CoffeePasta - Interativa
4 #3 - Cadela de Guarda
Notas iniciais

A cafeteria não fechava independente do horário. Sempre estava em movimento, nunca vazia. Casper não achou difícil os trabalhos que passavam, apenas monótonos e repetitivos, o que acabava tornando as coisas um tanto quanto cansativas. Nesse tempo de 9 horas observou cada assassino que entrava e saía do recinto, embora fossem tantos que não conseguia armazenar nada de muito relevante de todos. Sem contar a cabeça que pulsava com a drasticidade que toda a sua vida mudara. Apesar de tudo era adaptável a qualquer nova situação, e essa sua dádiva foi útil.
Todos os atendentes pareciam terem rixas entre si ao mesmo tanto que às vezes fingiam serem uma boa equipe. Discussões e troca de farpas eram o que não faltavam. Casper por algum motivo tentou manter distância de Jeff. Não tinha medo do assassino de sorriso cortado, apenas não queria ser xingado gratuitamente. Balanceou seu tempo entre estar sozinho e pedir dicas de Nocth, uma vez que este o acolhera sem demonstrar qualquer tipo de reação negativa.
Claire de vez ou outra lhe dirigia a palavra, fazendo algum comentário aleatório e servindo as mesas. E Yura… Bem, ele não falou mais com Yura depois que ele o entregou seu uniforme, mas analisou cuidadosamente de longe sua interação com os outros.
Estava quase desistindo de manter-se em pé quando Masky aparecera, segurando a pranchetinha como se fosse o dono do lugar. A máscara não entregava nada, todavia era lógico que possuía algo distinto dos outros funcionários. Quase se podia ver a áurea de autoridade pairando ao seu redor quando dirigia as palavras para Casper:
— Você já pode se retirar. Volte ao trabalho às dez da noite, acho que isso te dá cerca de oito horas para descansar.
Se Órion dissesse que aquilo não foi uma bênção para si, estaria mentindo. Até em sua voz era notável o cansaço acentuado que contaminava qualquer um ao redor. Estava desamarrando o avental quando Jeff the Killer o confrontou:
— Onde ‘cê vai, novato?
— Masky disse que meu período acabou.
Jeff estalou a língua, murmurando um “puta injustiça”.
— Jeff, deixa ele em paz — Claire dissera — Pega leve, é o primeiro dia dele.
— Primeiro, segundo, terceiro, décimo… Tanto faz Ludenberg — Rebateu — Para a gente não teve essa moleza. E independente do tempo que for, um dia esse cara vai ter que entender que ele não é “especialzinho”, só é mais um infeliz que caiu neste purgatório.
Claire revirou os olhos e saiu, sabia que não valia a pena perder seu tempo discutindo com alguém tão cabeça dura quanto o Jeff. Este último tomou a palavra para com Órion:
— Você pode encerrar seu turno depois de pegar o pó de café lá nos fundos.
— Só isso? — Casper indagou — Por que você não pode fazer isso por conta própria?
— Não vê que estou ocupado? — Na verdade ele não via. Jeff estava simplesmente encostado no balcão com a cara de poucos amigos de sempre — E trate de não pegar qualquer um.
— Você está mandando o novato pegar café nos fundos? — Ticci Toby indagou, uma clara desaprovação.
— Não se intromete, cadela de guarda do Slender. Quero um pouco de diversão.
— Mas o que afinal há nos fundos? — Casper desconfiou.
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E como não queria ter de descobrir sozinho daquela forma. “Os fundos” era escuro e quase não se podia enxergar nada. Procurou por um interruptor mas não encontrara, restou a Órion arranjar uma lanterna e bisbilhotar a salinha gelada atrás de um pó de café.
Quem diabos guardaria café num lugar como aquele?
Estava recheado de prateleiras de ferro pintados de cinza com objetos sem sentido estendido sobre elas. Potes com conserva, arquivos manchados… Literalmente de tudo.
Um arrepio subiu pela espinha do rapaz, que mexeu nos cabelos curtos e castanhos como se aquele ato pudesse enganar a si mesmo de que não estava assustado. Era quase como se pudesse ouvir as sirenes de polícia vindo atrás de si, como se a voz de Peter sussurrasse para ele do inferno, culpando-o e lembrando-o de seu plano de vingança sangrento e doentio.
— Vá logo com isso, Hank Aaron! — Berrou Jeff da entrada para aquela sala, fazendo referência a um dos mais conceituados jogadores de beisebol da atualidade, uma vez que a arma que Casper acabara adotando como favorita era um bastão de beisebol. O assassino de sorriso esculpido estava encostado no batente da porta com os braços cruzados, despojado. — Também quero ser liberado logo.
A pressão só tornou tudo mais complicado para o rapaz, sabia que havia malícia nas intenções do colega de balcão desde que este o fizera o pedido, era mais do que claro. Só não queria perder o emprego junto com os próprios miolos logo no primeiro dia.
Algo raspou no braço de Órion, que instintivamente deu um pulo para trás. Alguma coisa nas sombras o arranhara, traçando três desenhos vermelhos viscosos em sua pele. Nada muito grave, mas com um ardido significativo. Ele procurou desenfreadamente com os olhos a origem, até que um par de bolas brilhantes o encaram entre as prateleiras. Casper não pensou duas vezes antes de correr por onde entrou, tão rápido fechou a porta pesada atrás de si, arfando.
Pensou em perguntar para Jeff se este tinha visto a criatura, porém percebeu o quanto o outro se desatava em risadas maldosas, segurando o estômago e curvando-se para baixo com tamanho divertimento.
— Não tinha droga de café nenhum lá dentro, não é! — Bradou furiosamente o de cabelos curtos para ele.
— Mas é óbvio que não! — Permanecia a fazer pouco caso da ferida do colega. — Não imaginava que você fosse tão ingênuo assim.
— Acha graça do que fez comigo?! Afinal que mal te fiz eu?
— Agradeça por não ter sido comido no escurinho, há certas coisas na vida que nem eu ousaria rir se fosse violada...
— Jeff! — Uma terceira voz surgiu, repreendendo o assassino. — Não disse a ti para deixar o garoto em paz?
— Nah! Cala a boca, Ludenberg e volte a lavar os pratos. É só para que serve.
Claire mostrou a língua como uma criança em resposta, empurrando Casper para longe.
Se antes os pontos que Jeff tinha com Órion eram poucos, agora eram inexistentes…
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Yura sempre foi uma das mais próximas a Slenderman, devia os seus modos e sua fidelidade a ele uma vez que o chefe do maior refujo de Creepypastas fora quem a acolhera tão bem e de bom grado. Ele era o único também que tinha conhecimento de que Yura era uma garota e não ao contrário como os outros pensavam. O motivo para essa precaução dela era desconhecido.
Ela havia conversado um pouco com o chefe e os outros que trabalhavam ali antes de encerrar seu período de trabalho, subindo as escadas para o seu quarto. O cômodo era simples e nem de longe poderia ser dado o título de “lar”. Yura fizera o possível durante o tempo em que estivera ali para torná-lo o mais aconchegante que podia. Deitou-se na cama, e seu corpo automaticamente se entregou por completo a maciez do colchão.
Sabia que teria dificuldades para dormir tendo ciência de que havia um integrante novo nas redondezas, infiltrado explicitamente na sua zona de conforto. No lugar mais seguro que se poderia existir para pobres almas condenadas como a dela. Yura passou a ter problemas de confiança com pessoas desde o incidente com um jogo “inocente” que fizera com uns amigos na escola, a qual mexia com espíritos, passando a ser assombrada por eles desde então.
Todas as vozes do além que murmuravam para ela estavam quase a enlouquecendo nessa época, e sua única salvação foi matar todos os seus amigos; agoniada com a possibilidade de existir um traidor de confiança naquele meio.
Tentou meditar um pouco para desocupar a mente das coisas que já haviam passado.
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