Notas iniciais
Eu sei, eu sei. Vocês vão me matar por ter começado mais uma. Mas o que posso fazer?

Jane a vê no lugar mais mundano de todos: uma loja de conveniência, tarde da noite, no departamento de farmácia. Ela é loira, alta (mas ainda menor que Jane), e usa uma calça jeans e uma camiseta comum que abraça seu corpo nos lugares certos. O cabelo loiro cai um palmo abaixo do ombro, e a julgar pelo modo como parece bagunçado, ela diria que a desconhecida tinha saído da cama não muito tempo atrás. Mesmo considerando isso, quando ela se volta e seus olhos verdes se encontram com os seus escuros, um sorriso gentil espalha-se em seu rosto. Ela parece cansada, um pouco abatida, como se não tivesse dormido muito nos últimos dias, mas, ainda assim, é capaz de manejar aquele belo sorriso que deixa Jane desconcertada.

‘Oi, tudo bem?’ A morena pergunta por educação, um sorriso gentil em reciprocidade. Certo, ela pergunta, na verdade, porque também quer conversar com aquela figura intrigante. Ela vive passando na farmácia nessas horas da noite, mas quase nunca encontra ninguém, e geralmente ela se sente um pouco indiferente às pessoas que estão lá, mas essa mulher tem algo que lhe chama atenção.

‘Bem, obrigada. E você?’ Sua voz é doce, um pouco rouca, amigável e envolvente, do tipo que carrega uma sensualidade natural e sutil, como se carregasse os genes das vozes das sereias que, passado de geração a geração por tantos milhões de anos, tinha se tornado agora apenas um lembrete do perigo de se deixar seduzir pelas canções, sem saber exatamente o que elas significam.

‘Bem também.’ Ela se vê tão hipnotizada pelo conjunto da obra em sua frente que se sente decepcionada ao ouvir a própria resposta pobre. Belo jeito de se manter a conversa.

Derrotada, ela agarra o que veio comprar na farmácia – aspirina para dor, band-aids e anti-inflamatório – e anda de cabisbaixa para o caixa. Só quando chega sua vez de pagar é que ela nota que não pegou o que mais precisava: dinheiro para pagar pelos intens.

‘Droga, sinto muito. Devo ter deixado minha carteira no carro. Você se importa se eu deixar isso tudo aqui enquanto vou verificar?’

Com indiferença, o caixa da de ombros e olha para alguém atrás dela, sinalizando que sua vez tinha chegado mais cedo.

Constrangida, ela revira os olhos num ato de rebeldia, mas sente as bochechas corarem. Outra hora do dia, ela daria um sermão no rapaz.

‘Não se preocupa. Eu posso pagar por isso.’ Uma voz oferece ao seu lado, e ela se dá conta de que é a pessoa que estava na fila atrás de si, um minuto antes, oferecendo tamanha boa ação. Não qualquer pessoa. Aquela mulher.

‘Oh, não. Eu não poderia. Quer dizer...’ Jane começa, mas a outra abre um sorriso tão amigável e acolhedor que ela se sente salva pela melhor amiga, como quando se sentia quando Annie (sua amiga de infância) confirmava uma mentira para sua mãe, apenas para salvá-la do castigo.

‘Está tarde e bem frio lá fora.’ Ela argumenta.

‘Apenas se você me deixar eu te pagar de volta.’ Ela negocia, ainda um tanto envergonhada. No momento, ela se sente uma sem-teto.

‘Como você preferir.’ A outra diz, os olhos cansados e gentis oferecendo muito mais do que aquele regalo.

O que ela vê no fundo daqueles olhos… É solidão? Ela deixa a especulação de lado e tenta não prestar atenção nas compras da outra, não querendo ser mal educada.

Jane decide acompanhá-la até o carro, então. É o mínimo que ela pode fazer depois de ter tido sua compra paga. Elas andam lado a lado, sem conversar, e o gelo se quebrando sobre seus pés na calçada é o único barulho que ambas ouvem. Finalmente, a loira para ao lado de um Prius branco.

‘Aqui, esse é meu carro.’ Ela anuncia com a voz baixa.

‘Bem, isso foi uma idiotice.’ Jane comenta, mas quando vê decepção,hesitação e até mesmo medo no olhar da menor, ela quase se estapeia com a escolha de palavras. ‘Eu quero dizer que nós deveríamos ter, primeiro, ido para o meu carro. Eu disse que te pagaria de volta e eu vou mesmo te pagar. Se você me esperar aqui, meu carro está logo ali e eu...’

‘Não. Tudo bem. De verdade, não foi nada exorbitante.’

‘Foi exorbitantemente legal da tua parte.’ Ela diz e arranca um sorriso e uma risada baixa da mulher. ‘Eu faço questão de retribuir o favor. Quem sabe um café, qualquer dia, então?’ Ela tenta. A loira hesita por uns segundos, morde o lábio inferior enquanto estuda a proposta, mas acaba cedendo. Sua mão busca algo dentro do bolso do casaco, e logo revela um cartão de visita.

‘Esse é meu telefone pessoal.’ Ela indica com o dedo.

‘Doutora Maura Isles.’ A morena lê o cartão, depois sorri.

‘E esse é meu nome. Acredito que nunca nos apresentamos devidamente.’

‘Apesar das circunstâncias.’ A morena observa e estica a mão. ‘Jane eu-sempre-esqueço-alguma-coisa-em-algum-lugar Rizzoli,’ Ela diz e curva a cabeça para baixo levemente, e dessa vez ela ganha uma risada que soa como músicas aos seus ouvidos.

‘Foi um prazer te conhecer.’ Maura diz.

‘Foi uma sorte e um prazer te conhecer.’ Ela separa bem as palavras para deixar claro o quanto está agradecida, e quando entra no carro, naquela noite, são os olhos verdes e o sorriso gentil de Maura que ficam marcados em sua memória durante o percurso para casa.

…

Duas semanas depois, quando ela finalmente consegue abrir um espaço em sua agenda apertada, e quando a experiência daquela noite tem se transformado em apenas uma distante lembrança, ela cria coragem e manda uma mensagem para Maura às dez da manhã.

Eu não esqueci minha promessa. Café amanhã as 8? Conheço um lugar ótimo.

São 3:31 p.m quando seu celular vibra com a resposta.

Eu adoraria. Se você me mandar o endereço, te encontro lá.

Jane sente os dedos tremerem levemente ao ler a mensagem de novo e mais uma vez. Não é um encontro, não é alguém que ela precisa impressionar, mas, sim, alguém que ela quer impressionar. E isso a deixa mais nervosa de que todas as vezes anteriores que ela saiu com alguém.

Quando sábado de manhã chega, então, ela pula cedo da cama, toma um banho longo, arruma o cabelo o melhor que pode, e veste algo decente – não como a calça de moletom que estava no dia em que conhecera Maura – mas também nada chique. Apenas uma calça jeans, um casaco comprido, preto e de bom gosto.

O lugar, uma cafeteria perto de seu trabalho, é pequeno e acolhedor, e num sábado frio, pela manhã, não existem muitas pessoas ali. Jane se senta numa mesa e repete diversas vezes na sua mente: isso não é um encontro, isso não é um encontro, isso não é um encontro, isso não é um encontro. Mas seu pé continua batendo rapidamente no chão em um gesto nervoso.

Quando Maura chega – às 7:57, para seu espanto e admiração – ela usa um sobretudo vermelho que destaca o cabelo loiro e claro, os olhos verdes. Uma calça jeans preta colada e botas pretas para deixar a umidade da neve longe de seus pés.

Ela não consegue evitar o imenso sorriso em seu rosto. Sua boca se abre para cumprimentá-la, perguntar como tem andado, mas o que sai, em vez disso, é: ‘dessa vez eu me certifiquei de que tô com minha carteira.’

Isso arranca uma risada de Maura, e se ela tinha se sentido tola ao se ouvir dizendo isso segundos antes, agora ela se sente como se tivesse ganhado o primeiro lugar de uma maratona.

Ela sentam, bebem café (Jane faz uma nota mental para a escolha de Maura), comem um bolo de limão, tomam mais café, dão risadas e mais risadas juntas. Eventualmente conversam sobre trabalho. Jane lhe conta que é uma promotora de justiça, que vem trabalhando para o governo (naquele prédio ali, ela aponta com o dedo) por seis anos. Maura conta que é uma médica, mas que trabalha com pesquisa no campo da cardiologia, e não com gente viva, e suas bochechas coram quando Jane diz que ela deve ser muito inteligente, além de ser bonita.

No final do encontro – Jane paga pelo pedido de ambas – há um momento estranho entre elas. A morena não sabe ao certo o que dizer, e Maura parece estar hesitando também. Finalmente, Jane sai do transe e oferece para acompanhá-la até o carro. A loira aceita, agradecida pelo gesto cordial. A oferta se faz indispensável, quando, num pequeno incidente, a menor escorrega numa poça de água congelada. Jane a segura imediatamente, evitando uma queda que seria, no mínimo, dolorosa.

‘Opa! Vá com calma, patinadora!’ Ela brinca, mas um lampejo sombrio cruza o rosto da outra. É rápido, e já foi embora, mas estava definitivamente ali. E a menor ainda não disse nada; ela só encara Jane com um olhar que não entrega nenhum sentimento.

‘Qual é, Maura. Eu só estava brincando. Não me dê um gelo.’ Ela diz com certo desespero, entendendo o silêncio da outra como punição pela piada. Dessa vez, Maura parece reconhecer o trocadilho e se permite uma risada.

‘Não me dê o gelo? Sério?’ Ela provoca, lança um olhar brincalhão para Jane e se recompõe.

A morena dá de ombros, um sorrindo marcando seu rosto, refletindo aquela mesma sensação de vitória em seu peito. Ela ainda aprenderia, mas provocar Maura seria seu passatempo favorito em poucas semanas.

‘O inverno não é minha época preferida.’ A loira comenta, mas parece dizer mais para ela mesma do que para Jane. Como uma confissão, um segredo.

A morena aproveita a deixa, divide um segredo também. ‘Alguns anos atrás eu cai do telhado, no inverno, pendurando as luzes de natal. A neve abafou a queda, mas fiquei andando meio torto por uns cinco dias.’

Ela não precisa olhar para o lado para ver que os ombros da menor estão sacudindo por causa de uma risada que está a todo custo tentando ser abafada. Escandalizada – fingindo completo horror – ela abre a boca e empurra o ombro da outra em brincadeira. ‘Não é engraçado, Maura! Foi muito constrangedor, na verdade. Eu ouvi um sermão de duas horas da minha mãe por conta disso, o que foi mais dolorido do que o acidente em si.’ Ela reclama, aproveita a brisa gelada e cruza os braços contra o peito num gesto emburrado.

Mas a outra não pára de rir. Ela aperta os dentes (provavelmente por conta do ar gelado) e aperta os olhos durante a risada, que deve ser, Jane pensa, a mais gostosa de todos os tempos. Quando ela finalmente se acalma, tem lágrimas no canto dos olhos.

‘Perdão, eu não quis te ofender.’

Jane não perde a oportunidade. ‘Eu aceito seu pedido de desculpas. Se você sair comigo mais uma vez.’

‘Isso é chantagem.’ Maura observa.

Ambas param de andar, se viram uma de frente para a outra. Num momento, são apenas seus olhos se encontrando, o vento assoprando seus cabelos e o barulho distante dos pneus dos carros no asfalto molhado. No outro, é Jane sorrindo quase que timidamente, um pé brincando com a neve no chão, um ombro se levantando meio que com desinteresse, enquanto o resto da leitura corporal entregada o contrário. ‘É só um convite.’ Ela reformula.

Maura joga a cabeça para o lado e morde o lábio inferior. Ela sempre parece hesitar quando o assunto é se aproximar das pessoas, como se não confiasse o suficiente ou tivesse medo de se machucar. ‘Jane, eu...’

‘São só duas pessoas se divertindo juntas, Maura. Qual é.’ Ela insiste, diz uma meia verdade. Ela não menciona o fato de que está interessada na menor, que quer desesperadamente vê-la de novo e ter um dia tão bom, quem sabe melhor, do que esse, ao seu lado. ‘Tem um festival Natalino na semana que vem, no Jardim Público. Começa um pouco antes do anoitecer. Sempre guichês com comidas típicas da estação, um desfile, e é quando eles acendem a árvore de Natal. Claro, tem um Papai Noel para as crianças. Isso tudo se a neve não tiver cobrindo a cidade toda, você sabe como é.’

Um sorriso cresce no rosto da outra. ‘Esse é o único festival de inverno que eu gosto.’

‘Vou tomar isso como um sim.’

‘Quanta insolência.’ Maura brinca.

‘É pegar ou largar.’ Jane devolve, num ultimato.

Maura hesita mais uma vez, morde o lábio inferior e, depois de suspirar, se decide.