CoffeePasta - Interativa
6 #5 - Renca de Freaks
Notas iniciais

Apesar de meia década ter se passado desde que a casa dos Woods se tornara palco de assassinato, ninguém mais se atreveu a comprar a residência após o ocorrido. Todos que passavam em frente a fachada dela podiam sentir as assombrações que ali rondavam.
Liu lembrava-se de quando aquelas paredes não estavam pichadas com as frases “inferno”, “família amaldiçoada”, e mais um monte de merda que o rapaz simplesmente não suportava ler sem que um ódio aflorasse. A família dele nunca teve culpa! O problema sempre foi Jeff. Jeff era a desgraça que acabou com tudo. Liu não podia descrever o que visitar sua antiga casa abandonada fazia com seu psicológico: era como se instigasse mais a seguir seu plano de caçar o irmão.
Havia também a cesta em frente a garagem. O rapaz mal a usara depois que se mudou para a nova casa, embora se recordasse de que na sua cidade natal ele e Jeff já jogaram mais partidas de basquete do que qualquer outro jovem da idade deles na época.
Eles amavam basquete.
Liu estava meditando quando percebeu uma movimentação diferente. Uma mulher abriu a porta e a adentrou sem mais nem menos, após verificar se havia alguém ao redor. Ele, incrédulo, pensou que fosse mais um daqueles adolescentes sem respeito que usavam seu lar para se drogar ou transar longe dos olhos dos pais. Apertou o cabo da faca embainhada na cintura e seguiu os passos da enxerida.
Estava indo cautelosamente em direção ao que antes era seu quarto, seguindo os sons da madeira rangendo com o peso da invasora, quando de repente suas pistas se cessaram. Tudo caiu em um completo silêncio. Liu congelou no lugar, atento, esperando uma brecha para seguir.
Uma espécie de corda de aço foi jogada por cima de sua cabeça, enlaçando seu pescoço. Ele imediatamente se sentiu sufocado.
— Quem é você? Por que está me seguindo? — A voz da mulher soou logo atrás de seu ouvido.
Liu se livrou das mãos dela, agarrando-a nos braços e arremessando-a para frente. A mulher rolou e um tanto tonta se levantou. Ele podia analisá-la melhor agora. Usava uma calça preta justa, e uma regata da mesma cor. Os cabelos eram longos, negros e ondulados, presos preguiçosamente com uma presilha. Os lábios cheios se curvavam em uma expressão de desgosto, e os olhos… Estavam escondidos por trás de lentes de óculos escuros.
— Você é um deles! — Ela cuspiu as palavras — Você tem o mesmo sangue que Jeffrey Woods!
Liu rosnou pela ligação que a mulher fizera.
— Eu jamais tive o mesmo sangue que aquele demônio! — Bradou novamente, tirando sua faca da bainha e a pegando no ar, indo de encontro com ela.
A morena desviou da investida dele, agarrando uma garrafa de bebida que ocasionalmente se encontrava perto da entrada. Quebrou-a na cabeça de Liu, que atordoado ficou vulnerável ao próximo ataque.
Ele caiu no chão mas conseguiu rolar para o lado antes que a outra perfurasse a sua cara com o vidro agora quebrado. Com a visão embaçada, tentou mirar a lâmina no rosto da inimiga. Pegou de raspão, apenas o suficiente para que os óculos escuros voassem para o outro lado do cômodo. Em um piscar de olhos ambos estavam de pé.
— O que você está fazendo na minha casa? — Indagou Liu, o cenho franzido.
— Você é irmão de Jeff the Killer. Eu sabia que ainda estava vivo! Ele sempre deixa um para contar história.
— Do que diabos você tá falando, mulher?
Foi quando ele percebeu que os olhos dela não possuíam íris ou pupila. Eram apenas orbes negras, cintilantes.
— Me diga já onde está ele! — Exigiu ela, bradando.
— Eu não sei onde aquele filho da puta está!
— Mentiroso! Vou te matar também, nem para se útil na minha vingança você é. Perda de tempo! Diga logo!
— SE EU SOUBESSE JÁ TERIA O MATADO! — Ela se calou, com uma clara expressão de confusão — Não se meta entre o Jeff e eu. Quem vai dar fim nesse assunto sou eu e não uma desgraçada aleatória que se acha a justiceira.
A mulher deu um passo para trás, ainda cautelosa porém fora de sua posição de ataque.
— Pensei que você estivesse com ele.
Liu passou a mão pela lateral do rosto e percebeu o sangue que escorria, graças a poderosa pancada com a garrafa. Sentou-se no chão, enfraquecido pela perda de sangue derivada da luta recente e da grande ferida em sua perna. Pálido como um cadáver, prosseguiu sua discussão, orgulhoso demais para simplesmente deixar como estava.
— Quem é você afinal? — Ela ia começar a respondê-lo quando ele a cortou — Quer saber?, não importa. Só saia daqui, não quero ficar inconsciente… com uma desconhecida armada sob o mesmo teto.
A mulher parecia ter pensado por alguns instantes e Liu mal era capaz falar mais de tanta fraqueza.
A sensação era de ter tomado um anestésico forte e estar lutando contra ele. Uma dor pulsante e ardida na cabeça o impedia de sequer abrir os olhos, visto que essa pequena tarefa era uma tortura. A falta de oxigênio no cérebro também afetou o sistema nervoso dos seus membros inferiores que aparentavam estar ficando dormentes, logo mal sentiria a ferida.
Quietamente, a mulher saiu da casa. Liu que ainda estava em confronto com seu próprio corpo, se permitiu descansar, sem poder seguir para um cômodo menos exposto a intrusos.
Para o rapaz, só havia piscado. Todavia era mais do que claro que na verdade desmaiara, despertando com uma garrafa de água fresca na boca. De visão turva e mente embaralhada reconheceu a mulher de olhos negros, e isso o fez se recusar a engolir o líquido. Incapaz até mesmo de cuspir, a água escorreu pelo seu queixo e molhou sua blusa, como uma cascata gelada.
— Eu juro que não há nada aqui que te fará mal. — Ela dissera — Beba logo se quiser viver. Se eu quisesse te matar já teria feito isso.
Teimosamente Liu ainda não engoliu. A vida o ensinara a não confiar em ninguém.
Impaciente, a outra levantou o queixo do rapaz e despejou a água em sua garganta. Ele se afogou um pouco, mas não pôde negar que a sensação de lubrificar o interior de seu corpo fora aliviante.
Não bastasse tal ato de caridade, ela o levou até algo macio para se deitar. Liu não fez mais nada para impedir a ajuda dela.
Só levantou a faca para ela uma vez: quando esta tentou analisar suas feridas.
— Já fez o bastante — Murmurou as palavras roucas — Me deixe em paz.
E desta vez, a mulher obedeceu.
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Claire havia dado um pequeno cochilo depois de terminar de ler um livro que começara há muito tempo, e suspirou quando percebeu que logo seria seu horário de entrada na cafeteria novamente. O tempo que tinha para fugir do serviço soava pouco, e isso porque mal terminara seu turno da biblioteca. A jovem trabalhava em dois locais diferentes: servindo assassinos em série e arrumando livros em prateleiras, na biblioteca pública a apenas algumas quadras de seu purgatório.
Apesar de Slenderman disponibilizar comida e abrigo, Claire queria mais do que apenas continuar naquilo pelo resto de sua vida, tentando um salário mínimo no mundo real e aguardando até que conseguisse o suficiente para recomeçar.
Enquanto se ajeitava para voltar ao seu turno na cafeteria, olhou-se no espelho e as olheiras a fizeram repensar em seus objetivos. Não era a primeira vez que pensava em largar um de seus cargos e fosse o que fosse. Não aguentava mais rotina tão puxada.
Sonolenta, andou pela rua até chegar a dimensão mágica das Creepypastas. A pouca iluminação do local a fez bocejar.
— Obrigado por ajudar a limpar as mesas, Claire — BEN revirou os olhos ao passar por ela, carregando uma cadeira de perna quebrada para os fundos.
— Desculpem o atraso pessoas — Ela respondeu se espreguiçando longamente.
— O problema nem é a gente — Comentou Ticci Toby — Se continuar assim vai ter que prestar contas com Slender, já que ele começou a reparar no seu horário de entrada.
— Melhor começar a nos ajudar logo — BEN havia voltado, indo varrer o chão com pratos quebrados. Provavelmente algum dos clientes teve um acesso de raiva enquanto ela não estava ali, o que era frequente. — Logo vai chegar uma renca de freaks e estamos com poucos funcionários.
— Onde estão os outros? — Indagou a jovem, amarrando seu avental.
— Não é da nossa conta, — Ticci Toby parecia irritado — mas prometo que vou dar na cara de todos eles se não chegarem logo.
— Jeff saiu! — Um Nocth desengonçado com vários produtos de limpeza desceu as escadas, quase tropeçando com a pressa.
— Parece que tem alguém mais atrasado que eu no fim das contas… — Riu sutilmente Claire, como uma criança.
BEN jogou a vassoura no chão com força, incentivado pela onda de estresse que lhe passou ao ouvir o atual estado do assassino de sorriso cortado. Mas ao receber um olhar reprovador de Ticci Toby, instantaneamente apanhou o cabo novamente, murmurando rápidos “desculpe, desculpe”, temendo pela sua vida. Ao terminar de fazer sua cena, se pronunciou:
— Tô cansado dele! Se eu pudesse já teria o matado.
Masky passou pelo local com sua pranchetinha, analisando a rotina dos assassinos ali presentes que disfarçaram sua vadiagem com rapidez.
Após as primeiras tarefas de seus turnos terem acabado, esperavam as hordas de Creepypastas que já começavam a surgir aos poucos. No meio da conversa, Nocth induziu um questionamento que posteriormente se tornou o tema da conversa: Se a Claire se costura por hobby, isso poderia ser considerado automutilação?
— Até onde eu sei automutilação é machucar a si próprio em busca de alívio psicológico — Resumiu Toby.
— Não sabia nem que eu tava me machucando fazendo isso — Pontuou Claire. — Sério, nem dói nada. Não sangra, e mal deixa marcas.
— Acho que ainda é considerado “se autodanificar”.
— Não use termos que nos façam parecer máquinas, BEN — Pediu Nocth para o menor.
— Fazer tatuagem é automutilação? — A garota indagou, fazendo prolongar um silêncio pensativo entre o grupo.
Um estalar de língua os tirou de seus raciocínios, puxando os olhos do grupo como ímã para Jeff apoiado perto do corredor que levava aos fundos do bar.
— Foda-se essa merda de discussão — Se pronunciou — Se o cara faz essas porra na intenção de que “ah, vai melhorar meus sentimentos”, espero que perca logo a cabeça em uma guilhotina de vez. Sem cérebro, sem emoções.— Para ilustrar sua expressão a seguir, fez gestos com as mãos aos lados do crânio, como se fosse uma explosão de ideias brilhantes; a resposta óbvia — Xablau~
— Ha, ha. Olha só quem fala — BEN olhou o colega com desdém de cima a baixo, como se suas pupilas vermelhas cintilantes depositasse toda a hipocrisia do mundo sobre Jeff. — Esse sorriso não surgiu em sua face do dia para a noite.
— Meus motivos são outros, nerd. Não tente abalar minha paciência já escassa. Se algum de vocês cortam os pulsos como emos, espero que me avisem imediatamente. Prometo acabar com a dor de vocês de uma vez por todas.
Ao terminar, ele passou pelo grupo e subiu as escadas para os quartos, sem dizer mais nada. E nem precisaria, visto que seu posicionamento a respeito do tema já fora bem acentuado.
Claire queria protestar sobre a opinião de Jeff, que ela por acaso discordava extremamente.
Na realidade todos que ouviram a voz fria do assassino de sorriso esculpido sentiram desprezo. Por mais que todos ali fossem igualmente assassinos, ainda se lembravam de como era sofrer quietamente tendo seus únicos consolos em lâminas.
Parado ao topo da escada, Casper ouvira toda a conversa, escondido. E quando Jeff passou em sua frente de passagem, o punho de Órion se fechou fortemente em cólera. Se segurou para não deixar transbordar sua raiva.
Como um cara pode ser até mais babaca que Peter?
Respirou fundo na busca pelo equilíbrio. Todavia suas memórias sempre voltavam nas palavras de Jeff e nela.
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