Xícara com café, iPod tocando músicas do McFLY. Agora Gabriela conseguiria dormir. Não lembrava quando essa mania estranha começara, mas não passava um dia sem fazer. Conseguia pensar mais claramente enquanto bebericava o café e se acalmava com as músicas. E hoje seus pensamentos tinham uma só pergunta: como pudera inventar uma desculpa esfarrapada para desligar o telefone, por Dougie Lee Poynter ter lhe dito algo um tanto quanto constrangedor e estranho? A resposta ainda não havia sido apresentada, é claro. Ela não existia.

– Bem, não é todo dia que seu ídolo te liga e fala “não tinha como não ligar”... Entrei em pânico, é normal! – Disse para si mesma, bebendo o resto do café de sua xícara em um único gole. Aquela queimação em sua garganta foi um tanto quanto reconfortante. – Se ele me ligar de novo, deixe-me frisar o enorme se dessa frase, eu não desligarei caso ele fale outra coisa do tipo... – Deu uma risada sem graça e suspirou. – Percebi, enquanto me desculpava com ele pra desligar o telefone, que ele não queria ter dito aquilo, com aquela intensidade. Mas disse! E eu estou confusa agora... que merda Poynter, sai dos meus pensamentos e me deixa dormir!

Resmungou consigo mesma, desligando o iPod e colocando-o no criado mudo ao seu lado. Ajoelhou-se em seu colchão. Iria fazer sua prece de todo dia.

– Querido Deus, obrigada por me dar mais um dia de vida, saúde e alegria em tudo o que faço. Agradeço também por ter feito minha vida cruzar com a dos meus meninos... E, Deus, eu te peço, não por mim, mas por eles; que Você os guie para onde quer que eles vão. Que sempre deixe um anjo da guarda caminhando com eles, protegendo-os do mal. Assim como peço que cuide daqueles que estou longe e não posso cuidar eu mesma. Obrigada, novamente, querido Deus. – Gabriela orou com as mãos unidas na altura do peito.

Sempre rezava a Deus pedindo que Ele protegesse o McFLY (e seus amigos de longe) e agradecia a isso, e a tudo o que tinha em sua vida a Ele. E só dormia, realmente, depois de fazer suas preces.

Sorriu abertamente. Estava contente.

Ajeitou-se na cama e após ficar uns dez minutos inquieta, virando-se de um lado para o outro, finalmente conseguira adormecer.

O outro dia aguardava grandes emoções para Gabriela.

O dia seguinte raiou esplêndido. O sol invadia o quarto faceiro pelas brechas de sua cortina, de cor vinho. A claridade não lhes incomodava os olhos. Nem mesmo o toque de seu despertador conseguia acordá-la. Mesmo em dias de folga, Gabriela não quebrava a rotina de acordar cedo. Geralmente aproveitava esses dias para dar uma corrida no parque próximo a seu apartamento, para manter a forma.

O cobertor, que durante a noite lhe protegera do frio, agora jazia caído no chão. Seu corpo, desnudo, levava consigo apenas uma regata branca e uma calcinha colorida e listrada. As duas tatuagens que tinha estavam à mostra; coisa que só acontecia quando estava em casa, sozinha ou com ninguém que a conhecesse no trabalho. Não tinha certeza se, a marca negra que tatuara no antebraço esquerdo, seguindo piamente a descrição feita por J. K. Rowling ou a frase “So just remember to smile and that’s a good enough start”, da música Smile da banda McFLY no peito do seu pé direito, seriam bem aceitas.

Mesmo criando coragem para fazê-las, Gabriela sabia que tatuagens quase nunca eram bem vistas dentro de firmas e outros lugares. Então tinha um pé atrás sobre isso.

Quase dez minutos depois que seu despertador começou seu árduo trabalho de tentar acordá-la, foi que realmente conseguiu algum progresso; Gabriela movimentou-se inquieta em sua cama, acordando em seguida.

Suspirou, espreguiçando-se.

Levantou-se lentamente da cama, ainda sonolenta e foi até o banheiro, para suprir suas necessidades matinais. Caminhou então para a cozinha, no fim do corredor ao sair do quarto.

Pegou a caixa do seu cereal favorito e depositou em um recipiente de tamanho considerável e então jogou um pouco de leite. Um café-da-manhã bastante infantil, mas que Gabriela amava.

Comeu devagar, sentada na bancada de sua cozinha, olhando para uma de suas paredes, pensando no que faria nesse seu dia de folga. Após sua corrida, é claro.

Colocou o recipiente e a colher na pia. Martha, quando chegasse mais tarde, lavaria a louça. Havia contratado a velha senhora apenas para que arrumasse a casa. Gostava de cozinhar, apesar de nem sempre arranjar tempo para fazê-lo. Entrou em seu quarto, novamente, para trocar sua roupa. Pegou um de seus shorts favoritos (preto, larguinho e de malha) para ir correr, assim como uma regata cinza, cujo decote era redondo, realçando seu busto. Seus tênis eram brancos e os cadarços eram rosa neon.

Arrumou-se e prendeu seus cabelos castanhos e longos em um rabo-de-cavalo frouxo.

Gabriela saiu do apartamento, trancando a porta, é claro. Não queria ter seu apartamento assaltado ou coisa do tipo. Já entrando no espírito de corredora, com categoria, desceu pelas escadas. Parou por alguns instantes só para olhar assustada para seus pés, desde quando seus tênis sabiam ser tão barulhentos? Balançou a cabeça, rindo com seus pensamentos e voltou a correr. Não se importando se acordasse os vizinhos. Se ela acordava cedo, porque eles também não poderiam?

Saiu para a rua acenando para o porteiro, que gritara alguma coisa muito parecida com “Por que não pegou um autógrafo dos caras para a minha filha?”. Gabriela deu de ombros e fixou a atenção em seu exercício.

Correu, correu, correu e correu mais um pouco.

E então quase caiu.

Motivo? Quatro garotos, virando a esquina, e correndo em sua direção com cara de desespero. Quatro garotos que formavam a banda que Gabriela mais amava em todo mundo. E por alguns milésimos de segundo, a morena ficou com os olhos brilhando, afinal, o McFLY vinha correndo ao seu encontro. Imaginou? Então, perfeito, não é? Seria, se não tivesse, também, centenas de fãs correndo atrás dos pobres garotos. O grande motivo de eles estarem correndo; medo! Puro medo de ser pisoteado por fãs; todas descabeladas, suadas e enlouquecendo por eles.

Gabriela arregalou os olhos.

Dougie a reconheceu. Não sabia como, só a vira uma vez na vida, talvez fosse culpa do desespero. Ou porque era difícil esquecer alguém como Gabriela. Dougie não saberia dizer. Agarrou na manga da blusa de Tom, e os dois praticamente pisotearam as pessoas que estavam em seu caminho até a morena. Harry e Danny os seguiram, quase atropelando os dois querendo chegar perto de sua salvadora logo.

Tudo isso acontecera em questão de segundos, Gabriela continuava no mesmo lugar, com a mesma expressão assustada.

Mas ela era uma jornalista conhecida por pensar rápido.

Os livraria daquela enrascada. Devia isso para eles, que sempre a faziam feliz, mesmo de longe.

Harry foi o primeiro a chegar perto da morena, depois de quase arrancar o sapato de Dougie ao passar por ele. Gabriela o pegou pelo pulso e gritou “Siga o mestre!”, em inglês para os meninos.

Não foi preciso falar uma segunda vez.

Logo todos estavam correndo, refazendo os passos de Gabriela até seu apartamento. Eram perto de onde estavam. Não precisariam correr por mais que dez minutos.

Sabe como você fica quando está participando de uma maratona? Não? Bem, a Gabriela ficou sabendo naquela hora. E achou isso foda. Os seus meninos estavam precisando dela, e a morena estava lá na hora, como o Homem Aranha e seu sentido aranha, para salvá-los de um massacre.

Chegaram ao seu prédio e Gabriela viu o porteiro encará-los assustado.

– Agora você mesmo vai poder pegar o autógrafo! – Gritou ao passar pela portaria.

A adrenalina impediu que Gabriela programasse seu cérebro para falar em português com o porteiro, então sua frase saiu em inglês. E o porteiro, não tão qualificado quanto deveria ficou brisando, literalmente.

Ainda na recepção de seu prédio, a morena apertou o botão chamando o elevador. Quando o mesmo apareceu no térreo, seis garotas paralisaram ali dentro — cinco delas com camisetas do McFLY e a sexta com uma camisa onde tinha escrito “I heart Charlie Simpson”.

Se Gabriela não estivesse tão preocupada em salvar seus meninos da garra de fãs loucas, teria tirado uma foto com a sexta garota, só para mostrar pra Carla. Encarou as garotas com uma expressão quase assassina e, agarrando o Judd novamente, correram em direção às escadas. Subiram seis lances o mais rápido que suas pernas conseguiram.

Gabriela, esperta como só ela sabia ser em momentos difíceis, achou que tinha deixado à porta destrancada (como se realmente fosse maluca o suficiente para fazer isso, igual à amiga, Carla) e tentou entrar com tudo. O resultado? Com a batida, a morena caiu por cima de Harry, que esbarrou em Danny. Danny? Vocês o conhecem! Conseguiu derrubar os outros dois também.

Se a cena não fosse tão trágica, teria sido cômica.

Ainda no chão, Gabriela procurou pelas chaves no bolso único de seu short -, o que não demorou quase nada. Levantou-se de um pulo, quando as garotas apareceram em seu andar, no elevador ainda.

Os garotos do McFLY arregalaram os olhos e viraram-se para Gabriela, que enfiava (ou tentava enfiar) a chave na fechadura, fazendo uma torcida para que ela tivesse um resultado mais rápido. Abriu a porta ao som dos gritos das seis garotas.

Entrou e deu passagem para os meninos. Danny foi o último e teve um de seus braços agarrados pelas garotas.

– DANNY! – Harry gritou, puxando o amigo, fazendo um cabo de guerra, onde Danny era o cabo e seus oponentes eram as garotas. Porém, por ser mais alto, mais forte, mais bonito, e completamente gostoso, ganhou o ‘jogo’, fazendo Danny entrar e Gabriela fechar a porta com um baque na cara das garotas.

– Bando de cadelas no cio! – Gabriela sussurrou para si mesma.

Imagine que na casa de Gabriela tem câmeras na sala. O que você veria seria: Ela desmaiada no sofá, respirando rápido e quatro homens caídos pelo chão, com o suor escorrendo pelos rostos avermelhados e com as mãos no peito.

Gabriela estava acostumada a correr (não como acabara de fazer, mas tinha mais preparo que o McFLY), por isso se recuperara rápido, sentou-se no sofá e olhou para eles. Lembrou-se das garotas loucas, a parte mais tensa de toda essa corrida maluca. E então gargalhou da cara que os guys fizeram ao fugir delas.

Os garotos foram arrancados de seus pesadelos pensamentos, sobre o que teria acontecido se fossem pegos, com a risada de Gabriela. Os quatro olharam para a morena, agradecidos, com os sorriso mais lindos e fofos do mundo e o dia dela já poderia ser considerado ganho.

– Cara, obrigada! Muito, mesmo. – Os guys falaram todos ao mesmo tempo, descompassados e sem sentido.

Gabriela riu, abanando a mão, dispensando aquela cena. Harry suspirou. Não era de seu feitio ficar agradecendo a todo mundo.

– Não foi nada, guys... Eu imagino o terror de vocês.

Danny se espreguiçou em cima do tapete felpudo no qual estava deitado.

Dougie e Tom tocaram as mãos. Como se para saberem que estavam realmente vivos e salvos.

– Por que isso? – Gabriela perguntou em meio ao silêncio que se instalara em sua sala.

– A gente disse que a ideia do Danny era uma porcaria. Humpf, sair para conhecer o lugar sem ninguém... onde já se viu?! – Tom explicou resumidamente.

– A gente, no caso eu e o Tom. O Danny ficou bravinho e o Harry o defendeu, ou seja, a culpa é toda deles dois! – Dougie fuzilou os garotos, ainda estava vermelho por causa da corrida. Porém, a cor acentuou ao lembrar-se do telefonema que fizera para Gabriela no dia anterior e ele queria se fuzilar com o olhar, pena que não tinha como.

Agora que estava na casa de Gabriela a encarando tão perto de novo, ficou sem jeito.

– Nem tanto, na rua foi legal! – Danny deu de ombros.

– Tenso mesmo foram as garotas no elevador! – Harry comentou relembrando. Danny assentiu veementemente.

– Eu que o diga! – Gabriela resmungou. – Não vou poder sair de casa, agora. Ou elas irão me matar. E se elas o fizerem, espero ao menos que a Cah esteja aqui. – Os olhos de Gabriela brilharam maldosamente.

– Por quê? – Tom perguntou.

– Nossa Cah? – Dougie indagou, apenas para confirmar sua suspeita.

– Ela mesmo, por quê? Você não viu uma das seis gurias? – Gabriela encarou Tom, indignada.

– Ela roubou o namorado da Carla? – Danny perguntou, tentando entender toda a história ainda.

– Não, mas é quase isso! – Gabriela riu, lembrando-se da camiseta para o Charlie.

Harry olhou para Gabriela de lado, entendendo onde a garota queria chegar.

– A guria com a camisa “I heart Charlie Simpson”?

Gabriela sorriu de lado, cúmplice, e Harry riu.

– O que o Charlie está fazendo nessa conversa? – Danny perguntou olhando de um para o outro. Como sempre, ainda não havia entendido direito onde aquela conversa chegaria.

Notas finais
Foi engraçado escrever esse capítulo, haha.