Cocaine
32 Cada passo tem sua dor
Notas iniciais
E depois de tanto batalhar para conseguir tirar Jade daquele inferno de chamas e vidros cortantes, eu estava vendo meu meio-irmão caindo na minha frente.
E nesse momento eu só queria acordar novamente nos braços de Julian e voltar a dormir.
[…]
Senti alguém achocalhar meu corpo com força e contrariada, abri os olhos que nem pareciam me pertencer e que insistiam em arder cada vez mais. Imediatamente encontrei uns outros olhos de um azul mais profundo que o meu, me encarando com preocupação. Minha visão focou e finalmente percebi o seu rosto meio sujo de cinza e o cabelo negro revolto e um pouco queimado nas pontas.
Isso foi o suficiente para me fazer relembrar da realidade em que estava presa.
— Ela acordou, Chad. – falou o garoto, enquanto afastava os fios de cabelo que persistia em cair nos meus olhos. Julian fez menção de se afastar e inquieta, cravei meus dedos na sua camisa branca impedindo-o de ir. Em resposta ele apenas abriu um pequeno sorriso e sua mão buscou a minha apertando-a com força calculada.
Chad apareceu poucos segundos depois no meu campo de visão e logo senti lágrimas aflorarem os meus olhos. Através de minha visão embaciada, examinei cada pormenor da sua figura. Mas por alguma razão, Chad não se aproximou muito de mim. A sua distância e frieza sendo calculadas cuidadosamente por ele. E eu sabia… que tinha algo errado. Com ele. Comigo. O meu meio-irmão ensaiou um sorriso e aproximou-se mais um pouco. – Não chora, por favor.
Engoli em seco, ainda sentindo o sabor de madeira queimada na minha língua. Julian fez-me o favor de secar minhas lágrimas e finalmente eu pude enxergar melhor. Encarei Chad, procurando. Procurando algo que eu não tenho nem ideia.
— Você caiu na minha frente. – murmurei não reconhecendo a minha voz. Chad me encarou confuso durante algum tempo, mas logo um brilho de compreensão atravessou seu olhar.
— Não foi nada. – a voz dele tremeu e eu soube que ele estava mentindo, mas mesmo estando quase morta de preocupação, não insisti. Eu não tinha paciência nem forças para começar uma discussão. Estava até ficando difícil me manter acordada.
Acenei levemente, encerrando o assunto. Logo um barulho ensurdecedor estremeceu cada partícula do meu corpo e minha vontade era arrancar meus próprios cabelos. Olhei suplicante para os garotos na minha frente mas eles pareciam distantes e confusos demais para conseguirem compreender o meu desespero.
O ruído estridente de antes aumentou e eu sabia que estava enlouquecendo. Uni todas as forças que me restavam e sentei-me. Julian ainda tentou me forçar a deitar novamente mas eu cravei minhas unhas nos seus ombros implorando pela sua ajuda.
Minha atenção foi imediatamente focada nas roupas e no corpo queimado de Chad. O garoto ainda tentou esconder-se, mas era tarde demais… eu já o vira completamente machucado. Julian falou alguma coisa incompreensível e segundos depois, Chad se afastava acompanhado por dois caras vestidos de azul. Dezenas de soluços escaparam pelos meus lábios enquanto todo o mundo começava a ficar confuso e rápido demais. Louco.
Meus olhos tentavam acompanhar toda aquela quantidade de pessoas que corria de um lado para o outro. As chamas ainda altas no prédio de Física. O corpo de Jade inconsciente e sendo levado por pessoas desconhecidas e colocado em uma das ambulâncias barulhentas. Uma confusão de mangueiras no chão e vários policiais tentando acalmar alguns alunos que saíram do baile para assistir todo aquele inferno.
Tudo aquilo estava contribuindo para me enlouquecer. Eu sabia…Eu estava entrando em pânico e assim que meu corpo começou a tremer, Julian tapou minha visão de terror e me abraçou com força. O ouvi sussurrar palavras incompreensíveis e no fundo de tudo aquilo, alguém gritava.
A voz que já não era minha gritava.
Estava difícil continuar respirando. Eu continuava caindo e caindo. Me afogando no meu próprio azar e desespero. Amarrada a consequências irreversíveis.
Eu estava perdida.
Como sempre estive.
Desde que mamãe foi embora.
Desde que conheci os gêmeos.
Desde que me tornei essa pessoa amaldiçoada e errada.
Duas dessas pessoas vestidas de azul aproximaram-se de mim, fazendo-me perguntas – as quais não respondi ou entendi – e por alguma razão, queriam colocar-me numa maca. Mas eu estava completamente perdida e não conseguia obedecer simples ordens. Eu própria já não me reconhecia.
E enquanto tentavam convencer-me a colaborar – porque no meio de toda essa confusão, eu estava decidida a arranhar todo o mundo -, Nolan saiu do edifício algemado com dois policiais de cada lado. Ele estava bastante queimado também e para além disso, arrastava a perna esquerda.
No segundo seguinte, eu estava sufocando. Meu corpo já não me pertencia e toda aquela realidade dolorosa também não. Talvez eu estivesse de fato, ficando louca. Talvez eu estivesse acabada e perdendo o controlo.
Eu não tive como descobrir pois como se de uma bênção de Hades se tratasse, eu fiquei inconsciente.
Narrado por Julian
Não tem tortura maior que ficar sentado numa sala de espera de um hospital incapacitado de fazer algo. E o pior é que todo o mundo estava em silêncio quando o que eu mais queria era gritar. Gritar com todos os médicos e enfermeiros que corriam de um lado para o outro e não revelavam qualquer coisa do estado clínico de algum deles. Do meu lado, os pais de Jade confortavam-se um ao outro falando que a filha iria conseguir ultrapassar tudo isso.
Eu duvidava que ela seria liberada tão cedo. A garota fora dopada e respirara grandes quantidades de dióxido de carbono. Era um milagre ela estar viva.
A mãe de Chad era a pessoa mais tranquila na sala. Pelo menos ela estava se esforçando para estar. A mulher estava num estágio de gravidez muito elevado e entrar em pânico poderia interferir na saúde do bebê. E eu tenho a certeza que ela sabia que surtar não faria o filho melhorar.
A minha mente voou para fora da sala. Chad fora imprudente. Ele simplesmente entrara no edifício em chamas sem considerar o fato de estar uma temperatura extremamente elevada e perigosa para o ser humano. Obviamente ele se queimara bastante. Iria ficar marcado por algum tempo e seria doloroso, mas ele ficaria bem.
Eu prometera isso ao seu namorado Logan que chorava compulsivamente do outro lado da sala sendo confortado pelo irmão. Meus olhos se desviaram rapidamente quando Daniel me pegou o observando e foram pousar no pai de Harley.
O homem estava a ponto de quebrar o chão. E sinceramente eu estava com muita vontade de ajudar ele. Harley era um caso preocupante. Para além de estar bastante machucada, ela tinha permanecido acordada. E por mais que isso fosse bom para o seu corpo, era péssimo para a sua mente. Eu estava com medo.
Antes de ficar inconsciente, Harley assistiu suas pessoas mais queridas caírem e quebrarem. E nem quero imaginar o estado crítico do seu psicológico.
E depois tinha ainda aquele cara. Que ficava rindo sozinho do outro lado do hospital enquanto era cuidado pelos médicos. Ele estava queimado e uma bala tinha superficialmente perfurado sua perna, mas mesmo assim conseguira manter-se acordado. Acordado mas insano. No ponto de insano em que não conseguia responder as inúmeras perguntas dos policiais.
Ele estava me irritando. Jared estava me irritando.
Eu queria matar ele. Ou pelo menos eu desejava que a bala de Chad o tivesse realmente perfurado.
Levantei da cadeira desconfortável e saí para o corredor. Desviando das pessoas que caminhavam apressadas de um lado para o outro, aproximei-me da máquina de café. Senti meus músculos relaxarem assim que o cheiro forte me invadiu. Uma outra pessoa se aproximou e roubou meu copo. Encarei Daniel com ódio e ele apenas revirou os olhos e me devolveu o café, fazendo um para si.
— Eles vão ficar bem… – murmurou. Não sei se estava me perguntando ou prometendo. Mesmo assim, encolhi os ombros bebendo um trago de café. O líquido fervente passou queimando a minha língua e garganta. Respirei fundo, sendo acalmado pelo cheiro do hospital mesclado pelo cheiro do café. – E você, vai ficar bem?
Bufei e o encarei com um rasto de diversão nas minhas palavras. – Infelizmente para você, eu estou ótimo. Perfeito. Maravilhoso. Não podia estar melhor.
Um dos médicos retirou uma máscara e entrou na sala de espera. Imediatamente, os dois entrámos na sala esperando o médico falar algum dos prognósticos. O homem suspirou parecendo muito cansado.
— A família de Jade Russo. – os pais de Jade levantaram-se rapidamente e o médico sorriu levemente, dispersando alguma preocupação. – Felizmente a quantidade de droga injetada não foi elevada para ser considerada fatal e apesar de todo o fumo que entrou no seu sistema, ela vai ficar bem. Nós limpámos os pulmões da paciente e só estamos esperando o efeito da droga desaparecer. Ela vai acordar em breve e acho que não vai querer acordar sozinha.
Os pais de Jade abraçaram-se e saíram da sala indo reencontrar a filha.
— E quanto a Chad e Harley? – perguntou o pai da Adams, aproximando-se.
O médico acenou brevemente. – Em relação ao garoto, ainda é cedo para fazer uma previsão, mas neste momento estamos repondo líquidos para evitar a eventual desidratação. As pernas e o tórax foram as zonas mais danificadas e vão ser envolvidas por ligaduras. Além disso administramos um antibiótico pois as queimaduras têm muita facilidade de infecionar. Felizmente todas foram relativamente superficiais e não deixarão marcas significativas. O garoto mantém-se consciente o que é muito bom. Agora o que nos resta é esperar e com sorte o seu quadro clínico não se altera.
A mãe de Chad sorriu e acariciou a sua barriga enorme. O pai de Harley cruzou os braços, esperando o médico continuar.
— Quanto a Harley… Ela tem uma queimadura bastante grave e profunda e também alguns machucados, mas com a devida limpeza, oxigenação e tratamento, não deverá ter problema.
O pai da garota suspirou de alívio e pegou na mão da mulher. – Isso quer dizer que podemos vê-los?
O homem de jaleco branco fechou os olhos e abanou a cabeça. – Eu ainda não terminei. Fisicamente a situação de Harley está estável. Mas ela está muito danificada psicologicamente. Foi transferida para a ala psiquiátrica e vai receber o devido tratamento. Tudo indica estar sofrendo de um transtorno provocado por stress pós-traumático. Isso significa que sempre que Harley se encontra consciente, ela fica revivendo o trauma que passou vezes e vezes sem conta. Ela foi sedada para poder descansar um pouco e assim que possível vai começar a psicoterapia.
Bebi o restante café que já se encontrava frio e esquecido no meu copo. O quadro de Jade e Chad estava melhor do que imaginava, já o de Harley… não era uma surpresa. Eu estava curioso quanto ao estado de Jared, mas me impedi de perguntar. Ele não merecia qualquer preocupação e resquício de amizade que eu ainda pudesse nutrir por ele.
Narrado por Harley
— A que horas é mesmo o julgamento? – perguntou Stuart. Bufei irritada com a pergunta.
— Três horas da tarde.
Stuart soltou um dos seus sorrisinhos debochados, escrevendo algo no seu laptop. Eu odiava quando ele fazia isso. E eu queria esquartejá-lo. Mas acho que matar meu próprio psiquiatra não ficaria bem na minha ficha.
— Você está preparada? Eu ouvi dizer que Nolan é um dos suspeitos da morte de Miriam e Flame.
Engoli em seco dessa vez e fechei os olhos com força. – Acho que encontraram provas de que ele cortou os freios do carro que elas usaram para tentarem fugir. – fiz uma pausa quando minha voz falhou. – Ele tinha tudo planejado. Matar quem fosse necessário para chegar até mim e sair impune.
— Você foi no funeral das garotas? – perguntou, manipulando-me de modo a que eu esquece-se Nolan por alguns minutos. Mas ele não conseguiu. Não dessa vez. Toda a minha mente pensava em Nolan. No garoto que ele foi, no que se tinha tornado e no que poderia ser se tudo isso não tivesse acontecido.
— Eu não consegui. Mas agora eu me arrependo de não ter ido. Elas eram garotas normais, só tiveram o azar de cair no jogo daquele cara.
Stuart ficou em silêncio por um momento analisando-me como se conseguisse ver a minha alma. Pigarreei e o homem de trinta e poucos anos acenou com a cabeça como se soubesse algo que eu não sabia.
— Você precisa de conversar com Nolan depois do julgamento.
Arregalei os olhos e cravei minhas unhas no sofá negro em que estava sentada. – Você só pode estar brincando! Eu não consigo! E duvido que seja autorizada a fazer tal coisa!
— Será sim autorizada, porque eu como seu psiquiatra vou aconselhar isso… Não entende, mocinha? Você precisa dessa conversa. Precisa acabar com toda essa mágoa, rancor e culpa. Você precisa de falar com Nolan para poder seguir em frente.
Abanei a cabeça, sentindo o cabelo – desnecessariamente comprido – ficar ainda mais bagunçado que o normal. A cor roxa estava tornando-se mais pálida e as raízes precisavam urgentemente de tinta dando-me um ar ainda mais enlouquecido.
Mas as boas notícias são…Eu oficialmente não estava louca. Não mais. Não como no início em que via o rosto de Nolan em cada médico e enfermeira do hospital. Eu estava quase bem.
Afinal eu deveria, certo? Já haviam passado 4 meses desde que acordei numa cama de hospital sentindo uma sede desgraçada e querendo cravar minhas unhas em todo o mundo.
Eu não voltei para a universidade. Minha vida era hospital-apartamento, apartamento-hospital. Eu nem sequer fui no cemitério visitar Miriam e Flame.
Acho que mais uma vez, eu me sentia culpada.
Ou eu simplesmente não conseguia imaginar que por consequência das minhas ações, existiam duas irmãs enterradas e uma família destroçada. E Miriam… nós nem conseguimos esclarecer tudo. Eu queria ter compreendido o porquê. Eu queria ter tido a oportunidade de ficar zangada e depois mais tarde a perdoar.
— Adams! – gritou Stuart, abanando uma mão na frente dos meus olhos. Suspirei.
— Eu fiz de novo, não foi? – Isso acontecia regularmente. Eu me fechava para o mundo e ficava pensando. Pensando demasiado nas coisas. Eu não podia pensar tanto.
— Eu te perdoo dessa vez. E então, se decidiu? Vai conversar com Nolan?
Revirei os olhos quando Stuart piscou para mim nesse seu jeito gay de ser. – Eu acho que sim. Não tenho outra escolha, não é mesmo…
O homem sorriu e escreveu algo mais no seu laptop. O meu psiquiatra ia começar a falar de novo quando a porta do consultório foi escancarada.
— Já passou um minuto da hora do fim da consulta. – resmungou Julian Grant cruzando os braços e semicerrando os olhos para o cara sentado na poltrona. Revirei os olhos, levantando-me do sofá. Hades me dê paciência.
— Grant, pontual como sempre.
Julian encurtou o espaço entre nós e pegou minha mão. – Eu infelizmente não posso falar o mesmo.
E sem perder mais um segundo, Julian me arrastou até sairmos da sala. Afastei minha mão da sua. – Tem mesmo que fazer sempre isso? Stuart é um cara legal.
— “Stuart é um cara legal”. – repetiu o garoto imitando a minha voz sem sucesso. – Também vai ser muito legal quando um dia ele te seduzir e te estuprar nesse consultório duvidoso.
— Credo Grant. Que exagero. – murmurei, rindo da expressão sem dono espalhada pelo rosto de Julian. Sorri e aproximei-me, entrelaçando novamente meus dedos nos seus. O mau gênio do garoto deu lugar a um sorriso cheio de dentes brancos e perfeitos e eu sabia que o assunto “Stuart” fora esquecido.
Esse garoto é tão fácil.
Puxei-o na direção da saída do hospital e só larguei sua mão quando entrei no seu carro e esperei Julian dirigir até casa. Nesses últimos meses, o Grant fazia sempre os possíveis e impossíveis para estar comigo. Acho que ele tinha medo que eu simplesmente quebrasse de alguma forma porque a maneira como me tocava e cuidava era nova. Era um Julian diferente, mas mesmo assim o garoto de sempre continuava lá. Mais cuidadoso e atento. Mais interessado e até mais carinhoso.
E por vezes isso me assustava pois eu estava começando a ficar completamente afeiçoada e habituada a esse Julian novo.
Assim que o carro parou na frente do prédio, desci rapidamente tentando escapar do porteiro que assim que me viu chegar, veio me cumprimentar alegremente. Porteiro do demónio. Desde que papai chegou que ficou beijando meus pés e arrumou até o elevador!
Fiquei aturando as falsidades do cara até Julian aparecer e lhe lançar um olhar de “quebro o elevador para você concertar de novo” e o velho quase que desvaneceu no ar e nos deixou subir.
Amén Hades.
Chegámos rapidamente no apartamento e foi Jade que nos abriu a porta com um sorriso exuberante. – Como foi a consulta com o Dr. Gostoso?
Julian revirou os olhos e saiu do meu lado, entrando na cozinha. Encarei Jade com uma sobrancelha arqueada. – Foi desnecessária essa provocação.
Encarei a minha amiga com cuidado. Ela fora a primeira a ser liberada do hospital e ainda hoje eu me pergunto como é que ela não teve queimaduras significantes ou como ela estava viva e bem…
— Você sabe que adoro irritar o Grant. – o sorriso de Jade morreu um pouco e ela entrelaçou seu braço no meu me guiando até a cozinha. – É hoje que você vai vê-lo de novo. Espero que você saiba que todos nós estaremos bem do seu lado e que agora ele não poderá fazer mais nada para você.
Acenei calmamente, não conseguindo lhe contar que iria falar sozinha com Nolan depois do julgamento. Assim que entrámos na cozinha, vi uma mulher desenfreada cozinhando e três idiotas a observando.
— Porque ninguém está a ajudando? – perguntei sinceramente irritada. Papai abanou a cabeça com força, tentando me impedir de continuar mas isso foi o suficiente para a mãe de Chad se irritar.
— Acha que algum desses idiotas é capaz de fazer alguma coisa comestível? Não! E depois é a mulher grávida que sofre! – resmungou, colocando uma panela fumegante no meio da mesa. – Senta e vamos almoçar antes que eu entre em trabalho de parto aqui mesmo.
Sorri para Lauren e me sentei começando a comer o arroz de feijão delicioso que a mãe de Chad fizera. Todo o mundo fazia um esforço para manter uma conversa viva e desnecessária. Acho que ninguém estava preparado para a pressão do julgamento e todos queriam esquecer por alguns momentos toda a confusão que nos rodeava.
E estava resultando até papai se lembrar de perguntar como estava o meu estudo para a competição de física que seria na próxima semana. O encarei durante alguns segundos tentando transparecer a minha indignação. Ele realmente achava que eu estava suficientemente recuperada para estudar e me pressionar numa competição desse calibre.
Suspirei e pousei o garfo e a faca. – Pai, eu não tenho estudado nada. Ainda é um pouco difícil para mim, me concentrar em tarefas que exigem mais raciocínio e lógica. Eu acho… que deveríamos dispensar competir dessa vez.
James Adams parou de comer e encarou o seu arroz de feijão durante algum tempo. Ninguém se atreveu a quebrar o silêncio até que papai voltou a seus sentidos e bebeu um pouco do seu vinho.
— Você vai nessa competição e não há mais discussão. – murmurou, começando a comer novamente como se meu pedido fosse um grande e gordo nada.
Senti minhas mãos começarem a tremer. – Eu não consigo, pai. Eu não irei conseguir fazer cálculos ou mesmo me lembrar das respostas. Estou bastante debilitada ainda.
— Sim, talvez a Harley devesse esquecer a próxima competição e se concentrar em recuperar! – apoiou Lauren, massageando a própria barriga. Sorri em agradecimento e encarei papai em expetativa.
James Adams bebeu um pouco mais do líquido nojento no seu copo e cravou seus olhos nos meus. – Eu não vou tolerar a sua preguiça, Harley. Você vai fazer o que eu mando e ponto.
O tremor nas minhas mãos aumentou consideravelmente e quando eu voltei aos meus sentidos, o prato de arroz e o suco estavam no chão.
— Como você só consegue pensar na sua vontade sem sequer considerar a minha? – gritei, nervosa. Papai cravou novamente seus olhos nos meus e sua boca tornou-se uma linha de desaprovação. – Eu estou cansada de aceitar todas as suas ordens e caprichos sem nunca pensar na minha própria vontade! Eu não estou bem, veja se entende isso! Como eu poderia estar?! Eu vou ser uma testemunha num julgamento que vai condenar uma das pessoas que já mais amei e odiei na minha vida! Uma das minhas amigas mais próximas está nesse momento morta e enterrada. Eu quase matei meu irmão e minha melhor amiga por causa dos meus erros imprudentes! Como você espera que eu consiga pensar em Física nesse momento?
Eu nem esperei uma resposta e saí da cozinha, fechando-me no banheiro. Abri a água da banheira para que ninguém pudesse ouvir os meus soluços enquanto eu chorava com minhas costas encostadas na porta. Alguém bateu na porta, mas eu ignorei. Eu queria estar sozinha e reviver meus monstros mais uma vez. Eu precisava disso ou nunca iria superar.
Alguns segundos depois, lavei o rosto e fechei a água corrente. Me olhei no espelho odiando a imagem refletida e saí do banheiro encontrando meu pai escorado na parede do corredor. Eu iria sair sem nem olhar na sua cara, quando James se colocou na minha frente impedindo-me de sair correndo – como eu realmente tinha vontade.
— Eu sinceramente não estou com paciência para continuar ouvindo sua bronca sem sentido. – resmunguei dando um passo atrás para manter a distância de meu pai. James não se mexeu e ficou me examinando atentamente.
— Eu sempre esqueço que você cresceu e que se tornou essa garota forte e independente. – sussurrou papai, aproximando-se um pouco e fechando sua mão nos meus cabelos. – Eu peço desculpa por minha insistência. Você já tem tantos problemas mesmo sendo tão nova… não precisa de mais um.
Fechei os olhos e impulsivamente abracei o homem de meia idade na minha frente. Só alguns segundos depois me apercebi do que estava fazendo e me tentei afastar, mas James foi mais rápido e não deixou, me prendendo nos seus braços.
Respirei fundo sentindo meus músculos relaxarem. Não me lembrava qual fora a última vez que abraçara meu pai.
— Eu odeio destruir esse lindo momento de filha e pai mas está quase chegando a hora do julgamento. Temos que ir. – falou Lauren, trazendo-me para o mundo real.
É hora de matar meus demónios. De vez.
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