Cocaine
42 Dançando com os inimigos
Notas iniciais
Fez-se um minuto de silêncio pelo meu coração que quebrou ali mesmo.
— Eu lamento imenso, menina. – ouvi a voz de Nadine dizer e logo a sua mão afagou o meu cabelo. – Eu sei que é difícil, mas não chore, por favor.
[…]
— Tem tudo o que precisa com você? – bocejei, abrindo a boca com vontade. Se Nadine e Rosemary não viram meu esófago, foi porque não quiseram.
Um ano. Um ano vivendo essa vida madrasta.
Um ano de aulas desinteressantes, um ano de ofensas constantes. Eu, que não acredito na probabilidade da existência de uma entidade divina, rezava todos os dias. Oh, se eu rezava por um milagre.
— Se está se referindo ao meu desprezo por você e à minha enorme desmotivação pela escola de direito, sim tenho tudo comigo.
Rosemary, a minha progenitora do inferno, revirou os olhos, bebendo o seu habitual suco de laranja com o café da manhã. Pelo canto do olho, vi Nadine esconder um sorriso debochado. Pelo menos alguém nessa casa entende o meu sentido de humor negro.
— Essa sua falta de educação é um charme.
Toda eu sou um charme.
Um dos celulares de Rosemary vibrou anunciando a chegada do motorista. Acho que eu nunca me iria habituar a essas coisas. Nadine fazendo tudo, como se fosse a escrava dessa casa. E Karl, o motorista mal-humorado. O que era, em si, bastante compreensível. Afinal, quem consegue sorrir na presença de Rosemary.
Descemos o prédio pelo elevador – este sem avaria – e entrámos no carro. Ela sem dizer uma palavra. Eu murmurando um bom-dia, que mais pareceu um pedido de socorro. A primeira paragem sempre me pertencia. E eu sempre saia do carro, apenas dando tchau para Karl. Por mim, Rosemary poderia arder no inferno que eu não estava nem aí.
O dia estava horrendo. Chuvoso. Diferente de East River, Nova York era úmida e fria. Eu odiava esse tempo, essa cidade. Arrepiava-me o cabelo, agora novamente roxeado. Logo na primeira semana, voltei a pintar. Um pouco para mostrar que Rosemary poderia fazer o que quisesse comigo, mas que, mesmo assim, eu seria sempre a mesma Harley.
Eu não queria mais mudar. Não queria mais ser adulta.
— Não esqueça a sua consulta das cinco, com o Dr. Spineli. – não queria mais ir nesse negócio de psicólogo.
Ignorei Rosemary e afastei-me do carro, entrando no campus. Como sempre eu me sentia perdida. Não tinha nem ideia onde era a minha primeira aula.
A vida é engraçada, sabe. Por vezes, pensamos coisas do nada. Pedimos um milagre e eis que Hades, brinca com a nossa cara, e nos dá o milagre mais incompreensível e desajustado de sempre.
Coloquei o meu fiel capuz, que Rosemary odiava, e escondi as mechas roxas que mais do que nunca se mostravam teimosas. No processo, o meu cotovelo voou diretamente em algo duro e ruidoso.
Era só isso que me faltava. – Desculpe, eu não vi você.
— Adams? – endireitei as costas, sentindo um arrepio estranho na minha nuca. Na minha frente, um rostinho de porcelana familiar, encarava-me incrédulo. – Nem aqui eu consigo distância de você?!
Revirei os olhos. Dramática como sempre. – Não é como se eu estivesse feliz por vê-la, também.
Jane Morgan, ainda chocada com a minha ilustre presença, cruzou os braços na frente dos seios. – O que, você, está fazendo aqui?
— Pagando meus pecados. E você, não deveria estar numa escola rica europeia, fazendo coisas de europeu?
A minha antiga arqui-inimiga estreitou os olhos, como só ela conseguia fazer, ofendida com a minha pergunta. – Sabe, Adams, nem sempre a gente consegue o que quer.
— A quem você o diz. – sem paciência para guerras fúteis e sem sentido, encolhi os ombros e ofereci-lhe a visão das minhas belas costas. De nada, Jane Morgan.
— Harley, espera.
Eu me sentia cansada, mas mesmo assim, voltei a olhar para a sua cara. O que será que essa capivara queria agora?
— Você já tomou café?
[…]
Quem diria. Eu e Jane Morgan. Sentadas, frente a frente. Cada uma intata, com os cabelos todos. Eu chamo isso, meus amigos, de progresso.
— Obrigada, pela companhia.
Arregalei os olhos. Quem é essa pessoa? Obrigada?! Jane, o que aconteceu de tão ruim com você, que a fez tornar-se uma pessoa minimamente simpática?!
Como não respondi nada, Jane continuou tentando iniciar uma conversa. – É engraçado isso, não é mesmo? A gente aqui. Juntas. Sem sangue derramado.
Suspirei. – O que você quer, Jane… eu estou sem paciência. Quer me xingar, xinga logo. Tem alguma vingança tola contra mim? Vai com tudo.
— Wow. O que aconteceu com você?
Nem eu sei mais. Não importa a quantidade de café que eu tomasse, eu sempre estava sem energia. Morta. Por dentro, por fora. Eu nunca me senti tão angustiada na vida. Triste. Sem saber se o meu pai está bem, Lauren… a essa hora, Lauren já “desengravidou” na vida. A essa hora, eu já teria outro irmãozinho chato. Provavelmente ele seria parecido com Chad, com cachos fofos e rostinho de cachorro pidão.
Talvez eu devesse adotar um cachorro.
— Eu vim morar com a minha mãe. Seguir os passos dela na escola de direito. Você sabe, viver o sonho americano. – falar isso me deu náuseas.
Jane bebericou o seu café, oferecendo-me um sorriso torto. – Você não parece estar vivendo o sonho americano. Não parece, sequer, que está vivendo. Onde está a mesma Harley chata que pegou fogo no meu cabelo?
— Isso foi um acidente, Morgan, eu juro.
— Eu sei.
Pisquei duas vezes, confusa com a sua expressão toda amigável. – Você sabe? E mesmo assim, você fez com que eu fosse expulsa várias vezes do dormitório, sabendo que tudo foi um acidente?!
— Eu estava aborrecida!
Abri a boca, incapaz de processar a ideia. – Coitada, você estava aborrecida! E eu quase fiquei sem teto para viver! Enlouqueceu?!
— Relaxa, eu sabia que você iria se virar. – um sorriso de dentes brancos apareceu no rosto de Jane. – Aliás, você deveria me agradecer. Se não fosse eu, a essa hora você não estaria amarrada no Julian Grant. O cara mais gostoso de medicina.
A minha expressão passou de incrédula e levemente divertida, para morta novamente. Quando foi a última vez que ouvi esse nome?
Acho que no fundo me magoa, saber que, Julian não tentou falar comigo uma vez que seja, durante todo esse ano.
Eu compreendo a minha família. Era uma das proibições no contrato de Rosemary. Eu entendo Jade, com todo o seu lance de vingadora. Se minha mãe descobrisse, acabaria com tudo. Eu entendo Nolan, porque… óbvio.
Só não entendo, porque Julian não tentou… uma única vez. Um telefonema. Um sinal de fumo. Eu sei lá.
Jane mexeu-se desconfortável na sua cadeira, atraindo novamente a minha atenção. – Vocês terminaram?
Encarei essa garota que sempre foi uma pessoa horrível para mim, mas que nesse momento, parecia o milagre que eu tanto pedi a Hades. Baixei o capuz, como se baixasse essa minha parede de vulnerabilidades, e contei-lhe.
Tudo.
Nesse dia, pela primeira vez em um ano, matei aula. E, odeio admitir, mas depois de desabafar com Jane, esses livros pesados cheios de leis chatas, pareciam-me mais leves.
[…]
— Pode me explicar onde você esteve, durante toda a manhã de hoje? – perguntou Rosemary, assim que pus um pé dentro do seu apartamento. Eu não sabia a hora, mas já havia escurecido. Dessa vez, a consulta havia se prolongado, porque o Dr. Spineli queria praticar em mim, uma nova técnica qualquer de sei-lá-o-quê. Sinceramente, queria responder com uma das minhas repostas sarcásticas, mas nem vontade para isso tinha.
Só queria uma cama. Só queria hibernar durante dez anos.
— Mocinha, eu estou falando com você. Debaixo do meu teto, você me responde e obedece minhas ordens! Uma Spencer, sangue do meu sangue, matando aula?! Que vergonha, o que as pessoas vão pensar!
O drama e o horror.
Revirei os olhos e pousei o conjunto de livros – que mais pareciam pedras – no chão. Nadine, querida como sempre, pegou cada um e colocou-os bem longe da minha vista.
— Contrariamente ao que você acredita, Rosemary, ninguém se importa.
A minha ideia era acabar essa conversa nesses termos, e arrastar-me até ao andar superior, para cair na primeira cama que encontrasse. Mas, Rosemary tinha uma ideia diferente. Com uma força meio anormal, a mulher agarrou meu antebraço, apertando-o sem gentileza alguma.
— Ouça aqui, Harley, estou cansada desse seu teatrinho de rebeldia. – engoli em seco. Os seus olhos haviam mudado, já não eram tão parecidos aos meus. Estavam estranhos, maldosos. Senti um arrepio de medo correr-me os ossos. – Cada passo que você dê, cada palavra que você diga, eu saberei. Tudo. Eu tenho olhos em todo o lado. Te observando e se certificando de que você cumpre as minhas regras.
— Você está me machucando, Rose… — arfei, quando o seu aperto se tornou mais forte. Empurrei-a com força, mas a bruxa do Oeste não se mexeu um milímetro.
— E posso machucar muito mais, querida. Ninguém passa por cima de mim. Nem você, nem essa sua amiguinha nova.
Só quando cravei as minhas unhas na sua pele, é que a sua mão soltou o meu antebraço.
— Espero que estejamos esclarecidas, minha filha.
Encarei-a incrédula.
Minha filha, é o caralho.
Como se nada tivesse acontecido, Rosemary saiu, chocando o seu salto agulha contra o pavimento caro do apartamento. Nadine foi a primeira a ter qualquer tipo de reação.
— Senhorita Harley… — quando não respondi, Nadine mordeu o lábio e colocou as suas mãos no lugar onde antes as mãos de Rosemary estiveram. A diferença era que as suas mãos, eram calorosas, sem qualquer intenção de me machucar. – Mostre-me o seu braço, por favor.
Engoli em seco, deslizando o casaco pelo meu corpo, até este cair inerte no chão. Eu não quis olhar, porque ainda tudo me parecia meio inacreditável. Esse abuso, essa dupla personalidade controladora e ameaçadora… pela primeira vez, eu estava com medo de Rosemary. Medo esse que fazia o meu corpo tremer. A governanta abanou a cabeça.
— Está um pouco feio.
O meu olhar seguiu o seu, pousando no meu antebraço. Os dedos de Rosemary estavam marcados no meu braço, como uma tatuagem de hematomas roxeados. Quis rir, brincar com a situação, mas tudo o que saiu foi um sussurro baixo.
— Estão combinando com o meu cabelo, Nadine.
A senhora, gentil como uma pena, passou um dos seus dedos pela minha pele agora marcada. – Oh menina, eu sinto muito.
— Sinceramente, eu já não sinto nada.
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