CoffeePasta - Interativa
3 #2 - Uma xícara de passado
Notas iniciais

Nocth xingava internamente Jeff pelo nó exageradamente forte que dera ao prender Órion na cadeira. As pontas dos dedos até ficaram formigando e doloridas.
Tão logo se livrou das cordas quando Slenderman surgiu na porta, quase não passando pela entrada mesmo que abaixado, uma vez que seu tamanho era excessivamente grande. Quando os olhos de Casper se encontraram com o homem branco dentro de um terno negro, teve sua situação apertada iluminada pela certeza de que: ia dar ruim. Seus dias ali seriam os mais sofridos, e assustadores.
Enfrentar a ideia de dividir um teto com outros assassinos seriais era mais cômodo do que a ideia de dividir seus dias sob o mesmo teto que um demônio sem rosto de tentáculos.
O mais bizarro é que ele usa um terno…
— Espero que já tenha esclarecido nosso sistema aqui, Nocth Tenëbrys; uma vez que meu tempo é ocupado demais para gastar com explicações tão meras — Dissera Slender, apesar da ausência da boca. Era como se sua voz emanasse de dentro das mentes de quem estava presente.
— Sim, senhor. — Respondeu o outro — Tudo que precisa saber no início. Só nos resta tempo e a prática para a eficiência.
— Fez seu trabalho. Agora vá cuidar dos clientes, estão aos montes lá fora.
Nocth se retirou de cabeça baixa do local. Slender ainda permaneceu “encarando” BEN que se mantinha ali, boiando.
— Drowned. — Quase rosnou — SAIA.
O loiro levou um choque ao acordar do leve transe para outra dimensão, tropeçando nos próprios pés ao se virar para se retirar. E então eram apenas Casper e o homem esguio ali.
Nocth amarrou o avental preto com mais firmeza enquanto caminhava de volta a suas tarefas, ouvindo sons de conversas e de máquinas de café expresso aumentar gradativamente para seus ouvidos. Naquela hora do dia a cafeteria lotava, não como se esta não vivesse cheia.
— ...atende aquela fodenda mesa, Jeff! — Bradou Ticci Toby, ocupado limpando canecas e servindo alguns assassinos no balcão.
— Tô ocupado — Rebateu o de sorriso cortado. Era mais que claro que estava vadiando, sentado em uma cadeira enquanto brincava com sua faca, ignorando completamente o mundo ao seu redor.
Nocth se juntou aos colegas, lendo alguns papéis com pedidos anotados e preparando-os.
Claire Ludenberg se debruçou sobre o balcão, abrindo um sorriso tão grande que beirava a insanidade. Bem, todos sabiam que ela não era 100% sã.
Claire estava lá antes que Nocth chegasse, e pelo tempo em que conviveram juntos ele já percebera a bipolaridade da jovem em seus 19 anos. Uma de suas características mais marcantes eram as manias de costurar a própria pele com linhas coloridas e a de fazer desenhinhos aleatórios pelos braços.
Seus grandes olhos azuis límpidos o encarava fixamente, interessados:
— E o novato? Como ele é? Quantos já matou? Ele é útil ou eu posso me divertir um pouco? — Seu nariz se mexia, o que se assemelhava a um coelho, graças a animação.
— Você vai poder tirar suas próprias conclusões em breve. Casper vai trabalhar conosco.
— Esse lugar já tem funcionários demais pra mim — Disse Jeff.
— Você parece um velho rabugento do tanto que reclama e coça o saco — Retrucou BEN — Bem que podia pagar o teto na qual se abriga, assassino meia-boca…
— Eu ao menos não sou um nerd que menstrua pelos olhos — Rebateu na defensiva, na frase seguinte fez uma suposta cara de retardado mental e mudou a voz de maneira infantil — “Olha só pra mim, jogo Zelda Majora’s Mask sem parar e assusto criancinhas, acabando com o jogo delas”. Me erra, cosplay de Link.
Jeff se assustou quando viu três facas voando em sua direção como balas, que por pouco não rasparam em seu rosto. Suas lâminas perfuraram a parede atrás de si. BEN deu um sorriso cínico.
— Errei.
O de cabelos negros se levantou e fez menção de contra-atacar. BEN se escondeu atrás de Nocth. Eyeless e sua máscara azul surgiram de algum lugar, pousando a mão no peito de Jeff, fazendo-o se conter.
— Se acalme, não é hora nem lugar para se começar uma briga de verdade.
— Aah… — Lamentou Claire, sentando-se sobre o balcão. Ticci Toby fez gestos para que ela descesse, todavia foi completamente ignorado. — Mas seria tão divertido.
— Ludenberg, ao trabalho — Masky descia as escadas que se encontrava ao lado do balcão. Aquela escadaria era muito mal iluminada e qualquer um poderia facilmente se descuidar ali e despencar. Masky usava sua costumeira máscara branca e anotava qualquer coisa em uma prancheta, era o gerente da cafeteria, o “porta-voz” de Slenderman.
Logo atrás descia Yura Miscere, dentro de um moletom negro. Carregava roupas limpas, muito provavelmente o uniforme de Casper.
Yura vivia com o capuz cobrindo seus cabelos negros e lisos, contudo, apesar dos olhos escarlates serem intimidantes sobre olheiras fundas, era uma pessoa sociável. Retribuiu o aceno de Claire e BEN ao passar por eles.
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Órion ouviu tudo o que Slenderman tinha a dizer, sem questionar nada, congelado demais para tal. Às vezes sua mente voava para o dia em que começara a planejar seu plano de assassinar Peter, e pensar que tudo começou por causa de uma foto rasgada… Efeito borboleta.
— Oh, Yura — A voz sem tonalidade específica de Slender o acordou do transe, atraindo seu olhar para a pessoa encapuzada que adentrava o recinto. A princípio Casper não identificou se se tratava de um garoto ou uma garota. O rosto era delicado como a de uma garota, mas as vestes que usava não entregava nada. Sem contar o cabelo negro que tampava metade de sua face naquele instante, dificultando vezes dois a identificação. Chegou a conclusão de que nada sabia, e voltou sua atenção para o que realmente era importante: o uniforme que Yura o entregava — Obrigado por trazer isto até aqui. — Slender se voltou para Órion — Você pode usar como quiser, contanto que use. Já pode começar a trabalhar, os outros irão te ajudar no seu estabelecimento e irei te dar uma semana, no máximo duas, de tolerância para erros e xícaras quebradas. Espero que se envolva bem conosco.
Então ele virou-se para a saída, dando um pequeno aceno:
— Se quiser beber café, beba a vontade. Uma boa xícara quente as vezes ajuda a remendar uma alma ferida pelo passado. Assombrada por mortes.
Casper estava sozinho no local, segurando a muda de roupa nas mãos. Só lhe restava achar algum lugar para se trocar e dar início a sua mais nova vida.
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Liu corria pelas ruas escurecidas da periferia, arfando. Já estava fugindo fazia tempo, apesar de já saber que sua perseguição jamais teria fim. Parou para respirar sob um poste de lâmpada quebrada, desafrouxando seu cachecol que começara a o enforcar sutilmente. Tentou recompor a respiração enquanto observava ao seu redor. Aparentemente estava tudo limpo.
Sua coxa ardeu com o vento gelado que soprou, o que fez o assassino conferir a origem daquela dor. Na correria mal se dera conta do caco de vidro fincado em sua carne, de cerca de cinco centímetros externos, manchando a sua calça de sangue escuro. Parecia que nesse momento a dor se intensificou, passado o efeito anestésico da adrenalina. Liu tropeçou, se apoiando na parede de tijolos atrás de si, felizmente não havia nenhum humano intrometido andando por ali. Ninguém se arriscava naquela hora a caminhar por um bairro tão perigoso.
Escorregou as costas até que pudesse se sentar ao chão.
A mente de Liu era apenas tornados que bagunçavam tudo, não dando espaço para pensar em nada muito inteligente no momento. Já se passaram cerca de cinco anos desde que Jeff tentara matá-lo naquela noite depois de voltar do hospital, e tudo o que Liu procurou nesse tempo foi vingança.
Uma questão que não parava de incomodá-lo todo dia era o porquê de seu irmão mais novo tê-lo poupado. Podia muito bem ter acabado com o serviço mal feito.
Liu tirou seu cachecol e amarrou com força acima da coxa, se preparando para arrancar aquele vidro de dentro de si. Mordeu a gola da camisa verde escura. Já sabia que iria doer.
Ele ainda se lembrava de assistir Jeff esculpir letras em seu peito, e também se lembrava do sorriso insano do irmão, se é que ainda poderia chamá-lo assim. Aquilo não era seu irmão. Aquilo era… Outra coisa.
As coisas só ficaram atordoadas quando Liu estava prestes a desmaiar com a dor e a perda de sangue, sob a pálida luz do luar. Todos os seus pesadelos estavam relacionados àquele dia, mais especificamente quando acordou e Jeff já não estava mais presente. Quando caminhou pela casa aos prantos, com medo e se horrorizou com as tripas da sua mãe esparramadas pelo chão. A garganta de seu pai dilacerada por uma faca. Toda maldita noite se lembrava de ter se olhado no espelho e visto o corte em formato de sorriso em seu próprio rosto, curiosamente feito apenas de um lado e hesitado do outro, como se Jeff houvesse desistido da sua obra de arte.
Liu se isolou por muito tempo, fugindo de suas memórias. Temendo que seu irmão o encontrasse. Não suportava olhar o próprio reflexo e sempre que lia as palavras “Sweet Dreams” esculpidas em seu peito, deixava-se fraquejar e chorar.
Ele amava seus pais, amava seu irmão. Por quê? Por que Jeff havia mudado de repente?
Liu puxou o pedaço de vidro uma vez, mas com a dor grunhiu e se frustrou ao perceber que o objeto mal saíra do lugar. O sangue voltou a correr com mais intensidade.
Ele então voltou no dia que finalmente saiu das sombras. Naquele dia que estava em uma cafeteria e viu no noticiário uma série de assassinatos. As fotos da polícia censuradas passando pela tela da televisão. Imediatamente identificou se tratar de Jeff. Não queria ser um rato detestável que tremia de medo até da própria sombra. Costurou ele mesmo suas cicatrizes infeccionadas, e se obrigou a se botar em forma, tudo para vingar seus pais. Tudo para vingar todo o caos que aquele assassino causara.
Liu puxou o caco de vidro mais uma vez, agora sem fraquejar, insistindo mesmo com a dor insuportável. E o vidro saiu junto com um jorro de sangue. O rapaz jogou o objeto longe e sua cabeça recostou-se na parede, respirando pesadamente e suando frio.
Não importava o preço, Liu estava determinado. Já sabia o próximo passo, sabia onde estava seu “irmãozinho”.
Sua vingança contra Jeff the Killer estava próxima.
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