Cocaine
31 O nome do pesadelo
Notas iniciais
A chuva continuava forte e parecia a cúmplice da nossa luxúria. Deitei a minha cabeça no seu peito, sentindo-o descer e subir rapidamente por causa da respiração acelerada. E foi ouvindo esse som inebriante mesclado com a chuva raivosa que adormeci.
[…]
O sabor de madeira queimada dançava na minha língua. Pigarreei, tentando encontrar a minha voz. Ela não saiu. Estava presa na minha garganta. Pigarreie mais uma vez.
Procurei Jade e encontrei-a ainda desmaiada no chão. O ar estava ficando mais denso por causa das chamas que queimavam todo o lugar. Puxei minhas mãos e meus pés tentando liberta-los das cordas apertadas. Não se moveram nem um milímetro. Aliás, pareceram apertar a minha carne ainda mais.
Ok, Harley. Você tem duas opções: Morrer e deixar Jade morrer também ou colocar seu cérebro para funcionar e encontrar uma forma de sair dessa situação sem machucados. Pelo menos sem machucados físicos muito graves. Porque nesse momento minha alma já estava machucada de forma irreparável. E tudo por causa dele.
Fechei os olhos, tentando afastar todos os pensamentos sobre aquele maldito e concentrei-me nas marcas doloridas provocadas pelas cordas enterradas nos meus pulsos e tornozelos.
Enquanto eu tentava pensar em algo, as janelas quebraram com violência e os seus vidros me atingiram provocando alguns cortes superficiais na lateral do meu rosto. Obviamente que gritei como uma desgraçada e que a primeira reação que tive foi tentar fugir correndo. Uma excelente ideia quando você tem seus pés atados. Claro que acabei caindo de cara no chão.
Enfim.
Afastei-me de todos os cacos aguçados e arrastei-me para perto de Jade. Bem do lado do seu rosto, estava um pedaço relativamente grande de vidro. Peguei nele tentando não me cortar e deslizei a parte cortante sobre a corda. Isso teria que resultar. Fiz de novo, de novo e de novo e a corda acabou por ceder. Um grande fragmento de madeira em chamas caiu do teto acertando na lateral do meu corpo. Tentei reter as lágrimas quando senti minha pele ser queimada.
Respirei fundo e rapidamente desenvencilhei me das restantes cordas e fiz o mesmo a Jade. Levantei-me e tentei levantar a garota, mas era muito peso para mim. Por isso, encaixei meus braços nos seus ombros e puxei-a na direção da saída. Assim que passei a porta da sala de física avançada, minha cabeça rodou e acabei por cair no chão levando Jade atrás.
Eu estava ficando sem oxigénio. Milhares de fórmulas matemáticas ocuparam minha cabeça. Perfeito, nem na hora da morte Hades me deixa ter um pouco de paz.
Minha mente ficou sem fórmulas e acabei por sentir meus olhos fechar há medida que os segundos passavam e o ar ficava mais denso. Mais alguns minutos e as chamas nos alcançarão. Algo mais explodiu e minha cabeça tremeu.
Me perguntei se Jade conseguiria sobreviver. Me perguntei se…
Eu esqueci todas as últimas perguntas da minha existência assim que um barulho seco de um tiro ecoou nos meus ouvidos. Abri os olhos com muito esforço e vi alguém cair bem na minha frente. E antes que finalmente minha consciência voasse para longe, eu vi o rosto de Chad. O meu meio-irmão.
Não. Ele não! Gritei para a escuridão. Ninguém me ouviu. Eu estava sozinha. Machucada. Triste. Eu não podia fazer mais nada.
Se eu pelo menos não tivesse caído nessa armadilha idiota. Se eu não tivesse acordado e visto aquela mensagem de Flame. Se eu não tivesse apaixonada pelo cara mais errado do mundo.
E se…
…
Acordei nos braços de Julian tremendo como um Chihuahua nervoso. Passei as mãos pelos cabelos, tentando acordar. Foi só um pesadelo. Foi só um maldito pesadelo, Adams. Você está bem.
Mais uma vez eu sonhei com aquela noite. Com a noite em que Jared me tentara matar. Julian remexeu-se, colocando um braço na minha cintura e puxando-me para si. Sorri e acariciei o seu rosto.
Livrei-me do seu braço e vesti-me rapidamente. O sol já começava a nascer e nem sinal do cara do reboque. Procurei o celular de Julian para fazer novamente a ligação. E era isso que eu deveria ter feito, mas desisti assim que vi que tinha uma mensagem. Deveria ser do cara que supostamente viria nos ajudar.
“Eu não acredito que você me deixou com esses idiotas e foi atrás dessa piranha. Tudo bem, brinque o quanto quiser com ela. Mas não se esqueça que você prometeu que voltaria para mim. Cumpra suas promessas, Julian Grant. Não se atrase para o baile.”
Minhas mãos tremeram e eu deixei cair o celular. Eu não sei o que deveria sentir. Repulsa? Sim. Quero matar essa vaca? Sim. Quero afogar Julian no oceano? Óbvio. E o pior é que eu não tinha nem o direito de sentir nada porque Julian não era minha propriedade. Ele só queria de mim o que sempre quis de todas as outras.
E eu não entendo porque estou tão surpreendida com isso. Limpei uma lágrima que descia na minha face sem permissão e saí do carro tentando fazer o mínimo de ruído possível. Eu não sabia o caminho de volta, não tinha dinheiro e muito menos um celular. Mas eu não queria ficar. Não mais.
Caminhei pelo que pareceram horas. Mas como Hades ainda não desistiu de mim, encontrei um ponto de ônibus e me sentei no banco molhado pela chuva. O bus chegou uma hora depois e o motorista abriu as portas para que eu entrasse. Entrei e sentei no fundo. O cara ficou tão impressionado com o meu estado lastimável que nem sequer me pediu dinheiro. Um ponto para Harley Adams.
Algum tempo depois chegámos no centro da cidade. Desci agradecendo a bondade do motorista e o velho simplesmente sorriu. Eu ainda estava longe da minha casa e até da faculdade. Harley abandonada no mundo parte 2.
Um carro parou bem perto de mim e imediatamente comecei a imaginar todo o tipo de coisas. Não seria legal ser raptada agora. Sério. Essa não é hora para ter ainda mais azar!
A janela do carro baixou e se tem alguém interessado, pode vir me pegar que eu entro no carro satisfeita e ainda dou meus órgãos de livre vontade.
Se tem alguém perguntando, era só Daniel.
Que ótimo.
O garoto olhou para mim confuso. – Que cara horrível, Adams.
— Você não podia simplesmente fingir que não me conhece e seguir o seu caminho? Sério, hoje não é um bom dia. – resmunguei, apressando o passo. O meu mau humor não o convenceu e ele continuou me seguindo.
— Entra, estou indo buscar meu irmão na sua casa. – continuei caminhando. Não mesmo. Eu não vou entrar nesse carro.
— O que o faz pensar que eu estou indo para casa?
Um canto da boca de Daniel subiu num sorriso debochado. – São 7 horas da manhã. Você está com uma expressão péssima. Está quase começando a chover. E a universidade e consequentemente seu apartamento fica do outro lado da cidade. Foi um palpite.
Bufei e parei para o encarar com todo o ódio que fervilhava em mim. Daniel viu isso como a minha derrota e esticou-se para abrir a porta para que eu entrasse. Cruzei os braços e quando ia xingá-lo de todos os nomes possíveis, começou a chover novamente. Fiquei tomando banho e alfinetando-o com os olhos.
— Você fez de propósito, maldito.
Daniel revirou os olhos e apontou para o banco. – Sim, porque eu sou o senhor do tempo. Entre. – disse debochado. Fiquei encarando a sua cabeça – com a vã esperança que ela fosse explodir – enquanto a chuva esfriava o meu corpo.
Daniel bufou irritado e esticou-se para fechar a porta. – Se não vai entrar, então tenha um bom di-.
Não o deixei terminar e segurei a porta. O garoto afastou-se parecendo segurar o riso. Entrei rapidamente fazendo os possíveis para molhar tudo.
— Se você rir, eu vou te espancar.
Daniel abanou a cabeça e começou a dirigir. Fiquei de boca fechada o tempo todo. Eu não estava me sentindo bem. Queria bater em algo. Em alguém. Em Julian. Em todo o mundo. Provavelmente em Daniel.
Daniel mal parou o carro na frente da entrada do meu prédio e eu já estava pulando para fora. Entrei, ignorando o porteiro e peguei o elevador que milagrosamente estava funcionando. Assim que as portas se abriram, encontrei o irmão de Logan me esperando com um sorriso cínico. Como diabos esse maldito chegou mais rápido que eu?! Ignorei-o e bati na minha porta com força.
Logan abriu-a segundos depois com a face rosada e vibrante. Parece que teve sessão de pegação na cozinha novamente. Empurrei-o entrando com tudo.
— Harley espera! – gritou me seguindo. – Nós não queríamos. Aliás seu irmão me obrigou. E foi tudo tão rápido que ninguém soube bem o que fazer.
Parei no mesmo segundo e o olhei com uma calma controlada. – Vocês não fizeram sexo no meu quarto pois não?!
Daniel segurou o riso quando Logan soltou um gritinho chocado. – Claro que não! Somos animais?! Mas… tem algo que você precisa ver.
Olhei-o desconfiada e antes de o seguir, fui verificar o meu quarto. Tudo estava no lugar. Menos uma tragédia hoje.
Passei pelos seus amigos gays estirados no chão do corredor e entrei na casa de banho encontrando Jade e Chad de braços cruzados. Encarei-os com medo, eles pareciam mais loucos que o normal.
E depois eu encontrei o problema. A bola de cabelo loiro remexendo-se com raiva na banheira. Abafei o riso e olhei novamente para os meus colegas de apartamento.
Hades nos proteja!
— O que diabos vocês têm na cabeça?! – perguntei, olhando com pena para a garota amordaçada.
— Ela falou o que não devia e continuou falando e falando sem parar. Tivemos que dar um jeito. Pensamos em empurra-la da janela, mas pareceu problemático limpar a calçada depois. – murmurou Jade, com a sua expressão afiada de vingadora.
Olhei para Chad pedindo em silêncio a sua versão do ocorrido. O garoto sorriu debochado e encarou a garota na banheira. – Eu estava aborrecido.
— Essas não são desculpas plausíveis para amarrar e amordaçar alguém! Principalmente ela! – resmunguei, aproximando-me de Flame com pena. Puxei a fita adesiva da sua boca tentando não a magoar.
Flame respirou fundo duas vezes e quando eu ia perguntar se ela estava bem, arrependi-me de ter entrado no carro de Daniel pela milionésima vez.
— SEUS MALDITOS NOJENTOS! EU VOU ACABAR COM TODOS VOCÊS! NOJENTOS! ARGH! ESPEREM SÓ EU SAIR DAQUI! – quando Flame parou para respirar, aproveitei a chance e coloquei a fita adesiva na sua boca novamente.
— Acho que vamos precisar de mais fita. – murmurei, desviando das unhas afiadas da garota loira. Colei meus olhos nos de Flame. – Você conseguiu o que queria, não se preocupe.
Ela parou o seu ataque de raiva para me olhar. Desviei o olhar e afastei-me dela, saindo do banheiro em silêncio. Jade seguiu-me e parou-me quando alcancei a sala.
— O que aconteceu? Porque você está… porque você falou isso para Flame? – perguntou sem parar uma única vez para respirar. Quando ia falar para ela não se preocupar, a porta de entrada abre e por ela entra Julian.
— Acho que agora você tem problemas maiores, senhora sequestradora. – sussurrei, sentindo a garganta seca.
Jade encarou Julian e empinou o nariz, correndo na direção do banheiro. Sorri debochada e entrei na cozinha indo na direção da geladeira. Senti a presença de Julian bem atrás de mim e foi inevitável arrepiar-me quando seus lábios pronunciaram o meu nome com tanto cuidado.
Tirei o suco de laranja da geladeira e virei-me na direção do cara por quem eu era completamente apaixonada. – Eu entendi. Não vou fazer drama. Só não precisava inventar todo o papo de “estou completamente apaixonado por você”.
— Não, você não entendeu. Você não entendeu nada. Eu gosto realmente de você, Harley. Por favor…
Respirei fundo e quando ele fez menção de se aproximar, coloquei o suco entre nós. – Eles amordaçaram a Flame e colocaram-na na banheira. Ela está insuportável, controle a sua garota por favor. – resmunguei, afastando-me rapidamente. Mas antes de sair da cozinha e me fechar no meu quarto, olhei para Julian uma última vez.
— Se divirta no baile, Grant.
Atravessei o corredor tendo cuidado com os corpos adormecidos e embriagados no chão. Fechei a porta do meu quarto devagar e bebi o suco com fervor. Eu não posso perder o controle como aconteceu na noite passada. Eu tenho objetivos para cumprir. Eu tenho que estudar.
E foi o que eu fiz enquanto comia todo o chocolate que consegui encontrar no meu quarto. Ninguém me incomodou. E eu consegui esquecer por umas horas os meus problemas e concentrar-me na competição que estava cada vez mais perto. Com os outros materiais e livros arruinados, tive que usar o que consegui encontrar. E isso bastou para me distrair.
As pessoas acabaram eventualmente por ir embora. E o apartamento ficou silencioso. E só nesse momento, eu me permiti pensar. E pensei bastante, tanto que até acabei ficando sem ar. Eu precisava de sair desse quarto. E foi o que fiz. Fui no banheiro molhar o rosto e corri para a sala abrindo todas as janelas que consegui encontrar. Depois deitei no sofá com as luzes desligadas e deixei que o ar gélido do crepúsculo me arrefece-se a pele.
Fiquei nesse transe até alguém ligar as luzes. O ar gélido trouxe o cheiro maravilhoso e amadeirado de perfume caro e eu levantei-me do sofá rapidamente. Julian apareceu, visualmente concentrado em colocar corretamente um laço negro no seu pescoço.
Ele estava perfeito no seu terno negro e camisa branca e com o seu cabelo meio bagunçado. Assim que se apercebeu da minha presença, Julian parou de batalhar com o laço e se concentrou em mim.
— Você tem a certeza que não quer ir?
Afirmei com a cabeça e sentei-me lentamente no sofá encarando as minhas unhas. – Eu preciso estudar. Eu preciso ganhar a competição. Não tenho tempo para me preocupar com distrações.
Mentiras… mas o que eu deveria falar? Eu não preciso de estudar. Eu nunca precisei. Tudo o que ouço ou leio uma vez, sou capaz de memorizar. Mas eu continuo estudando e estudando para esquecer. Isso tem mais efeito em mim que uma garrafa de vodka.
— Harley, eu…
— O seu laço está inclinado. – murmurei, apontando para o seu pescoço. Julian aproximou-se de mim e arrancou o laço colocando-o nas minhas mãos. Suspirei e refiz o laço. Quando ia para afastar minhas mãos, Julian agarrou uma e levou-a aos lábios beijando-a enquanto cravava seus olhos nos meus.
— Uma palavra sua e eu ficaria.
Meus lábios tremeram. E eu iria ceder, mas a imagem de Flame apareceu na minha mente. Puxei a minha mão com violência.
— Porque eu quereria isso? – respirei fundo uma vez e esbocei um sorriso debochado e falso. – Eu já tive o que queria de você. Foi bom. Foi sexo. Só. N-não tem mais nada. Tenha uma boa noite. – rosnei, imitando-o. Ele mesmo dissera estas palavras para Anna, a garota com quem ele dormira bem no inicio quando eu ainda era apenas o novo cara com quem ele dividia o apartamento.
Afastei-me dele sem ver a sua reação e caminhei lentamente na direção do meu quarto. No caminho tombei com Chad e minha primeira reação foi abraçá-lo com força. Finalmente um lugar seguro.
Chad retribuiu o meu abraço meio desajustado e eu o deixei ficar. Eu cedi ao meu desejo egoísta e o deixei ficar e me confortar. Todo o mundo foi se divertir e eu decidi arrastar meu irmão para o meu drama chato. E Chad estava bem ali, todo perfeito e arrumado e com um bonito sorriso falando “Não importa, é só um baile idiota mesmo”.
Eu foi nesse momento que eu deixei cair as lágrimas que antes tentara segurar com tanto esforço.
Eu sou muito vadia mesmo.
O garoto na minha frente pareceu entrar em pânico e foi na cozinha pegar um copo de água e açúcar para mim. Sorri entre as lágrimas. Ele realmente deveria estar se divertindo no baile. E indo pegar copos de água e açúcar para o seu namorado adorável.
Ok. Não copos de água e açúcar.
Mas de alguma forma eu me sentia responsável.
Respirei fundo e limpei as lágrimas rapidamente. Você já fez a besteira, agora lide com ela garota.
Estava quase saindo do meu quarto para ir no banheiro passar água no meu rosto quando meu celular decidiu fazer acrobacias e caiu no chão. Bufei e peguei ele, vendo a mensagem.
Minhas mãos tremeram enquanto apenas meus olhos acompanhavam as letras confusas e perigosas. Senti minha garganta fechar e minhas mãos suarem. O celular escorregou por entre meus dedos caindo novamente no chão.
E num segundo, meus pés estavam cambaleando na direção da porta de entrada. Passei por Chad, fazendo com que o pobre coitado derruba-se a água no seu terno. Não perdi tempo em me desculpar. Eu estava cega e de saco cheio. Assustada e completamente louca. Afastei-me de Chad mesmo quando seus braços procuraram-me de novo querendo saber o que havia de errado comigo.
Está tudo errado. Não era desse jeito que eu queria que as coisas acontecessem. Eu só queria fazer faculdade e comer salgadinhos todas as tardes da minha vida. Eu queria continuar a viver. Depois de tudo…
Mas não dá. Não quando ele fica voltando e voltando.
E eu me decidi. Isso acaba. Hoje.
Peguei as chaves do apartamento e do carro de Chad e fechei a porta impedindo-o de me seguir. Não esperei pelo elevador e apenas tomei as escadas, colocando toda a minha raiva e dor em cada passo que dava.
Vamos relembrar a todas as crianças que para dirigir, você precisa de ter a sua carteira de motorista. Mas eu não estava mentalmente sana no momento em que coloquei a chave na ignição e liguei o carro. Nem no momento em que saí cantando pneu pela rua deserta.
E o que eu tinha a perder mesmo? Eu iria morrer dentro de minutos.
A velocidade descontrolada e insana deliciou-me. E eu queria continuar estuprando o acelerador, mas logo o edifício da universidade apareceu no meu campo de visão. Pisei no freio com força, quase atropelando alguns estudantes que estavam indo para o baile e aproveitei a deixa para desligar o carro e sair.
Corri para dentro, empurrando pessoas e pisando vestidos que eu jamais teria oportunidade de usar. Entrei no edifício principal onde estava decorrendo o baile e ninguém pareceu notar a garota louca e desarrumada. Mas eu notei todos aqueles rostos felizes e despreocupados.
Eu os invejei.
E mesmo olhando cada pessoa, não consegui encontrar quem eu procurava. Avistei Julian conversando com um garoto – que reconheci como sendo um colega de medicina – e aproximei-me, começando a ficar completamente desesperada.
Julian esbugalhou seus olhos nos meus e abriu levemente a boca parecendo incrédulo. – Harley, o que você…
— Você viu a Jade? É importante. – murmurei, interrompendo o seu papo de “oh meu Deus, o que você está fazendo aqui blah blah blah”. Julian abanou a cabeça negando e eu quase vomitei nos seus sapatos.
Eu ainda tinha a esperança que fosse apenas uma brincadeira de mau gosto… Mas não… Ele está mesmo aqui. Dei as minhas costas a Julian e corri para o banheiro.
Onde você está, Jade…
Entrei no banheiro. Estava praticamente vazio, só tinha uma garota retocando a maquiagem no espelho. Entrei, furiosa e enlouquecida e escancarei a porta de todos os compartimentos. Que merda.
Jade…
— Você está procurando alguém? Espero que não seja o meu par. – rosnou uma voz debochada que eu já conhecia muito bem. Levantei o rosto e encarei a garota no espelho. Flame.
Minha noite acaba de melhorar.
— Sim, porque obviamente eu iria procurar Julian no banheiro das garotas.
Flame soltou uma risadinha nojenta. – Quem sabe… ele poderia estar pegando alguém ai. Eu por exemplo.
Abanei a cabeça, não respondendo a sua provocação e fiz menção de sair do banheiro mas Flame colocou-se na minha frente.
Sério que eu vou ter que lidar com ela agora, Hades?! Eu preciso encontrar…!
— Se você está procurando Jade, eu a vi… indo na direção do prédio de Física com um cara qualquer. – murmurou, fazendo o seu rosto de boneca parecer sinistro e ameaçador e depois ela me olhou de cima a baixo, arrebitando o nariz e voltando a ser a mesma vaca de sempre. – Sua roupa de mendiga me fascina.
E movimentando as ancas como uma modelo, Flame se foi, deixando para trás o seu perfume cheiroso e a minha vontade enorme de arrancar meus cabelos e arrancar os dela de seguida.
Saí do banheiro, começando a correr assim que consegui sair do edifício do baile. Eu não olhei para trás, simplesmente continuei correndo e tropeçando em meus próprios pés quando finalmente cheguei no velho prédio onde eu tinha aulas desnecessárias todos os dias. E onde eu raramente punha os pés. Porque eu sou rebelde. E idiota.
Entrei sem fazer qualquer ruído. Minha respiração e meus batimentos cardíacos mesclaram-se e minhas mãos não passavam de um mar de suor. Limpei-as na minha camiseta velha e apressei o passo.
Ele estava ali. Eu podia sentir. Ou eu estava ficando cada vez mais paranoica. Não sei, mas de algum modo eu sabia que seus olhos estavam em mim.
Comecei a abrir portas aleatórias até encontrar Jade. E eu encontrei, estendida no chão na sala de Física Avançada. Inconsciente e amarrada. Parecendo mal respirar. Ofeguei e comecei a recuar lentamente.
O que eu faço…
Jade…
Meu corpo parou e se afastou como se tivesse sido eletrocutado. E finalmente meu olhar encontrou o seu e eu me senti como a garota mais fraca e insensata do mundo.
Recuei uns quantos passos para longe dele, derrubando uma cadeira no processo. O garoto sorria serenamente para mim como se toda a situação fosse natural. O seu rosto trouxe-me náuseas. Quis vomitar. Chorar. Gritar.
Eu não sei.
Meus lábios tremeram. – Jared.
— Você poderia ter me esperado um pouco! Tem a noção do quanto é difícil correr com salto nos pés? – disse uma voz aborrecida atrás dele. Mordi a minha língua com força. Eu reconheceria essa voz em qualquer parte do mundo.
— Miriam.
A minha amiga.
Encarei-a, deixando o meu coração apertar dolorosamente no peito. A garota com a sua expressão naturalmente aborrecida e indiferente me devolveu o olhar com um sorriso simpático.
Uma lágrima escorregou pela minha face e foi parar bem na pontinha do meu nariz. Limpei-a rapidamente, apercebendo-me agora que quase cedi para a minha vontade sufocante de chorar.
— Temos que resolver isso rápido porque Jackson deve estar já me procurando. Minha irmã ainda não chegou? – resmungou Miriam me olhando com a maior afeição do mundo.
Falsa.
Como eu pude cair tão fácil? Eu pensava que tinha tudo controlado nas minhas mãos mas… como é possível… como é possível ter tanta pessoa próxima de mim guardando segredo e me traindo como… como se fosse uma coisa natural.
Como ela pode me olhar com tanto calor no seu olhar quando… quando ela sempre esteve bem do lado dele?
O som de um sapato de salto rasgou o silêncio e acabou com os olhares que ambos me dirigiam. Flame entrou pela porta da sala, deixando o seu cabelo longo perfumar o ambiente. Examinei-a com nojo.
Essa não me surpreende.
O que me surpreende é eu nunca ter notado as semelhanças entre Miriam e Flame. Ambas com um invejável cabelo loiro, seus olhos tinham cores diferentes mas eram ambos bem redondos e grandes. O nariz tinha a mesma curvatura e as suas alturas não diferiam muito.
Flame finalmente reparou no corpo inconsciente de Jade e começou a dar risadinhas felizes e a bater palmas. – Esse dia não tem como melhorar! Finalmente!
E então seu olhar me encontrou e ela lambeu os lábios parecendo demasiado obscena para o seu rosto de boneca de porcelana. – Agora a vingadora não parece tão poderosa, não é mesmo?
— Podemos dar um jeito nelas rapidamente?! Eu tenho que ir! – Miriam bufou colocando-se lado a lado com a irmã. Engoli em seco e encarei-a com dor.
— Como você pôde fazer isso comigo? – sussurrei.
A garota deu de ombros. – Era a minha tarefa, Har. Eu só tinha que me aproximar e controlar todos os seus passos sem você desconfiar. E foi bem fácil. Você é muito boazinha. Não consegue ver uma pessoa lascar a unha a outra e já mete soco na cara dela. Eu só precisava ser uma vítima. E devo admitir que o seu ódio por Jane ajudou muito. Ela também foi muito fácil de manipu-…
— Podem terminar esse papo furado? Eu estou ansiosa para ver o que você vai fazer com elas, Nolan! – gritou Flame, abrindo os olhos roxeados de uma forma meio louca.
E por meio minuto eu encarei o chão, processando tudo o que saíra pela boca das irmãs monstro.
Meus olhos depositaram-se nos de Jared e meus lábios tremeram quando o nome que eu raramente me permitia falar deslizou pela minha garganta.
— Nolan… — cravei as unhas no meu braço, sentindo a minha carne protestar. – Como você se atreve a mentir e a utilizar o nome de seu irmão? Como se atreve…
Jared revirou os olhos e lentamente um sorriso de canto apareceu na sua boca. O garoto bocejou. – Para um gênio, você é muito lenta.
Encarei o rosto de todos na sala, incluindo o de Jade. Eu só espero que ele não tenha feito nada para ela… eu só espero que ela acorde uma hora e consiga fugir. Pelo menos ela.
Jared suspirou, parecendo aborrecido.
— Minha rosa, eu temo lhe falar mas o seu amado Jared que você sempre escolheu em vez de mim está morto e enterrado. Eu fiz questão de me certificar disso.
Senti um sorriso amargo brincar nos meus lábios. – Você é completamente louco. Insano. Eu só espero que depois que você conseguir o que quer, alguém o coloque em um hospício, Jared.
A personagem dos meus piores pesadelos diminuiu a distância entre nós e fechou suas mãos no meu pescoço. Ofeguei, sentindo a pressão dos seus dedos esmagar a minha garganta.
— Pare de falar o nome dele… Eu não sou ele! Eu sou Nolan! NOLAN! Vê se entende de uma vez por todas! Eu o matei, entende? Eu o matei com minhas mãos no seu pescoço e uma bala na sua cabeça! Eu o matei! E depois escrevi o meu próprio bilhete de suicídio… Você realmente acha que eu iria deixar vocês dois rirem de mim? Você realmente acha que eu iria ficar quieto quando tinha outro cara fodendo a minha garota?! Não… Ele teve o que mereceu. E você… Harley…
Jared… Nolan… Ele afastou-se de mim, contorcendo-se e arrancando o próprio cabelo. Mas sua boca não parou de falar palavras dolorosas e que tanto me machucaram.
— Eu te amei tanto, Harley… como você pôde… — deixei as lágrimas correrem por minhas faces, evitando encarar os olhos insanos do meu ex-namorado. – A sua única opção é morrer no fogo do inferno… Só assim você será perdoada. E eu sei que todos eles me vão perdoar. Porque você merecia isso.
Suas palavras deixaram de fazer sentido e eu me vi perdida no que antes fora Nolan, o garoto mais simpático e acolhedor que eu alguma vez conhecera. Quando o monólogo confuso terminou, Nolan apenas virou costas e saiu da sala, voltando segundos depois com duas cordas.
E eu o deixei me amarrar enquanto a realidade me atingia. Esse garoto era Nolan. O cara por quem eu chorei durante anos por me sentir culpada por sua morte. Enquanto Jared estava morto. Assassinado por um ciúme obsessivo. E recebendo todo o meu ódio quando as minhas lágrimas e orações… os meus pedidos de perdão… tudo isso deveria pertencer unicamente a ele.
Recusei-me a olhar para Nolan e encarei Jade. Eu novamente arrastei alguém inocente para o azar constante que é a minha vida. Eu preciso fazer algo por ela… Pigarreei para limpar a voz.
— Você pode fazer o que quiser comigo, mas deixe a garota ir. Ela não tem culpa de nada.
— Não tem culpa de nada?! – gritou Flame enfurecida.
Miriam revirou os olhos. – E vamos de novo.
— Você tem a noção do que ela fez comigo?!? Eu fui humilhada por causa dela! Passei anos sendo preparada para ser a vingadora! Anos! Sempre foi um cargo passado de geração em geração na minha família e essa vadia chega e me rouba. Pode pensar que ser o vingador é um joguinho bobo, mas para mim e muitas pessoas… é uma honra. E era a minha honra. Era a minha função. Eu iria dar tudo de mim para essa universidade. Para essa cidade! E vejam só o que essa garota fez! Ela nem se importa com o tesouro que lhe foi oferecido sem qualquer esforço!
O pequeno corpo de Flame vibrava repleto de raiva. Encolhi-me sentindo toda a dimensão da sua inveja e ódio. Mas os olhos da garota de cabelo de Rapunzel mostravam-me mais que isso. Eu conseguia ver uma mágoa crescente e asfixiante e assim percebi que Jade era apenas a ponta do iceberg. Encarei Miriam. Os mesmos sentimentos dolorosos refletiam-se nos seus olhos. O que de tão ruim aconteceu para deixar essas duas garotas na beira desse precipício?
Flame fechou os olhos e fixou-os nos meus novamente. – Eu preciso fazer algo… — a garota piscou parecendo de repente, divertida. – Quanto a Julian, ele é completamente obcecado por você. Ele só estava comigo porque eu lhe pedi para me acompanhar ao baile. Ele cumpre suas promessas. Eu precisava mantê-lo longe de você para que o plano de Nolan funcionasse.
Nesse momento, Nolan empurrou uma mesa com violência chamando a atenção de todos. – Vamos terminar logo tudo isso.
E dito isso, o garoto começou a atirar um líquido estranho nas mesas e paredes. O cheiro de gasolina queimou o meu nariz e o nó na garganta intensificou-se.
Oh meu Hades, Jade… o que eu vou fazer?!
— O que você pensa que está fazendo? – murmurou Miriam, agarrando um dos pulsos do garoto moreno. – Ficou louco?!
— Isso acaba aqui.
Nolan ia recomeçar quando Flame ajudou a irmã. – Esse não era o plano. Você disse que ia dar-lhes um pouco da nossa dor, não matá-las!
A paciência do meu ex pareceu esgotar. O garoto agarrou o braço de Flame com força e forçou seu corpo contra a parede. – Essa é a dimensão da minha dor. Ela precisa morrer. Essa garota passou toda a minha vida me perseguindo. Ela precisa desaparecer para eu ter um pouco de paz.
— Não conte comigo, eu não vou me tornar uma assassina… – murmurou Miriam, parecendo escandalizada. – Vamos Flame.
Flame obedeceu o chamado da irmã, mas antes mesmo de cruzar a porta, a voz perigosa de Nolan escorregou pela sala.
— Eu vejo agora porque você não foi a escolhida. Uma garota fraca. Sem coragem. Eu não a escolheria.
O corpo da garota tremeu novamente e ela voltou atrás. – Não se atreva, Nolan! Você sabe que isso é errado. Isso é um exagero. Eu só queria uma pequena vingança, não acabar com a vida de duas garotas indefesas!
— Fraca.
As mãos de Flame fecharam-se com força e as suas unhas cravaram-se na pele alva das suas palmas. – Eu não sou.
— Não passa de uma garotinha fraca e inútil.
— Não! – gritou Flame, tremendo cada vez mais.
— Prova para mim que você não é.
Vi Nolan erguer um isqueiro na frente do rosto de Flame e apontar para a gasolina derramada no chão. A garota com rosto de boneca encarou o isqueiro prateado com medo e quando levantou a mão para o aceitar, Miriam voltou a pronunciar-se.
— Flame, não liga para ele. Você é melhor que isso!
A garota parou por um momento, sustendo a mão no ar e parecendo lutar consigo própria. Meio minuto depois ela baixou a mão e afastou-se novamente.
— Agora eu entendo porque o seu pai a renegou. – sussurrou Nolan, balançando o isqueiro nos dedos.
Algo pareceu despertar em Flame e sem pensar duas vezes, a garota arrancou o isqueiro das mãos de Nolan e acendeu fogo atirando-o para a gasolina. As chamas rapidamente irromperam pelas paredes queimando a tinta desgastada.
Arfei quando as chamas quase me queimaram e arrastei-me para perto de Jade. Eu não vi quando Miriam e Flame fugiram, mas consegui ver Nolan ostentando um sorriso de satisfação e com seu rosto banhado em lágrimas.
E depois de tanto batalhar para conseguir tirar Jade daquele inferno de chamas e vidros cortantes, eu estava vendo meu meio-irmão caindo na minha frente.
E nesse momento eu só queria acordar novamente nos braços de Julian e voltar a dormir.
Fale com o autor