Notas iniciais
O encontro dos Jovens Titãs com Lobo promete muita emoção e uma luz no fim do túnel.

Eu nunca me senti tão incontrolável quanto naquele momento.

A toca do Lobo estava mais para uma taverna horrivelmente má frequentada. Não precisava nem pesquisar para saber que 100% de todos que estavam ali já haviam tido passagem por algum sistema prisional intergaláctico. Os olhares dirigidos aos meus colegas nem eram assim tão abusivos, mas os olhares dirigidos a mim... Se Damian não tivesse segurado meu braço com força durante a maior parte do trajeto até a sala privativa do nosso célebre hospedeiro, eu já teria vaporizado o local inteiro.

A porta que dividia o lugar escroto do outro lugar ainda mais escroto – lugar onde Lobo se encontrava – não passava de uma cortina vermelha mofada. A sala não tinha muita coisa, somente uma cadeira gigante, uma espécie de mesa empresarial, várias garrafas de líquidos desconhecidos pelo homem e muito, mais muito cheiro de sexo.

Desde de a última vez que eu vomitara por causa das minhas emoções, passei a treinar pesado comigo mesmo. Eu tinha que ter alto controle, por mais que tudo em mim quisesse explodir. A cena que eu vi ao entrar, no entanto, quase pôs tudo a perder.

O grotesco ser de aparência humanoide era de uma palidez mais intensa que a de um papel. Seus cabelos e sua barba eram tão grandes que pareciam ser uma só coisa. Seus olhos eram completamente vermelhos até o espaçamento branco. Seus braços musculosos pareciam querer explodir de tão fortes, e fazendo todo o brusco movimento de vai e vem, era bem capaz daquilo acontecer. Suas vestes se assemelhavam a couro, algo muito parecido com um motoqueiro gorila nojento. Uma mulher – de características humanas também – estava nua em cima do seu colo, quicando e gemendo como uma louca.

Após ouvirem nossos murmúrios de nojo e reclamação, os dois pararam. A verde alienígena pareceu constrangida, tanto que pulou de cima do colo de Lobo, deixando o seu... Segunda vez em que me vi lutando contra meu estômago. O ridículo não pareceu se importar tanto ao ponto de simplesmente sorrir para nós e espalmar a bunda da outra lá com toda vontade, mandando-a embora.

— Ora, ora... O que temos aqui... – O tom das palavras que vinha daquela boca asquerosa me arrepiou até a epiderme. Sua fama de maior mercenário da galáxia já tinha um grande peso, e sua aparência contribuía. A presença já causava arrepios. – Acho que reconheço uns dos filhos da putinha aqui... – Seu dedo gigante tamborilou no ar entre cada um de nós até chegar em Roy. – Você! Palhaço dos arcos!

De repente, vários dos mesmo monstro que tinha nos recepcionado apareceram e seguraram Roy por todos os cantos possíveis, quase o esmagando. Damian ainda tentou ir para cima, e dessa vez, eu tive que segurá-lo, por incrível que pareça. Ele sabia porque estávamos ali, eu sentia. Nada nos aconteceria se nos dançássemos de acordo com o seu jogo.

Lobo era tão grande que foram necessários somente dois passos seus com botas enormes de couro negro para se aproximar de Roy, quase face a face.

Nosso amigo de braço mecânico vermelho parecia estar raciocinando como eu, tanto que ele não parecia nervoso, apenas desconfortável com todo aquele aperto. Em forma de deboche, soltou um riso sem graça e falou: — E então... Caro Lobinho... Vejo que se lembrou de mim.

A expressão do brutamontes se manteve.

— Eu devia cortar sua cabeça e enfiar ela no seu próprio cu por causa disso. – O rubi do seu olhar passou de Damian para mim e um sorriso nojento se pôs em seus lábios. Engoli a seco mais de três vezes. – Mas vejo que você não está tão inútil quanto da última vez que nos vimos, sim? O que querem aqui?

Com um estalar de dedos, Roy foi jogado pesadamente no chão.

— Os Psíons. OA, Tamaran, a Terra... São todos seus, não é? – Damian se posicionou na frente de mim e Roy. Sua voz parecia segura.

A gargalhada rompeu todo lugar de tal maneira que durante os segundos em que a mesma tomou conta do ambiente, não consegui escutar a música distorcida da taverna nem os sussurros audíveis dos então clientes de Lobo.

— Já vi que meu produto é realmente de ótima qualidade. – Ele encarou um dos seus monstros. – Eu não sei como vocês conseguiram convencer esses idiotas que chamo de empregados de terem um papo comigo, mas já que estão aqui, vão logo ao ponto que eu odeio enrolação, além de que eu tava quase gozando quando vocês me atrapalharam.

Não teve treinamento, nem mão de Dick e muito menos o braço mecânico de Roy para me segurar. Andei até a maldita mesa e bati na mesma, quase a partindo em pedacinhos. Não precisei gritar: minha voz saiu tão assustadora que até mesmo eu duvidei que a mesma fosse minha.

— Pra quem o grandessíssimo idiota aqui trabalha e por quanto.

Outra risada nojenta. Seu corpo se projetou para mim, deixando seu rosto não tão próximo do meu, mas só aquela pequena aproximação me causou repulsa suficiente para recuar.

— Globos oculares verdes, temperamento pé no saco e pele bronzeada... Uma tamaraneana muito bonita. – Não escondeu seu sorriso. – Engraçado, eu lembro da tamaraneana que você fodia, Roy. Parecia muito com essa.

Dessa vez não fui eu que perdi o controle, e sim o próprio Arqueiro Vermelho. Ele voou de onde estava e projetou seu arco para frente em uma velocidade tão impressionante com a qual meus olhos não puderam acompanhar. Quando todos no recinto se deram por conta, Roy estava com uma flecha bem na garganta de Lobo.

— Não ouse falar assim da Kor’i.

— Sabe que não pode me matar. – Ainda mais rápido que os reflexos de Roy, Lobo reagiu com um soco que fez com que o corpo do ex ajudante do Arqueiro Verde fosse arremessado para o outro lado da sala, causando um pequeno estrago na parede. – Como tudo que eu faço na vida, garota, preciso de um preço pra abrir a boca. Pelo visto, vocês não têm nada.

Enquanto ajudávamos Roy a se levantar, Damian e eu trocamos um longo olhar. Ele realmente estava certo. Como diabos não havíamos pensado em trazer algo para trocar com um maldito mercenário? E justamente o melhor deles? Aquela missão estava mais do que perdida.

Como o mais teimoso e cabeça quente dos Robins estava conseguindo ficar tão calado diante de toda aquela situação.

— Apesar de que eu nunca fodi uma tamaraneana. – A sugestão de Lobo fez todo o meu corpo arder em chamas. Fechei os olhos o mais forte que pude porque sabia que se eu os abrisse, raios brigariam com todo o recinto e com certeza iriam atingir o maldito com força total. Eram raras as vezes em que meu corpo inflamava.

Apesar de tudo, Roy não pareceu se abalar nem um pouco. Muito pelo contrário, os recentes machucados em seu corpo só afetavam sua respiração e locomoção, nada mais. A mente de gênio estava a mil por hora.

E eu amei ver seus lábios se curvando em um sorriso malicioso.

Quando finalmente erguemos Roy, algo como um furo atingiu meu ombro. Algo totalmente suportável, como uma espécie de picada de formiga. Não tive tempo de olhá-lo, mas sua boca se moveu de certo modo que de tudo o que ele sussurrou, apenas entendi “vá”.

Eu fui.

Aproximei-me da mesa com os dois punhos fechados e o queixo erguido.

— Primeiro as informações, nós não somos idiotas.

Minhas palavras pareceram atingi-lo de maneira bastante convincente, pois logo após me escutar, Lobo pôs a mão direita dentro da calça e começou a massagear o pau descaradamente. De canto de olho eu percebi que Roy tentava acalmar os ânimos de Damian que naquele momento estava tentando demonstrar toda a raiva guardada.

— O fim do mundo de encontro com a escuridão. Posso não ser bom em charadas, mas quero ver se vou foder uma mulher tão inteligente quanto é gostosa.

Automaticamente uma concentração de energia roxa ficou por volta das minhas mãos. Eu praticamente queimei metade da mesa, mas respirei fundo várias vezes antes de pensar na droga das palavras. Só podia ser brincadeira!

Até que Damian deu vários passos na frente em minha direção e berrou: — Apocalypse. Darkside. Eles que estão brigando entre si?

— Não é que o projeto de fedelho fodido da Terra soube responder! – Eu daria tudo para parar de ouvir a porcaria da risada do Lobo. – Por que eles estão em guerra? Pra quem você trabalha?

— Uou uou, coleguinha! O preço vai carecer... Talvez duas tamaraneanas resolvam. – Após uma pausa mínima, ele continuou. – Guerra é guerra, fedelho. Os grandões que tomem no cu tirando a vida um do outro. Só tô aqui pra servir quem me pagar mais.

— É uma guerra galáctica, Lobo. Mesmo estando de um lado ou dos dois, você morre. – Roy tentou parecer forte em seu argumento, mas as golfadas de ar que ele precisava pegar para pronunciar cada palavra com precisão dificultaram isso.

— Não devo satisfação a você, filho da puta. – O tom de Lobo não parecia nem um pouco humorado para Arqueiro Vermelho. – Eu já cansei de ver a cara de vocês, agora tirem os cus daqui e me deixem com meu pagamento. – Quando ele se levantou da cadeira, seu pau já estava para fora. – Vou foder você todinha até não sobrar mais nada.

Sem consentimento para protestos. Damian ficou gritando e tentando bater nos monstros que estavam expulsando tanto ele quanto Roy dali, mas era bem inútil. Era como se os parceiros de Lobo fossem feitos de pedra pura. Arqueiro Vermelho, no entanto, saiu carregado com a cabeça baixa. Tudo o que ele conseguiu pronunciar foi “cinco”. Se aquilo significava algo que poderia me ajudar, eu não fazia a menor ideia.

Esperava que Olivia e Minotaur tivessem encontrado algo que pudesse no ajudar. E claro, que estivessem bem.

Esperava que Roy e Damian metessem porrada em todos os malditos daquela taverna.

E eu esperava conseguir matar Lobo antes de qualquer coisa.

— Você é bem familiar. – A mão gigante e branca envolveu meu braço e me fez virar de frente para ele em dois tempos. – Eu achava que aquele vermelho era um completo idiota, mas o que mais parece é que ele conseguiu foder mãe e filha... Interessante.

Esquentei meu braço o suficiente para que Lobo me soltasse. Retraí meu corpo, enchendo os olhos e raiva e as mãos de raios.

— Você não vai mais destruir nenhum planeta, Lobo! – Exclamei, pronta para ataca-lo com tudo o que eu tinha.

— Vamos ver o que você pode fazer então. – Após estralar os dedos, ele arqueou os braços como se estivesse me esperando.

Eu nunca havia lutado de maneira mais insignificante que aquela. Não importava o quanto eu o machucasse, seu corpo se reconstituía em questão de segundos! Além de que cada soco e chute seus me atingiam com a força de mil elefantes. Com certeza meu pé voltaria a se quebrar na mesma intensidade que todo o resto do meu corpo se eu continuasse aquela batalha sem sentido.

Fui erguida até o alto pelo pescoço. O ar parecia um privilégio o qual eu nunca mais teria.

— Agora vamos conversar direito.

Colocando-me em sua mesa, ele sem mais nem menos rasgou minha saia. Soltei raios pelos olhos, fodendo com praticamente toda a sua sala. Me esquentava ao máximo a fim de derreter sua mesa e tudo mais que encostasse em mim, mas aquilo só atrasava o que parecia ser inevitável.

Não... Não... Por mais que meu orgulho quisesse falar mais alto, minha garganta conseguiu superar. Eu gritava por Roy, por Damian, por qualquer um que pudesse me tirar daquele pesadelo. Lobo tentava calar a minha boca, mas minhas mordidas e raios oculares laceravam suas mãos.

O mais estranho era que dentro da minha cabeça, eu estava escutar um barulho esquisito, uma espécie de toc toc do relógio.

Depois de ver que não conseguiria as coisas daquele jeito, Lobo virou-me de frente para ele, jogando minhas costas com tudo na mesa, quebrando-a como se ela fosse feita de palha. Ele se jogou em cima de mim.

— Vou acabar com tua raça por essa boceta, tamaraneana. Você vai aprender que tudo tem um preço. – As palavras pareciam doer mais do que suas agressões.

Espremendo meu pescoço, ele conseguiu enfiar sua língua em minha boca.

Foi aí que os números começaram a decair em minha mente: 5, 4, 3, 2, 1.

Um barulho alto o suficiente para fazer meus ouvidos sangrarem tomou conta do lugar. Destroços caiam em cima de mim e do que deveria ser o Lobo a todo o momento. Um negrume pegajoso tomou meus olhos e meu corpo. Não conseguia me mover, muito menos pedir ajuda. Com sorte, ainda ficaria viva por alguns dias antes de me darem como incapaz de tomar água por canudinho.

A única coisa que consegui fazer foi me aquecer, como se eu fosse meu próprio sol.

Só ali, soterrada por milhares de coisas as quais eu nem conseguia imaginar, perto da minha morte – a terceira ou a quinta só naqueles últimos dias – foi que eu pude racionar cada centímetro da nossa conversa com Lobo.

Apocalypse e Darkside em guerra. Os seres mais poderosos que alfa, beta e gama. Não precisaria nem um motivo muito cabível para se começar uma guerra, já que cada respirar daqueles dois equivalia a milhares de furacões na Terra em proporção catastrófica de poder. Eram tomados de tanta maldade e força que bastaria apenas a vontade e a maldade no coração. Nunca, nem se todos os heróis da galáxia se unissem, seriam páreos para as duas ameaças. Não havia esperança nem em um mínimo suspiro perdido de luz.

Onde caralho estariam todos? Talvez mortos? Eu tinha destruído a taverna inteira? O que diabos eu havia feito?! Mais uma vez sozinha, imersa em algo que eu mesma criei. Haviam me confiado uma missão e novamente fiz feridos, novamente falhei. Não me importei de chorar, muito menos de chorar o mais alto que podia. A dor se aliviaria?

Eu queria colo. Por mais que fosse duro de admitir. Meus ossos podiam estar latejando, mas nada era mais duro do que pensar em como meu pai estava a trilhares de luz de distância, sendo cuidado por um povo esquisito – tecnicamente meu povo – e por Estelar. E não, eu não ignorei nem um pouco o modo como Roy agiu ao ouvir Lobo xingando-a, muito menos com o saber do fato de que ele e ela tiveram um relacionamento.

Eu realmente era muito dura em relação a Estelar, mas tudo aquilo era por falta de conhecimento. Durante toda a minha vida eu ouvi vários falando sobre quem foi minha mãe e o quanto era ela isso e aquilo, mas e a verdadeira minha mãe? O que tinha na sua personalidade que a fez tomar decisões as quais eu desaprovava tanto? Pela primeira vez na vida, me arrependi de ser tão ignorante, de não a ter perguntado tudo quanto a vi... E agora, sua imagem seria somente um sopro em minha mente que morreria comigo bem ali.

Damian

Booom. Booom.

Eu gostaria de ter gravado aquele momento em minha mente de tão delicioso que foi ver todos os idiotas da taverna se fodendo bonito, mas tudo aconteceu tão rápido...

Quando formos expulsos da sala do Lobo, eu coloquei tudo o que aprendi em prova, mesmo que os brutamontes que estavam a me segurar fossem fortes pra caralho. Bastou-me apenas ter apoio nos pés e meu bastão portátil na cintura para levar um ao chão. Meus olhos voltaram-se para Roy enquanto ele escapava do outro palerma do Lobo com um pouco mais de dificuldade, mas o êxito no fim compensou tudo.

De nós, miramos para todo o resto da taverna, o qual nos encaravam como se fôssemos presas vivas prontas para serem abatidas. Alguns deles gritaram algo em um idioma desconhecido antes de partirem para cima de nós com tudo.

— Precisamos ajudar Mar’i! – Eu gritei, tomando meu corpo para trás sem me importar com a avalanche de alienígenas ruins que estavam prestes a chegar até nós.

— Ela sabe se cuidar! – Roy berrou em resposta. – Contate Minotaur e Olivia urgente ou nós vivaremos purê!

Quis relutar contra aquelas ordens mais do que tudo. A vontade cresceu ainda mais quando raios e pequenas explosões foram ouvidas de dentro da sala do Lobo. Mesmo assim, eu era o líder dos Jovens Titãs e sabia que sacrifícios tinham que ser feitos como foi no caso da Avia.

Mas eu não queria assistir ao sacrifício de Mar’i de jeito nenhum.

Mesmo assim, peguei meu comunicador do outro lado da barra do cinto e emiti o sinal de socorro. Estalei os dedos e me reparei, pulando de um em um, batendo o máximo que eu conseguia. Por vezes eu gostava de levar uma arma já gasta dos tempos de Batman & Robin comigo para as missões. Me fazia lembrar do quão forte eu era e o quanto era fácil derrotar os bandidos de Gotham.

Não eram mais os tempos de Batman & Robin. Meu pai estava morto e aqueles não eram bandidos de Gotham.

Eu tinha que guardar as balas para os quais eu considerava mais difíceis de batalhar corpo a corpo. As flechas de Roy voavam sobre minha cabeça, ora explodindo, ora eletrocutando, ora fazendo milhares de coisas das quais as flechas de Roy providenciavam. Sua luta era rápida, porém não tão intensa. Se ele tivesse passado uns 6 meses treinando artes maciais com Bruce, seu problema estaria resolvido e Arsenal/Arqueiro Vermelho/Ricardito/Roy Harper seria um dos maiores heróis que o mundo já viu.

Bruce estava morto. Meu pai estava morto.

Booom.

Primeira explosão.

Ela veio de longe, o som opaco e até audível sem menores problemas. As janelas da taverna, era possível ver o vermelho da combustão rodopiando o que era a tal torre que Olivia e Minotaur haviam ido investigar. De súbito, todos os alienígenas da taverna que pareciam com os Psíons caíram no chão instantaneamente sem nenhum sinal de vida. Meu trabalho e o de Roy baixou para metade.

Se aquilo significava algo bom não só para nós, mas para todo o resto dos planetas dominados por aquele exército de lagartos nojentos, eu não sabia. Estava mil vezes mais preocupado com os gritos de Mar’i e com as vidas de Olivia e Minotaur.

— É HORA DE QUEBRAR!

O grito estridente de Minotaur veio da porta. Erguendo os braços, ele correu para o meio dos maus encarados, cheio de vontade e fúria. Sua força chegou a partir alguns na metade enquanto outros eram furados por seus grossos e polidos chifres. Olivia vinha logo atrás cuidando da retaguarda, atirando e aplicando golpes precisos. Seu estilo de luta era quase tão idêntico quanto o de seu pai, e Roy, treinador dela desde que a mesma cagava em fraudas fofinhas, não conseguiu esconder o orgulho da pupilo. Um sorriso debochado atingiu seus lábios.

Quando percebi que nossa guerra ali estava praticamente ganha, tomei meu caminho de volta para a sala, pronto para fazer Lobo pagar caro por cada toque em Mar’i.

Boooom.

Segunda explosão.

O impacto desta foi maior. O som? Nada opaco. Com certeza algum de nós teria a audição muitíssima prejudicada. Tudo começou a tremer e desabar logo em seguida. Como resposta automática do corpo para me proteger, eu pulei em direção ao teto já rachado, quebrando-o facilmente devido sua fragilidade. Movimentos contados em milésimos, tirei do meu cinto o arpão de pequeno porte e o finquei na terra mais próxima, sendo arremessado para longe dos destroços.

Tudo estava em ruínas e gritos.

Alguns dos idiotas ainda davam sinal de vida, conseguindo livrar as mãos dos destroços, muitas vezes a cabeça, mas era somente aquilo. Meu coração começou a bater como uma bomba relógio prestes a explodir. Levantei-me o mais rápido que pude e comecei a afastar pedra por pedra.

— Mar’i!! Roy!! Olivia!! Minotaur!! – Eu gritava cada nome com um surto de pânico tremendo. Não podia ser o eu o único que restara de nós.

E se eu fosse o único?

Eu não estava lá quando minha mãe morreu. Ela também não ligou muito para quando eu nasci. Ibn al Xu'ffasch, em árabe, “o filho do morcego”. Pelo menos tinha sido criativa com a escolha do meu nome falso. Quase uma infância inteira em uma droga de orfanato para só depois ser descoberto por meu pai. Talia al Ghul tirou de mim uma família, tirou tempos preciosos os quais eu poderia ter vivido com Bruce. Apenas uns anos tendo meu pai comigo para logo em seguida vê-lo falecer.

Sem família, sem suporte algum. Vivi a mercê de um irmão que não era de sangue, de uma garotinha chata que ficava a exibir seus poderes e a como era ser filha do maior herói da Terra. Mas não era ele de verdade. Dick jamais seria Bruce Wayne, e Mar’i jamais seria a filha do Batman. Guardei durante muito tempo todo aquele ódio, guardei durante muito tempo a vontade de não ter mais ninguém, de não apoiar mais sentimentos em pessoas para não sofrer mais do que já havia sofrido até que os Jovens Titãs apareceram e tudo resolveu mudar, até que eu vi quem era Mar’i Grayson. Ser lembrada como filha do Batman era a última coisa que ela queria ser. Ela queria ser ela e isso a bastava.

Que aquele planeta rompe-se ao meio e o levasse junto. Eu não queria estar sozinho mais uma vez, não queria que tudo tivesse sido em vão. As lágrimas começaram a encharcar as lágrimas, porém fiz pouca cena para aquilo. Os braços já evidenciavam o cansaço...

Um círculo vermelho se sobressaltou por dentro dos destroços. Roy matinha seu arco, o projetor daquele escudo, o mais horizontal e firme possível. Atrás dele, agachada e confusa, Olivia encarava o lugar sem saber o que tinha acontecido. Alguns segundos depois, chifres imensos brilharam sobre a luz das duas luas que circulavam o planeta, mostrando-nos que Minotaur estava machucado, mas vivo.

Todos ali, todos bem... Menos Mar’i.

Desativando o seu escudo, Roy começou a cavar os destroços usando seu arco como pá.

— Vamos! Ajudem!! – Ele gritou. As lágrimas também estavam evidentes em seu rosto.

— O que porra aconteceu? – Minotaur perguntou, afastando o que deveria ser seu pé de uma pedra.

— Eu explico depois, mas precisamos achar a Mar’i primeiro! – Todos começaram a cavar. Eu não consegui mover um único movimento sequer.

— Você explodiu Mar’i junto com o Lobo, não foi? – Minha pergunta ecoou por todo o lugar destruído. Os olhares de meus companheiros foram de mim para Arqueiro Vermelho, o qual suspirou, tentando controlar o choro.

— Eu... Instalei um microchip explosivo em seu corpo com o DNA do Lobo que eu coloquei há muito tempo atrás. Era... Uma arma que eu estava desenvolvendo pra acabar com ele de uma... De uma vez por todas. De dentro pra fora. Se ele conseguisse se regenerar, demoraria tempo demais e... – Antes que Roy conseguisse pronunciar qualquer outra palavra, meu soco estalou em seu queixo, fazendo gritar de dor e cair para o outro lado.

— COMO PÔDE ARRISCAR A VIDA DELA ASSIM? VOCÊ É LOUCO?! FILHO DA PUTA!! – Sem que eu me desse, já estava em cima do ruivo, socando-o com todas as forças que ainda me restavam. Olivia gritou, tentando apartar a briga de algum jeito. Roy já estava bem fodido, então suas investidas contra meus golpes eram quase que inúteis. Quando seu nariz começou a expelir sangue, Minotaur veio para cima e nos separou, segurando cada um por uma mão sem o menor esforço.

— Ouviram isso? – Ele perguntou, seu nariz de touro bufando.

Podia jurar que o som era parecido com uma canção de ninar: fina, baixinha e doce. Algumas golfadas de ar antes do barulho morrer foram ouvidas, e todos nós corremos como loucos – menos Roy, o qual rastejava – na direção do som, cavando ali até encontrar a nossa luz no fim do túneo.

Lá estava Mar’i, ou o que restou dela. Seus lábios estavam imersos em sangue, quase irreconhecíveis. O rosto bastande inchado. Depois de conseguirmos tirá-la de meio das pedras – o que levou quase uma hora – nos dermos conta de que seu corpo parecia estar totalmente quebrado. A parte de trás da sua saia não existia mais. Rapidamente tirei minha capa e a enrolei. Olivia checou os batimentos, seus dedos tremiam ao encostar na supercíe do pulso de Mar’i. Após os segundos mais tensos que já vivenciei, a loira nos encarou com os olhos marejados.

— Ela está viva.

As comemorações se deram por volta de lágrimas e suspiros de alívio. A nave não se encontrava muito longe e eu me asseguraria acima de tudo para poder ver Mar’i bem e recuperada. Quando estavámos prestes a nos mexer, meu comunicador tocou.

— Flash para Titãs, câmbio. – A conexão estava péssima, mas era possível ouvir lápsos. – Psíons... Caíram mortos... Terra... Salva.

Notas finais
O exército de Lobo cai e a Terra finalmente consegue respirar em meio a guerra. Uma visita inesperada chega até a Torre Titã.