculpas, Maura. Ela é tua filha.’ Ela balança as mãos, se sentindo culpada por estar, literalmente, só olhando a cena se desenrolar em sua frente. Ela se sente mal por não estar ajudando em nada, mas então, como se por necessidade, a solução aparece em sua mente. ‘Eu posso tentar algo?’ Ela pergunta, e Maura balança a cabeça em sim. ‘Eu preciso lavar minhas mãos, primeiro.’

Maura indica a pia, e enquanto ela tenta acalmar a criança, Jane lava minuciosamente as mãos. Depois, ela volta para a sala e estica os braços. ‘Posso?’

Maura parece um pouco aflitar ao permitir que ela segure seu bebê, mas passa a menina para seus braços assim mesmo.

Evelyn resmunga e chora quando Jane a deita em seu colo. É um corpo diferente que ela sente contra o seu, Evelyn é leve e macia, como se não tivesse ossos, e a morena se derrete com a delicadeza dos traços de seu rosto, os cílios escuros e longos, olhos claros e bochechas rosadas. ‘Ei, bonequinha.’ Ela diz, sem nem mesmo se dar conta. A menina suspira, visivelmente magoada porque sua mãe está bem ali mas é uma estranha que a está segurando agora. Ela remexe as pernas, como se tentando se livrar de Jane, mas sua mãozinha segura com força o decote de sua blusa. ‘Tá tudo bem, eu só quero ajudar, ok?’ Ela se senta de novo, e quando Evelyn chora em seu colo, ela entende porque Maura parece tão aflita ao vê-la agitada e em dor. Com cuidado, ela desliza o dedo indicador dentro da boca da menina, e massageia com gentileza sua gengiva por longos minutos.

‘Vê? Massagem cai bem e resolve metade dos problemas, é o que uma amiga me diz.’ Ela diz em voz baixa, e Maura está prestes a responder, mas se da conta de que Jane está falando com Evelyn, e não com ela.

A menina faz um barulho com a boca, em resposta à Jane, e a morena ri baixinho. ‘É o que eu penso também.’ E ela continua massageando a gengiva por mais um tempo. O desconforto certamente diminuiu, porque Evelyn agora só a observa, sem choro, sem luta. Seus olhos piscam pesadamente, e seus dedidnhos — agora no punho de Jane — abrem e fecham na blusa, como que em auxílio à massagem. Maura não se move. Ela senta ao lado da morena e apenas observa a troca, sabendo muito bem que se se manifestar, Evelyn vai pedir por ela, não querendo quebrar a mágica que Jane está fazendo.

Parece uma eternidade, mas finalmente Evelyn se acalma o suficiente para se entregar ao sono. Jane devolve a chupeta em sua boca e se levanta, balançando-a de um lado para o outro, lentamente. Ela se vira para Maura e sorri, se sentindo vitoriosa. ‘Um truque que minha mãe me ensinou quando meu irmão mais novo nasceu. Ele sofreu bastante com isso também.’ Ela diz baixinho.

Maura oferece um sorriso de gratidão.

Evelyn suspira em seu colo.

Jane não quer olhar para a loira de novo, temendo que seja hora de devolver a criança, e ela quer segurá-la apenas mais um pouquinho. Ela gosta de bebês, e ela gosta desse bebê porque é a filha de Maura. Então ela continua ninando a menina, que agora dorme pacificamente em seus braços, o corpo pequeno e mole, e agora, tão bem encaixado contra o seu.

‘Jane.’ Maura a chama, a voz baixa e cautelosa, como se temendo acordar a criança.

Ela se vira, pronta para se despedir.

‘Você quer colocá-la no berço?’ Maura pergunta, ela ainda está sentada no sofá e parece calma, mas Jane pega em seu ollhar um pouco de ansêio e apreensão, e ela se lembra da conversa que tiveram dentro do carro, ainda naquela noite. Ela sabe que, para Maura ter oferecido isso, ela conseguiu algum tipo de vitória. Mas ela sabe, também, que a mulher ainda não confia completamente nela, que aquele é seu primeiro encontro com Evelyn, a primeira vez em sua casa, e ela conhece o medo da mulher. Ela não quer se forçar na relação entre as duas, e ela sabe que o papel de colocar a bebê no berço pertence à Maura, então ela finge entender a pergunta de outro jeito e concorda com a cabeça.

‘É melhor se você a levar de volta, mesmo. É mais confortável lá.’ Ela transfere a menina com cuidado para os braços da mãe, e reconhece o alívio que vem da outra. Ela acha que está començando a entender Maura. Há tantas questões que ela não tem a resposta ainda. Ela não sabe quem é o pai da criança, ou se Maura pagou por uma inseminação. Ela tinha concluído que Evelyn é filha biológica por causa de algumas semelhanças físicas, mas nem isso ela poderia dizer com certeza.

Aquilo tudo era apenas a entrada, uma oportunidade que apareceu por um lance de sorte, e agora que estava ali, ela faria de tudo para não estragar o que tinha conseguido.

‘Maura.’ Ela diz baixinho, e olhos verdes encontram os seus. ‘Já tá tarde, você precisa de descanso também. Principalmente se vocês não tem dormido muito.’ Ela oferece, de fato preocupada com o bem-estar da mulher. ‘Vamos encerrar por aqui e eu te ligo amanhã, e então nós combinamos algo novo?’ Ela quer deixar claro que quer, tão desesperadamente como queria da primeira vez, se encontrar com Maura de novo.

A loira sorri e concorda com a cabeça. ‘Obrigada, Jane, por essa noite toda.’ Seus olhos estão carregados de gratidão e algo próximo de admiração, e de novo a morena soube que fez a escolhe certa.

‘Não por isso. Me liga antes se você precisar de algo, ok?’

‘Certo. Obrigada.’ Ela repete.

Jane se inclina e beija a cabeça de Evelyn, e depois, com um sorriso em cumplicidade, como se finalmente compartilhassem algo em comum, Jane se inclina e beija a bochecha de Maura.

‘Tranca a porta?’ Maura pergunta, e indica com a cabeça a maçaneta da porta. Há um pequeno botão nela, que quando pressionado, ela trava a maçaneta do lado de fora, de modo que a porta fica trancada quando fechada.

‘Claro.’ Ela afirma, pega o casaco e observa Maura subir com a criança na escada, dessa vez com lentidão e mais cuidado.

E ela oberva, apenas para se certificar de que as duas ficarão bem.

Notas finais
Um ontem, um hoje. Agora um novo só na semana que vem ♥