O silêncio que se instalara naquele instante era sufocante, incômodo. Gabriela continuava a tentar se lembrar de como que se falava inglês e Poynter estava ansioso por uma resposta.

– Gabriela? – Dougie perguntou e ainda assim não obteve nenhuma resposta. Alguns segundos depois, ele teve uma confirmação de que pelo menos era a jovem jornalista com quem estava falando. Não por ela ter respondido o seu chamado, e sim por uma voz masculina gritando ao fundo o apelido da garota. Gabriela resmungou um “fodeu”; uma palavra em português que Dougie conhecia. – Desculpa, acho que foi engano. – Podia-se ouvir na voz do garoto um claro desapontamento, logo em seguida só o conhecido “tututu” quando o baixista desligara o telefone em sua cara.

– TIAGO! – Gritou, pelo microfone do computador.

Sim, tinha feito a matéria, mandado para a impressão e seu MSN ficara aberto. Tiago tinha o costume de chegar e gritar — literalmente — pela garota quando a vê online. Costume que Gabriela sempre gostara; menos, é claro, naquele exato momento. Fora muito inoportuno. Agora que ela lembrava se de como falar inglês, seu baixista favorito tinha desligado o telefone.

Mandou uma mensagem rápida para Tiago, contando-lhe que tinha terminado a matéria, que tinha ficado ótima, sem querer puxar a sardinha para si mesma, é claro e que tinha que sair. Fazer algo importante.

Olhou no identificador de chamadas e ligou de volta para o número que supôs ser o telefone do loiro.

– Dougie? Desculpe-me, a ligação estava ruim e o Tiago me apareceu para me mostrar as últimas fotos que ele tirou do show. – Gabriela despejou tudo, querendo (por tudo no mundo) que o pequeno grande Poynter não estivesse irritado. Percebeu que o mesmo não estava ao ouvir aquela risada fofa que só ele sabia dar.

Flashback

Gabriela se levantou do sofá onde estivera fazendo a entrevista com sua banda favorita. Os garotos continuavam rindo e, baixinho, ficaram falando das perguntas. Bom, uma tentativa de falar baixinho com o Danny é o mesmo que frustração total. O guitarrista nunca soubera ser discreto, e sua risada era uma comprovação deste argumento. Gabriela, com seu faro jornalístico investigativo, desconfiou que estivessem rindo da entrevista feita por ela. Então se aproximou lentamente.

– Espero que não estejam rindo da minha humilde pessoa... — Comentou olhando desconfiada para eles, com um sorriso de canto.

– Nunca! – Tom disse, com cara de anjo, que pela primeira vez não convencera ninguém. Os garotos estavam rindo, não dela, mas de algumas perguntas como a sobre os mamilos e a fixação do Danny por eles. Então ficaram quietos, sem saber o que dizer.

Mas o silêncio não demorou muito, tinha uma coisa cutucando a curiosidade do baterista e ele tinha de perguntar para Gabriela.

– Então, Gabs... posso chamar assim, certo? – A morena apenas deu um breve aceno com a cabeça, assentindo. – Gabs, eu me pergunto de onde você conhece a nossa Carla... Poderia matar a minha curiosidade? – Harry perguntou erguendo uma sobrancelha, de um modo sexy que apenas ele conseguia.

– Da internet. – Gabriela respondeu simplesmente, dando de ombros. Mas em sua mente, passavam-se maneiras dolorosas e lentas de matar a amiga. Como ela podia ter lhe escondido por tanto tempo que era amiga dos guys?

– E você gosta das nossas músicas, do som, ou seja, gosta da banda? Ou veio apenas porque é seu trabalho? – Foi a vez de Tom perguntar.

– Eu gosto... – a morena assentiu, corando no mesmo instante. – Vocês são meio que um vício meu. – Fez uma pausa, suspirando. – Sinceramente, vocês são os meus maiores vícios...

– Então aquela pergunta sobre a gente saber que tem pessoas que vivem por nossa causa, incluía você? – Dougie olhou fundo nos olhos castanhos claros da morena.

Gabriela se perdeu por um momento no azul dos olhos do baixista. Tão perfeitos e sinceros. Aqueles olhos sempre foram uma espécie de fraqueza da jornalista. Sempre aqueles olhos.

– Quer tentar descobrir? – A morena piscou para o garoto, tirando um papel do bolso da calça, o entregou. Era o número de seu celular.

Sabia que ele não a ligaria. Por que motivo o faria? Ela não passava de uma fã, e jornalista — não podemos esquecer isso -, que os conhecera. Era sortuda, tinha consciência, mas a sua sorte não era tão grande assim. Mas a esperança é sempre a última que morre. Quem sabe seu telefone não iria tocar e seria ele?

Gabriela saiu da sala balançando a cabeça negativamente, para tirar aqueles pensamentos de sua cabeça. A trilha sonora de fundo ao sair foi mais do que podia ter sonhado um dia; a risada escandalosa do Jones.

Fim Flashback

Gabriela ainda agradecia a todos os santos e deuses que conhecia por ter lembrado como se falava inglês e por Dougie tê-la atendido quando retornara a ligação. Mentalmente, é claro. Estava tão distraída nessa tarefa que não reparara na risada dele, que apesar de fofa, estava um tanto fraca.

– Tudo bem... pra mim pelo menos. – Ele falou um tanto atrapalhado. – Não atrapalhei nada, não é mesmo? – A pergunta rápida fora inesperada. Por ambos os lados. Dougie sentiu vontade de se matar; o que fora aquilo em sua voz? Medo misturado com raiva? Por que suas mãos suavam tanto? O que diabos estava acontecendo com Dougie Lee Poynter? Deixou de se preocupar com sua aparência, deixou de fazer tudo, na verdade, ao ouvir a risada da garota, que rapidamente se transformou em uma gargalhada, tão escandalosa quanto a de Danny. “Foco!”, pensou o baixista, voltando a se concentrar no que estava fazendo.

– ‘Tá me zoando, né?

– E por que eu faria isso?

– Bem, perguntou se estava atrapalhando alguma coisa... Só pode ser zoação. Se toca Poynter! Nem gripe me pega.

Agora os dois riram e uma conversa suave sobre o dia anterior surgiu. O assunto, na verdade, era sobre o fato de Dougie ter ligado para Gabriela. Só em seus mais bizarros sonhos ele já havia feito isso. Tinha lhes dado o número de seu celular sem se atrever a imaginar se ele ligaria ou não. Não queria viver com muitos “e se” em sua mente. Seria uma tortura eterna. E a morena não queria isso para si. Já vira colegas definharem por causa de “e se” demais em mente.

– Achei que você não me ligaria. – Gabriela confessou rindo.

O rumo desta conversa estava deixando Dougie meio bobo. A jornalista já havia lhes falado tudo o que a fazia amar sua banda. E não eram poucas coisas.

– Não poderia não ligar... – O garoto sorriu.

Gabriela não pode evitar que seu coração disparasse, ou que desse uma desculpa para desligar o telefone naquele momento. Se o baixista falasse alguma coisa a mais, a morena tinha sérios riscos de sofrer um infarto. Dougie pareceu ter entendido o porquê de ela ter desligado. Sabia que havia falado demais, e talvez tivesse assustado a garota. Ele mesmo estava um pouco assustado, também.

Dougie resmungou alto em seu quarto de hotel. Não deveria ter falado aquilo, queria continuar a conversar com a garota. Tinha só mais dois dias no Brasil. E queria passar ao lado de Gabriela; a garota diferente de todas as outras que já conhecera; espontânea, alegre, falante, com bom gosto (verdadeiro e não fingido)... desconsiderando o fato de ela ser fã da banda e ainda assim os tratara como os humanos que são e não como deuses que os idealizam. Coisa que outras fãs não sabem fazer. Ele havia se encantado com os trejeitos dela. Sim, encantado. Apenas isso. Não havia se apaixonado, assim, de um minuto para o outro. Isso não existe, é coisa de ficção. Além de encantado, ele tinha se sentido atraído por ela. Tudo o que queria agora era desvendar todos os mistérios dela, conhece-la a fundo.

Já Gabriela, ela sempre sentira algo forte por Dougie. Desde a primeira vez que o vira em uma foto, ela soubera que ele faria toda a diferença em sua vida; sem ele nem ao menos saber de sua existência. Aquilo não importava. O que sentia por ele era tão puro e sincero que não importava se ele a conhecesse ou não. O que importava de verdade era a felicidade de Poynter, mesmo que ela (a felicidade) estivesse nas garras de outra.

Então aquela frase de Dougie a deixara paralisada; sem saber o que pensar direito. Ele não tinha ideia do quanto a afetava. E talvez não fizesse bem algum se ele o soubesse.

Notas finais
Mais um capítulo desta estória sem nexo...