Cocaine

2 Primeira lei de Newton


Notas iniciais
Obrigada a todos os que acompanham! Boa Leitura, Mack *

– Quer calar a boca?! Eu não fiz nada, homem!

Uma risada sarcástica saiu pelos lábios do meu meio-irmão assim que retirei a minha mão. – Ah certo, então responda: Quem é que vandalizou o escritório de Jenkins e escreveu o teu nome numa das paredes?

– O quê? Eu não fiz isso! Quem inventou essa merda? – engoli em seco, eu realmente não fiz isso. — Foi um vândalo, Chad! Um vândalo.

[…]

Deixei minha bagagem com Chad e fui enfrentar o demónio Jenkins.

Eu já conhecia esse lugar como a palma da minha mão. O cheiro a cachimbo e madeira envernizada, a alcatifa fofa e importada do fim-do-mundolândia, as cortinas feias e verdes, a larga secretária e por detrás dela, Jenkins. O homem com óculos pequeninos e bigode engraçado estava furioso. O resto do escritório estava desordenado. O pequeno sofá negro tinha sido rasgado, as estantes com inúmeros livros estavam reviradas e muitos dos livros, destruídos. Além disso, uma das paredes tinha um grande “Harley” estampado.

– Adams… Podia ter feito tudo menos isso! – gritou Jenkins levantando-se da cadeira. Opa, ele estava mesmo zangado. O velho reitor levou a mão ao cabelo arrancando alguns fios. Esse velho tem problemas sérios!

– Por tudo o que é mais sagrado, eu não fiz isso! Eu estava ocupada com meu drama de sem-abrigo. Mal tive tempo para respirar… Como diabos iria ter tempo para fazer isso? Eu sou uma vítima inocente, Jenkins!

Fim. É dessa que vou ser expulsa de vez.

– Então como é que seu nome magicamente apareceu nessa parede? — um nó formou-se na minha garganta. É dessa que eu vou para uma academia militar.

– Apesar de gostar de todo esse protagonismo, não fui eu! Ouça, eu sei que tenho muitos defeitos e que sou uma criatura indisciplinada mas isso é demais até para mim, ok? Por favor Jenkins, seja razoável! – o reitor revirou os olhos e penteou o bigode. Um sorriso macabro adornou seu rosto. Merda. Isso não é bom sinal.

– Entenda Harley, você é a minha única suspeita. Não irá ser expulsa… a expulsão seria um castigo demasiado benevolente. Dessa vez, vai aprender que as suas ações prejudicam muito as outras pessoas. – eu ia começar a reclamar novamente, mas Jenkins não me deu a oportunidade e continuou falando besteira.

– Na semana passada, o nosso conselheiro se demitiu e estou precisando de alguém para ocupar esse lugar. Você irá aconselhar e supervisionar os estudantes dessa universidade… — acho que meu queixou caiu e foi lá no inferno visitar Hades.

De repente, as cortinas verdes pareciam bem interessantes. E Jenkins parecia mais louco que o habitual.

– Eu?! Conselheira?! Você odeia tanto assim seus alunos?

O sorriso de Jenkins aumentou. É, ele não se importava mesmo.

– Boa sorte, Harley. E tente não machucar ninguém, por favor.

Revirei os olhos e aproximei-me furtivamente do reitor. – E se eu recusar?

– Se você recusar, eu serei obrigado a expulsá-la… E na última vez que falei com seu pai, ele me contou que existe uma ótima academia militar á sua espera caso você tenha um comportamento inadequado.

É, essa não me parecia uma boa opção. O reitor aproximou-se de mim e colocou uma das suas mãos no meu ombro. Eca, nojo. – Amanhã, depois da primeira aula, começa o seu castigo… Se não aparecer, o seu pai vai receber um telefonema.

– Entendi, entendi!

Logo, a criatura do mal me expulsou do seu escritório remodelado gratuitamente por um vagabundo com bom gosto. Fiquei vagueando pelos corredores repletos de estudantes felizes. Sorte a deles.

Que droga… A minha vida não podia ficar pior. É nessa hora que começa a chover. Ironicamente, apenas ouvi uma risada odiosa. Acho que até a chuva, seria melhor…

O cabelo brilhante e perfeito foi a primeira coisa que eu vi dessa criatura. Tentei passar despercebida por ela, mas essa aprendiza do diabo tem sensores integrados na maquiagem.

– Adams, ouvi falar que foi expulsa novamente do dormitório. Eu lamento imenso! – caminhei mais depressa mas essa vadia seguiu-me. Essa garota é a razão dos meus problemas. Jane Morgan. Ela foi a minha primeira colega de quarto no dormitório e tudo estava bem… Até ao momento em que acidentalmente peguei fogo no cabelo dela. Sim, para que conste, foi mesmo acidental! Foi uma grande bagunça e desde então, Jane diverte-se enquanto arruína minha vida.

Tentei fazer o meu melhor sorriso simpático. – Jane. Eu deveria ter adivinhado que sua mão nojenta estava nisso. O que fez para que a garota me expulsasse do quarto? A ameaçou?

– Na verdade, eu só pedi. Foi bem fácil me livrar de você dessa vez.

Mentalmente, eu estava esmagando o pescoço de galinha dessa… dessa galinha. Nota mental: encontrar novos adjetivos ofensivos para Jane Morgan. Mas ela foi salva pelo sinal. E essa era a minha deixa para fugir dessa criatura.

Virei costas a Jane — deixando-a a falar sozinha, coitada – e sai correndo até ao segundo andar onde iria ter a minha primeira aula. E como sou uma atrasada mental consegui perder-me. São demasiados corredores para o meu sistema nervoso, lamento.

Em meia hora, descobri que estava andando em círculos. Imediatamente fiquei em pânico, mas graças a Deus o meu celular tocou. Olhei o identificador de chamada. Chad.

Hades ouviu as minha preces. Parece até milagre receber uma chamada do meu meio-irmão dado que essa peste não faz nada com a sua vida.

Atendi rapidamente. Chad parecia sem fôlego como se tivesse corrido uma maratona. Ou como se estivesse… erm… praticando “outros esportes”. – Onde você está?

– Matando aula. Em minha defesa, perdi-me novamente! – Chad soltou um suspiro de alívio. Mas que infernos?! Isso não é normal. Supostamente, ele iria repreender-me…

– Ainda bem! Vá para o meu apartamento. Agora! Vou só resolver uns problemas e vou já ter com você. A chave está debaixo do tapete.

E dito isso, desligou deixando-me com uma grande cara de tacho. Mas que merda está acontecendo? Obedeci a Chad e sai correndo. Felizmente consegui encontrar o caminho certo. Vitória para Harley Adams!

No recinto, esbarrei com Jenkins. Opa, agora não. — Você não deveria estar na aula? Dormindo ou sei lá… hum… aprendendo?

– Eu me perdi e não cheguei a tempo. Cursar Física é muito difícil, sabe? Principalmente quando você é a única garota inscrita no curso. – suspirei arrumando uma mecha de cabelo que tentava sair do capuz. Em todas as minhas aulas na East River, estava rodeada de futuros engenheiros e pequenos Einsteins. E eu sou apenas uma beringela solitária e demente. Mereço. – Tenho que ir.

E recomecei a minha corrida. Passei pelo portão principal da East River, quase atropelando um garoto suado. – Ei cara, veja por onde anda porra! – E saiu correndo deixando-me ali, totalmente confusa. Enfim, não entendo esse mundo.

Mais calma, andei pela rua até ao apartamento de Chad. E que agora também me pertencia. Sinto-me poderosa, cacete!

Eu sabia o caminho pois o apartamento do meu irmãozinho sempre fora o meu refúgio quando as gordices no meu quarto esgotavam e eu não tinha grana. Ou quando preciso de desabafar. Pois irmãos são para isso, certo?

Mas mais principalmente porque ele tem um armário cheio de pequenos paraísos em forma de salgadinhos. Ah, salgadinhos… me possuam!

Cheguei no prédio. Passei pelo porteiro que parecia em coma – espero que não esteja morto ou ainda posso ser acusada por homicídio – e subi pelas escadas já que o vagabundo do elevador estava sempre com avaria.

Bati levemente na porta do apartamento do meu meio-irmão. Mentira, eu quase quebrei a porta… mas mesmo assim, ninguém teve a decência de abrir essa porra. Até que meu cérebro altamente inteligente se lembrou que Chad deixara a chave debaixo do tapete e voilá! Acho que com tanto esforço, mereço um salgadinho!

Entrei de fininho e invadi a despensa. Estava com fome de tanto fazer bagunça na minha vida. Raptei uma lata de refrigerante e alguns salgadinhos gostosos e morri no sofá.

Fiquei assistindo um filme dramático – que eu odeio – enquanto engordava, mas o cansaço – ou tédio – me venceu e adormeci.

Tenho a certeza que sonhei com jujubas. E salgadinhos de queijo. Salgadinhos de queijo com asas de anjo feitas de algodão doce.

– O que ele está fazendo com a minha comida? – meu sonho calórico tremeu como se fosse desaparecer. Não vai, fica comigo!

– Comendo… Não olha para mim desse jeito, tá? Ele está dormindo, tenta não fazer barulho. – infelizmente, essa nova voz – de garota – fez com que meu universo calórico desaparecesse de vez… O que significa que eu estava acordada e… acompanhada por meus novos colegas de quarto.

Fiquei fingindo que dormia enquanto eles continuavam conversando. O garoto parecia cada vez mais irritado. – Qual é, Jade! Ele entra do nada, rouba nossa comida e você quer ficar parada?

– Ele é irmão do Chad… temos que ser simpáticos, Julian!

Ah, estavam falando de mim… Espera, irmão nada! Irmã! Sou uma garota… pelo menos, há pouco tempo atrás, eu era.

– O que está acontecendo? – disse uma voz vinda do além. Chad, meu salvador! Me ajuda, cacete!

– Seu irmão filho da puta comeu meus salgadinhos! – resmungou o garoto fazendo a garota bufar de tédio.

Um silêncio mortal despenhou-se na sala. Fiquei cantarolando interiormente até que a voz de Chad me assustou de morte. – Pode levantar, Harley… Sei que não está dormindo.

Abri os olhos imediatamente, assustando-me de seguida com a proximidade dos dois estranhos. A garota era linda e quase despertou o meu lado lésbico… isso, se eu tivesse um lado lésbico. O cabelo loiro dela era comprido e fazia contraste com os seus olhos cor de mel e o seu sorriso brilhante.

Mas o garoto… esse garoto foi o que me deixou de queixo caído. Não baba, Harley.

Ele tinha o cabelo levemente mais comprido e despenteado no topo da cabeça e era tão negro como… ham… algo negro? Nota mental: Inventar analogias mais convincentes. E seus olhos cinzentos ou azuis – não sei bem – estavam furiosos.

Adorável.

Não me atrevi a continuar encará-lo ou podia julgar que eu era uma tarada sexual… tenho que manter minha reputação. E também a dignidade.

– O que diabos você pensa que está fazendo, Harley? – resmungou Chad, tentando levantar-me. Mas como o cochilo estava gostoso demais e como não queria encarar a fúria do garoto desconhecido, fiz força contra o sofá e deitei novamente.

– Chad, para! Primeira lei de Newton! Um corpo em repouso tende a continuar em repouso. Vamos deixá-lo continuar! – disse, sentindo-me por momentos o ser mais inteligente dessa sala. Chad esfregou os olhos como se tivesse cansado.

– Sua besta.

Notas finais
Até mais, viciados!