Club 116
2 Parte II
A madeira cobria o chão, não somente o chão, mas os andaimes e os andares superiores, feitos em aço. Alguns rapazes trabalhavam, outros conversavam. E o assunto não era dos melhores.
- Greve? Vocês estão planejando uma greve? — Anna parecia surpresa. Como supervisora do trabalho deles, ela não poderia admitir isso.
- Claro....não podemos aceitar isso quietinhos... — um dos rapazes disse sussurrando para que não fossem ouvidos.
Alguns minutos depois, ela se afastava dali, mas ainda sentia-se surpresa e preocupada. Mas não com os rapazes. Ela estava espantada em como sua vida havia mudado, de uma época em que ia todos os dias ao Club 116 e se divertia, bebia e ria com esses mesmos rapazes, de ser amiga de Morten Harket — e sonhar com ele para si, até ter conhecido o outro — para uma vida de trabalhos forçados em uma madeireira. A ironia estava no fato de que seus atuais companheiros de trabalho eram seus antigos companheiros de diversão. E que a madeireira dava de fundos para o clube.
Um golpe de estado colocou a cidade sob cinco anos de escravidão, retardo tecnológico, crise econômica e cultural, totalmente na obscuridade. Para Anna e seus amigos, a perda foi muito mais significativa: sua juventude foi tomada. Aparentemente, ela sentia ter envelhecido pelo menos 15 anos.
Muito mais que uma greve estava em planejamento: os rapazes haviam formado um pequeno grupo de guerrilha para lutar contra os ditadores. Anna estava completamente alienada a tudo. Egoísta como de costume, ela não pensava em como aquela comunidade sobreviveria à guerra, mas como ELA se adaptaria a novos tempos. Talvez não fosse egoísmo, talvez fosse apenas instinto de sobrevivência mesmo.
Às vezes ela pensava em seus amigos. Sua família desaparecera na guerra, e com qualquer forma de arte proibida, ela nunca mais viu Morten novamente. Ela nunca mais viu o Duran duran novamente. E ela nunca mais o viu. Ela sabia que ele era definiivamente o predestinado.
Quantas pessoas haviam desistido de seus sonhos durante a guerra...os modelos, que se divertiam no Club 116, as meninas que dançavam ballet na escola ao lado. Anna, ela mesma, música que tinha sua própria banda. Estava tudo acabado. Era proibido pensar. Era proibido sentir.
Eles eram todos escravos.
Mas os garotos planejavam uma revolução. E eles estavam bem preparados. A revolução ganhava forma, a evolução era concebida.
Foi em um frio Novembro que as pessoas encheram as ruas até o centro governamental, no centro da cidade. Muitos foram mortos, de ambos os lados. Mas um governante fraco não detém a ira de um povo. E o povo venceu.
Anna era apenas uma pacífica telespectadora, uma observadora calada a todas as mudanças. Ela nunca moveu um dedo. Ela esperava pelo momento em que ia morrer, pois ela já havia perdido tudo o que importava. Ela jamais veria de novo aquele por quem se apaixonara.
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