Cocaine
15 A culpa é do elevador
Notas iniciais
Narrado por Julian Grant
Os seus lábios estavam entreabertos e apetecíveis. Imaginei-me a enfiar a minha língua na sua boca. Respirei fundo duas vezes antes de falar. – Quer ir em uma festa, Harley?
Essa é minha honra! Eu vou provar para mim mesmo que gosto de garotas! Eu não sou gay, não mesmo. E depois, vou enfiar isso na cara de Harley. Porque ele não brinca comigo desse jeito!
[…]
– E ele te convidou para ir em uma festa. – repetiu Jade pela décima vez. Acenei, mordendo o lábio com força. – Ele te convidou…
– … sim Jade! Ele me convidou para ir em uma festa. E eu aceitei. E agora não sei o que raio vou fazer! – interrompi a garota. Peguei em uma das almofadas da sua cama e gritei até sentir a minha voz ficar rouca. A almofada abafou o meu grito. Cansada do meu drama, Jade roubou-ma.
– Duh. Isso é óbvio! Você vai nessa festa. – Jade revirou os olhos e atirou a almofada para bem longe de mim.
Sentei-me contrariada na sua cama e cruzei os braços. – Eu tenho um mau pressentimento sobre isso, Jade.
– Cala a boca. Sabe o que você vai fazer? Você vai esconder seu cabelo, vai colocar um sorriso na cara e vai arrasar nessa festa! – respirei fundo. Argh. Jade é completamente insana. Saí da cama dela e encarei o espelho. O meu cabelo arroxeado estava bem bonito, o que não é normal. Os meus olhos azuis não transmitiam o meu medo. Ainda bem, não quero mostrar para Julian a minha parte fraca. Suspirei e escondi as mechas coloridas no meu capuz.
– Vamos logo, antes que eu perca a coragem e me esconda no armário. – reclamei, saindo do quarto da garota. Jade deu uma pequena risada e seguiu-me. Julian esperava por mim na sala.
E ele estava perfeito. Como sempre.
Ele usava uma calça social negra e um pouco colada, uma camisa branca e um pequeno laço negro no pescoço. Parecia que um modelo tinha saído das revistas de Jade e aterrizado na minha sala. E depois existia eu. A garota vestida como um garoto. Eu não combinava com ele. Mesmo nada. Ele estava perfeito e eu estava normal. Normal demais. Estranha demais.
Olhei novamente para Jade, pedindo socorro com o olhar.
– Divirtam-se na festa e cuidado com os estripadores. – gracejou Jade, fazendo-me arrepiar. Estripadores? O que diabos essa garota tem na cabeça? Coisa boa não é.
Despedimo-nos de Jade e saímos do apartamento. Pegámos o elevador em silêncio. Por vezes, eu sentia o olhar de Julian me avaliando. E em todas essas vezes, eu estremecia. Levantei levemente o olhar e encontrei o de Julian. Os seus olhos de um azul escurecido – quase negro – estavam mais intensos que o habitual. Os seus lábios entreabertos e humedecidos pareciam implorar por uma carícia. O seu cabelo negro caia-lhe nos olhos, despenteado e indomável. Indomável como o próprio Julian.
O feitiço que o garoto lançou em mim foi quebrado pelas portas do elevador que abriram assim que chegámos na entrada. O porteiro mal- encarado cumprimentou Julian e ignorou a minha presença. Ah, eu tenho a certeza que esse porteiro me ama loucamente! Ele é apenas tímido.
Segui Julian até ao exterior e estanquei no lugar assim que reconheci-o. Jared. Sorrindo para mim como se eu fosse sua amiga. Engoli em seco e aproximei-me. Isso é uma armadilha? Não acredito que eu fui atraída por Julian até minha morte!
– Harley. – cumprimentou Jared aproximando-se de mim. Próximo demais. Julian ignorou-o e avançou na frente para o seu carro. Não me deixa sozinha com esse maluco, Julian! – Precisamos ajudar esse cara.
Parei de pensar imediatamente. O quê?
– Ajuda-lo em quê? – perguntei, andando até ao carro sendo sempre acompanhada por Jared.
– Julian está se perdendo. Ele precisa do auxílio masculino! Nós somos os seus homens. – arqueei uma sobrancelha, não entendendo o que diabos Jared estava falando.
– O que tem ele?
Jared sorriu levemente. – Ele está apaixonado. – revelou antes de entrar no carro. Meu coração falhou um batimento. Julian está apaixonado? Por quem?! Senti lágrimas amargas aflorarem nos meus olhos. Um nó formou-se na minha garganta. Não. Eu não vou chorar. Engoli em seco e entrei no carro.
Julian conduziu o seu carro novo e reluzente pelas ruas cheias de movimento noturno até que chegámos em uma boate iluminada por luzes coloridas. Respirei fundo, sentindo o coração nas mãos. Deslizei para fora do carro e acompanhei os garotos para dentro da boate.
Essa é uma missão suicida. Jared quer me matar. Julian está apaixonado. E eu só quero sair desse lugar e manter-me viva. Na verdade, quero manter o meu coração vivo. Porque aposto que Julian tem a capacidade de o quebrar em milhares de pedaços.
Mesmo assim, entrei nessa boate e fiquei vendo o meu Deus grego ser abordado por inúmeras garotas. Ele afastou-se de todas elas — inclusive de mim — e mergulhou no mar de gente que ocupava a pista. Jared tinha sumido.
Escorei-me em uma das paredes, longe das luzes coloridas e irritantes. Fiquei embrenhada na escuridão até que vi pelo canto do olho, algo familiar. Um longo cabelo loiro e repleto de ondas perfeitas. Eu não via os olhos roxos da garota, mas tinha a certeza que era ela. Flame. A familiar de Jane que me ajudara na vingança.
A garota caminhou lentamente até mim, calculando cada passo que dava. Agora podia ver seus olhos exóticos e eles brilhavam em reconhecimento.
– Harley. Nos encontramos novamente. Sentiu saudades? – perguntou a vingadora, sorrindo ternamente. Revirei os olhos e puxei-a para um canto mais afastado da confusão.
– Você exagerou na vingança, Flame. Eles têm uma relação incestuosa, meu Hades! Você deveria ter protegido esse segredo e não revelá-lo para todo o mundo. Ela é sua família ou não? – reclamei, sentindo uma culpa tremenda preencher o meu coração.
Flame sorriu um pouco mais e cruzou os braços. – Isso é peso na consciência? Não se preocupe, Adams. Jane não é minha irmã. Ela apenas é a filha do homem que casou com a minha mãe. Só temos o sobrenome em comum.
– Mesmo assim. Você não está arrependida? – perguntei, encarando o olhar despreocupado da garota. Flame Morgan aproximou-se de mim e encostou a sua boca na minha orelha.
– Jane destruiu aquilo que eu tinha de mais precioso. Eu faria isso e muito mais. De novo. E de novo. Até ficar satisfeita. – admitiu a garota, afastando-se de seguida. Fiquei arrepiada e assustada. Completamente assustada.
Olhei em meu redor. Que diabos estou fazendo aqui? Sem pensar duas vezes, sai pela porta da boate. Os seguranças observaram-me como se eu fosse louca. E não estavam longe da realidade. Eu estou me sentindo louca. E rodeada de pessoas ainda mais loucas.
– Harley. – gritou uma voz conhecida, chamando por meu nome. Virei-me instantaneamente e encontrei Julian. – Onde está indo? A festa mal começou.
– Desculpe Julian, mas não estou com cabeça para festas. Vou chamar um táxi e ir para casa. – murmurei, sentindo-me perdida nos seus olhos azuis.
– Não precisa chamar um táxi. Eu vou com você. Não estou me sentindo bem.
Anuí lentamente e depois lembrei-me da presença do diabo. – E Jared?
Um sorriso obsceno e extremamente sexy formou-se nos seus lábios. – Jared está muito ocupado. Não vai notar a nossa ausência.
Nem quero saber o que raio Jared está fazendo nesse momento. Eca. Revirei os olhos e entrei no carro de Julian. A viagem foi bem silenciosa. Perdi a voz assim que me lembrei que Julian está apaixonado por uma garota misteriosa. O garoto parou o carro no estacionamento e juntos percorremos o caminho até o elevador em silêncio.
Odeio esse silêncio. Que merda.
O elevador parecia mais lento que o habitual. Estávamos quase chegando no nosso andar quando ouvi um ruído estranho e o elevador parou.
– Mas que merda?! – xingou Julian carregando em todos os botões do elevador. Eu apenas cruzei os braços esperando um milagre de Hades. Rapidamente Julian desistiu de tentar quebrar o elevador e lembrou-se do telefone de emergência. – Avariado.
Perfeito. Vou ter que aguentar as minhas hormonas até sair desse maldito elevador. Hades ama brincar com o meu coração. Novamente senti o olhar afiado de Julian em mim. Mordi o lábio.
Algum dia eu vou ter que encarar essa tentação. – Perdeu alguma coisa?
Julian riu, deixando-me envergonhada. Ah, que ódio.
– A vida é hilária, você não acha? – disse Julian, encarando os botões do elevador. Agora ele está dando uma de filósofo? Meu Hades. Que dor. – Eu me apaixonei. Nós dois presos nesse maldito elevador.
Revirei os olhos sentindo um aperto no peito. Ah, ele está fazendo isso para me magoar? Esfregar na minha cara que você está apaixonado, não é legal! Eu estava cheia de raiva e vergonha. – Ah, os meus pêsames.
– E isso não é tudo… — continuou Julian. Esse cara ama torturar a minha alma.
Respirei fundo e encarei as portas fechadas que nunca mais abriam. Eu só quero sair desse inferno. – Hum… Tem mais?
– Sim. Eu me apaixonei por uma pessoa errada. O que você pensa sobre isso? – mordi o lábio inferior. Oh, Julian… eu sei mais sobre isso do que você imagina. Eu estou apaixonada por você, seu cafajeste filho do capeta!
– Eu diria que isso é uma péssima ideia.
Eu não notei a sua aproximação. Estava tão ocupada com meu drama de adolescente idiota que nem notei quando suas mãos fortes e elegantes rodearam minha cintura. Não notei quando seu corpo sexy colou-se no meu. Só acordei para a vida quando seus lábios caçaram os meus e meu corpo foi esmagado contra a parede do elevador.
Os seus lábios moveram-se ferozmente sobre os meus. A sua boca tinha gosto de desejo mesclado com desespero. Senti-me inebriada pelo seu sabor. A sua língua deslizou pelo meu lábio inferior antes de entrar pela minha boca. Suspirei alto quando as nossas línguas se encontraram.
Qual é o meu nome mesmo?
Continuei provando a sua boca, até que o ar se fez necessário. Mordisquei levemente o seu lábio, quebrando o contato de nossas bocas. Julian concentrou-se no meu pescoço, distribuindo uma trilha de pequenos beijos. Gemi, quando senti a sua língua em contato com a minha pele. Sedenta por mais, peguei no seu queixo e beijei-o novamente, sentindo os seus lábios macios e inchados devorarem cada pedaço da minha alma.
Oh Hades, cuida de mim que eu sou pura.
Sem pensar duas vezes, enlacei o seu pescoço e pulei no seu corpo rodeando o seu quadril com as minhas pernas. Julian aguentou o meu peso e suas mãos saíram da minha cintura e foram parar nas minhas coxas. Senti a sua ereção latente em contato com a minha coxa. Nossa.
Isso foi o suficiente para me deixar imóvel. Julian quebrou o beijo assim que reparou na minha inatividade. Sai de seu colo e empurrei o seu peito. Julian não pronunciou uma única palavra.
Sentia-me excitada, confusa e muito envergonhada, mas isso não me impediu de procurar o rosto de Julian. O garoto não correspondeu os meus sentimentos. No seu rosto apenas encontrei surpresa e incredibilidade. Isso não faz sentindo…
– Você… você… você… você é uma garota?!? – gritou Julian afastando-se um pouco mais de mim.
Assustada, deslizei as minhas mãos pela minha cabeça e não encontrei o capuz. Encontrei o meu cabelo. As mechas arroxeadas e compridas batiam-me no meio das costas. Julian encarava-me um tanto maravilhado e assustado. Engoli em seco. Ele vai me destruir. Jared vai me destruir.
Lágrimas nervosas deslizaram pelas minhas faces antes que eu as pudesse impedir. Eu vou morrer.
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