Cocaine
8 Libertando os cabelos roxeados
Notas iniciais
Jared sorriu mais abertamente e estendeu-me sua mão. Peguei-a irritada e apertei-a com toda a força que consegui reunir. O meu inimigo sorriu mais abertamente e largou minha mão.
– Você é interessante… Harley.
[…]
Engoli em seco. Jared parecia atento a todos os meus movimentos. Isso significa que ele desconfia de alguma coisa. Suores frios invadiram o meu corpo. As paredes do bar pareciam cada vez mais próximas de mim. Harley, essa não é a hora para ter um ataque de claustrofobia! Respirei devagar, mas o fumo do cigarro estava deixando-me nauseada. Sorri forçosamente e levantei-me. Chad encarou-me como se eu estivesse louca. Acredite irmão, eu sinto-me louca nesse momento!
– Estou indisposto. Vou apanhar um pouco de ar. – pronunciei lentamente como se a minha língua estivesse presa. Jared levantou-se também, parecendo preocupado. Merece um óscar pela atuação.
– Precisa de ajuda? – perguntou, pegando levemente no meu braço. Queria socá-lo ali mesmo, mas acho que isso seria inapropriado. E é provável que ele me mate depois. Neguei com a cabeça e dei mais um sorriso forçado.
Cambaleei por entre as pessoas que se moviam ao som da música, fui de encontro a um garoto com a boca completamente negra. Provavelmente bebeu demasiada vodka negra. Passei por um grupo de vadias que tentou em vão, conversar comigo. E finalmente, encontrei a saída desse lugar. Um segurança abriu a porta para mim. Nem tinha notado que havia seguranças. Aliás, eles pareciam parte dos universitários que se divertiam nessa noite. Só tinha uma diferença: a arma que carregavam na cintura.
Sentei-me na calçada e deixei que o ar frio da noite me acalmasse. Mas não deu. Jared assombrava cada célula do meu ser. Jared que é tão parecido com Nolan. O meu Nolan.
Lágrimas nervosas invadiram meus olhos. Lágrimas que nunca caíram. Lembranças que durante esses anos eu tentara esquecer, preencheram os meus pensamentos. O funeral de Nolan. Jared me culpando pela morte do irmão. Jared me torturando. Eu quase morrendo.
Senti a cicatriz no meu ombro, esfriar. Abracei-me a mim própria e deitei a cabeça nos joelhos. Tenho que me acalmar, tenho que me acalmar, tenho que me acalmar!
Senti uma mão quente pousar no ombro onde tinha a cicatriz. Quis gritar, mas não valeria a pena. Não importa o quanto gritasse, Jared matar-me-ia na mesma. Levantei a cabeça e encontrei o olhar azul e preocupado de Julian. O alívio foi instantâneo.
– Precisa ir no hospital? Você está branco e parece que viu um fantasma. – mordi o lábio. A falsa preocupação de Julian magoava-me. Tenho a certeza que se ele soubesse quem sou, ajudaria Jared sem pensar duas vezes.
– Não é necessário. Só quero ir para casa.
Julian sorriu levemente e pousou uma das suas mãos na minha cabeça. Parecia uma carícia. Senti as minhas faces ficarem rubras. Essa não é a hora para ter pensamentos sexuais, Harley. – Quer que eu vá com você?
Abanei a cabeça. Isso seria perigoso. Primeiro porque a minha líbido está descontrolada. Segundo porque não me sentia disposta a ter um amigo do meu inimigo me vigiando.
– Deixa, eu consigo ir sozinho. Volte para junto do seu amigo e se divirtam por mim! Todos vocês. Diga para Chad que eu vou ficar bem, que não precisa se preocupar. – os olhos azuis de Julian examinaram-me mais uma vez, enquanto um suspiro derrotado saia por seus lábios.
O garoto despenteou o cabelo negro com as mãos e tirou um cigarro do bolso. Acendeu-o e levou o cigarro aos lábios.
Senti-me aquecer. O rosto de Julian estava iluminado pelas luzes coloridas do letreiro do bar. A sua boca resumia-se a uma linha torta. Os seus olhos azuis transmitiam uma intensidade que nunca antes tinha percebido. Através da sua camiseta, eu conseguia ver as formas bem definidas do seu abdómen. O casaco de cabedal acentuava-lhe as costas largas e a calça jeans negra fazia as suas pernas mais compridas e bonitas. As botas igualmente negras e que eu considero horrendas, ficavam perfeitas nele.
Se eu não tivesse esses problemas, se eu não tivesse que fingir ser um garoto… tudo seria diferente. Um pensamento estranho invadiu a minha mente. Eu quero ele.
Meu Hades, por muito tempo eu não pedi nada. Eu não quis nada. Eu não tinha ambições ou mesmo desejos. Mas nesse momento, eu tinha um. E era o desejo mais egoísta, perigoso e idiota do mundo. Eu queria Julian Grant. Queria toda aquela perdição e obscenidade.
Só que não posso. E provavelmente, não mereço. Eu não mereço nada, a não ser carregar essa culpa. Jared culpava-me pela morte de Nolan. E ele tinha toda a razão. Eu era muito culpada no meio de tudo isso. Eu poderia ter feito algo para impedir e não fiz. Ele morreu sem eu conseguir fazer nada.
– Eu vou agora. – murmurei sentindo uma enorme vontade de chorar. Julian acenou levemente e levou o cigarro aos lábios novamente. Sai caminhando rapidamente pela rua. Apesar de a noite estar fria, a maioria dos bares e baladas estavam abertos e cheios de universitários embriagados. Baixei o capuz do casaco e libertei os meus cabelos roxeados. Corri, deixando que o vento gelado me envolvesse. Sentia os meus cabelos longos batendo-me nas costas. Sentia liberdade. Uma liberdade que há muito tempo não sentia.
Parei quando o ar começou a arranhar a minha garganta. Uma música profunda invadiu-me. Jazz. Por momentos, senti-me nesses filmes em que a garota encontra o amor da sua vida em um bar de Nova Orleães.
Só que não.
Segui a música e encontrei um pequeno bar meio escondido. O bar estava quase vazio, mas mesmo assim entrei. Não tinha o fumo nojento do cigarro e agradeci por isso.
Sentei-me em um banco junto do balcão e um barman simpático trouxe-me uma bebida suave. Agradeci e fiquei aproveitando o Jazz que uma banda qualquer tocava apaixonadamente.
– Está sozinha? – pulei na hora e encarei o demónio que me estava perturbando. Era um garoto. Galanteador e com um sorriso charmoso. Revirei os olhos e concentrei-me na minha bebida.
– Se eu fosse você, não falava comigo. Olhe que eu não sou de Deus. – uma risada despreocupada saiu pela boca do garoto. Examinei-o. Hum… era bem bonito, mas não se comparava com Julian. Claro, porque meus olhos só vêm aquele ser demoníaco. Hades nunca facilita para mim!
– Eu acho que vou arriscar. Qual é seu nome? – dei um suspiro entediado e cruzei os braços. Ouvi o barman dar uma risadinha baixa enquanto limpava o balcão.
– Eu não vou responder. Porque se eu responder essa pergunta simples, significa que estou interessada. E eu não estou interessada. – bebi um pouquinho da minha bebida e fiquei encarando o garoto.
Um sorriso matreiro surgiu nos seus lábios. – Você está falando comigo. Já é um bom começo. Eu sou o Daniel.
– Eu não perguntei nada.
Eu estava ficando irritada. Eu sei, eu sei! Um garoto está quase se oferecendo a mim e eu reajo desse jeito.
– Mas eu fiz questão que você soubesse. Aposto que seu nome é tão profundo como o azul do seu olhar. – isso me fez rir. Mas que infernos esse garoto tem na cabeça?!
– Eu aposto que o meu punho na sua cara também seria algo profundo, quer tentar? – suspirei pesadamente. — É sério, cara… pare com isso. Não vai acontecer.
Daniel sorriu abertamente e sentou-se do meu lado. – Você ganhou, eu desisto! Parece que meu charme não está funcionando.
Sorri levemente enquanto brincava com uma mecha do meu cabelo.
– Peço desculpa. A minha intenção não era ferir seu orgulho masculino. Na verdade, era sim! Você não pode se achar tanto! – Daniel riu e encarou a banda que continuava tocando a música calma e apaixonante.
– Você também não é essa coca-cola toda. – ergui uma sobrancelha e empurrei-o levemente.
– Cala a boca! Eu sei que sou gostosa! – ficámos rindo como uns idiotas, até que meu celular irritante coloca um fim na nossa conversa animada.
Contra a minha vontade, atendi. E logo a raiva possuiu o meu corpo quando ouvi uma voz esganiçada.
– Harley, querida! Eu estava aqui me divertindo com sua amiga Miriam e pensei: “Puxa, Harley precisa se divertir um pouco também!”. Acredite, Miriam está amando a minha companhia. – a voz de Jane era fria e calculista. Soquei o balcão, o que fez com que Daniel se assustasse um pouco.
– O que você fez com ela, sua vadia nojenta?! – rosnei, sentindo um medo idiota por Miriam. Jane Morgan era completamente louca. E Miriam poderia nesse momento estar metida em algum problema.
– Ora, que nervosinha! A sua amiga está ótima! Jackson deu um trato nela. Devia ter ouvido os gritinhos felizes que Miriam deu! – quase deixei cair o celular. Eu vou matar esses filhos do capeta!
– Jane, ouça bem aquilo que vou falar. Se Miriam estiver magoada… Eu. Vou. Matar. Você.
Daniel e o barman encararam-me assustados. E não era para menos, minha voz saiu assustadora. Um silêncio mortal ocupou a linha. Jane pigarreou e recuperou a voz.
– Manda vir, sua vaca. Eu vou acabar com a sua vida! – uma risada desprezível saiu por meus lábios. Deixei de ouvir a música do bar. Deixei de ver Daniel e o barman simpático. Tudo agora, era entre mim e Jane.
– Você realmente vai desejar nunca ter nascido, Jane Morgan.
Desliguei. Essa vagabunda vai sofrer.
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