Cocaine
19 Confissões de uma calda de chocolate
Notas iniciais
Aparentemente, o som afiado do tecido rasgando, fez minha colega de apartamento acordar. E foi com o som da sua voz histérica que eu consegui me livrar do encantamento que Julian colocara sobre mim.
– Eu não acredito que vocês estão se pegando enquanto a inocente aqui dormia! Eu vou contactar o meu advogado e processar vocês por indecência!
[…]
Me examinei novamente no espelho, tentando esconder a minha raiva por baixo do capuz. Sim, meu “melhor amigo” capuz retornou. Mas esse não é o problema em questão. O problema aqui tem nome e apelido. Bufei, tentando enfiar as minhas mechas roxas – que estavam já perdendo a cor – dentro do capuz.
Depois do grande “quase dei para ele no sofá”, Julian ignorou-me e saiu sem nem me olhar uma única vez. Ok, eu não estava esperando ele falar: “Vem, vamos rasgar as minhas outras camisetas.”
É sério.
Mas, pelo menos, eu esperava um sorrisinho convencido ou até mesmo uma provocação. Nada. Enquanto a idiota aqui, ficou quase hiperventilando por causa do “quase dei para ele no sofá”.
E de fato, eu quase dei para ele no sofá. Isso faz de mim uma vadia? Talvez.
– Harley, essa não é hora para você ficar se olhando no espelho! Vem logo, vadia. – gritou Jade, quase quebrando a minha porta com tapas.
Corri para abri-la e quase fui atingida pela garota. – Estou indo. Estou indo.
E eis que atrás de Jade, estava o dono dos meus pensamentos. Julian Grant, o galinha para quem eu quase dei no sofá. Inevitavelmente, encontrei os seus olhos meio cinzentos, meio azulados. Esperava ver indiferença no seu olhar como na noite anterior, mas isso não aconteceu. Aliás, Julian parecia se divertir com alguma coisa. Bom, isso é um progresso. Pelo menos não me está ignorando.
Vendo que eu o analisava, Julian mordeu o lábio inferior, lambendo-o de seguida.
Mas que porra?!
Senti meu rosto aquecer demasiado. Aposto também que as minhas faces ruborizaram com as cores do inferno. Oh Hades, meu corpo está me traindo!
Engoli em seco e desviei o olhar para a camiseta do garoto. Reparei imediatamente nos músculos do seu abdómen bem definido que a camiseta não era capaz de esconder. Minhas mãos formigaram querendo tocar-lhes novamente.
Quase o fiz. QUASE.
Antes que o fizesse e me arrependesse pelo resto da minha triste vida, a minha atenção foi desviada para as letras gordas que a camiseta exibia. Minha boca escancarou-se assim que li cada palavra.
“You can rip off my shirt anytime”. O que no bom e velho português significa que eu posso rasgar a camiseta de Julian sempre que quiser. Oh. Bom saber.
Mas espera, isso é uma provocação?! É isso mesmo, gente?
Sorri internamente. Oh, Julian quer brincar? Então vamos jogar… o meu jogo.
Olhei novamente para a sua face repleta de traços de diversão. Ergui uma sobrancelha e passei por Jade ficando frente a frente com Julian. Tentei passar por ele, mas o garoto colocou-se no meu caminho. Putz.
– Está no meu caminho, querido. – resmunguei, espalmando uma mão no seu braço.
Julian riu baixinho, aproximou seu rosto do meu e tirou-me o capuz, libertando o meu maldito cabelo. – Peço desculpa… querida.
Reprimi a vontade que tinha de lhe rosnar. Maldito.
Descemos os três no elevador que agora para mim, parecia pequeno demais. Fechado demais. O perfume de Julian invadiu-me as narinas. Lembrei-me do que anteriormente acontecera entre nós nesse mesmo elevador, e puxei o capuz para conseguir esconder as minhas faces avermelhadas. Missão cumprida. O mundo não viu o quanto sou vergonhosa.
– E então, Har… você já sabe que vestido vai usar no baile? – perguntou Jade, acabando com o silêncio dentro do elevador. Olhei para ela sem entender. – Ah certo, você foi expulsa e não viu os panfletos. Vai haver daqui a duas semanas o baile de aniversário do reitor. Os garotos convidam as garotas.
Pensei por um momento. Eu. Num vestido. Hum… não vai acontecer.
– Jade, acho que você esqueceu que eu simplesmente não posso ser uma garota. E além disso, eu não sei dançar. E odeio vestidos. E não estou imaginando quem poderia me convidar.
Jade olhou propositadamente para Julian, mas antes que o momento pudesse se tornar constrangedor, o elevador parou e suas portas abriram revelando a entrada e o porteiro mal-encarado.
A garota passou por mim, empurrando-me levemente. A sua animação era assustadora. Segui-a com medo. Já fora do prédio, Jade correu pela calçada na direção de uma moto e um garoto completamente vestido de negro e com um casaco de couro. Mas que diabos?!
As minhas perguntas foram imediatamente respondidas quando Jade depositou um selinho nos lábios do garoto, acenou para nós e saiu na moto agarrando a cintura do desconhecido.
Sério, todo mundo namorando e eu…
E eu nem sei.
– Eu não sabia que Jade tinha namorado. – falei para mim. Mesmo assim, Julian comentou.
– Ela nos contou ontem, lembra?
Revirei os olhos, sentindo um sorriso travesso nascer nos meus lábios. – A única coisa que me lembro de ontem é a sua língua dentro da minha boca.
E não me preocupando em ouvir a resposta de Julian, sai andando.
– Espera, eu te dou carona. – gritou o garoto quando eu já estava um pouco afastada. O meu sorriso abriu-se. Perdeu, bad boy.
– Deixa pra lá, eu prefiro andar. – gritei de volta. Coloquei as minhas mãos nos bolsos. Ah, é tão bom estar no comando. Continuei caminhando e sentindo a doce vitória.
– Você tem uma mecha fora do capuz. – me avisou uma voz demasiado conhecida. Estanquei no lugar e virei-me lentamente até encontrar Julian me olhando fixamente.
– O. Que. Está. Fazendo. Aqui? – murmurei, falando cada palavra lentamente. Julian encolheu os ombros e tomou a minha frente.
– Caminhando.
Cruzei os braços e segui-o, sentindo-me contrariada.
– O que aconteceu com o seu carro perfeito? – perguntei, enquanto encarava as suas costas bonitas. Oh Hades, já tinha esquecido o quanto sou tarada por costas.
Julian parou e virou-se ficando frente a frente comigo. – Vou lhe contar um segredo. Eu tentei usar esse carro para seduzir a minha presa. Como não funcionou, tive que passar para o plano B.
Arqueei uma sobrancelha. Ele queria me seduzir? Oh.
– E qual é o plano B?
O garoto riu passando uma mão pelos cabelos pretos e completamente desalinhados.
– Vou seguir ela e atacar quando tiver a chance.
Mordi o lábio inferior propositadamente e aproximei meu rosto do seu. Julian humedeceu os lábios na expectativa e semicerrou os olhos. Quis gargalhar, mas me controlei.
– Boa sorte, pois vai precisar. – e dizendo isso, tomei a frente novamente. Julian seguiu-me pouco tempo depois. Assim que chegámos em East River, senti o cheiro de café balançar meu estômago. Não tomei café da manhã. Com a boca salivando, segui o cheiro e pela primeira vez na minha vida, encontrei a cafetaria sem me perder uma única vez.
Recorde para Harley Adams!
Entrei, sentindo meu organismo cada vez mais desesperado por cafeína. Sentei-me numa das mesas vagas e encarei o cardápio. Julian sentou-se na minha frente. Senti o seu olhar me trespassar mas ignorei.
O aspeto das panquecas era mais importante no momento.
– Bom dia, já decidiram o que vão pedir? – perguntou uma voz feminina muito familiar para mim. Baixei o cardápio, encontrando os olhos simpáticos que eu vira chorar tanta vez.
– Miriam?! – exclamei, sorrindo como uma criança. A garota acenou, piscando para mim. Logo seu olhar passou para Julian. Vi a boca de Miriam escancarar e suas faces avermelharem. Eu sei garota, ele é só o vadio mais gostoso que você já viu na sua vida.
O olhar de Miriam regressou a mim. – Sim, eu trabalho aqui. Preciso de grana para pagar o aluguel do meu apartamento. Decidi deixar o dormitório e viver sozinha. Tive saudades suas.
Quase chorei de alegria ao ouvir isso. – Eu também. Muitas. Esse é Julian, um dos meus colegas de apartamento.
Miriam não reagiu. Aposto que a safada sabia quem Julian era. Todo o mundo – principalmente as garotas – sabe quem ele é.
– Hum… eu estava quase perguntando se você não quereria morar comigo, mas parece que está muito bem acompanhada. – disse a garota, piscando novamente para mim. Revirei os olhos.
– Nem a pau você vai sair do apartamento! – resmungou Julian, cruzando os braços sobre a mesa.
Imitei-o, cruzando os braços também. – Ah sim? E porquê?
– Porque… você não pode. Seu irmão iria ficar desolado. E eu não quero ouvir ele choramigar pelos cantos sentindo… a sua falta. – vi Miriam morder o lábio. Quase sorri como uma idiota.
– Ah. E você não iria sentir a minha falta? – perguntei, vendo o rosto de Julian adquirir um tom levemente rosado. Oh Hades, o que está acontecendo hoje? Isso certamente não é uma reação normal.
Julian humedeceu os lábios e sussurrou com a voz anormalmente rouca: – Você não estava com fome? A sua amiga está esperando.
Revirei os olhos e dei a minha atenção para Miriam novamente. A garota riu e sacou um bloco de notas do bolso do seu uniforme de garçonete. – Quero um café com cobertura de nata extra grande e umas panquecas com muita calda de chocolate. Abusa na calda.
Julian recusou qualquer pedido e assim, Miriam abandonou a nossa mesa indo receber mais pedidos. A comida rapidamente chegou. Quase desmaiei assim que vi a quantidade de chocolate que havia nas minhas panquecas. Ah Hades, que pecado!
– Sabia que café tem um efeito semelhante ao de Cocaína? – disse Julian, roubando um pouco do meu café extra grande. – Ambas funcionam como um estimulante e você facilmente se torna dependente.
– Você já alguma vez… tentou… você sabe…
– Consumir? Já. Uma vez. Mas deixei pra lá. Que tipo de médico seria eu se consumisse drogas?
Assenti, concentrando-me na calda de chocolate. Agora eu me dei conta… Eu não sei realmente nada sobre Julian. Como posso estar apaixonada por um cara que mal conheço?
– Porque você decidiu ser médico? – perguntei. Julian deteve a sua resposta durante um pouco. Seus olhos se cravaram intensamente em mim. Estremeci.
– Não me imagino fazendo qualquer outra coisa. Além disso, ouvi dizer que existem muitas enfermeiras gostosas. – revirei os olhos, mas ri com a sua resposta. – E você, porque decidiu fazer faculdade de Física?
Parei de remexer a calda de chocolate e por um momento pensei nisso. Porquê mesmo? Eu nem gosto muito de Física. Lembrei-me da razão minutos depois.
– Eu sempre fui o génio da Física. Seria uma pena se eu não seguisse a minha vocação.
– E você gosta?
Nem precisei pensar muito na resposta.
– O meu pai gosta.
Enchi a boca de panqueca, impedindo Julian de continuar a conversa. Esse era um tópico complicado e eu não estava com humor para remexer o passado. Pouco tempo depois, sai da cafetaria completamente satisfeita.
Pedi a Julian para me levar até ao prédio de Física, pois eu provavelmente me perderia. O garoto não se opôs, por isso deixei-me ser guiada por ele. Chegámos cinco minutos depois e exatamente quando ia me despedir de Julian, uma voz me para.
– Você… voltou mesmo, Adams.
Virei-me na direção do som e encontrei Jane. A garota estava diferente. Meio desleixada. O cabelo perfeito dela estava agora desalinhado em ondas completamente desordenadas. O seu olhar inchado e vidrado em mim. A sua boca tremia levemente. Tinha o corpo mais magro e meio curvado. Nem as roupas de marca lhe dava forma. Os seus punhos estavam fechados com força e permaneciam tremendo ao nível da sua cintura.
A garota estava irritada. Pior, ela estava puta.
E eu parecia a razão disso.
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