Cocaine

41 Inspira, expira e não pira.


Notas iniciais
Alô gente linda desse universo! É, eu sei... A mesma história de sempre. Em minha defesa, é meio difícil conciliar trabalho, faculdade e muitos outros projetos em que estou envolvida. It's bananas!! De qualquer jeito, Cocaine está terminando e eu estou dando um jeito de conseguir fazer mil coisas ao mesmo tempo yay! Vida social, para quê?! Desisti, já. Enfim, espero que gostem e nos vemos nos comentários? Talvez? Uma forcinha para mim que não sei ser adulta?

Eu prometi ajudar Nolan, mas nem a mim mesma consigo ajudar. Eu estou cansada de viver a partir da pena das pessoas, estou cansada de que o meu nome seja sinônimo de problemas. Estou cansada de ferir essas pessoas maravilhosas. Eu os amo de coração, por isso, talvez o melhor seja mesmo partir.

Talvez o melhor seja desaparecer.

— Posso primeiro me despedir de uma pessoa muito importante?

[…]

— Senhorita, por favor coloque o cinto. O avião está prestes a decolar e o uso do cinto é necessário para garantir a sua segurança. – levantei o rosto para a aeromoça. O seu sorriso simpático estremeceu e tornou-se condescendente. Aposto que o meu rosto está mostrando o quanto eu estou morrendo por dentro. – A senhorita precisa de alguma coisa? Uma água com açúcar? Talvez um suco de laranja?

Talvez uma tequila.

Obriguei os meus lábios a formarem um sorriso falso. Talvez o mais falso que dei na vida. Pousei uma mão no meu rosto. A minha face ainda está úmida de lágrimas e os meus olhos doem como se alguém tivesse dado um soco neles. Eu preferia que esse fosse o caso.

Como não respondi, a megera sentada do meu lado fez questão de responder por mim. – Sim, talvez seja melhor. E um whisky para mim, por favor.

A aeromoça acenou e saiu de perto de nós. Do meu lado, Rosemary desligava todos os aparelhos eletrônicos possíveis e imaginários no mundo. Acho que ser uma advogada famosa deve ser complicado só por exigir todo esse armamento letal.

Eu sei que é um pensamento imaturo e infantil, mas o que eu mais queria nesse momento, era que todos esses negócios explodissem na cara dela.

Não demorou muito até as nossas bebidas chegarem. Rosemary pegou a sua como se a sua vida dependesse disso e quase que bebeu o líquido dourado de uma vez só. Peguei o copo de suco decorado com uma sombrinha pequenina e sorri novamente para a aeromoça.

— Ah, é que ela acabou de sair da clínica de reabilitação de alcoolismo e é o primeiro whisky que vê em meses. – murmurei, recebendo um olhar assustado em troca.

— Harley!

— Temos que compreender, você também beberia desse jeito se soubesse que quando morrer vai parar no inferno, não é mesmo?

Rosemary afastou o copo de whisky e gelo dos seus lábios e o devolveu a aeromoça que desapareceu mais rápido que um míssil. – Cuidado com o que fala, mocinha, eu sou sua mãe.

— Não. Você me pariu, é muito diferente.

— Harley Rosemary Spencer Adams!

As minhas mãos tremeram e se eu não tivesse pousado o copo, provavelmente ele estaria quebrado em mil pedacinhos no chão desse avião. – O nome é Harley Rosemary Adams. E acredite, eu só mantive o Rosemary porque o meu pai pediu muito.

— Oh, agora você só está sendo indelicada, filha.

Filha. Ah, isso só pode ser uma piada. Os meus olhos e nariz arderam, sinal de que eu iria chorar novamente. Mas eu não iria dar-me ao luxo de chorar na frente dessa pessoa.

— Indelicada?! Indelicadeza é não pedir desculpa quando tomba em alguém, indelicado é quando esquecemos o aniversário de uma pessoa amiga, ou, mesmo quando não damos o lugar no ônibus para aquela mulher muito grávida e já com 5 crianças a rodeando. Isso sim é indelicado, Rosemary. Por mim, pode enfiar essa sua tentativa de ser uma “mãe preocupada” no…

— Essa birra ainda é sobre o garoto da prisão? Harley, querida, você tem 20 anos. Já está no momento de crescer e aprender que nem tudo é do jeito que queremos.

Senti o chão nos meus pés tremer e o avião começar a mover-se. Nos altifalantes, o piloto do avião desejava uma boa viagem a todos os passageiros. – Rosemary, “querida”, a minha vida foi feita de “nãos” e de coisas acontecendo de um jeito diferente ao que eu queria, então pode parar com o discurso extremamente adulto e sábio.

— Infernos Harley, é só um garoto! E ainda para mais, um muito perigoso! Ele tentou matar você, não uma, mas duas vezes! O que diabos tem de errado com o seu pai para permitir que você visitasse esse assassino?!

Suspirei. O avião começou a levantar, fazendo-me colar no banco. A minha bebida foi parar no chão e pelo canto do olho, vi uma das aeromoças mais velhas arregalar os olhos e lançar um olhar zangado para a aeromoça que nos havia trazido as bebidas.

Pelos lábios dela pude ler algo como “você não pode dar bebidas para os passageiros antes do avião levantar voo”, ao que a aeromoça mais nova respondeu algo como, “mas a garota parecia nervosa”.

Quase tive pena dela. Mas quando estamos numa situação de rapto (in)voluntário, é impossível ter pena de outras pessoas além de você mesma.

— Eu só te pedi para vê-lo uma última vez, para explicar porque estava indo embora… e o meu pai só fez o que achou melhor para mim, então nem tente cuspir o seu veneno para cima dele como se você fosse a mãe do ano. Você não faria melhor.

Rosemary encarou os vidros do meu copo, estraçalhados no chão, e não respondeu. Assumi que, dessa vez, ela havia decidido me ignorar, mas assim que o avião estabilizou e alcançámos a altitude de voo adequada para as aeromoças circularem, Rosemary voltou a endireitar-se no seu lugar. – Eu fui condescendente e autorizei você a deixar um bilhete para esse Nolan.

Abanei a cabeça. Inacreditável.

— Igual ao que você deixou quando desapareceu há dez anos atrás? Realmente, esse bilhete resolveu tudo! Você só pode estar brincando com a minha cara!

— Harley, estou cansada. Tenho um caso muito complicado em mãos e a última coisa que preciso é de uma pirralha me stressando.

Essa vai ser uma longa, longa viagem.

[…]

Eu não soube em que hora adormeci, mas acho que finalmente Hades teve um momento de compaixão pela minha pessoa e deu-me alguns momentos de tranquilidade. Que, infelizmente, não demoraram muito pois logo algum ser do demônio decidiu me acordar ou melhor, achocalhar. Abri os olhos, sobressaltada e querendo arranhar o babaca que estava arrancando a minha alma para fora, quando a minha mão atingiu os óculos Gucci de Rosemary.

Como num filme em câmara lenta, os óculos voaram da sua cabeça e aterraram no chão. Para minha satisfação e horror de Rosemary, uma criança apanhou os óculos jogados no chão e encaixou-os no topo da sua cabeça. A mulher arregalou os olhos, preparando-se para arrancar os óculos da garotinha. Parei-a, segurando o seu pulso com firmeza.

Vendo o achado da garota, a mãe dessa criança preparou-se para devolver, mas eu fui mais rápida e abanei a cabeça. – Não, por favor, pode ficar. São uma imitação barata mesmo.

A senhora abriu um sorriso simpático, agradeceu e afastou-se com a criança. Rosemary encarou-me de braços cruzados.

— Harley, você tem a noção do valor desses óculos?! São Gucci de edição especial! Eu ralei para os conseguir e você os joga nas mãos de uma criança desnutrida?!

Revirei os olhos. – O que foi, “mamãe”? Está com medo que o sol queime seus olhos? Não se preocupe. O diabo não arde nem no fogo do inferno.

[…]

— É um prazer conhecê-la, Harley. A sua mãe me falou imensas coisas sobre você. – sentada do meu lado, Rosemary fingiu embaraço. Ignorei-a. Se ela quer continuar fazendo esse joguinho de mãe perfeita, que seja. Eu não vou falar mais nada.

Eu desisto.

Eu não posso voltar para casa mesmo.

— Ah certo. – respondi apenas. O homem na minha frente abriu um sorriso simpático.

— Aposto que você está cansada da viagem e que quer descansar ou quem sabe, sair e aproveitar a noite Nova Yorkina. Eu vou ser breve, senhorita. – acenei devagar. A minha mente assemelha-se um lençol branco e eu não consigo imaginar porque diabos estou sentada nesse escritório, conversando com esse reitor como se fossemos amigos de longa data.

Ele é diferente de Jenkins, mais novo, mais sorridente e sem aquelas veias características que dançavam na sua testa quando eu o irritava. O homem imitou o meu aceno e continuou. – Normalmente nós não fazemos esse tipo de exceção a meio do ano, mas Rosemary expressou que esse era o seu sonho e que este passado ano foi muito difícil para você… Além disso, é uma honra aceitar na nossa instituição uma aluna tão brilhante como você!

— Obrigada, eu acho. – murmurei, sendo imediatamente acotovelada por Rosemary. – Eu provavelmente não vou conseguir dormir essa noite de tanta empolgação.

O reitor semicerrou os olhos por cinco segundos, mas logo voltou ao seu semblante normal. – Bom, você perdeu o primeiro semestre, mas isso não será um problema, eu aposto. Essas são todas as informações que você precisa saber sobre o campus, a universidade e o seu curso. Sem mais delongas, seja bem-vinda à Faculdade de Direito da Universidade de Nova York!

O diretor estendeu-me a mão e a apertei num gesto automático. A minha cabeça já não estava em branco. Não mais. Como eu não reparei nesse lugar?! O que diabos eu estou fazendo com a minha vida?!

O homem fez questão de nos acompanhar até a saída, por isso não explodi no momento. Apenas tentei respirar devagar, até ele finalmente nos deixar na saída de um campus mais modernizado que o de East River.

— Direito?! Você me transferiu para direito?! O que você tem na cabeça, Rosemary? – murmurei, em tom baixo, para não atrair a atenção de curiosos. – Eu sei que na sua mente deturpada, você quer me tornar igual a essa pessoa maravilhosa que você acha que é. Mas, veja, não é uma boa ideia… Isso só me vai ensinar a processá-la de todas as maneiras possíveis e imaginárias.

— Você é adorável, querida. – Rosemary respondeu, sem levantar os olhos do celular. – Agora, para de fazer de tudo um drama e, vamos. O motorista está nos esperando.

— Por mim, o motorista pode se lançar no Rio Hudson que eu não estou nem aí. – resmunguei. – Faz um favor para a humanidade e se joga também.

— Sim, claro, filha, que seja. – disse, ignorando-me novamente. Só me bastou segui-la. Pelo canto do olho, observei Rosemary dividir a sua atenção entre dois celulares. Outra vez.

Não é como se eu quisesse realmente conversar com ela, mas era frustrante. Conviver com essa pessoa era frustrante. Imaginar-me crescendo perto dela, ainda mais. Que tipo de humano eu me tornaria se Rosemary tivesse me educado? Quase que tremo só de pensar.

A viagem foi horrorosa. O motorista falou um “bom-dia” desanimado e não se atreveu a falar fosse o que fosse ou me olhar nos olhos, enquanto que Rosemary encharcou-se, mais uma vez, de whisky. Eu acho que nunca falei isso na vida, mas eu estava me sentindo sozinha. Não é esse tipo de solidão em que seus amigos estão ocupados e você não tem com quem assistir um filme. Não é esse tipo de solidão em que você está numa festa onde não conhece ninguém… Eu me sentia sozinha no mundo. Nova York é a cidade mais populosa dos Estados Unidos e mesmo assim, eu me sentia tão só. Tão pequenina e insignificante.

Felizmente não encontrámos muito trânsito. Esse carro estava se tornando sufocante e eu só queria chegar no apartamento incomodamente espaçoso de Rosemary e aterrizar numa cama.

Quem nos recebeu foi Nadine, a governanta simpática que tinha desaparecido com a minha mala assim que chegámos. Eu ia subir para o meu quarto – o terceiro esquerdo no fundo do corredor do andar de cima – quando avistei um telefone.

Talvez fosse boa ideia ligar para papai, ele gostaria de saber que eu ainda estava viva.

Mas foi por pouco tempo que tive o aparelho nas mãos. Rosemary, mais rápida que a luz, arrancou-mo como se eu estivesse cometendo um crime.

— Para você, é extremamente proibido entrar em contacto seja com quem for. Não tem essa de James, Noah, Chad ou o que for! Nada de emails, telefonemas, mensagens, cartas, telegramas ou sinais de fumo. East River não existe mais no seu mapa, habitue-se.

Abri a boca para responder, mas tudo o que saiu foi: — O nome dele é Nolan.

Rosemary revirou os olhos e apontou um dedo para Nadine. – E você atreva-se a ajudá-la nos seus caprichos! Se eu sei que a Harley falou com alguém, haverá consequências.

Os seus olhos azuis, tão parecidos com os meus, viraram-se de novo para mim. – Pense bem antes de tentar algo de novo, ou então na próxima vez, seu pai estará fazendo companhia para o seu amiguinho assassino. Compreendeu?

Mordi o interior da boca com força, sentindo logo depois, o sabor de sangue tocar a minha língua. – Eu compreendo.

Nadine baixou a cabeça e respondeu um “Sim, senhora” rápido.

— Boas garotas!

Satisfeita, Rosemary saiu de perto de mim, balançando um dos seus celulares antes de o atender com uma alegria jovial nojenta.

Fez-se um minuto de silêncio pelo meu coração que quebrou ali mesmo.

— Eu lamento imenso, menina. – ouvi a voz de Nadine dizer e logo a sua mão afagou o meu cabelo. – Eu sei que é difícil, mas não chore, por favor.

Notas finais
Obrigada a todas as mensagens e a todo o mundo que veio me procurar tentando saber se eu estava viva! Estou sim, morta por dentro, mas o corpo ainda mexe.