Codinome: Estrela da Noite
14 XIV
Notas iniciais
Estelar
Estelar nunca foi boa com matemática, mas podia muito bem dizer quantos súditos havia atendido somente naquela tarde: quatrocentos e vinte e três. E isso não era nem metade do que ela ainda iria receber no que antes era o vagão de recepção do castelo já que o grande salão onde seu trono ficava havia sido totalmente destruído pela guerra. Guerra essa que acabara como um sopro.
O que sobrava do exército tamaraneano ainda tentava resistir usando tudo o que tinham. Os civis ajudavam como podiam, desde atenção aos feridos a até mesmo com combate corpo a corpo, mesmo que o armamento dos Psíons fosse suficiente para vaporizar seres inteiros. Estelar e Superman estavam nas linhas de frente, mas ambos já aparentavam o cansaço, a perca de força. Quando tudo parecia perdido, os aparentemente parecidos com lagartos simplesmente caíram ao chão sem qualquer sinal de vida. Em um piscar de olhos, a horrível guerra tinha chegado ao seu fim.
A rainha do planeta Tamaran assim como todos os outros só descobriu depois de algumas horas o motivo pelo qual os Psíons haviam morrido do nada: um comunicado emitido pela Liga da Justiça informou que os Jovens Titãs conseguiram destruir o gerador que mantinha o exército alienígena vivo. Aquelas palavras são foram o suficiente para apaziguar a curiosidade de Estelar. Sua mente planava em tantas perguntas e respostas que era difícil concentrar em outras coisas, até mesmo no seu planeta que fora quase dizimado. Com o pouco de guarnições que tinham sobrado das cozinhas do castelo, decretara a alaranjada monarca que todos os cidadãos receberiam comida e um abrigo nos salões principais – que conseguiram se manter de pé – até que tudo pudesse ser reconstruído outra vez. Levaria tanto tempo e dinheiro como há 20 anos atrás, onde a situação do planeta era parecidíssima. Os súditos iam um a um receber seus mantimentos, ora exaltando a nobreza ora lamentando todo o prejuízo. Estelar tentava se concentrar em cada palavra, e com o coração aberto, sentia toda a dor do seu povo, porém sua atenção se mantinha me longe dali. Na Terra, para ser mais exato.
Se os Píons eram teoricamente um exército controlado por um gerador, quem os comandava? Como os Jovens Titãs tinham descoberto o cretino e como klorbags haviam dado um jeito naquilo? Ficara sabendo através do Superman que a Terra estava em situação igual ou até mesmo pior em comparação a Tamaran. Aquilo fazia o corpo de Estelar arder mais do que o normal. O planeta dos humanos a acolhera com tanto amor e carinho e nada podia fazer por ele. Não podia fazer nem pelo seu planeta novamente... Suspirou, torcendo para que tudo aquilo fosse somente um pesadelo, que ao acordar, tudo estaria resolvido.
E ainda havia uma questão muito pertinente em toda aquela história: Mar’i, sua filha, fazia parte dos Jovens Titãs. Como estaria ela? O que ela teria feito para ajudar? Será que sua chegada à Terra fora tranquila? Desde que Mar’i partira na nave em que Superman usara para vir até Tamaran, suas orações estavam com ela. Não tiveram o primeiro encontro mãe/filha mais agradável do mundo, mas independentemente de qualquer coisa, Estelar a amava desde seu nascimento e nunca, sob nenhuma circunstância, parara de pensar nela, no fruto do seu amor deixado na Terra por motivos de força maior. Lembrava-se certa vez, há 18 anos atrás, quando não estava mais aguentando de saudade, Estelar pegou escondido uma das naves-caça de sua frota e voou até o planeta acolhedor, fixando-se bem perto da mansão Wayne. Procurou pelas janelas na maioria dos quatros até que encontrou um cômodo todo em roxo e coberto de fotos, pôsteres de culturas desconhecidas e várias estrelas adesivas. Uma cama gigante e brilhosa estava no meio do lugar, e em cima dela, a respiração da garotinha fazia o cobertor subir e descer em uma dança fofíssima. Lá, de longe, Estelar vira pela primeira vez desde o nascimento a sua garotinha com dois anos de idade, dormindo um sono profundo e lindo. Quis tanto entrar, afogar Mar’i em seus braços e leva-la para Tamaran, mas não fora esse o acordo que fizera com seu laço eterno, Dick Grayson.
Nada tinha como argumento, afinal: Seu planeta estava se reerguendo ainda, em condições inabitáveis para uma criança. Na Terra, Mar’i poderia ter uma vida melhor do jeito que quisesse. Teria a atenção não só de seu pai como também de todos os amigos que Estelar, por triste consequência, deixara. Quando sua filha nasceu, a decisão foi quase que tomada automaticamente por questões óbvias. Mesmo assim, Estelar não conseguia se confortar. Sentia-se sempre incompleta, como se um pedaço – ou melhor, vários pedaços – tivesse sido deixado para trás. Um pedaço querido e extremamente precioso. Ver Mar’i praticamente uma adulta olhando-a com desamparo foi duro, como se ela não soubesse de tudo pelo que Estelar teve de passar, do quanto que ela teve de abrir mão. Teria Dick Grayson não contado nada à filha?
Quando Estelar fora chamada pela terceira vez, seu líder de tropas e irmão Ryand’r resolveu anular a presença da rainha no recebimento dos mantimentos. Estelar lhe deu o mais agradecido dos olhares e pediu mil desculpas por sua saída repentina.
Não sabia o que era mais duro: olhar por entre os gigantes buracos da estrutura e janelas quebradas a destruição de seu planeta ou perceber que sua casa estava se mantendo de pé por muito pouco. Era como se tudo pela qual Estelar tivesse lutado durante 20 anos fosse levado embora por um forte sopro. Quem sabe quanto tempo levaria para que tudo estivesse na mais perfeita paz? Talvez ela nem estaria mais entre eles para descobrir. Seu quarto foi um dos cômodos do castelo mais afetados. Tudo no quarto estava quebrado, a mercê da bagunça e da queima do fogo. Teve de se alojar junto aos feridos, o único lugar debaixo da terra o qual de mantivera de pé sem maiores problemas. O pior de tudo era ter que passar pelo largo corredor marrom repleto de macas e pessoas feridas, até mesmo mortas. Seu nariz nem seus olhos conseguiam suportar o odor e a visão da morte impregnadas por todo o lugar. Somente ele a fazia esquecer de tudo ao seu redor.
Esse alguém era Dick Grayson.
Se não fosse pela velha curandeira e seus discípulos, o mais novo – que já estava ficando velho – Batman não estaria mais no mesmo plano. A ferida do laiser atravessara-o, fazendo com que boa parte dos seus pulmões e estômago fossem quase dilacerados. Havia sido um milagre de X’Hal, e mesmo não sendo uma crente fervorosa, rezara todas as noites, até quando estava em batalha, para que ele melhorasse. Quando o domínio do castelo fora novamente reestabelecido, os outros curandeiros e especialistas puderam melhor tomar conta do estrago. Por sorte, a anatomia humana era bastante parecida com a tamaraneana, o que não dificultou muito o trabalho.
O maxilar marcado estava relaxado em um sono profundo. Seus cabelos que eram tão negros como a noite começaram a embranquecer dos lados. Era estranho perceber que Dick não era mais o mesmo de antes e que Estelar não o estava acompanhando, apesar de terem idades muito semelhantes. O tempo passava diferente para o corpo tamaraneano, este muito mais conservado. Estelar ainda parecia a mesma, mas somente parecia. Acariciou o rosto do que fora o seu amado antes de sair dali. Não iria conseguir dormir muito menos ficar escurando o som dos gemidos de dor de seus súditos. Durante sua caminhada até a saída do subterrâneo, lembrara-se da promessa que fizera Dick Grayson assim que ele acordou pela primeira vez: “Quando tudo isso acabar... Leve-me para casa...”
Por mais que tentasse distrair sua mente, sabia que a única maneira de finalmente sossegar seu corpo e seu cérebro seria visitando a Terra, seria desvendando o mistério de suas perguntas e tendo de uma vez por todas uma conversa séria com Mar’i. Seria levando Dick Grayson para casa, seria vendo com seus próprios olhos o estado de seu outro planeta-abraço. O problema estava em sua atual posição. Que tipo de rainha abandona o seu povo quanto este mais precisa dela? Que tipo de pessoa cruel faria aquilo? O coração parecia pular do peito enquanto ela andava em direção ao hangar o castelo, este quase que inexistente. Haviam sobrado somente duas naves em perfeito estado, e Superman já estava a se preparar para partir em uma delas.
Ryand’r podia não estar com Estelar desde nova, já que ele era só um bebezinho quando seus pais venderam sua irmã para o povo da Cidadela. Quando a guerra estourou, acabando não só com sua família como também com todo o planeta, Ryand’r tinha apenas 12 anos. Mesmo assim, juntou-se com o povo que sobrara e treinou-os como havia aprendido com seu pai desde muito novo. Sobrevivera com pouquíssimo, rezando todas as noites para que X’Hal abençoasse aquele lugar perdido. Eis que tantos anos mais tarde, os cabelos rubros de Estelar cortaram o céu e a esperança foi reconquistada. Desde então, o irmão mais novo da rainha mantinha-se fiel e forte ao seu lado, lutando para protege-la e principalmente, para fazer bem ao seu povo. Contanto, não gostava nem um pouco das histórias do outro povo ao qual Estelar havia pertencido, muito menos do tal Dick Grayson, o por excelência príncipe consorte de Tamaran. Percebera que a irmã ficava emotiva e impulsiva além do normal quando a Terra ou aquele humano estavam em jogo e isso a fazia perder o foco. Aquilo não podia acontecer.
Seguiu os passos da irmã até as masmorras, e mais para frente, até o que era para ser o hangar norte do castelo. Percebeu, ao longe, que Estelar conversava com o maldito kryptoniano, o qual já estava – por X’Hal – de saída do planeta. Quando sua irmã veio em direção ao corredor novamente, não pensou duas vezes.
— O que está pensando em fazer? — Perguntou Ryand’r, tocando no braço de Estelar, a fazendo ter um mini susto.
— Por X’Hal, Ryandr! Me matará assim!— Após respirar fundo duas vezes, Estelar falou: — O que quer dizer com isso? Não devia estar de olho nos céus?
— Sabe muito bem o que quis dizer, Koriand’r. O que pretendes fazer? Desde quando você bate papos tão longos com o filho de Krypton?
— Espere um pouco. – Ergueu ambas as mãos em protesto. – Você estava me espionando?
Apesar de poucos anos de convivência, sabia muito bem que não era indicado deixar Estelar com raiva. Mesmo assim, não podia evitar. Tinha de cumprir seu dever tentando fazer sua irmã voltar à realidade. Tentou ignorar o fato de que os olhos da sua irmã estavam de um verde bem mais brilhoso e de que seus cabelos estavam quentes, com pequenas labaredas de chamas lambendo os fios.
— Você tem andado distraída ultimamente, irmã. Isso não pode acontecer. Tens um povo em crise para governar! Acha mesmo que pensar no seu querido “príncipe” irá ajudar Tamaran?
— Deverias tomar cuidado com suas palavras, Ryand’r. — Os braços de Estelar se cruzaram. – Eu não estou distraída. Até onde percebi, é você que está fora de seu posto nesse exato momento para brincar de espião da rainha por ai. O que eu faço ou deixo de fazer não será da sua conta. Pelo menos, não nessa minha decisão de agora. – Deu as costas para seu irmão, caminhando a passos firmes para a direção oposta a ele.
— O que vai fazer?— Perguntou um pouco desesperado o líder das tropas enquanto tentava acompanhar a rainha.
— Eu irei para a Terra. Tenho questões a resolver.— Seu olhar, por mais que não estivesse sobre Ryand’r, podia muito bem ser sentido até por quem estava do outro lado das paredes.
— Você só pode estar maluca!! Vai mesmo deixar todos aqui para ir atrás de um planeta medíocre?
— Um planeta que me acolheu, que me deu o que Tamaran não me deu quando fui vendida para os mesmos Psíons os quais estávamos a enfrentar a poucos dias! O planeta que abriga o meu laço!— Interrompeu abruptamente a si mesma para mudar de assunto. – Quando você finalmente ter seu laço, saberá porque tanto faço isso. Eu jamais esquecerei e deixarei de cumprir meus deveres em Tamaran como também jamais darei as costas para a Terra. Mais do que já dei.— Subindo as escadas e se dirigindo para a cozinha, onde por ironia suas roupas agora lá se encontravam, Estelar parou de frente a uma espécie de bacia feita com ossos de Karont do chifre verde e tirou de lá seu uniforme de Jovem Titã. Vestindo-o ali mesmo, finalmente encarou Ryand’r, o qual a observava antônito. – Enquanto eu estiver fora, segura as pontas: você é o novo rei.
Não queria falar daquela maneira com Ryand’r, ainda mais dar aquela decisão de maneira tão bruta, porém, no fim das contas, sabia que ele não aceitaria facilmente. Afinal, o maior motivo pelo qual seu irmão mais novo vivia era Tamaran.
Estelar também amava seu planeta natal, mas tinha outros motivos.
Dois guardas transportaram Dick Grayson em sua maca até a nave. Com sorte, o aeromodelo possuía uma pequena enfermaria no vagão traseiro, o que ajudaria caso ele sofresse alguma complicação durante a viagem. Não daria tempo de fazer um anúncio oficial, o que fez Estelar recuar um passo antes de finalmente entrar na nave, dirigindo-se à sala de controle. Superman estava sobre o controle principal, acenando para Estelar com a cabeça ao vê-la. O segundo piloto, este um dos soldados de Ryand’r, já encontrava-se pronto. Com a confirmação e com a dor por saber que estava a deixar suas responsabilidades, estas as quais escolhera assumir há 20 anos, autorizou a partida.
As naves de padrão tamaraneano possuíam várias janelas de proteção reforçada. Parecia vidro terrestre, só que muito mais forte e quase inquebrável. Era incrível como mesmo estando protegida do lado de dentro, Estelar podia sentir o frio do vácuo espacial, além de todo o silêncio. Estava desacostumada a viajar, então tentou relevar aquilo. Ficou encarando o próprio corpo coberto por aquela saia e top, ambos roxos, as braçadeiras que continham cristais acumuladores de energia nas costas das mãos. Victor, a mente brilhante por trás do traje. Que saudade dele!
Dois guardas – também treinados por Ryand’r – ficaram responsáveis por Dick, mas Estelar não conseguia confiar. Não era porque achava que faltava capacidade nos soldados, e sim falta de fé nela mesma. Afastou-se da sala de controle e andou em direção ao último vagão. Dispensou os cuidadores e entrou no pequeno ambiente o qual possuía a maca, uns medidores de frequências vitais, algumas substâncias medicinais e um balcãozinho mais ao lado.
Dick Grayson, contudo, não estava deitado, e sim em pé perto de uma das janelas do lugar, encarando o negrume estrelado do espaço.
Poderia a mente reviver tudo, desde o primeiro encontro com aquele homem até o último, tudo de uma vez só e em questão de segundos? Estelar sentiu todo o seu corpo queimar quando as lembranças atingiram sua mente como uma bala. O que ela ainda sentia por Dick Grayson? Como conseguiria encarar todas as suas dúvidas diante da única pessoa que a fazia ficar com as pernas bambas. O tempo para conseguir pensar em uma resposta foi curto, pois ele já havia percebido sua presença e a estava encarando com certa interrogação no olhar, mas mesmo assim não deixou de sorrir.
Por X’Hal... O sorriso não...
— Decolaremos na velocidade da luz daqui a pouco, certo? – Perguntou, olhando dela para a janela. – Fico muito feliz por você ter atendido ao meu pedido, Kory. Muito obrigado.
— Parece que você já está bem melhor. – Seus olhos analisaram ponta a ponta do corpo de Dick e fixaram-se durante muito tempo em cima de sua cicatriz horrenda que se encontrava no centro de seu peito.
— Se não fosse por aquela senhora... E por você, eu provavelmente nem estaria aqui. – Tocou a cicatriz, tirando a atenção de Estelar dela. – Acho que passarei minha vida inteira te agradecendo.
— Você nunca precisou e nem precisará disso. – Ela não queria ter dito aquilo daquela maneira, contudo não podia se culpar. Estelar era uma tamaraneana guiada completamente por suas emoções. Não conseguia reprimi-las por muito tempo. Dick Grayson sorriu mais uma vez um riso sem graça.
— Superman me contou sobre a destruição em Tamaran, eu sinto muito. Não queria tirá-la de suas obrigações.
— Eu preciso ir para a Terra por outros motivos, Dick Grayson. – Respondeu sinceramente. – E também não se preocupe com isso. Posso arcar com as consequências de meus atos.
O clima estava mais do que evidentemente desconfortável e não era isso que Estelar queria. Sua maior vontade era de abraça-lo, de arrancar dos seus lábios o mais quente dos beijos, mas outra parte de si, uma parte não muito usada – a razão – passou a influenciar muito mais as atitudes dela do que a própria conseguia imaginar. Do mesmo jeito que se lembrou dos bons momentos ao lado de seu eterno laço, também teve o desprazer de recordar os momentos ruins... E eles a faziam frear.
— Eu conheço esse olhar. Essas roupas também. – Ele falou depois de um longo silêncio. – O que há, Kory?
Como pôde achar que conseguiria dar uma de forte para cima de Dick Grayson? Logo ele que a conhecia inteiramente? Respirou fundo três vezes e o encarou pela maior quantidade de tempo que conseguiu, buscando a coragem para poder dizer o que queria.
— Finalmente vi minha filha depois de 18 anos, Dick. Não há como não ter nada mediante a um fato desses. – Abraçando ambos os braços, Estelar procurou conforto em seu próprio toque quente. – E obviamente que não foi como esperava. Desde que a deixei com você, eu entendi que talvez... Ela crescesse guardando ressentimentos de mim, mas o que vi nos olhos dela... Estava mais para um quase ódio.
Ele não falou nada nem teve coragem de olhá-la nos olhos.
— Donna... Ela me mandava alguns relatórios de meses em meses me contando o que via. Eu comparava com os que você e Victor mandava... – Tentou tocar no braço dele, mesmo que levemente. – Eu sei que você não pôde dedicar totalmente sua vida a ela. Antes de Mar’i, você era Asa Noturna que se tornou Batman e ainda carrega esse fardo. Nós temos sorte de ter amigos maravilhosos que ajudaram na criação dela. Eu também sei que Mar’i chegou a ter uma... Madrasta. – A palavra saiu um pouco amarga, mas foi produzida com um tom de voz firme.
— Se está falando da Bárbara, o nosso relacionamento já acabou faz algum tempo.
— Dick, eu não preciso que me dê explicações. A vida é sua e você faz o que quiser com ela. Eu não podia... Prendê-lo a mim. – Tentou de todas as maneiras dar um sorriso, mesmo que tenha soado falso. Desde que Estelar partira, ela nunca mais se deitara com qualquer outro ser porque simplesmente não conseguia. O coração estava em outro mundo e sem subsídios para ser devolvido. – E o que vou dizer agora não é a insinuação de nada, mas... Dick Grayson... O que você falou de mim para a Mar’i? Que imagem você deu de mim?
— Que tipo de pergunta é essa? – Ele arqueou uma das sobrancelhas, o maxilar rígido. – Sempre falei o quanto você é forte, poderosa, a melhor Titã que já pisou na Terra. Se acha que Mar’i considera Bárbara mais mãe do que você, está enganada. Mar’i nunca gostou muito dela, para ser sincero. – Aquilo fez uma pontinha do orgulho de Estelar ficar vivo, porém não deixou isso evidente.
— Mas e como pessoa, Dick? E como mão? E como a Kory que você conheceu? O que disse de mim em relação a isso? – A boca dele se abriu como se ele já tivesse uma resposta pronta para aquela pergunta, mas aos poucos a sua vontade de falar foi baixando até que não passou de um suspiro e sua cabeça baixa. – Richard. – Estelar nunca o chamava pelo nome realmente. Não até aquele momento. – Você contou para Mar’i porque tive de deixá-los, não contou?
Ele não precisou dizer nada: o seu olhar pesado o denunciara. Estelar tentou respirar fundo várias vezes para evitar a irritação que já começava a subir por todo o seu corpo. Sentiu que as pontas dos seus cabelos estavam entrando em combustão, o que fez Dick segurá-la pelos ombros, forçando-a a olhá-lo nos olhos.
— Kory, eu sinto muito! Por favor, não me odeie! – Implorava. – Eu tentei, eu juro que tentei, mas pra dizer tudo o que tinha de ser dito a Mar’i, eu tinha que acreditar que era tudo verdade primeiro, e eu... Não consegui lidar com o fato de você ter me deixado, de ter escolhido um planeta que a expulsou, que a desprezou. Você preferiu responsabilidades que não precisavam ser suas ao invés de ficar comigo e com o nosso bebê, Koryand’r! Nossa filha! Eu não conseguiria sozinho... Me perdoe...
Soltando-se de seu toque, antes que pudesse rebatê-lo, um aviso na língua tamaraneana ecoou pela nave informando que entraríamos na velocidade da luz em instantes.
Ela quis dizer tanta coisa, ela quis esmaga-lo e ao mesmo tempo joga-lo para fora daquela nave, mas nada disso fez. Fechou os olhos, contou até dez e foi andando até a porta.
— Dei meu coração para você, Dick Grayson, eu o dei e não tomei de volta. Você me fez acreditar que não me amava mais, e isso me machucou mais do que qualquer morte. Se me amasse de verdade, não me deixaria tão confusa, não me faria sentir culpada. Se me amasse de verdade... – Finalmente voltou a encará-lo antes de ir embora. – Eu teria ficado.
O caminho entre o último vagão e a sala de controle fora longo e pesado, contudo, assim que pediu para assumir os controles da nave no lugar do soldado e ativou a viagem pelo hiperespaço, Estelar mentalmente fez uma prece, sentindo o seu coração no lugar novamente.
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