Notas iniciais
Tenho planos para essa história. hahaha, aqui vai, mais um cap! Não vejo a hora de postar o cap novo de ' - '. Embora esteja um pouco pesado...

Jane desce do carro e enfia o pé na neve. A bota se enche de água gelada, mas ela está de bom humor e simplesmente ignora o frio. Em vez disso, abre um sorriso e tira com a cara do destino. Nada vai estragar meu dia hoje, ela pensa. Alguns dias atrás Maura tinha aceitado seu convite para assistir o pequeno desfile no Jardim Público, e desde então ela vem se sentindo tão bem que até mesmo os colegas do trabalho notaram a sutil diferença no seu comportamento.

Agora, em casa, ela se prepara para a noite fria, vestindo um par novo de botas, várias camadas de blusa, calça quente, uma toca e cachecol. Ela está ansiosa para rever Maura, saber mais sobre a sua vida, seus gostos, seus medos, seus sonhos. A mulher parece reservada, cuidadosa ao se relacionar com ela. Jane não leva a mal. Nos dias de hoje não dá para confiar em desconhecidos, e é por isso que ela está fazendo seu melhor para causar uma impressão na loira.

Ela acaba de se arrumar, deixa o apartamento e entra no carro. O trânsito nessa hora está terrível: lento e lotado. Ela mora apenas quinze minutos de distância do lugar, mas nessas condições ela sabe que pode levar até meia hora. A neve deu uma trégua, mas as ruas ainda estão molhadas e escorregadias. Mas, de novo, ela não se importa. Liga o rádio, dirige com cuidado e quando tem a oportunidade observa as pessoas andando nas calçadas. Ela demora cinco minutos extras para conseguir estacionar o carro. Ela se checa no espelho: o ar quente deixou suas bochechas vermelhas, e ela agora sente calor. Seu perfume é leve e fresco, mas sem dúvidas deixa uma boa impressão. Ela checa o celular ao sair do carro, esperando já ter recebido uma mensagem de Maura dizendo que já estava no lugar.

Nada.

Ela não fica chateada; são apenas 6:30h, e elas combinaram de se encontraram as 6:45h. Ela coloca as mãos dentro dos bolsos do casaco e cruza a rua, e depois caminha para a sua esquerda, em direção ao parque. Mesmo com a temperatura baixa, crianças correm de um lado para outro, casais estão sentados nos bancos, os quiosques têm em torno de sete pessoas em cada fila. Jane decide que, assim como os outros visitantes, tomar um chocolate quente é uma boa idéia. Ela pára no próximo quiosque e compra o tamanho maior. Maura vai ter que perdoá-la, mas aquela é sua bebida preferia e ela não podia esperar mais um minuto. Ela anda ao redor, passa pela estátua de George Washington, admira as luzes natalinas enfeitando os pinheiros que rodeiam a obra. Quando checa o celular de novo, são 6:52h. Seu coração acelera um pouco, por medo de Maura não aparecer, por achar que levou um fora. Ela morde o lábio inferior, tentando se convencer de que Maura não parece ser esse tipo de pessoa. Mas a quem ela quer enganar? Ela mal conhece a outra mulher. Tudo o que ela sabe são informações um tanto impessoais e mundanas; o tipo de trabalho, número do telefone, e, Deus, ela nem mesmo tem o endereço da outra! Aquela mulher é definitivamente uma estranha, e Jane sabe de nada a muito pouco sobre ela. Perdida em pesamentos, ela quase se sobressalta quando o celular vibra em sua mão. Nessa altura ela já está convencida de que levou um fora, mas, para sua surpresa, o nome de Maura brilha em sua tela.

Ela desliza o polegar e lê a mensagem.

Eu me atrasei um pouco, chego em dez minutos. Sinto muito. Maura

Agora, Jane mal consegue conter o sorriso em seu rosto. Ela joga o resto do chocolate quente no lixo mais próximo, e agora tendo uma estimativa de quando a mulher vai chegar, ela caminha de volta para a mesma barraca e compra dois copos da mesma bebida. Insegurança invade sua mente porque talvez a loira não goste de chocolate quente, mas, se esse for o caso, Jane vai ter que dizer seu conceito caiu um pouco. Afinal, que tipo de pessoa não gosta de chocolate quente?

‘Eu me pergunto o mesmo.’ A voz a atrás de si fala, e Jane quase derruba os copos ao se virar e dar de cara com Maura.

‘Oh, eu… Eu disse isso em voz alta?’ Suas bochechas estão coradas e ela consegue sentir. Caramba, ela deve ser mesmo uma idiota.

‘Eu leio pensamentos.’ A loira diz em tom de brincadeira, rindo de leve em seguida. ‘Olá, Jane.’ Aquele sorriso – que tirar o ar dos pulmões de Jane – estampa o rosto da loira. Dessa vez ela escolheu um sobretudo preto, cachecol verde queimado, botas pretas assim como a calça e uma touca escura também.

‘Oi…’ Ela diz, meio abobada. É difícil de raciocinar, ela descobre, quando Maura aparece desse jeito: pronta para matar. Maquiagem perfeita, olhos brilhando, gentileza e um pouco de timidez estampada no rosto.

‘Eu sinto muito pelo atraso.’ Ela diz, jogando a cabeça para o lado e franzindo o cenho ligeiramente. ‘Foi um imprevisto, espero que não tenha feito você esperar tanto.’ Maura coloca uma mecha de cabelo atrás da orelha, depois cruza as mãos na frente do corpo.

‘Sem problema. Acontece.’ Jane devolve, se lembrando de que se ela não começar a falar logo, há uma chance grande de Maura ir embora e deixá-la ali. E, dessa vez, ela entenderia o motivo. ‘Espero que você tenha conseguido uma vaga por perto.’ O copo de chocolate quente passa de sua mão para a da menor. ‘Eu comprei para você. É o melhor que já provei. Compro o mesmo desde… Bem, sempre.’ Elas começam a andar de vagar, lado a lado.

Maura a olha com espanto. ‘Você vem aqui todo ano?’

Seus ombros encolhem, como se a informação não fosse importante. ‘Eu moro aqui desde que nasci. Não acho que existe lugar melhor. No Natal, eu e minha família sempre visitamos o jardim.’

‘Oh. Eu espero que eu não esteja quebrando nenhuma tradição de família.’ Maura diz quase com pesar, e dessa vez é Jane quem ri.

‘De jeito nenhum. Não se preocupa, não é a ocasião. E mesmo se fosse, minha mãe não se incomoda em receber amigos.’ Ela diz naturalmente, mas quando presta atenção um instante depois, Maura ainda tem um leve sorriso no rosto. Ela entendeu que é bem-vinda. Jane observa, abre um sorriso consigo mesma e continua caminhando.

Quando o desfile está prestes a começar, ambas se alinham no meio-fio com o resto das pessoas. Maura está bem ao seu lado, seu braço pressionado levemente ao seu, e é o mais próximo que elas já estiveram desde que se conheceram. O desfile não é muito glamoroso: é apenas um caminhão de bombeiro com um Papai Noel em cima, o bom velhinho lançando doces e acenando para as crianças – e adultos também. Mas é divertido e engraçado, principalmente porque os elfos acompanham o caminhão correndo pela rua, provocando as crianças, distribuindo mais doces e, para completar, tirando várias fotos. Um elfo, (o menor de todos, talvez com 1,60m) corre para o grupo de pessoas em que elas estão e joga um punhado de balas para o ar. Rindo ele pega o celular e tira várias fotos, selfies com crianças e… Quando Jane se dá conta, ele está na frente das duas, mas virado de costas, fazendo uma careta ao passo de que levanta o celular para cima. Num movimento quase combinado, as duas juntam as cabeças e sorriem. Jane tem apenas um vislumbre da foto, mas ela sabe que pode encontrar online, mais tarde, no website da prefeitura. É assim que eles promovem o evento.

‘É uma pena que esqueci a minha touca listrada em casa.’ Jane diz com sarcasmo, num suspiro dramático.

‘Você é alta demais para ser uma elfa, Jane.’ Maura replica, tentando não sorrir com a provocação.

A morena abre a boca em falsa indignação e leva uma mão ao peito. ‘Você está acabando com todos meus sonhos, Maura!’ Ela replica, a menor ri, e seus olhos brilhando ganham em beleza das luzes penduradas nas árvores.

Finalmente, elfos e Papai Noel já passaram, e tudo o que sobrou foram crianças procurando pelos doces e balas perdidos no chão.

‘Você quer entrar em alguma loja? Tá bem frio aqui fora.’ Jane pergunta para a loira, notando que seu nariz está vermelho, assim como as bochechas. O ar é gelado nessa época do ano, e se não fosse pela bebida quente de antes, ela tinha certeza que ambas estariam congeladas.

‘Eu estou bem.’ Maura diz, mas não soa muito convincente.

A morena bate de leve no braço dela com o seu, e elas começam a andar em marcha lenta. Ela quase pisa em cima de uma barra pequena de chocolate e se dobra para pegá-la do chão. Ela sorri com o presente inesperado: no chão ou não, o papel deve manter a sujeira do chão do lado de fora, e ela não vai, definitivamente, negar o presente inesperado. Ela se ergue, prestes a abrir a barra, mas então vê uma menina de provavelmente quatro anos na sua frente, parecendo desapontada e quase triste. Compreensão faz seu caminho em seu cérebro, e ela se dá conta do motivo pelo qual a criança parece desapontada.

‘Aqui está.’ Jane diz e oferece a barra para a menina. Ela tem cabelo escuro, olhos cor de mel, e a pele do rosto clara. Um sorriso imenso se abre, tão logo a morena oferece o doce, e depois de aceitá-lo, dois braços estão abraçando suas pernas.

‘Obrigada, mesmo, moça!’ A menina diz, e depois desaparece de vista.

‘Bem, pelo menos alguém ficou contente.’ Ela reclama, mas não está realmente chateada. Maura ri e revira os olhos.

‘Se você se comportar, eu prometo que podemos entrar em algum lugar e comprar para você uma barra de tamanho generoso.’

A morena ri baixinho, dá de ombros. ‘O que? Você acha mesmo que eu roubaria o doce de uma criança?’ Maura não responde, mas um sorriso triste se abre em seus lábios. Por um momento, Jane acha que talvez aquilo tenha acontecido com ela, quando pequena demais para se defender. Ela era educada demais, afinal de contas. Não parecia ser o tipo de criança que entraria numa briga por apenas um regalo. ‘Uma moeda por seus pensamentos.’ Ela arrisca, mas Maura olha para baixo, o mesmo sorriso nos lábios, e diverge.

‘Você pagou pelo nosso café da última vez, e agora de novo pelas bebidas.’ Ela observa. ‘Me parece que eu estou em dívida com você.’

‘Você pode sair comigo de novo.’ Jane responde imediatamente no que era para ser uma piada, mas no fundo, ela espera que a resposta seja afirmativa.

‘Eu estava apostando no cachorro-quente, na verdade.’ Ela ri baixinho e aponta para o quiosque. Suas bochechas estão rosadas, e as pontas do cabelo loiro escapam de sua toca e voam no vento.

‘Pode apostar, cachorro-quente cairia bem agora.’ Ela concorda, mas, no fundo, se sente decepcionada por não ter tido a resposta que queria.

Enquanto esperam na fila, uma colega de trabalho de Jane acaba esbarrando nela. Seu nome é Rachel, e ela é morena, alta e bonita, seus olhos são negros e afiados com inteligência, mas ela é uma das pessoas mais gentis que Jane conhece.

‘Jane!’ Ela exclama e acena uma mão. Fecha a distância entre elas e diz, toda sorridente. ‘Eu recebi hoje o arquivo que você deixou com minha secretária. Prometo examiná-lo na segunda-feira.’

‘Perfeito.’ Jane diz, sorri em educação. ‘Ahn… Essa aqui é Maura, uma amiga.’ Ela se vira parcialmente para a loira, e aponta uma mão para ela e depois para Rachel. ‘E Maura, essa é Rachel. Nós trabalhamos juntas. Bem, no mesmo prédio.’

‘Oh, perdão. Eu não quis ser mal educada, não sabia que você estava com ela.’ Ela se desculpa e chacoalha a mão da loira. ‘É um prazer te conhecer.’

‘O prazer é meu.’ Maura responde com um sorriso e observa a troca das duas.

‘Você vem na festa de confraternização? Por favor, diz que sim. Eu estou morrendo para comer aquela torta que tua mãe faz. E os bolinhos de canela!’ Ela quase implora, ri em seguida.

‘Você quer a minha presença ou apenas a comida?’ Jane levanta uma sobrancelha em brincadeira.

‘Qual é, Jane? Você sabe que nós amamos você também.’ Ela diz como um sorriso doce, mas a morena sabe que é apenas para escapar do assunto.

‘Tá, ok. Eu prometo que dou uma passada esse ano.’ Ela se rende.

‘Não esqueça a comida.’ Rachel brinca, aperta o braço da morena num gesto como se dizendo vamos fazer as pazes, eu estou apenas brincando e se vira de novo para Maura. ‘Bem, foi um prazer encontrar vocês aqui, mas meu marido está me esperando com as crianças. Espero vê-las de novo.’

‘Até mais, Rachel.’ Jane diz, revira os olhos e ri.

Maura se vira para a morena, um sorriso indecifrável nos lábios. ‘Bem, ela é amigável.’

‘Pode apostar, é uma das poucas almas daquele lugar que tem um bom senso de humor, se é que você me entende.’

‘Imagino que vocês devem trabalhar com casos perturbadores.’ Maura oferece. ‘Isso deve afetar no humor das pessoas.’

‘É, afeta sim. Não de todas, devo dizer.’

‘Nota-se.’ Maura diz, sem maldade, apenas uma observação que quase pode ser entendida como um elogio.

Elas pagam e comem o cachorro quente, na maior parte em um silêncio confortável. Quando terminam, Jane mal consegue sentir as mãos por conta do frio. Ela as esconde nos bolsos do casaco e nota que a loira fez o mesmo.

‘Jane...’ A mulher começa, inesperadamente.

‘Sim, Maura?’

‘Você mencionou que gostaria que eu saísse com você novamente.’ Ela retoma o assunto.

O coração da morena dá um pulo de 360 graus. ‘Eu adoraria.’ Ela admite, sem vergonha dessa vez.

‘Acontece que… Eu, eu não estou pronta para… Eu não sei se isso é adequado.’ Ela diz com hesitação e honestidade, e só pelo jeito como seu cenho se franze em seriedade, Jane sabe que ela tem carregado alguma carga pesada, e que talvez não tenha conseguido se livrar completamente dela ainda.

‘Eu não estou pedindo você em casamento, Maura.’ Ela ri baixinho, tentando melhorar o clima entre as duas. ‘Eu não estou pedindo nada de você, e nem esperando nada em retorno. Ok?’

‘Duas amigas saindo juntas?’ Ela tenta entender o que está acontecendo.

‘Isso. Isso define bem.’ Jane devolve, e, embora ela tenha certas expectativas para essa relação nova dela e de Maura, ela não quer trocar os pés pelas mãos, não quer assustá-la. Conhecê-la bem, antes de qualquer coisa, parece ser o passo ideal para conseguir chegar perto dela.

‘Certo.’ Ela diz, e suspira. Seus olhos não encontram os de Jane, e ela esfrega agora uma mão na outra, tentando se aquecer.

‘Escuta.’ Jane começa. ‘Por que não encerramos a noite hoje? Nós já vimos a atração principal, comemos e, agora, estamos quase congelando. Eu não quero me transformar num boneco de neve.’

Maura ri, docemente, e concorda com a cabeça.

‘Se você concordar, prometo que nosso próximo programa será num local fechado e aquecido.’

‘É tentador.’

‘É um compromisso?’ Jane tenta.

Maura sorri, encolhe os ombros. ‘Me parece que sim.’

E, embora a resposta tenha sido positiva, Jane volta para a casa com a sensação de que não saiu do lugar: nem um passo para frente. Mas, ela tenta se lembrar, pelo menos Maura não deu um para trás. E é isso que importa agora.