CoffeePasta - Interativa
2 #1 - Interrogatório de Boas-vindas
Notas iniciais
— Acha que ele morreu? — O rapaz conseguia ouvir a voz como se estivesse ecoando distantemente no fim de um túnel.
— Ele está se mexendo.
Algo gelado e molhado era passado em seu rosto, não muito delicadamente. Ainda não conseguia enxergar direito o que se sucedia ao seu redor. Onde estaria?
— Seria legal se tivesse morrido. O taco de beisebol é meu.
Os dois borrões que conversavam começaram a tomar forma: O que passava um pano molhado limpando o sangue de seu rosto usava uma máscara azul, com duas órbitas negras no lugar dos olhos, das quais escorriam um líquido igualmente negro não identificado, como lágrimas. Já o outro, era o cara que o recepcionou ao entrar na cafeteria, com medianos cabelos negros e sujos contrastando com a pele branca aparentemente texturizada como couro. O sorriso cortado mostrando as gengivas sangrentas. Ambos vestindo roupas semelhantes a atendentes de cafeteria.
— Você deve ter aprontado uma coisa bem grande para aparecer aqui, garoto. — O de sorriso esculpido disse calmamente, com a voz rouca.
— Onde é que… Eu estou? — Casper indagou, tentando se sentar.
— Ah, maravilha. Não tô com saco para explicar — Jogou à merda o de cabelos negros, saindo de cena.
— Cafeteria das Creepypastas. — Começou o de máscara azul. Esse tinha uma voz fraca e endemoniada. — Aquele é Jeff the Killer. Sou Eyeless. Nome?
Foi fácil perceber que este economizava palavras, como se estivesse ruim da garganta ou algo do tipo. O jovem olhou ao redor antes de responder:
— Órion Casper. — Respondeu com hesitação
Estava em um sofá preto encostado em uma das paredes do recinto que cheirava a coisa velha e levemente a cigarro. A parede em si era metade de madeira e a outra metade coberta por um papel cor de vinho com desenhos clássicos pretos; algumas partes descascavam. As lâmpadas eram fracas e tinha uma especificamente que piscava, ao fundo. O chão também era de madeira, mais escura que a da parede.
Olhou mais além e percebeu várias mesas redondas espalhadas pela área, e algumas pessoas desconhecidas sentadas sobre elas, encarando-o de volta. Inclusive havia um balcão com várias bebidas enfileiradas onde um rapaz de cabelos coloridos limpava os copos quietamente.
— Órion, hum? — Eyeless continuou — Como veio parar aqui?
— Quem são vocês? — Devolveu com outra pergunta. Estava se sentindo ameaçado.
— Hey, hey, hey — Um outro rapaz surgiu, esse tinha bagunçados cabelos castanhos e usava óculos redondos e laranjas. Órion não estava gostando da rodinha que se formava em torno dele. — Vai com calminha aí. Você parece meio afobado.
— Eu disse pra fazer daquela forma — Resmungou Jeff, de braços cruzados.
— Que forma? — O mais recente frequentador do café se levantou, tentando desviar dos outros que não cediam caminho — Me deixem passar!
— Ihh… — Um garoto baixo de gorro verde entrou em sua visão, rodando uma caneta entre os dedos. Aquilo nos olhos dele eram… Sangue?! — Ele tá pirando. Vamos pro plano B! Vamos pro plano B!
— Cala a porra da boca, BEN — Repreendeu Jeff — E traz um café pra esse cara.
O loirinho riu como uma criança pronta para fazer travessura.
— Olha, melhor você não se mexer. — O de óculos laranja advertiu — Senta e bebe alguma coisa.
— Ele riu! — Órion apontou para BEN que já voltava com uma xícara em mãos — Café não é engraçado, por que demônios ele riu?
— Beba — Ordenou Eyeless, esticando a xícara para ele. Órion não aceitou.
— Mas que droga — Jeff estalou a língua, tomando a xícara da mão do colega e obrigando Casper a ingerir o líquido. O suposto café se derramou mais fora de sua boca do que dentro, manchando seu moletom. — É só a porra de um café.
O jovem se engasgou um pouco, tossindo.
— Não precisava ser tão agressivo — Mais uma nova figura apareceu, era o rapaz de cabelos coloridos que antes estava no balcão.
— É só pra apressar um pouco as coisas. Você chegou a pouco tempo, Nocth. Não tem moral para opinar ainda.
Esse último se aproximou de Órion. Sua visão estava ficando embaçada novamente.
— Relaxa cara, tu vai ficar bem.
E tudo escureceu. (De novo).
.
.
— Acorda!
Casper não conseguiu abrir os olhos de primeira, já que uma luz forte se concentrava em seu rosto. Tivera de se esforçar muito para dar-se conta de si. Quando tentou levantar a mão para cobrir a luz, percebeu que seus braços estavam amarrados com cordas a uma cadeira e já não vestia mais seu moletom encharcado. Apenas trajava sua camiseta favorita do Ramones, sobre outra camisa escura de mangas compridas.
— Já lidamos com assassinos mais ferozes que você — A voz de BEN foi ouvida — Tinha de ver quando recrutamos o Jeff, parecia uma mula dando coice.
A lâmpada se abaixou, e a visão de Órion se acostumou com a nova paisagem. Era como um interrogatório da polícia: Uma mesa a sua frente e dois rapazes olhando fixamente para si, trajando roupas monocromáticas, sendo que apenas o gorro verde e o cabelo azulado se contrastavam no ambiente.
— Assassinos? — Indagou — Do que você está falando?
Nocth suspirou.
— Okay, vamos lá. Quantos você matou?
Assim? Direto.
— Eu nã-...
— Não adianta mentir, cara. Só confessa de uma vez. Não somos tiras.
Um estalo de língua ecoou até os ouvidos de Órion, fazendo-o então notar Jeff encostado no canto mais mal iluminado do lugar. Ele caminhou para fora da sala e voltou segundos depois, jogando uma cabeça decepada sobre a mesa bem em frente aos olhos azuis de Casper.
— A última pessoa que enrolou tanto assim para nos responder perdeu a cabeça.
Ele engoliu em seco e tomou fôlego para responder.
Nocth olhou de soslaio o de sorriso esculpido.
— Três…
— Só três?
— Só três.
— Por quê?
— Porque… Mataram uma amiga.
— Tem certeza que só três?
— Só três…
— Patético. — Jeff se retirou, rindo pelo nariz. — Acabem logo com isso, Slender quer conhecê-lo.
Deram um tempo antes de algum som ser escutado novamente no recinto. Órion se obrigou a ficar calmo:
— Por favor, me digam onde eu estou. O que estou fazendo aqui?
— Isto aqui é uma cafeteria de assassinos. Frequentada e administrada por assassinos e demônios — BEN respondeu — Trabalhamos aqui obrigatoriamente em troca de abrigo e proteção de Slenderman, nosso chefe. Sabemos que você é um assassino apenas por ter encontrado este lugar.
— E pelo sangue… O mais óbvio — Murmurou Nocth.
— Enfim, é um monte de besteira e blah, blah, blah. — Continuou o mais baixo — A gente te poupa disso. Só precisa saber que tem de trabalhar aqui agora, se quiser continuar vivo.
— Não é difícil — Complementou o outro. Só agora Órion percebeu a peculiaridade nos olhos do rapaz de cerca de 17 anos de idade. O olho esquerdo possuía íris vermelhas com a pupila falhada, penetrante e o direito reluzente como a cor de ouro. Não era possível que aquilo fosse real. Toda aquela gente parecia ter saído de uma convenção de mangá. — É como trabalhar em qualquer outra cafeteria, só que atendendo gostos esquisitos e levando bronca 25 horas por dia.
— O que nos diz, hum?
Órion deixou seus olhos caírem ao chão, se perguntando como diabos conseguira parar naquela situação. Tudo só poderia ser um sonho. Talvez houvesse morrido e aquilo fosse sua redenção.
— Eu não… Consigo acreditar. — Respondeu finalmente.
— Melhor começar a acreditar e pegar no rodo logo, antes que metam ele em você. — Falou em tom de brincadeira BEN.
— Não precisa temer, assassinos ajudam assassinos aqui. — Nocth tentou reconfortá-lo. — Em pouco tempo você se acostuma.
— Podem me desamarrar agora?
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