Clãs Sombrios: o Despertar de Piedoso
5 Confronto
Já estava na porta do acampamento. Guto, que me levara em suas costas, voltou à forma humana. Fomos até a cabana com chaminé e, lá, ele disse que tinha roupas para nós. Após ter trocado de roupa, ambos trajando jeans e camisetas brancas, fomos para o centro do acampamento. Surpreendi-me quando vi um caixão lá. Guto disse que uma garota havia morrido lá ontem.
- Piedoso.
- Ah! Diga, Guto.
- Sempre tive curiosidade sobre o que são os vampiros puros e primordiais. Sei sobre os inferiores e os que os ghrous...
- É, todos sabem disso – disse secamente – A questão fica entre os puros e os primordiais. Apenas os vampiros sabem a diferença e quem são.
Guto me olhava com olhos de cachorro sem dono. O mal do lobo devia estar me enfraquecendo, pois tive pena e expliquei a ele.
- Puros são vampiros filhos de dois vampiros.
- Espera um minuto. Os vampiros podem ter filhos? – disse ele surpreso.
- Sim, podem. Da mesma maneira que os humanos. Bem, com uma diferença, só podem ter filhos uma vez por século.
- Nossa! Que coisa estranha! Os lobos podem ter vários e vários filhos.
- Legal – disse sem me importar muito – E os primordiais são vampiros espontâneos. Ei, lobisomens têm esse tipo de classificação?
- Sim. Temos três tipos de lobisomens: os Anciãos, lobos antigos e poderosos que surgiram graças à intervenção divina, os Mestiços, transformados pela mordida, e os Lúpus, como eu e Quito, que nascem de dois lobisomens.
- É a mesma classificação, praticamente – disse rindo um pouco.
- Você acha?
- Claro! Pense e você perceberá.
Guto parou um pouco para pensar, voltando a falar rindo um pouco:
- É verdade!
Depois dessa conversa muito construtiva, fui para o ônibus. Estávamos nos despedindo do acampamento, voltaríamos para a cidade. Descobri que a garota morta era Teteca e que Thaty estava desaparecida. Estava em um ônibus vazio com Lira, Luke e K junto a mim, era o último que saiu de lá, por isso estava quase vazio. Já estávamos no meio do caminho quando Lira levantou-se bruscamente.
- Não acredito que não percebi antes – Luke e K ficaram um em cada flanco de Lira – Você é um vampiro!
Fiquei chocado, porém apenas ri. Grande coisa, ela sabe que eu era um vampiro, mesmo sobre o Sol. Agora eu não o temia.
- E se eu for, o que farás? Agredir-me-á até a morte? – disse rindo de tal asneira.
- Sempre odiei essa sua fala engomadinha!
Uma forte luz envolveu os três e ela foi liberada de seus corpos. Brilhavam quase tanto quanto o Sol e quase me deixou cego. Ao cessar a luz, Luke e K seguravam espadas de prata gigantescas, quase do seu tamanho e trajavam armaduras completas de prata pura. Lira usava a mesma armadura, com os com alguns detalhes femininos e ela segurava uma imensa lança de prata. Detalhe, a luz havia destruído o ônibus e estávamos todos no meio da estrada.
- Morra, vampiro! – Os três disseram em coro perfeito
Luke veio pela esquerda tentando me cortar com a espada, enquanto K vinha pela direita. Usei minha velocidade e consegui escapar. Notei que meus poderes físicos estavam melhores. Agilidade, força, reflexos. Os três pareciam estar se movimentado em ritmo muito lento para meus novos poderes, superiores aos de qualquer vampiro. Perguntei-me, lembrando da nossa última luta, se essa agilidade poderia ser equiparada com a de Thaty.
- Já cansei de me desviar. Acho que vou atacar agora. Tentem não morrer, certo? – disse inocentemente.
Avancei, socando o ventre de Lira, que caiu a uns dez metros de distância. Fui surpreendido por Luke e K, que conseguiram cravar suas espadas em meus braços. Lira se levantou e correu para tentar cravar a lança em meu coração, porém, antes de ela chegar, invoquei meu lado lobo e transformei-me em um imenso lobo negro. Consegui lançar os dois para longe com duas patadas precisas e, com um ataque da minha pata, tirei a lança das mãos dela. Comecei a correr para longe. Sabia que só havia conseguido fugir porque eles haviam ficado em estado de choque. Eles era mais fortes do que imaginei. Desgraçados infernais, digo, celestiais! – pensei frustrado. Agradeci muito por meu novo dom tão útil.
Cheguei à cidade, era de noite. O ferimento feito pela prata estava horrível. Precisava de muito sangue para regenerá-lo. Essa ferida me atrasou também, pois, o que levaria alguns minutos levou meio dia. Como estava nu, precisava pensar em alguma maneira de atrair um humano para algum lugar escuro. Vi um grupo de quatro garotos no terreno baldio onde havia me encontrado com Gloriosa. Sorte! Como estava sobre os prédios, pulei bem ao centro do terreno. Eles gritaram quando me viram um cara nu. Em menos de um segundo, cortei-lhes o pescoço com minhas unhas e comecei a beber o sangue. Ao terminar o último, meus ferimentos finalmente estavam curados. Maldita prata. Era difícil curar os ferimentos feitos por ela, principalmente naquela hora.
- Olá, escória! Parece que anda se divertindo bastante! – disse uma voz que vinha de trás de mim.
- Gloriosa?
Ela havia parecido do nada. Virei-me rapidamente: sim, era ela. Estava de pé encostada ao muro com olhos avermelhados. Ela soltava risadas bem sutis.
- Já se divertiu o suficiente. Infelizmente, vais morrer agora.
Pulou sobre mim, tentando quebrar meu pescoço, o que foi inútil devido ao meu novo dom. Chutei- a para longe, mas ela ficou de pé.
- Seu merda! Como ousa...?
Concentrei-me e chamei os lobisomens para a luta. Eles apareceram, pulando pelos telhados e formando um círculo em torno de nós.
- Lobisomens? Droga! Parece que o verme aprendeu como chamar mais vermes! Só que esses outros são piores que você!
- Ataquem! Matem a vampira!
- Achas mesmo que eles me matarão? – disse com uma voz triunfante.
De repente, lanças de gelo brotaram de seus pés, derrubando todos os lobisomens. Fiquei espantado. Ela era muito poderosa!
Bela andava por extenso corredor mal iluminado, onde havia vários quadros antigos pendurados. Ela parou em frente a uma porta dupla, antiga. Empurrou um dos lados e adentrou o cômodo. Era um quarto luxuoso. Deitado sobre a cama estava Juiz, usando somente um roupão preto com detalhes vermelhos.
- O que queres aqui, garota? – indagou raivosamente.
Ela aproximou-se com um sorriso tímido e deitou-se ao lado dele na cama, alisando seu tórax, olhando em seus olhos e tirando o roupão vagarosamente.
-Aquela vampira, Gloriosa, vai matar meu irmão. Por favor, deixe-me ajudá-lo com meus irmãos.
Juiz aproximou seu rosto do rosto da garota, ela achando que seu dom estava funcionando perfeitamente.
- Vadia! Seu dom de ludibriar os outros não funciona em mim. Meu dom anula qualquer ilusão e mentira.
Rapidamente, Bela levantou-se e pulou para o outro lado do quarto, ficando do lado da porta, porém não parou de encará-lo um segundo sequer.
- Como sabes do meu dom?
- Tu e teus irmãos não me enganais! Sabia que tinha poderes, especialmente o teu de controlar a vontade dos outros.
- Bom, se é assim que deseja que as coisas aconteçam... Queria fazer isso de um jeito mais delicado, porém forçaste-me a usar o jeito mais Bruto!
Logo depois, um raio destruiu a porta. Era Trovão entrando no quarto, seguido por Gentil e Bruto.
- Malditos! Como ou... – Gentil usou sua velocidade para agarrar a garganta de Juiz. Com o toque de uma mão, ele desmaiou.
- Pronto. Agora podemos ajudar nosso irmão em paz! – disse Gentil feliz.
- El vai ficar com raiva... – pronunciou Bruto, indo em direção ao corpo desmaiado.
- Vai demorar dois dias para se recuperar pelo tanto de energia que gastei em meu dom.
- Não falava dele, mas sim de Piedoso. Nós mentimos e o enganamos, escondendo nossos poderes.
- Ele vai entender, Bruto, porém não é hora de discutir isso. Gentil, Bela, vamos logo. Não sabemos quanto tempo ele vai durar.
* * * * *
Gloriosa fazia flocos de gelo parar no ar a sua volta, criando uma barreira. Não tinha como atacá-la com aquilo.
- Desista, Piedoso! Nem seu dom pode salvá-lo esta...
Uma sombra do céu desceu, colocando sua mão sobre Gloriosa, que ficou muda.
- Gentil! Veio me ajudar! – disse alegre, mas logo mudei o tom de voz – Fuja daí! Ela é muito poderosa – Quando terminei de falar, ela caiu no chão inconsciente.
Mais trás sombras apareceram vindos de cima de um prédio. Revelaram ser Bela, Bruto e Trovão. Os cinco irmãos reunidos novamente. Estava muito feliz e sorridente. Corri e abracei-os de uma vez.
-Calma, calma! Você vai acabar me matando desse jeito! – reclamou Bela.
- Nossa! Você está bem mais forte, hein?! –disse Gentil muito feliz, abraçando todos.
- E aí. Tudo bem contigo? – perguntou Bruto.
- Bem, podemos dizer que está com todos os membros! – brincou Trovão, que levou uma tapa de Bela.
Espera aí, irmão. Como vocês fizeram isso?
- Desculpe-nos. Escondemos de você. Bem, tentamos, mas nós temos dons também. Todos nós.
- Sério? Que legal, Gentil! – disse muito feliz – Qual o teu, Bruto?
- Algum dia te conto! – disse rindo bastante.
- Eu também tenho dons, sabia?
- Qual? – disseram todos surpresos em coro perfeito.
- Sou meio lobo e posso controlar os lobisomens.
- Que legal! Escravos para a gente usar!
Todos riram. De repente uma vampira apareceu atrás de mim. Era Sedutora.
- Ham... Então, é isso. Bem... Acho que posso somente pedir-lhe desculpas, você sabe, por ter tentado te matar...
- AH! Nossa! Isso melhora tudo! – falei sarcasticamente.
- Bem, qualquer um que consiga colocar essa puta no chinelo não pode ser um dos piores, tenho que admitir.
Do nada, Gloriosa levantou-se do chão e pulou para o telhado do prédio.
- Por ora, podem festejar! Mas voltarei para matá-los! Não deixarei nenhum de vocês vivo!
Juiz apareceu ao seu lado e amos sumiram.
- Ui! Essa foi brava! Sedutora, você ainda vai ficar do nosso lado?
- Claro! Não perderia a chance de socar aquela puta por nada nesse mundo!
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