CoffeePasta - Interativa
5 # 4 - Gangbang
Notas iniciais

Com a saída de alguns funcionários do turno mais badalado, Mikael H. Druid assumia as funções por trás dos balcões. Enquanto ajeitava pedaços de comidas sobre pratos limpos seu nariz se retorcia de desgosto, o cheiro de comida humana soava como vômito em suas narinas. Contudo tinha de aguentar aquele estorvo de trabalho para pagar a dívida que tinha para com o patrão.
Era assim para muitos que ali eram submetidos a tarefas quase banais para assassinos em potencial, então não tinha o que reclamar. Só aguardava ansiosamente pelo dia na qual um dos gerentes lhe dessem a notícia de que estava livre de seu agradecimento.
Enxugava de maneira serena as xícaras, sem pressa, até que o sino da entrada soou sutilmente, preenchendo o lugar com algum som que não fosse os suspiros de Mikael.
Quando ele passeou seus olhos pela cliente viu nela a sombra da mais avassaladora succubus. O loiro viu logo pelo andar da mulher sua ambição, e conhecendo bem seu tipo de gente, já julgou que a tal tinha ciência de que poderia ter tudo e todos em suas mãos se quisesse. Druid não era nenhum agente de FBI para descobrir muito sobre uma pessoa apenas de vista, todavia seus 17 anos mais vividos que qualquer outro homem comum de 90 lhe dera uma forte habilidade de analisar as pessoas.
Já ela caminhava direto ao balcão, destacando-se do ambiente — ou talvez se misturando perfeitamente a ele pelo ar elegante -, com o vestido apertado negro como ébano. O salto alto passou a quebrar o silêncio logo após o tilintar do sino esvanecer, soando quase estrepitosamente uma vez que até mesmo um sussurro que carrega os piores dos segredos em meio aquela situação se tornaria um berro que denunciaria ao mundo todo o seus pecados.
A mulher em si era dona de brilhantes olhos cinzentos sob sobrancelhas desenhadas que moldava bem suas expressões. Escuras, contrastavam na pele bronzeada, emoldurada pelos caracóis dourados que lhe desciam até metade do tronco, saltando como ioiôs enquanto ela se aproximava de Mikael.
Este último tentou disfarçar o exame que terminara de fazer à moça, fingindo que não notara a entrada dela.
A dita cuja pediu polidamente o cardápio, o que foi naturalmente concedido pelo rapaz. Suas orbes recaíram automaticamente nos expressos e não tardou mais de cinco segundos e já lhe devolveu, pedindo um café simples sem açúcar.
Enquanto Mikael preparava calado seu pedido, ela puxou da bolsa de marca uma pasta e jogou os papéis sobre o balcão, na espera. Durante o estudo da mulher, Kael ainda não pôde parar de olhar para ela. De fato nenhum homem resistiria aos encantos e beleza da jovem, contudo isso ainda não explicaria o motivo de o rapaz estar tão hipnotizado, já que o que sentia não era atração. Soava mais como cautela. A presença daquela cliente requeria estado de alerta.
Ao entregar a xícara quente, espiou do que se tratavam os papéis, instigado pela curiosidade: o nome Cleargrey Asylum estava estampado em todos eles, e extensos relatórios separados por nomes preenchiam as folhas.
— Olhar os trabalhos alheios em a concepção deles é falta de educação, sabia? — Comentou a loira, sem desviar os olhos de suas tarefas, indiferente. Tomou um gole do café.
Mikael reprimiu um palavrão e resolveu pagar o teto que lhe cobria. E essa foi a primeira vez que ele a viu; naquele curto quarto de hora em que a mulher se manteve ali, passando a língua pelos dentes afundada em sua concentração.
Deixou um cartãozinho de visitas no balcão junto a gorjeta:
Dr. Elizabeth Herzage.
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Yura estava andando pelo corredor dos quartos dos inquilinos de Slenderman, pronta para sair e se divertir um pouco, aproveitando o insistente clima enevoado do lado de fora. Diminuiu os passos gradativamente ao ouvir alguns baixos gemidos e fungares abafados. Procurou pela origem e descobriu a quem pertencia o sofrimento solitário: Casper estava ajoelhado perante sua nova cama, de costas para a porta do quarto semi-aberta. Soluçava em segredo, segurando algo que parecia ser uma foto remendada e manchada.
Normalmente Yura deixaria o novato sofrer em paz, contudo soubera da brincadeirinha estúpida de Jeff the Killer mais cedo. Órion estava sozinho, e, por mais que Yura não depositasse confiança sobre as pessoas tão cedo, algumas palavras de consolo não fariam mal.
Deveria ter batido na porta antes de adentrar, mas o rapaz estava tão aprofundado em suas mágoas que ela pensou melhor não arrancá-lo de súbito das lamentações.
Parada às costas dele, enxergou uma mulher na fotografia. Era uma doce jovem que sorria abertamente, em um vestido branco. Dona de lisos cabelos escuros e feições de uma garota vívida e gentil. O cenário era dentro de um elevador e parecia ter sido pega de surpresa. Yura enxergou pelo reflexo do espelho o fotógrafo. Não poderia dizer com exatidão de quem se tratava, já que a câmera semi-profissional lhe tampava o rosto.
Casper pareceu ter finalmente descoberto a presença da colega de trabalho, enxugou as lágrimas desastradamente e escondeu a foto debaixo do edredom.
— Por que não bateu na porta? — Indagou ele um pouco ofendido pelo atrevimento.
— Não sabia se iria aborrecê-lo. — Se justifica a outra, Órion se levantou.
— E não achava que me aborreceria se entrasse assim de fininho? Afinal, o que quer?
— Está se sentindo bem?
Casper demonstra impaciência e passa os dedos pelos cabelos castanhos, penteando-os para trás. Seu esforço se tornou nulo assim que os fios teimosamente voltaram a cair sobre a testa avermelhada.
— Eu estou bem, me deixe sozinho se possível.
Por um instante Yura fica parada no mesmo lugar graças a hesitação, enquanto Órion ia até a estreita janela do quarto e olhava a cidade esmaecida de cima.
Era nessas horas que qualquer um daquela cafeteria acataria a seu pedido sem mais cerimônias, contudo Yura se lembrou bem do dia em que estivera no lugar de Casper, e pela insistência de seu chefe, arranjou a quem recorrer sempre que necessitava.
Com a paciência de um anjo, ela se encostou na parede mais próxima e tentou mais uma vez aproximar-se do novato:
— Deve sentir muita falta dela, pelo visto.
O rapaz soltou um suspiro carregado de emoção, porém nada respondeu.
Já ia se completar uma dezena de minutos em silêncio, o que fez Yura desistir de tentar ajudar ou ao menos entender a razão pelo qual o colega se encontrava de tão mau humor. Estava saindo quando Casper abriu a boca para se pronunciar:
— Ela era tudo o que eu mais amava no mundo. Não quero te perturbar com as minhas histórias.
A garota (ou garoto aos olhos de Órion), deu meia volta e se sentou na beirada da cama do rapaz.
— Vocês namoravam? — Indagou baixinho, temendo que alguma coisa errada proferida de sua boca o fizesse mudar de ideia com relação a contar as coisas. Complementou ao perceber a indecisão do colega — Já que passaremos a conviver juntos, não vejo problema em trocar experiências.
— Não. Não namorávamos — Respondeu rapidamente assim que a outra finalizara sua sentença — Daiana e eu éramos apenas amigos… Por mais que eu não a merecesse.
— E que fim deu ela?
— Está morta. Uma gangue matou ela. Mas já a vinguei. Foi ainda com aquele taco, por isso o nomeei gang… — Atirou no ar com os dedos, como se estes fossem uma arma — ...bang! Espero que neste momento estejam pichando as paredes do inferno.
— Mas por que eles fizeram isso?
Após esta terceira pergunta, Casper a encarou duramente.
— Olha, não sei se está fazendo isso por pura caridade ou por entretenimento, porém mesmo que eu quisesse falar sobre o assunto estou muito cansado para tal. Levei socos, chutes, facadas e fui atacado por alguma coisa que nem sei o que foi. Seria pedir demais que nossa conversa se adie para outra ocasião?
Yura entendeu o recado e o compreendeu com um acenar de cabeça, saindo do recinto e indo fazer o que precisava ser feito. Todavia não conseguiu fazer mais nada a não ser ser contaminada pela curiosidade que lutou para superar.
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