CoffeePasta - Interativa
7 # 6 - Sorria ao atender
Notas iniciais

Elizabeth já estava acostumada com o gosto do café impregnado em sua língua. Era quase um ritual passar na cafeteria antes de entrar a serviço, e sabia que aquele lugar não era como os outros. Mas quem é que se importa? Ela trabalhava em um hospício de qualquer forma; nada era normal.
Atravessava os corredores brancos do prédio, mais especificamente na ala norte, onde se encontravam os mais doentes, ouvindo-os berrar e arranhar as paredes. Um deles ao ouvir o salto alto bater contra o chão em um ritmo compassado, grudou o rosto contra a janelinha de vidro da porta. Um sorriso tarado estampando o rosto, combinando com os olhos vidrados da loucura:
— Ei, ei, ei doutora. Vem aqui pra gente se divertir — E lambeu o vidro como a um cão.
A loira olhou-o de soslaio, dando-lhe um sorriso e colocando as mãos dentro dos bolsos do jaleco também branco, que se misturava ao ambiente quase monocromático.
— Você parece ótimo. Já tomou seus remédios William? — Indagou, ao ver que de acordo com o horário, seu paciente já deveria estar sobre o efeito do Clonazepam há quinze minutos. Doses altas como àquela que ele ingeria, deveriam apagá-lo em pouco tempo.
Aquele homem sofria de esquizofrenia, mandado para o sanatório acusado de estupro, homicídio e canibalismo. Na delegacia, alegou que “Foram as vozes que me mandaram comer minha sobrinha. E disseram para que eu fizesse direito. Ou a carne ficaria azeda”. Não foi preciso muita investigação para que se soubesse dos vícios de William. Cocaína e metanfetamina faziam parte do cotidiano do homem vagabundo que morava de favor na casa da irmã, que estava fora a trabalho no dia do delito.
Ele não a respondeu, continuando a fazer gestos obscenos pela janela. Por mais que interagisse com o mundo ao seu redor e as pessoas, a doutora tinha total conhecimento do estado mental do homem. Ele estava em um mundo só seu. Um mundo sem leis, onde o anti-ético se fundia com a moral. Da onde nem ele sabia como voltar.
O celular de Elizabeth tocou baixinho a música padrão da marca cara.
Quando leu o nome de Cole na tela vibrante, suspirou. Ele era um enfermeiro da ala menos perigosa que em certa ocasião se embebedou e dormiu com ela. Desde então nunca parou de mandar mensagens, como se achasse que teria uma chance com ela. Estava começando a sugar a paciência de Herzage.
Atendeu após se afastar do quarto de William, tentando manter o tom de voz neutro e profissional quando indagou o que Cole queria.
— É uma das pacientes da B2. — A loira sabia que não era mais o setor em que atuava. A B2 era o prédio das pessoas que sofriam de traumas, delírios, e outras patologias mais leves, que não apresentavam grande perigo para a sociedade, mas sim a si mesmos. Elizabeth ponderou em responder com um frio “E daí? São seus pacientes. Se vira”, contudo essa vontade se passou quando ouviu o resto da sentença — Ela fugiu, depois de matar Travis com, acho, agulhas das seringas. Liz, imagina como a reputação de Cleargrey vai se rebaixar quando os jornais descobrirem isso? A gente precisa encontrar ela logo e… Ah, meu Deus. O que faço com o corpo de Travis? Eu não posso perder esse empr-...
— Qual era o nome da paciente? — Cortou Elizabeth, dando meia-volta em direção ao prédio B, apertando os passos. Havia dado duro para chegar naquela posição de chefe, e não iria deixar que tudo fosse por água abaixo graças a um ou dois enfermeiros imprestáveis que mal conseguiam ficar de olho em uma paciente da classe 4 ou no máximo 3.
— E- eu… Espera um pouco. — Ela ouviu-o digitar algo rapidamente no computador — Mochinster. Fernanda Mochinster. Acho que tinha trauma e alucinações.
— Eu quero que imprima todos os dados dela para mim, agora. E não mexa no corpo do Travis, apenas bloqueie o corredor em que ele foi encontrado. Estou aí em três minutos.
A loira desligou logo em seguida.
Tinha de ser no período noturno. Eu saio por algumas horas e é isso o que acontece. Cole só me dá prejuízo, preciso cortar os custos o mais brevemente possível.
Enquanto cruzava o prédio suas mãos se abriam e fechavam, tentando controlar a onda de energia que dominava seu corpo, ansioso para entornar seus dedos finos ao pescoço do enfermeiro, apertando até que os globos oculares saltassem para fora. Respirou fundo para tentar esvair de si aquele sentimento. Iria matá-lo, todavia naquele instante só poderia focar na sua reputação.
Cole estava em pé defronte aos computadores, os óculos redondos escorregando sobre o nariz por conta do suor nervoso.
Elizabeth o alcançou, se apossando dos papéis e passando os olhos superficialmente sobre a ficha de Mochinster.
— Dezesseis anos. Sofria de ansiedade, depressão e alucinações por conta de um acidente de carro traumático. Tentou suicídio… — Resumiu ela em voz alta. — Já checou as câmeras de segurança?
— Eu não tenho acesso a elas. Os guardas foram revistar os quartos e uma parte está pelos perímetros de Cleargrey.
— E o corpo?
O homem na casa dos trinta para quarenta anos demorou um pouco para processar, e então a acompanhou até mais afundo do prédio. Tirou um molho de chaves do bolso e abriu a porta de um dos quartos de limpeza, mal iluminado. Travis estava sentado no chão com a cabeça pendendo de uma maneira dolorosa para o lado, repousando para sempre na parede. O cheiro pútrido já havia contaminado o pequeno metro quadrado, e a pele do funcionário já estava completamente azulada.
Os olhos de Travis choravam sangue, e mal se podia reconhecer as pupilas das pálpebras, uma vez que toda a região estava danificada agressivamente pelo o que pareciam ser furos de agulha.
Contudo, o que mais encantou a atenção de Herzage foram as letras esculpidas na pele dele: M.P.H.. Ela duvidava que aquilo significasse “milha por hora”.
Cole fez menção de vomitar enquanto Elizabeth encarava interessada ao cadáver. Parece que a tal Fernanda havia sido transferida para o prédio errado, no final das contas.
— Travis demonstrava algum tipo de desvio de comportamento durante seu turno? — A loira quis saber, os olhos cinzentos não desviavam das centenas de furos podres na face do homem, tentando memorizar as características e padrões da mais nova assassina, da qual teria o prazer de tornar sua paciente.
— Eu não tenho certeza. Cuidávamos de andares diferentes. Às vezes ele passava horas no quarto dela, e curtia lobotomia e terapia de choque.
— Como era a relação dele com a família?
A esse ponto Cole deixou a emoção falar mais alto, permitindo-se a dar sua opinião pessoal:
— Liz, sinceramente estou mais preocupado com os vivos do que com os mortos. Por que precisa saber sobre a vida desse homem?
Elizabeth finalmente o encarou, não muito feliz.
— Só Dra. Elizabeth, por favor. Não estamos mais dentro daquele hotel, Cole. Preciso saber sobre ele. Haviam mais pessoas no turno, porém ela só se preocupou em matar Travis. Acha mesmo que foi ao acaso? Vá buscar as chaves da sala de segurança no meu escritório. Agora.
O outro resolveu não contestar novamente, apressando-se obediente a atender às ordens dadas. Ela tinha essa mania que o enlouquecia: terminar suas frases imperativas com o “agora” cheio de imponência.
Sozinha com o corpo quase nojento, Elizabeth se aproximou para analisar com mais precisão. Um sorriso obscuro se revelou quando tocou a carne gélida, animada com o desafio.
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Sophie Casteline cuidava da cozinha. Passava muita parte do seu tempo elaborando e preparando receitas esquisitas aos gostos dos clientes que frequentavam a cafeteria. Francamente não ligava muito para os ingredientes peculiares que era obrigada a misturar nas massas, se esforçava para que o gosto ficasse bom; afinal, todo mundo tendo sentimentos ou não, amava um bolo.
Um loiro entrou pelas portas de trás, caminhando com as mãos nos bolsos do moletom cinza e com uma expressão de poucos-amigos. A jovem de 17 anos não se importou com a presença de Mikael. Ele sempre tirava alguma hora do dia especialmente para se sentar no balcão e atrapalhar o serviço dela, e ai de querer implicar com o rapaz. Era como implorar para aprender uma chuvarada de xingamentos inovadores.
Druid não comia comida humana, todavia o cheiro de bolo o deixava agitado por algum motivo desconhecido até mesmo por ele próprio. Também não era muito delicado com os funcionários da cafeteria, o que tornava Sophie uma das únicas pessoas que conseguia ter cabeça para lidar com ele. Ou mais ou menos isso.
Ela tentou não esbarrar nele quando foi pegar mais farinha de trigo, e teve todo o cuidado do mundo para tal, fazendo curvas descomunais para driblar o tronco do rapaz sem o mínimo princípio de colaboração. Entretanto ainda sim não conseguiu escapar dos congelantes brilhos azulados das orbes dele.
— Esse vestido não é muito adequado pra uma cozinheira. — Resmungou certa hora Mikael. Ela não discordava. Estava usando um vestido gótico de rendas negras, com uma abertura lateral na perna. Uma gola alta cor de vinho rodeava sua nuca e se juntava novamente nos seios fartos, de modo que eles se destacassem sensualmente. Apesar das vestes caras e que dificultava um pouco sua mobilidade, Sophie possuía uma habilidade fantástica, sujando bem pouco as mangas com um pouco de farinha.
— Cheiro de cigarro também não é muito adequado para um atendente — devolveu instantaneamente à mesma altura. O odor estava bem forte, realmente; quase impregnando as toalhas de mesa e estragando o cheiro doce de chocolate e creme.
— Foda-se. Meu turno já acabou. — Ficaram em silêncio por mais alguns minutos, nenhuma palavra parecendo que levaria a algum lugar. Estavam compartilhando o mesmo cômodo apenas por causa dos bolos.
Ao terminar a mistura, Casteline despejou na forma untada e pôs a assar. Por educação ofereceu uma xícara de chá ao colega de trabalho, que respondeu sem ceder o orgulho:
— Só se tiver de hortelã. É a única coisa que desce fora álcool e água.
Ela não tinha nada contra Mikael. Isso não significa que necessariamente gostava dele. Porém quem era ela para querer mudar a personalidade de um assassino? Sequer conhecia a história dele.
Ferveu duas xícaras de água e distribuiu para ambos, o vapor subindo e substituindo lentamente o fedor do tabaco.
Não conversaram. O único diálogo entre eles se resumia em constrangedores encontros de olhos não intencionais. Sempre que Sophie pensava em iniciar algum assunto, ela se lembrava de onde estava, com quem estava. Não era medo daqueles que a cercavam, só não precisava de maiores confusões em sua vida.
— O casal pode namorar depois — Ticci Toby adentrou o recinto junto com Claire, que estava mais quieta do que estavam acostumados. — Mikael, precisamos de você para substituir o Jeff.
— QUÊ?! — Druid levantou num pulo, indignado. — Nem por mil caralhos vou perder minhas horas de folga para substituir um filho da puta desses!
— Você não tem opção, garoto — O de óculos laranjas permanecia calmo, os braços se cruzaram como quem fosse o dono da razão. — Tem uma dívida com este lugar, então trate de vestir o avental e atender os clientes muito bem. Ou preciso convocar Slenderman para te lembrar das regras?
— Vai se foder você e essa convicção de que tem poder sobre mim. Ninguém me falou sobre essas horas extras.
— Ora, e você assinou algum contrato? — Indagou Sophie.
Ele virou-se para ela com um olhar mortal.
— O único contrato que assinei foi o que me permite comer a cadela da sua mãe!
A outra riu de maneira irônica e voltou a tomar seu chá como a um adulto que ignora as birras das crianças mimadas.
Mikael, aborrecido, não se enxergou outra opção. Quando passou por Claire, imitando os sons de um búfalo selvagem, esta lhe jogou o avental, provocando-o com a maior cara de pau:
— Sorria quando for atendê-los.
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