Notas iniciais
Me perdoem pela demora! A vida acontece fora daqui também :( Vou corrigir os erros assim que possível. Espero voltar logo! =D

É uma tarde de domingo quando Maura convida Jane para sua casa. A morena não fica surpresa ao receber o convite, considerando que o último encontro tinha sido bem sucedido, e que Maura parecia mais disposta a se conectar com ela, incluindo — o que Jane achava ser a prova final de suas especulações — a permissão de interação com a pequena Evelyn. Então, às duas horas da tarde, logo depois do almoço que tivera com sua família, Jane estaciona o carro na frente da casa de Maura, e mal consegue conter o sorriso quando a loira a recebe na porta, de cabelo solto, calça de ginástica, camiseta, e uma Evelyn bem curiosa e sorridente no colo.

‘Olá, Jane.’ Maura diz, ajeitando a menina nos braços. Ela se retira do caminho para dar entrada para a mulher, seus olhos estudando rapidamente a rua coberta de neve lá fora. ‘Como você está?’

‘Almoço em família, casa de italianos. Eu diria que estou estufada, mas feliz.’ Ela ri baixinho e fecha a porta atrás de si. ‘E vocês? Espero que ela esteja se sentindo melhor.’

Um som de afirmação vibra na garganta de Maura, e ela arruma o cabelo loiro da filha enquanto fala. ‘Bem, eu precisei acordar umas duas vezes essa noite, mas ela parece melhor, não parece?’ Seus olhos verdes caem sobre a criança, e Evelyn também estuda a mãe, como se entendesse que ela é o assunto da conversa.

Jane sente seu coração inchar e bater deliciosamente no peito. ‘Parece, sim.’ Então, ela se dirige para Evelyn. ‘Ainda mais fofa do que ontem.’ Ela segura a mão da menina e estala um beijo ali. Evelyn ri e encosta a cabeça no colo da mãe, os olhos claros nunca deixando de estudar Jane.

Maura parece supresa com a reação da menina, e lança um sorriso que Jane não consegue ler. ‘Eu não sei como é possível, mas algo dentro de mim diz que ela vai ser bem mais sociável do que eu sou.’ Ela indica o sofá para a morena, e então se curva para baixo para colocar a criança no chão. Alguns brinquedos espalhados no carpet chamam a atenção de Jane, e com espanto ela percebe que Evelyn está em pé, agarrada na beira no sofá e andando em sua direção, até que — depois de hesitar, olhá-la nos olhos e decidir que pode confiar nela — agarra em sua perna para continuar seu caminho até o brinquedo que quer. Jane coloca a mão nas duas pequenas costas, apenas por precaução, caso a menina caia, mas ela continua determinada, e quando não tem mais no que se apoiar, engatinha no chão, até sorrir vitoriosa com o chocalho colorido nas mãos.

Jane se pega sendo encarada — adoravelmente — por Maura e sorri de volta, imaginando quão orgulhosa a mulher deve estar de ver sua bebê, ainda um tanto descordenada e fofa demais, amadurecendo.

‘Ela está aprendendo.’ Maura diz, claramente empolgada, e depois de apertar as mãos, uma na outra, como se pesando a decisão, oferece: ‘quer ver uma coisa?’

‘É claro!’ Jane diz animada, deixando guardada na sua mente a parte que grita eu quero saber tudo o que você puder me contar. Ela assiste Maura se levantar, pegar a criança e colocá-la em pé, na frente das pernas de Jane. ‘Segura ela?’

A menina balança o chocalho para cima e para baixo, nenhum pouco perturbada com a interrupção de sua brincadeira. Jane segura sua cintura, e os olhos verdes da menina encontram com o seu, e depois ela dá pequenos pulinhos antes de virar a cabeça para mãe.

Maura agora está há três passos de distância, sentada no chão e braços esticados para a filha. ‘Evelyn, querida, vem comigo?’

‘Mamã!’ A pequena fala, deixando a vogal ‘e’ de fora da palavra que ainda está sendo aperfeiçoada, e Jane quase arfa de surpresa ao mesmo tempo que a criança dá passos que ainda estão sendo treinados, mas, sobretudo, são determinados em direção à mãe.

Maura pega a filha pela cintura e ri, beijando sua bochecha.

Jane está convencida de que nunca viu cena mais bonita.

E então se dá conta de que Maura está virando Evelyn e motivando-a a andar o caminho de volta, e apavorada de que a criança caia na metade da caminhada, ela se senta no chão também e estica os braços para frente. Evelyn a alcança sem problemas, e quando suas mãos seguram o pequeno corpo, espontaneamente Jane a joga para cima, no ar, arrancando um gritinho de felicidade da menina. Uma vez em seus braços, de novo, um beijo é plantado na bochecha macia de Evelyn, e Jane ri baixinho quando a dona de olhos curiosos e uma boca com poucos dentes, mas de um sorriso gigante, balança o chocalho na mão, em comemoração.

‘Você é mesmo uma figura, não é?’ Jane diz para a menina, e depois de beijá-la mais uma vez, a coloca no chão, em pé. Só então ela percebe que Maura está encarando as duas; um olhar afeiçoado para a filha, e algo entre insegurança, medo e ansiedade para Jane, embora ela ainda tente disfarçar com um sorriso. O clima fica um pouco estranho, mas Jane sabe como ninguém melhorar a situação. Ela se curva para baixo, ainda segurando a menina, e sussurra em seu ouvido, alto o suficiente para Maura escutar. ‘Ok, não olha agora, mas eu acho que tua mãe tá ficando com ciúmes da nossa nova amizade, você não acha?’ Ela diz e Evelyn ri, mesmo não sendo capaz de entender, e aponta para a loira e diz ‘mamã’ de novo, e Jane revira os olhos e continua, ‘eu disse para não apontar! Agora volta lá e dá um abraço nela.’ Ela conduz a menina nos primeiros três passos em direção à Maura, e quando a loira finalmente segura a filha de novo em seu colo, dessa vez lança-lhe um olhar divertido, ainda carregado de dúvidas, mas não tão sombrio quanto antes.

Jane quer perguntar o que tinha acontecido com Maura. De certo modo, ela entende que ainda é alguém que a mulher mal conhece, e que a segurança e bem-estar de Evelyn sempre vem em primeiro lugar. Entretando, é difícil de dizer quem Maura é, considerando o quão pouco conhecimento ela tem sobre a outra, sendo que dessa forma, ela mal pode traçar um perfil para defini-la melhor. De modo geral, tirando a generosidade, educação e todo o seu lado doce, o que Jane vê é essa imensa hesitação em se aproximar e se envolver com pessoas. Então, em vez de invadir sua privacidade e afastá-la, ela decide por ‘quantos meses ela tem?’.

‘Um ano e três meses.’ Maura diz, uma mão sobre a barriga da criança — que agora está sentada em seu colo — e a outra acariciando sua cabeça.

Jane meneia a cabeça e está prestes a elaborar sua resposta quando Evelyn solta um grito de protesto e estica os braços para ela, claramente querendo se livrar da mãe.

‘Eve, você precisa usar as palavras.’ Maura diz para a menina, ajudando-a a se levantar. ‘O que você quer?’ Ela pergunta, sua atenção inteiramente para a criança.

A menina se inclina para frente, os braços esticados, chocalho no chão e mãos se abrindo e fechando, e Jane se dá conta de que é ela o objeto de sua atenção.

Algo prazeroso se remexe dentro de sua barriga, mas ao mesmo tempo ela teme que Maura vai mandá-la embora simplesmente por ter roubado a atenção da menina, e ela não sabe o que fazer, senão assistir a cena sem se manifestar, esperando pelo resultado final.

‘Você quer andar até Jane novamente?’ Maura continua, os olhos fixos na criança. A pequena balança a cabeça em sim, um tanto com dúvida, ainda incapaz de entender frases complexas e inteiras. Então, Maura tenta de novo. ‘Jane?’ Ela aponta um dedo para a morena, ainda em interação com a filha. Agora a menina concorda com mais certeza, e Maura abre um sorriso misterioso e brincalhão ao mesmo tempo, dessa vez para a outra mulher. ‘Você precisa dizer então.’ Ela diz para Evelyn. ‘Ja-ne.’ Ela separa bem as vogais, a menina vira o rosto para estudar os lábios da mãe, e ela diz de novo, ‘Ja-ne’.

Em concentração e tentativa, Evelyn diz o que quer. ‘Anne.’ Ela fala e aponta para a morena.

Maura a deixa ir.

E Jane nunca gostou tanto de ter ouvido o seu nome.

...

Por volta das cinco, Jane se encontra sozinha na sala enquanto espera pelo retorno de Maura. A mulher tinha subido no andar de cima com uma Evelyn adormecida nos braços, depois de lhe dar uma mamadeira. A morena não tem idéia da rotina da criança, mas ela imagina que esse deve ser o horário do dia que ela dorme um pouco, considerando o quão irritada de sono estava ficando.

Ela está sentada no sofá, então, esperando até que a mulher volte, quando recebe uma mensagem de Olivia. Ela abre a foto; a amiga está na praia, em cima de uma prancha de surf, mas na areia. Em baixo da foto, a mensagem. Estou pagando umas aulas.

Jane ri baixinho, divertida com o humor leve da mulher, imaginando uma Olivia descontraída e conversadeira, como sempre fora, fazendo novos amigos (e, sim, dormindo com alguns deles). Ela digita uma mensagem rápida.

Cuidado com os tubarões.

Mas a outra parece ter perdido a insinuação, respondendo de volta: eles não foram avistados ao redor hoje.

Jane revira os olhos, rindo baixinho de novo e estalando a língua. ‘Ah, Olivia.’ Ela coloca o celular entre as mãos, e escuta a voz de Maura atrás de si.

‘Eu espero que você não esteja alucinando e conversando com alguém que não posso ver.’ Ela brinca, os olhos verdes brilhando com humor.

‘Espera, somos só nós duas aqui? Eu achei mesmo que você tinha convidado a Laura também.’ Ela aponta para o nada, e Maura balança a cabeça e ri baixinho. Depois, Jane se ajeita no sofá ao mesmo tempo que a loira se senta, e oferece, ‘uma amiga me mandou uma mensagem, ela tá na Flórida, passando as férias.’

‘Oh!’ A loira exclama, interessada. ‘Eu nunca estive lá, infelizmente, mas é o sonho de todo mundo, não é? Se aposentar e ir morar numa cidade à beira mar, na Flórida.’

Jane imagina se Maura é o tipo de pessoa que prefere as praias do que às montanhas. ‘É o seu sonho também?’ Ela pergunta enquanto cruza uma perna sobre a outra.

As sobrancelhas de Maura se levantam, ela dá uma risadinha como se achasse graça da pergunta e balança a cabeça em não. ‘Não é bem o meu tipo de lugar. Eu nasci na Califórnia, mas morei lá por poucos anos. Eu cresci em Connecticut, e acho que combino mais com o estilo de vida dessa costa.’

É mais informação em uma frase do que Jane jamais sonhara em ouvir, e ela sorri e balança a cabeça em sim, desejando que a mulher não pare agora. ‘Mas sua irmã mora em Colorado?’ Ela arrisca, então.

Maura suspira e levanta um ombro, como se resignada. ‘Ela é minha meia-irmã, por parte de pai. Eu só a conheci quando eu tinha dezesseis anos.’

‘Ela é mais velha que você?’ Os olhos negros se estreitam, tentando organizar a informação nova. Ela sabe que são águas novas, conversar assim abertamente com Maura sobre algo tão particular como a estrutura de sua família, mas a outra parte de si se sente mais confiante — um pouco audaciosa — e ela não quer perder a chance de aprender mais sobre ela.

‘Mais nova. Cinco anos.’ Ela suspira e gira o anel no dedo, parecendo um pouco triste. ‘Minha mãe descobriu a traição logo que Cailin nasceu. Foi um choque para ela, e para mim, que descobri por acaso quando escutei uma discussão entre eles.’ Ela se ocupa em morder o lábio inferior enquanto parece acessar uma lembrança distante, mas depois chacoalha a cabeça e fala de novo. ‘É claro que eu quis conhecê-la quando ela era pequena, mas minha mãe nunca permitiu. Anos depois, meu pai ficou doente, e eu tive que implorar para ele para que eu pudesse ter contato com Cailin. Eu só acho que aconteceu porque, eu acho, ele ficou com medo de falecer e eu nunca vir a saber.’ Ela se encosta no sofá, abraçando os joelhos como se se protegesse das memórias ruins.

‘Eu sinto muito, Maura.’ Jane diz em empatia, imaginando que aquilo era apenas uma pequena parte da história da vida da mulher ao seu lado.

‘Bem, nós somos boas amigas agora. Minha mãe jamais vai me perdoar por dizer isso, mas Cailin foi o melhor presente que meu pai me deu.’ Ela, então, ri divertida, embora ainda tivesse um tanto de amargura em sua voz.

‘Você tem contato com eles? Seus pais, eu quero dizer.’ Jane pergunta deliberadamente, acomodada com o fato de Maura oferecer tanto sobre ela.

O sorriso morre nos lábios da loira, e ela balançou a cabeça. ‘Meu pai faleceu anos atrás.’ Ela tentou um sorriso, se remexeu no sofá e ofereceu. ‘Você quer beber algo? Eu deveria ter oferecido antes.’

A mudança rápida de assunto deixa Jane entender que a troca de figurinhas acabou, e o que o resto da história pode ser contada outro dia, ou nunca. Talvez Maura queira que o passado fique onde deve estar, por não ser pertinente no presente. Ou, ela pensa, talvez ela não goste da própria história e por isso quer trazê-la à tona. Notando que ainda não respondeu a pergunta, ela arfa e passa a mão no cabelo. ‘Você mencionou vinho, certa vez?’

‘Eu abri um perfeito ontem a noite!’ Ela exclama animada, se levantando parecendo bastante contente por poder oferecer algo.

...

Elas saem juntas por mais três vezes. As duas seguintes, só Maura e Jane. Um cinema na sexta-feira a noite, e um almoço no sábado de manhã. No domingo à tarde, a morena convida Maura e Evelyn para um passeio no museu. São tantos quadros e detalhes e cores, mas tudo o que Jane consegue focar são as curvas de Maura, o jeito que seus olhos claros brilham quando a morena se oferece para segurar Evelyn, o modo como seus dedos finos e elegantes peteiam o cabelo claro da menina. Ela admira a inteligência afiada da mulher, como parece saber um pouco sobre tudo, como pontua as diferenças entre arte moderna e contemporânea.

Jane acha que pode se acostumar com esses passeios que parecem tão rotineiros e familiares.

Ela agora acredita que se der o tempo necessário para Maura, o restante das paredes vão cair ainda mais.

Quanda a loira coloca uma mão na parte baixa de suas costas, Jane se agarra naquele fio de esperança de que a loira finalmente está cedendo.

Pouco a pouco.

A verdade é que Jane não sabe. Ela não sabe se aquele fio que decidiu se agarrar é forte e elástico o suficiente. Não sabe se ele é fraco, ou se pode mantê-la segura.

Mas, negligente, ela se agarra mesmo assim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.