Cocaine

1 Considerando vender o corpo


Notas iniciais
Bem-vindos á minha humilde casa, viciados.

– Qual é seu nome mesmo?

Mirei aquele ser enrugado do inferno. Era a terceira vez que perguntava a mesma merda. Ninguém me facilita a vida hoje... Escondi as mechas roxas que saiam pelo meu capuz e tentei manter a calma ou seria expulsa não só do dormitório como também da universidade East River.

– Eu já falei. Sou a Harley. Harley Adams. Não tem como enganar, minha senhora! Sou a única Harley inscrita nessa universidade! – a velha, com seus óculos redondos na ponta do nariz, examinou-me de cima abaixo e torceu o nariz. Eu devo ser gostosa mesmo.

– Você está enganado meu jovem, esse é o dormitório feminino.

Respira Harley. Você é forte.

– Caso não esteja bem explícito, eu sou uma garota. Harley é nome de garota. – disse-lhe, baixando o capuz. Meus cabelos roxeados saíram e logo caíram no meu rosto. Esses malditos. A velha estreitou os olhos examinando-me mais uma vez. – E sim, eu tenho seios!

A bruxa revirou os olhos e novamente procurou algo no computador. Não sabia que velhas conseguiam revirar os olhos. Sempre pensei que eles saltassem se o tentassem fazer.

– Aqui! Harley Adams. Minha querida, vai ser complicadíssimo conseguir um quarto nessa altura do semestre. Além disso, essa é a quarta vez que pede por um novo quarto no dormitório! – bufei como uma criança impaciente e cruzei os braços sentindo-me uma injustiçada.

Eu não tive culpa mesmo. Foi uma armação para mim!

Meus pensamentos de revolta foram interrompidos pelo olhar sedutor que a velha secretária me lançava. Medo. Foge. Agora.

– Ah… mas não dá para me ajudar? Eu juro que essa será a última vez! Por favor, eu imploro! Por favorzinho!

– A única coisa que posso fazer por você é colocá-la na lista de espera… mas para isso tem de preencher esse impresso e tirar a cópia de…

Não. Não. Deixa pra lá. Sinceramente eu não tenho paciência para essa droga de impresso. Eu pedi um novo quarto, não uma reunião com o ministro. Coloquei novamente o capuz e recolhi os meus pertences.

– Deixa pra lá. Eu durmo na rua mesmo. – é dessa que eu vou namorar um mendigo gostoso. A não ser que ele se assuste com a minha beleza e saia correndo.

É claro. Porque eu sou extremamente desejável.

Esquecendo meu drama pessoal… Como diabos eu iria sobreviver agora? Mas mais importante que isso! Preciso beber um café bem forte. E também preciso de alguém para pagar meu café.

Eu poderia procurar meu celular e ligar para o meu querido meio-irmão Chad, mas lembrei que fiz uma aposta com ele. Eu não poderia ser expulsa do quarto se não, teria que ser sua escrava. E eu tenho a certeza que as roupas de escrava não combinam com o meu tom de pele.

Tanto faz, ele iria descobrir mesmo. Procurei meu celular e disquei o número da peste. Chad atendeu no segundo toque.

– Alô? – sua voz manhosa e levemente rouca fez-me sorrir maldosamente. Eu o acordei. – Adams… Sério, o que tem de tão urgente para você me acordar ás 7 da manhã e ainda para mais numa segunda-feira?

Escondi uma mecha do meu cabelo anormal que tentava sair do capuz, empurrei minha bagagem e sai do dormitório feminino.

– Em primeiro lugar: Oi, tudo bem Harley? Sim e com você Chad? – eu sou tão doente que até preciso dialogar comigo própria. Mereço.

– Fala logo o que quer. — a voz de meu meio-irmão parecia ainda mais cansada. Melhor abusar dele logo antes que perca a paciência.

– Ok, você ganhou! Eu fui expulsa do meu quarto e como você é lindo e perfeito, vai pagar-me um café!

Tu… Tu… Tu…

Esse canalha nojento filho de uma vagabunda! Desligou na minha cara!

Liguei outra vez e Chad atendeu logo.

– Quer morrer, Chad?! Eu estou aqui tendo uma crise de meia-idade na adolescência e você faz isso comigo? Seu viado! – meu irmãozinho soltou uma risada. Risada é eufemismo, ele gargalhou mesmo. Claro, porque o meu azar é sempre bastante engraçado!

– Me encontra na cafetaria dentro de 5 minutos, sua feia.

E assim, esse monstrinho desligou a chamada. Agora, como diabos eu iria encontrar a cafetaria? Sério, minha orientação é uma grande merda! Eu estava nessa faculdade faz dois meses e ainda não tinha decorado o caminho para a porra da cafetaria! Sou uma negação na vida, ok? Ok.

Passei meia hora procurando. Essa foi a maior meia hora da minha vida e apesar de cansada e nojenta, encontrei a abençoada cafetaria. Ámen. Oremos.

Localizei Chad babando, digo, dormindo em cima de uma mesa no canto mais afastado da cafetaria. Que querido, hein?! Eu podia estar lá fora morrendo, lutando com uma lula gigante ou sendo sequestrada que ele não estava nem ai.

– Acorda Chad! Acorda antes que eu te enfie um troço na bunda. Ah, espera! Melhor não, você gosta disso mesmo! – ah verdade, e depois existe um pequeno detalhe sobre meu meio-irmão. Ele é homossexual. Chad levantou a cabeça deixando os cachos castanhos invadirem seu rosto. Parecia um cachorrinho abandonado.

– Peço que não desrespeites minha homossexualidade ou eu quebro essa sua boca suja. Ah, e com essa roupa seus seios parecem maiores! Finalmente chegou na puberdade?

E além de gay, não tem a completa noção das merdas que fala! Revirei os olhos e chamei a garçonete. Fiz meu pedido enquanto Chad me examinava. Eu sei, sou linda. Não precisa encarar.

– Você podia baixar esse capuz? Parece uma assassina.

– Talvez eu seja uma… — falei escondendo ainda mais meu rosto.

– Apenas acho que seus cabelos e seus olhos azuis são bem bonitos para ficarem escondidos. Além disso, podia parar de usar roupa escura. Por amor de Deus, está parecendo uma gó-... — o meu olhar mortífero foi o suficiente para calar a boca do garoto.

– Não é que eu ame me vestir desse jeito, mas meu estado de espírito não é um arco-íris nesse momento. – para fazer a vontade do meu irmão, baixei o capuz. Inevitavelmente, fui abordada por alguns olhares preconceituosos. Em pleno século XXI e ainda tem essa gente retardada caminhando no mundo!

– Você tem que parar de se culpar pela morte de Nolan. Não foi sua culpa, não foi você que puxou o gatilho, Harley.

Essa conversa não por favor. Nesse momento, queria pensar em tudo menos no Nolan e nas complicações que esse nome traziam. – Chad, apenas… não fala nada.

Senti os olhos úmidos. Desde o final do ensino médio que não chorava pela morte do meu ex-namorado. E não vai ser agora que vou começar. Puxei o capuz novamente para cima como se ele fosse uma proteção.

– Entendo, desculpa meu amor. Mudando de assunto: eu decidi ser condescendente com você e vou deixar esse negócio de aposta para lá. – disse Chad adotando um tom de voz muito macabro. — E até vou deixar você dormir no tapete do meu apartamento até encontrar um lugar para fazer sua própria bagunça!

– Ah, legal. Agora eu me tornei o seu cachorro?– meu irmão fofo tem um humor tão fantástico. De por os dedos na garganta e vomitar. Chad bebeu um longo gole do seu café cheiroso.

– A não ser que você prefira vender o corpo e comprar um apartamento só para si. – dei o meu melhor sorriso pornográfico, o que apavorou o meu irmãozinho. – Isso não é uma opção!

Bebi mais um pouco de café. Ah, a maravilhosa bebida dos Deuses... Enquanto bebericava a minha bebida, Chad continuou a falar.

– Na verdade, papai já sabe de tudo isso e me obrigou a partilhar o apartamento. Tanto faz, eu nem me importo mas não posso dizer o mesmo dos meus colegas de apartamento. – o olhar sério dele assustou-me tanto que quase derrubei meu café gostoso na sua cara. – Eles são pessoas especiais e sensíveis a pessoas como você.

Pessoas como eu? Que tenho eu?

– O que quer dizer com isso, seu vagabundo? – Chad riu pelo nariz parecendo mais estranho que o normal.

– Você é um perigo para a raça humana, irmãzinha. Além disso, acredito que Jenkins está ficando um pouco cansado das suas… complicações. — foi a minha vez de rir. Jenkins é o reitor da East River. Ele me ama só que eu não curto esse negócio de pedofilia e acabei não aceitando o nosso amor.

– Não se preocupe, eu vou me comportar. – o celular de meu meio-irmão começou a tocar uma música das Spice Girls. A partir do momento em que atendeu, Chad ignorou-me completamente e os seus olhos foram ficando tão arregalados que não me admiraria se saltassem para fora.

– O que foi? Está parecendo um peixe gordo. -comentei, vendo-o revirar os olhos e agradecer á pessoa que lhe ligou.

– Harley Rosemary Adams, o que você fez?! – gritou Chad assim que desligou a chamada. Não era preciso gritar o meu segundo nome – muito vergonho – para o mundo, né? Tapei-lhe a boca com a mão enquanto ele rosnava e mandava-me olhares assassinos. Chamem o controlo de pragas que esse animal está se descontrolando!

– Quer calar a boca?! Eu não fiz nada, homem!

Uma risada sarcástica saiu pelos lábios do meu meio-irmão assim que retirei a minha mão. – Ah certo, então responda: Quem é que vandalizou o escritório de Jenkins e escreveu o teu nome numa das paredes?

– O quê? Eu não fiz isso! Quem inventou essa merda? – engoli em seco, eu realmente não fiz isso. — Foi um vândalo, Chad! Um vândalo.

Notas finais
Vocês sabem o que eu quero! E vou persegui-los até o conseguir.