Cocaine
40 Um fantasma inconveniente
Notas iniciais
Essa era uma Harley diferente. Uma garota maravilhosa que eu ajudei a quebrar. A minha mais recente loirinha baixou o olhar e caminhou confiante até o seu lugar.
E eu só pude assistir, incapaz de fazer algo para melhorar as coisas.
— Eu não estou me sentindo muito bem. – disse o “carinha da lanchonete”, colocando uma mão na boca.
Merda.
[…]
Dez questões e eu continuava com o meu olhar fixo na criatura sentada na última fileira de cadeiras da bancada. Julgando pela sua aparência estranha – constituída por óculos escuros e um lenço negro na cabeça – supus que Monique queria passar despercebida. Não estava dando muito certo já que um ponto negro isolado e sentado numa cadeira branca, não é propriamente a definição de disfarce perfeito. Monique burra.
Suspirei, deixando a décima primeira pergunta ser respondida por um garoto de sorriso bonito e cabelo tão loiro que me estava deixando cega.
Eu realmente não tinha moral para classificar as capacidades mentais de Monique. Nesse mesmo instante, eu mesma estava me humilhando na frente da comunidade acadêmica. E porquê?
Porque esse apresentador cabelo de couve maldito decidiu que esse era o dia de humilhar a Harley. Aliás, estou sendo muito egocêntrica. Eu não era a única humilhada. Infelizmente todas as meninas estavam sendo alvo dos ataques machistas do cabelo de couve.
Começou com um comentário sobre como os garotos são sempre mais capacitados que as garotas e só porque esse otário de cabelo loiro respondeu por cima de uma das meninas. Nessa hora eu quase voei no pescoço dele, mas decidi que o melhor seria ignorar. Essa atitude seria típica da velha Harley. E eu estava querendo mudar, por isso eu só tinha que respirar fundo e ignorar.
Agora na décima segunda pergunta, eu estava perdendo a cabeça. Não só as garotas estavam sendo completamente desconsideradas como ainda ficavam recebendo comentários e olhares nojentos.
— Correto, Darren! Cinco pontos para você. Passamos então para a décima terceira pergunta. Os garotos com uma vantagem considerável sobre as garotas. Acho que dessa vez o vestido azul não vai ser o suficiente para ganhar, não é mesmo?
Levantei a cabeça, encarando o cabelo de couve, olhos nos olhos. Ele está tentando insinuar alguma coisa?! Para mim? Esse filho da…
O painel de perguntas exibiu o número 13 acompanhado de uma imagem inútil e pedindo apenas que os participantes calculassem a trajetória exata de um projétil submetido a força da gravidade e a resistência do ar.
Furiosamente peguei a caneta do tablet e comecei por rabiscar um pequeno esboço da trajetória e com ele em mente, fiz os meus cálculos sem perder tempo com calculadoras. Enquanto os restantes participantes faziam os seus cálculos, eu lancei-me sobre o botão vermelho com toda a minha raiva.
O cabelo de couve me olhou com uma sobrancelha erguida e um meio sorriso debochado. Que bom saber que ele me subestimava. Só me deu ainda mais vontade de arrancar os seus olhos com as minhas próprias unhas.
— Vamos ver do que você é capaz, senhorita Adams.
Os meus cálculos passaram do tablet para o painel, mostrando a todos o quanto a minha letra é feia. O cara de cabelo verde fez uma careta desagradável enquanto examinava o meu trabalho com atenção. Quando terminou abriu um sorriso falso e apontou o dedo indicador na minha direção.
— Que pena, senhorita Adams. Vou ter que considerar a sua resposta incompleta. Ou seja, errada. Lamento.
Incompleta?!
— Como assim incompleta?! O que está faltando?
O homem aproximou-se, quase colocando o dedo no meu nariz. – Você usou o valor exato, minha querida. Deveria ter usado o valor aproximado.
Revirei os olhos. – Você não pode estar falando sério…
— Lamento, senhorita. Talvez um dos meus garotos queira tentar a sua sorte.
Respira Harley.
O cara loiro de sorriso bonito soltou uma risadinha debochada e tocou no seu botão vermelho. Só podem estar de brincadeira com a minha cara. Toquei no meu botão de novo.
— Isso é completamente injusto! O cálculo era referente á trajetória exata, claro que eu calculei o valor exato!
O apresentador pegou um dos seus fios verdes e colocou-o atrás da orelha. – Senhorita, você estava errada. Agora por favor, pare de nos fazer perder tempo e aja como uma mulherzinha.
Fechei os punhos e baixei a cabeça. Dentro de mim, era travada uma batalha entre a antiga e inconsequente Harley e a nova e melhorada versão que eu tentava impor a mim mesma. Infelizmente a batalha já estava perdida mesmo antes do seu começo. Sinceramente eu estava cansada de tentar ser o que os outros queriam que eu fosse. Foi por essa razão que levantei da minha cadeira e joguei o tablet no chão.
— Essa sou eu sendo uma mulherzinha, seu cretino. – rosnei antes de jogar as minhas unhas no seu cabelo perfeitamente bem penteado e de um verde horrendo que deveria ser ilegal. No primeiro segundo, o homem não entendeu bem o que estava acontecendo. Só mesmo quando viu as minhas mãos cheias do seu precioso cabelo, é que o cara se moveu tentando inutilmente desferir socos nos meus braços.
— Tirem essa maluca de cima de mim!
Infelizmente os seguranças obedeceram imediatamente, afastando-me do otário que permaneceu sentado no chão e quase sem cabelo. Tanto o público como os participantes da competição estavam deleitados pelo pequeno show, mas as suas gargalhadas em uníssono não me fizeram sentir melhor. Mais uma vez eu estava fazendo figura de idiota. Esse cara era um otário, mas eu não era melhor.
— Harley Adams, você está desqualificada dessa competição e nem sonhe em tentar competir no futuro, porque no que depender de mim, não vou permitir!
Encolhi os ombros e mostrei a língua para a criatura descabelada, que parecendo assustada fez sinal para os seguranças me “escoltarem” para bem longe da sua cabeça de pássaro depenado.
Sim, muito adulto, Harley.
Foi só quando me colocaram para fora do ginásio que percebi a burrada que eu tinha feito. Nem num milhão de anos, o meu pai me perdoaria, eu humilhei a minha universidade e no final, provavelmente seria processada por essa pessoa machista e nojenta.
Sorri para mim mesma. Tanto faz, finalmente eu estava livre. Por um bom tempo eu não teria que pensar em competições, e talvez, só dessa vez, eu me permitisse ser a velha Harley por um tempo. Eu gostava dessa Harley.
— Amiga, sua doida, agora eu me tornei sua fã! – gritou Jade, saindo pela mesma porta pela qual eu fui “convidada a sair”. – Mais um segundo e eu mesma sairia arrancando o cabelo de todo o mundo. Coisa chata essa competição.
Revirei os olhos, sendo abraçada pela minha amiga vingadora. Atrás dela, Chad balançava a cabeça contrariado. – Adorei o novo visual, Har, mas acho que nem mesmo esse seu novo ar de moça comportada vai impedir que fique de castigo até fazer 30 anos.
— Realmente eu tenho o melhor irmão do mundo. – resmunguei, também sendo abraçada pelo meu Chad. A próxima pessoa a brotar do ginásio foi Lauren, que caminhava com dificuldade e era auxiliada pelo meu pai. Engoli em seco. Papai estava muito vermelho. Só poderia significar que eu estava morta.
Assim que James levantou o olhar da sua esposa grávida para mim, eu soube que ainda havia esperança. O homem cruzou os braços e semicerrou os olhos, parecendo um anão ameaçador.
— Pai, eu… eu posso explicar…
— Harley, como pai eu vou dizer que não foi nada certo o que você fez lá dentro… eu estou completamente desiludido. Você deveria ter quebrado o tablet na cara do apresentador. Ele estava pedindo mais que uns puxões de cabelo, minha querida.
Pisquei os olhos, pensando que de certeza eu não estava ouvindo bem. O que fizeram com o meu pai e quem é esse anão do mal?! James aproximou-se um pouco mais esmagando-me num abraço assassino enquanto Lauren ria, percorrendo os seus dedos gentis pelos meus cabelos.
— Eu bem desconfiei que eles estariam aqui, minha senhora. – ouvi a voz de Jenkins falar atrás de nós. Desfiz o nosso abraço e a contragosto virei-me para encarar a minha punição.
Hora de ser adulta e encarar as consequências dos seus atos, Harley.
Eu só não esperava encontrar o fantasma do meu passado seguindo Jenkins com o seu passo firme. Recuei um passo, pisando o pé de quem eu supus ser o meu pai, mas quando me virei, perdida e zonza, foram os braços de Julian que me apoiaram.
O que ele estava fazendo aqui? O que ela estava…?!?
Um pouco mais atrás de Julian, papai parecia ainda mais surpreso que eu. – Rosemary… o que você…
A mulher atrás de Jenkins afastou os seus fios loiros para longe do seu rosto. – Acho que não preciso me explicar para você, James. Mas que seja, eu fui avisada pelo Senhor Grant de que a minha filha estava um pouco descontrolada. Eu só nunca pensei que o problema fosse tão grave.
Eu não respondi. Fazia quantos anos que eu não via essa mulher? Uns dez, talvez até mais… e sinceramente eu imaginava que nunca mais a voltaria a ver. Julian pousou uma mão no meu ombro e afastou-me, como se isso me fosse proteger da ameaça invisível que vinha acompanhada da presença da minha mãe.
— Você disse que foi avisada pelo meu pai? O que isso significa?!
— Significa, Julie, que eu mesma o avisei. Eu estava preocupada com a influência que essa garota doente estava tendo sobre você, amor. Ela precisa de ajuda de alguém mais competente.
Arregalei os olhos, a visão ficou turva e só percebi que fora Monique que falara quando a vi sair detrás de Jenkins e tirar os óculos escuros.
— O que você fez Monique… — sussurrou Julian.
A minha progenitora revirou os olhos, parecendo impaciente. – Ela fez o correto, garoto. Eu deveria saber que deixar Harley nos seus cuidados a iria tornar uma louca como você, James. Onze anos e a minha filha quase foi morta várias vezes, ficou vestindo-se como um garoto de cabelo colorido, pinchou o gabinete do diretor, foi expulsa do dormitório e estes são só os primeiros pontos da lista que o Senhor Grant e o diretor Jenkins enumeraram!
Encarei Monique pelo canto do olho. A garota me olhou de volta, deliciada com o meu pânico crescente.
— E para piorar, ela é uma doente mental! Você fez isso com ela, James!
Quando o meu pai não respondeu, saí do conforto que Julian me passava e encarei a mulher mais alta que eu. – Você não tem o direito de chegar chegando e falar o que quer. Onde estava quando eu quase morri ou quando eu precisei de um novo lugar para viver? Onde você estava todos esses anos…
Mordi o lábio. Isso é inacreditável.
A mulher de aparência tão semelhante à minha, aproximou-se e deslizou os seus dedos finos no meu rosto. Desviei-me do seu toque como se ele queimasse a minha pele. Eu só queria pegar em todo o mundo e desaparecer. – Eu estou aqui agora, minha filha. Eu vim por você, nós vamos sair desse lugar horrível e viver juntas como nos bons velhos tempos.
— Eu me recuso, obrigada. – rosnei, afastando-me e voltando para perto do meu pai. – Vamos embora, papai.
— Você não tem escolha, minha querida. Eu já decidi.
Revirei os olhos. Mulher doida. – Oh, sendo assim, pode enfiar essa sua decisão no meio do seu…
— Harley.
A mão de James Adams alcançou o meu ombro, pedindo-me silenciosamente que parasse de falar besteiras. Como assim parar?! Essa mulher está me insultados, nos insultando!
— Rosemary, você não pode fazer isso.
Isso pai, vai e arranca também os cabelos dela!
— Eu posso e eu vou, afinal eu ainda sou a responsável legal da Harley. Eu sei o melhor para a minha garota e nesse momento, o melhor é bem longe de um inútil como você, James.
Senti as minhas faces quentes. Se o meu pai continuasse calado e amedrontado, eu iria pular nessa mulher e fazer um estrago maior que o do cabelo de couve. Chad pegou a minha mão, já adivinhando o meu surto e o quanto caótico seria resolver depois.
Respira, Harley. Só mais um pouco e essa pessoa desaparece.
— Acho que você ainda não percebeu, “mamãe”, mas eu me recuso. Eu sou maior de idade, por isso a minha vontade prevalece. Agora pode voltar para o buraco negro de onde saiu e desaparecer como nos últimos anos. Não precisa dar notícias, pode apenas nos esquecer como se fossemos nada. Foi o que fez da última vez, não deve ser difícil fazer de novo.
Rosemary fechou os olhos, parecendo cansada. – Não gosto do seu tom, Harley. Parece que nem educação o seu pai conseguiu lhe dar… mas, mais tarde podemos trabalhar isso. Agora, seja uma boa garota e venha comigo sem resmungos. O nosso voo é em duas horas.
— Mas… mas… você não pode fazer isso, Rosemary!!! A Harley está recebendo tratamento, ela está melhorando… ela tem uma família aqui! Amigos! – falou papai, elevando a sua voz grave. James parecia cansado e mais velho que nunca.
— Por favor, vocês estão apenas me fazendo perder tempo. Eu só me interesso pela saúde e pelo bem-estar da minha filha, não se preocupe, Adams. Sinceramente, eu não queria usar isso a meu favor, mas como falei antes, eu sou a responsável da Harley e ela está doente. A sua maioridade é nula, sendo assim, eu decido o melhor para ela.
Revirei os olhos. – Para o inferno com tudo isso.
Rosemary abriu um sorriso cansado. – Tudo bem, vamos por desse jeito. Eu sou uma das advogadas mais respeitadas dos Estados Unidos e por muito que me custe, eu vou processar o seu pai por negligência entre outras coisas. Tenho provas concretas e pretendo usá-las se for necessário. Colocar o seu pai na prisão só para poder ficar junto do seu namoradinho maconheiro é realmente o que quer fazer? Você conseguiria viver desse jeito, filha?
Mordi o interior da boca com força até sentir o sabor de sangue. Eu não conhecia essa pessoa. Eu não sabia o que ela era capaz de fazer. À minha volta, vozes altas e pouco distintas juntaram-se para fazer coro aos meus pensamentos confusos. Eu gostaria de dizer que eu não iria ceder, que o mais acertado era ficar.
Mas quando ficar perto de mim era algo acertado?
Eu odiava concordar com essa mulher desconhecida e dar razão a Monique, mas eu sou uma pessoa doente. Uma bomba relógio pronta a explodir a qualquer segundo. E se eu explodir mesmo? Em quem eu vou acertar? Quem mais eu vou magoar?
Eu prometi ajudar Nolan, mas nem a mim mesma consigo ajudar. Eu estou cansada de viver a partir da pena das pessoas, estou cansada de que o meu nome seja sinônimo de problemas. Estou cansada de ferir essas pessoas maravilhosas. Eu os amo de coração, por isso, talvez o melhor seja mesmo partir.
Talvez o melhor seja desaparecer.
— Posso primeiro me despedir de uma pessoa muito importante?
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