Cocaine
41 Inspira, expira e não pira.
Notas iniciais
Eu prometi ajudar Nolan, mas nem a mim mesma consigo ajudar. Eu estou cansada de viver a partir da pena das pessoas, estou cansada de que o meu nome seja sinônimo de problemas. Estou cansada de ferir essas pessoas maravilhosas. Eu os amo de coração, por isso, talvez o melhor seja mesmo partir.
Talvez o melhor seja desaparecer.
— Posso primeiro me despedir de uma pessoa muito importante?
[…]
— Senhorita, por favor coloque o cinto. O avião está prestes a decolar e o uso do cinto é necessário para garantir a sua segurança. – levantei o rosto para a aeromoça. O seu sorriso simpático estremeceu e tornou-se condescendente. Aposto que o meu rosto está mostrando o quanto eu estou morrendo por dentro. – A senhorita precisa de alguma coisa? Uma água com açúcar? Talvez um suco de laranja?
Talvez uma tequila.
Obriguei os meus lábios a formarem um sorriso falso. Talvez o mais falso que dei na vida. Pousei uma mão no meu rosto. A minha face ainda está úmida de lágrimas e os meus olhos doem como se alguém tivesse dado um soco neles. Eu preferia que esse fosse o caso.
Como não respondi, a megera sentada do meu lado fez questão de responder por mim. – Sim, talvez seja melhor. E um whisky para mim, por favor.
A aeromoça acenou e saiu de perto de nós. Do meu lado, Rosemary desligava todos os aparelhos eletrônicos possíveis e imaginários no mundo. Acho que ser uma advogada famosa deve ser complicado só por exigir todo esse armamento letal.
Eu sei que é um pensamento imaturo e infantil, mas o que eu mais queria nesse momento, era que todos esses negócios explodissem na cara dela.
Não demorou muito até as nossas bebidas chegarem. Rosemary pegou a sua como se a sua vida dependesse disso e quase que bebeu o líquido dourado de uma vez só. Peguei o copo de suco decorado com uma sombrinha pequenina e sorri novamente para a aeromoça.
— Ah, é que ela acabou de sair da clínica de reabilitação de alcoolismo e é o primeiro whisky que vê em meses. – murmurei, recebendo um olhar assustado em troca.
— Harley!
— Temos que compreender, você também beberia desse jeito se soubesse que quando morrer vai parar no inferno, não é mesmo?
Rosemary afastou o copo de whisky e gelo dos seus lábios e o devolveu a aeromoça que desapareceu mais rápido que um míssil. – Cuidado com o que fala, mocinha, eu sou sua mãe.
— Não. Você me pariu, é muito diferente.
— Harley Rosemary Spencer Adams!
As minhas mãos tremeram e se eu não tivesse pousado o copo, provavelmente ele estaria quebrado em mil pedacinhos no chão desse avião. – O nome é Harley Rosemary Adams. E acredite, eu só mantive o Rosemary porque o meu pai pediu muito.
— Oh, agora você só está sendo indelicada, filha.
Filha. Ah, isso só pode ser uma piada. Os meus olhos e nariz arderam, sinal de que eu iria chorar novamente. Mas eu não iria dar-me ao luxo de chorar na frente dessa pessoa.
— Indelicada?! Indelicadeza é não pedir desculpa quando tomba em alguém, indelicado é quando esquecemos o aniversário de uma pessoa amiga, ou, mesmo quando não damos o lugar no ônibus para aquela mulher muito grávida e já com 5 crianças a rodeando. Isso sim é indelicado, Rosemary. Por mim, pode enfiar essa sua tentativa de ser uma “mãe preocupada” no…
— Essa birra ainda é sobre o garoto da prisão? Harley, querida, você tem 20 anos. Já está no momento de crescer e aprender que nem tudo é do jeito que queremos.
Senti o chão nos meus pés tremer e o avião começar a mover-se. Nos altifalantes, o piloto do avião desejava uma boa viagem a todos os passageiros. – Rosemary, “querida”, a minha vida foi feita de “nãos” e de coisas acontecendo de um jeito diferente ao que eu queria, então pode parar com o discurso extremamente adulto e sábio.
— Infernos Harley, é só um garoto! E ainda para mais, um muito perigoso! Ele tentou matar você, não uma, mas duas vezes! O que diabos tem de errado com o seu pai para permitir que você visitasse esse assassino?!
Suspirei. O avião começou a levantar, fazendo-me colar no banco. A minha bebida foi parar no chão e pelo canto do olho, vi uma das aeromoças mais velhas arregalar os olhos e lançar um olhar zangado para a aeromoça que nos havia trazido as bebidas.
Pelos lábios dela pude ler algo como “você não pode dar bebidas para os passageiros antes do avião levantar voo”, ao que a aeromoça mais nova respondeu algo como, “mas a garota parecia nervosa”.
Quase tive pena dela. Mas quando estamos numa situação de rapto (in)voluntário, é impossível ter pena de outras pessoas além de você mesma.
— Eu só te pedi para vê-lo uma última vez, para explicar porque estava indo embora… e o meu pai só fez o que achou melhor para mim, então nem tente cuspir o seu veneno para cima dele como se você fosse a mãe do ano. Você não faria melhor.
Rosemary encarou os vidros do meu copo, estraçalhados no chão, e não respondeu. Assumi que, dessa vez, ela havia decidido me ignorar, mas assim que o avião estabilizou e alcançámos a altitude de voo adequada para as aeromoças circularem, Rosemary voltou a endireitar-se no seu lugar. – Eu fui condescendente e autorizei você a deixar um bilhete para esse Nolan.
Abanei a cabeça. Inacreditável.
— Igual ao que você deixou quando desapareceu há dez anos atrás? Realmente, esse bilhete resolveu tudo! Você só pode estar brincando com a minha cara!
— Harley, estou cansada. Tenho um caso muito complicado em mãos e a última coisa que preciso é de uma pirralha me stressando.
Essa vai ser uma longa, longa viagem.
[…]
Eu não soube em que hora adormeci, mas acho que finalmente Hades teve um momento de compaixão pela minha pessoa e deu-me alguns momentos de tranquilidade. Que, infelizmente, não demoraram muito pois logo algum ser do demônio decidiu me acordar ou melhor, achocalhar. Abri os olhos, sobressaltada e querendo arranhar o babaca que estava arrancando a minha alma para fora, quando a minha mão atingiu os óculos Gucci de Rosemary.
Como num filme em câmara lenta, os óculos voaram da sua cabeça e aterraram no chão. Para minha satisfação e horror de Rosemary, uma criança apanhou os óculos jogados no chão e encaixou-os no topo da sua cabeça. A mulher arregalou os olhos, preparando-se para arrancar os óculos da garotinha. Parei-a, segurando o seu pulso com firmeza.
Vendo o achado da garota, a mãe dessa criança preparou-se para devolver, mas eu fui mais rápida e abanei a cabeça. – Não, por favor, pode ficar. São uma imitação barata mesmo.
A senhora abriu um sorriso simpático, agradeceu e afastou-se com a criança. Rosemary encarou-me de braços cruzados.
— Harley, você tem a noção do valor desses óculos?! São Gucci de edição especial! Eu ralei para os conseguir e você os joga nas mãos de uma criança desnutrida?!
Revirei os olhos. – O que foi, “mamãe”? Está com medo que o sol queime seus olhos? Não se preocupe. O diabo não arde nem no fogo do inferno.
[…]
— É um prazer conhecê-la, Harley. A sua mãe me falou imensas coisas sobre você. – sentada do meu lado, Rosemary fingiu embaraço. Ignorei-a. Se ela quer continuar fazendo esse joguinho de mãe perfeita, que seja. Eu não vou falar mais nada.
Eu desisto.
Eu não posso voltar para casa mesmo.
— Ah certo. – respondi apenas. O homem na minha frente abriu um sorriso simpático.
— Aposto que você está cansada da viagem e que quer descansar ou quem sabe, sair e aproveitar a noite Nova Yorkina. Eu vou ser breve, senhorita. – acenei devagar. A minha mente assemelha-se um lençol branco e eu não consigo imaginar porque diabos estou sentada nesse escritório, conversando com esse reitor como se fossemos amigos de longa data.
Ele é diferente de Jenkins, mais novo, mais sorridente e sem aquelas veias características que dançavam na sua testa quando eu o irritava. O homem imitou o meu aceno e continuou. – Normalmente nós não fazemos esse tipo de exceção a meio do ano, mas Rosemary expressou que esse era o seu sonho e que este passado ano foi muito difícil para você… Além disso, é uma honra aceitar na nossa instituição uma aluna tão brilhante como você!
— Obrigada, eu acho. – murmurei, sendo imediatamente acotovelada por Rosemary. – Eu provavelmente não vou conseguir dormir essa noite de tanta empolgação.
O reitor semicerrou os olhos por cinco segundos, mas logo voltou ao seu semblante normal. – Bom, você perdeu o primeiro semestre, mas isso não será um problema, eu aposto. Essas são todas as informações que você precisa saber sobre o campus, a universidade e o seu curso. Sem mais delongas, seja bem-vinda à Faculdade de Direito da Universidade de Nova York!
O diretor estendeu-me a mão e a apertei num gesto automático. A minha cabeça já não estava em branco. Não mais. Como eu não reparei nesse lugar?! O que diabos eu estou fazendo com a minha vida?!
O homem fez questão de nos acompanhar até a saída, por isso não explodi no momento. Apenas tentei respirar devagar, até ele finalmente nos deixar na saída de um campus mais modernizado que o de East River.
— Direito?! Você me transferiu para direito?! O que você tem na cabeça, Rosemary? – murmurei, em tom baixo, para não atrair a atenção de curiosos. – Eu sei que na sua mente deturpada, você quer me tornar igual a essa pessoa maravilhosa que você acha que é. Mas, veja, não é uma boa ideia… Isso só me vai ensinar a processá-la de todas as maneiras possíveis e imaginárias.
— Você é adorável, querida. – Rosemary respondeu, sem levantar os olhos do celular. – Agora, para de fazer de tudo um drama e, vamos. O motorista está nos esperando.
— Por mim, o motorista pode se lançar no Rio Hudson que eu não estou nem aí. – resmunguei. – Faz um favor para a humanidade e se joga também.
— Sim, claro, filha, que seja. – disse, ignorando-me novamente. Só me bastou segui-la. Pelo canto do olho, observei Rosemary dividir a sua atenção entre dois celulares. Outra vez.
Não é como se eu quisesse realmente conversar com ela, mas era frustrante. Conviver com essa pessoa era frustrante. Imaginar-me crescendo perto dela, ainda mais. Que tipo de humano eu me tornaria se Rosemary tivesse me educado? Quase que tremo só de pensar.
A viagem foi horrorosa. O motorista falou um “bom-dia” desanimado e não se atreveu a falar fosse o que fosse ou me olhar nos olhos, enquanto que Rosemary encharcou-se, mais uma vez, de whisky. Eu acho que nunca falei isso na vida, mas eu estava me sentindo sozinha. Não é esse tipo de solidão em que seus amigos estão ocupados e você não tem com quem assistir um filme. Não é esse tipo de solidão em que você está numa festa onde não conhece ninguém… Eu me sentia sozinha no mundo. Nova York é a cidade mais populosa dos Estados Unidos e mesmo assim, eu me sentia tão só. Tão pequenina e insignificante.
Felizmente não encontrámos muito trânsito. Esse carro estava se tornando sufocante e eu só queria chegar no apartamento incomodamente espaçoso de Rosemary e aterrizar numa cama.
Quem nos recebeu foi Nadine, a governanta simpática que tinha desaparecido com a minha mala assim que chegámos. Eu ia subir para o meu quarto – o terceiro esquerdo no fundo do corredor do andar de cima – quando avistei um telefone.
Talvez fosse boa ideia ligar para papai, ele gostaria de saber que eu ainda estava viva.
Mas foi por pouco tempo que tive o aparelho nas mãos. Rosemary, mais rápida que a luz, arrancou-mo como se eu estivesse cometendo um crime.
— Para você, é extremamente proibido entrar em contacto seja com quem for. Não tem essa de James, Noah, Chad ou o que for! Nada de emails, telefonemas, mensagens, cartas, telegramas ou sinais de fumo. East River não existe mais no seu mapa, habitue-se.
Abri a boca para responder, mas tudo o que saiu foi: — O nome dele é Nolan.
Rosemary revirou os olhos e apontou um dedo para Nadine. – E você atreva-se a ajudá-la nos seus caprichos! Se eu sei que a Harley falou com alguém, haverá consequências.
Os seus olhos azuis, tão parecidos com os meus, viraram-se de novo para mim. – Pense bem antes de tentar algo de novo, ou então na próxima vez, seu pai estará fazendo companhia para o seu amiguinho assassino. Compreendeu?
Mordi o interior da boca com força, sentindo logo depois, o sabor de sangue tocar a minha língua. – Eu compreendo.
Nadine baixou a cabeça e respondeu um “Sim, senhora” rápido.
— Boas garotas!
Satisfeita, Rosemary saiu de perto de mim, balançando um dos seus celulares antes de o atender com uma alegria jovial nojenta.
Fez-se um minuto de silêncio pelo meu coração que quebrou ali mesmo.
— Eu lamento imenso, menina. – ouvi a voz de Nadine dizer e logo a sua mão afagou o meu cabelo. – Eu sei que é difícil, mas não chore, por favor.
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