Closer to the Edge
22 Onde os Anjos temem pisar
Notas iniciais
P.o.V. Percy
Assim que chegamos ao Conçu, eu e Grover jogamos a última vítima de Charlotte no chão, fazendo-o gemer de dor, o que chamou a atenção de algumas pessoas ao redor.
– Não que eu me importe, mas qual o seu problema?
Lotte rodou o corpo para mim, a expressão mais deslavada do mundo.
– Desculpe, como?
– Você me entendeu. – respondi, a voz mais rígida do que gostaria. Ela era minha irmã mais velha; um ano a mais que eu e dez a mais que o caçula, Tyson; mas às vezes parecia que o mais responsável era eu. Quando ela fizer aniversário, dali a algumas semanas, vou começar a chama-la de “responsável irresponsável”. – Você pegou o Comodoro por nada, como se já não tivéssemos problemas o suficiente. Está se comportando como se estivesse alheia a tudo ao seu redor. Está voltando ao seu mundinho perfeito em que você está sempre no comando? Além disso, praticamente deixou Annabeth nas mãos de guardas que podem muito bem leva-la de volta para casa. Isso se a reconhecerem.
Ela bufou.
– Já cometi delitos piores que sequestrar um oficial da Marinha Real. – deu de ombros e fez um sinal para que eu pegasse o Comodoro embalado e a seguisse. – E, não, eu não estou voltando ao “meu mundo de contos de fadas”, você sabe muito bem que encaro o mundo como ele é, não como gostaria que fosse. Quanto a sua namoradinha, reze para que ela saiba nadar. Além do mais, nosso querido Comodoro aí é loiro.
Peguei o Comodoro com meu braço não machucado e revirei os olhos.
Charlote tinha valores e ideais geralmente nobres, mas manias ridículas. Vamos pegar o exemplo do Comodoro: ele é loiro e, como uma atriz incorporando o papel, Charlotte começa a ter uma antipatia com todos os loiros do mundo. Ela também não confia em ninguém que tenha mais de uma cor nos olhos, culpa da Piper.
Nem pus meus pés nas escadas para os compartimentos inferiores, Annabeth fora puxada por uma corda e Beckendorf tomara rumo ao horizonte.
Quero dizer, eu acho... Talvez... Não sei, não estava prestando atenção... O que eu devia fazer mesm... Ah. Meu. Deus. Ela estava toda encharcada. Molhada dos pés a cabeça. Não parecendo se importar com praticamente toda a tripulação babando por ela. O cabelo loiro ainda com aquele brilho único mesmo opaco pela água, tornando o rosto angelical ainda mais bonito. A roupa encharcada estava totalmente grudada ao corpo perfeito e eu acho que a minha boca se abriu automaticamente enquanto ainda olhava abobado para ela. Quero dizer, Annabeth não fora nem de longe minha primeira mulher, mas fora a única ao qual eu adquiri um sentimento mais forte. Talvez pelo fato de ela ser teimosa como uma mula, não aceitando que algo fora do planejado aconteça, como se apaixonar por mim. Modéstia a parte, mas ela demorou bem mais do que as outras para falar que me ama. E isso pode parecer piegas, mas eu mudei de certa forma desde que a conheci. Não teria tido tanto esforço ou sentindo qualquer coisa em relação a isso, mas quando se trata de Annabeth parece que nunca sou bom o suficiente. Doía ficar longe dela e doía de certa forma ficar perto, mas nada nesse mundo era melhor que sentir o cheiro natural de morangos que ela tinha. Ou a pele delicada dela junto a minha e ouvir a risada de uma criança de quatro anos que ela conseguia fazer.
– Perseu! – Charlotte dera uma tapa certeiro em meu rosto, acordando-me da Annabeth Land. – Você por acaso ouviu o que eu disse?
– Hãm... – respondi mostrando toda a minha destreza e inteligência com argumentos – Acho que... Sobre alguém ser loiro...?
Ela revirou os olhos e virou o tronco para onde meus olhos estavam fixos.
Thalia havia dado à Annabeth uma toalha felpuda, acabando com minha visão do paraíso.
Desgraça de menina.
– Eu não sei você – Charlie voltou o tronco novamente para mim – mas algum dia ainda escrevo uma tese mostrando como os homens seriam seres mais evoluídos se pensassem mais em outras utilidades do que atividades corpóreas.
– O que quer dizer com isso?
– Que vocês pensam mais com a cabeça de baixo do que a de cima.
– Você é uma idiota.
Ela inclinou a cabeça e sorriu de lado.
– Ora, você sabe que me ama.
Com isso, ela desceu as escadas. A segui logo depois.
***
O Conçu se diferenciava de outros navios piratas em vários fatores.
Claro, ele era conseguia ser rápido e grande ao mesmo tempo, como um palácio ambulante com a rapidez de uma lebre. Digo, nem tanto, mas gostei da comparação. Além disso, Charlie tinha mania de limpeza. Eu sei. É estranho. Mas quando ela fica estressada e não tem ninguém para estrangular por perto ela limpa quase tudo – embora normalmente ela mate um – menos a última parte do navio. Aquela bem na poupa. Onde tem até uma escada exclusiva para chegar lá.
Em outras palavras, era uma espécie de calabouço.
O piso de madeira era ensebado, como se usassem gordura líquida em vez de água para limpá-lo. As celas eram feitas por fortes grades de ferro, porém estas perderam o lugar para mariscos nascidos não sei lá como. Sangue seco e algemas que por si só já eram armas de tortura em todas as jaulas. Não havia esqueletos ou qualquer coisa do gênero, morreu, vira comida de tubarão. Isso se a causa da morte não for esta.
Charlote pegou um molho de chaves do cinto e abriu uma das celas, entrou e fez sinal para que entrasse. Ao longo do caminho, desatei o nó e assim que passei pelas grades joguei o corpo quase inerte no chão. Quero dizer, o cara era tão magro que provavelmente se machucou mais.
– Antes de qualquer coisa – digo enquanto a observo arrastando-o sem demonstrar esforço e esticando seus braços para cima até prender os pulsos do loiro ainda sem nome nas algemas – por que mesmo está fazendo todo esse esforço?
– Deu na telha – respondeu, como se eu tivesse perguntado por que sorvete de creme e não de torta de limão. Como se sequestrar, manter preso e – o que acho bem provável – torturar um cara em um cargo alto na marinha fosse algo bem banal.
Pensei em dizer algo muito profundo, que a faria repensar seus atos e a faria ser uma pessoa melhor e menos impulsiva. Dando um conselho digno de um irmão preocupado etc.
Então disse:
– O enterro é seu.
– Não se preocupe maninho. – ela respondeu em um sorriso torto – Sei lidar muito bem de meus próprios demônios e monstros interiores.
Ela tinha razão, portando, não respondi.
– Opa – uma voz feminina rouca, dando a impressão que havia tomado umas e outras, disse da cela ao lado – Carne nova. Quem é o pobre coitado dessa vez, pequena Charlotte? Mas uma peça de sua vingança?
Ela demorou na palavra “pequena”, com o claro objetivo de irritar Charlotte.
Ela, no caso, Ariadne.
Uma mulher grega, da ilha de Creta se não me engano, na casa dos trinta, loira e com lá sua beleza, e, obviamente, com um parafuso a menos. Quero dizer, ser totalmente apaixonada – palavras dela, juro – por Dionísio deixava isso bem claro. Pelo que entendi, Lotte a “salvara” de uma prisão em Port Royal para chantagear Dionísio mais tarde. Ele sabia com a palma da mão despistar autoridades, ela sabia de alguma forma que precisaríamos dele. Ele não sabia onde Ariadne estava, e Lotte se aproveitara disso. Provavelmente mentira para ele ou contou apenas parte de verdade.
Quem barganha a vida de alguém para ganhar tempo só para entrar na América Espanhola logo abaixo do nariz de ingleses?
Um pirata.
O plano estava dando certo, até Dionísio acabar com a vida da única pessoa que realmente se importa com ele sem saber. A questão é: se você quebrar de qualquer maneira um acordo com Charlotte, esqueça o que você negociou, nunca verá novamente.
Assim que Charlotte e Annabeth voltaram da Irlanda, Lotte deixara o escritório com destino certo. Ela não havia feito nada com Ariadne, normalmente não sujava as mãos com quem não merecia, mas a deixara a par da tripulação.
Entendam como quiserem.
Pouparei vocês dos detalhes.
A consequência é o vestido desparecido, ficando apenas com uma anágua rasgada e um espartilho não muito melhor que isso; a pele suja e oleosa competia espaço com hematomas bem roxos e cortes não tão recentes já deixando suas grossas cicatrizes; o cabelo loiro parecia um ninho de rato, o liso lustroso de antes era apenas uma lembrança do passado. Além disso, também estava impertinente. Rebelde, se preferirem.
Não a culpo.
Ninguém podia fazer mais nada a ela.
Já estava no inferno.
– Ariadne não teste minha paciência – Lotte respondera como se Ariadne fosse uma mosca zumbindo em seu ouvido – Sei que matar-te a sangue frio seria um ato de piedade e infelizmente para você eu não sou tão caridosa como gostaria – ela pegou um punhal enferrujado e o girou em suas mãos – Mas respondendo sua pergunta: Octavian, Ariadne. Ariadne, Octavian. E o Jackson você já conhece.
Acenei com a cabeça para ela, que respondeu com um aceno tímido com a mão.
– Sempre gostei muito de você – ela insinuou.
– Bela tentativa – respondi.
– Sempre foi meu favorito.
– Está decaindo.
Ela bufou e se sentou. A partir daí, não mencionou mais nada.
Charlote limpou a garganta e me olhou, uma sobrancelha levantada em questionamento.
– Que foi? – digo – Precisa de plateia?
– Por aí. – ela respondeu e puxou um banquinho de madeira para frente do tal Octavian e se sentou. Logo depois, começou a falar:
– Octavian, certo? – ele assentiu fracamente, sem levantar a cabeça para olhá-la – Filho de Apolo – Charlie assoviou – Saíra de Londres aos quatorzes logo já arranjara um lugar de poder. Bela ficha. É amigo do Castellan também, pelo que sei. Mas gostaria que você me respondesse.
– Creio que já sabe a resposta, srta. Green. Pelo que entendo sobre vocês, piratas, não costumam se meter com a Marinha Real – ele tossiu sem forças, espirrando sangue pelo chão – principalmente quando se é a Marinha Real Inglesa.
– Tenho uma política diferente. – ela respondeu em um tom quase diplomático – Além disso, ando com problema com seu amigo Duque de Cambridge.
– Soube que ele te deixou viver.
– Rá! – Charlotte tombou a cabeça para trás, olhando-me logo em seguida – Ele nos deixou viver.
Sorri de lado. Não conhecia o Castellan direito – e, para falar a verdade, não ficaria muito animado com a possibilidade – mas era nítida sua arrogância. Para falar a verdade, não fiquei surpreso em saber que Luke não contara nem parte da verdade.
– Não é do nosso feitio brincar de gato e rato com um inglês do porte de Luke, — ela continuou – mas os planos dele provavelmente envolvem a mim e a minha tripulação, portando eu meio que preciso que você abra a boca.
– Vá para o inferno.
– Resposta errada.
Charlotte socou o punhal na barriga de Octavian, perto dos flancos; não o suficientemente profundo para matar, mas o suficiente para fazê-lo uivar de dor. Ela girou o punhal na ferida, fazendo-o se retorcer de dor; mesmo quando ele começara a falar, Charlie deixara o punhal onde estava.
– Apenas um golpe de estado. Casaria com a Princesa Annabeth e, mesmo que quem comandasse seria ela, Luke já tinha tudo resolvido para tal. Depois, teria ajuda de uma força maior para derrotar a França de uma vez, estava cansado de tratados de paz fajutos. Assim, com a França devastada e fora da disputa econômica, a Inglaterra seria o país mais poderoso da Europa.
– E Luke como rei seria o homem mais poderoso do Velho Mundo. – presumi.
– Essa era a ideia.
– Espera. – Charlotte levantou as mãos para o alto, pedindo tempo. Ela olhou para cima e suspirou, retirando o punhal de Octavian e dando-lhe um tempo para respirar. – Você disse com uma força maior. Castellan vai pedir ajuda ao Vaticano ou apelará para uma reza braba?
– Ele apelou a uma bruxa. – Octavian respondeu – O que não fazemos pelo poder? Enfim, ele mandou três homens irem atrás das mais poderosas. Incluindo eu. Acabei encontrando uma ruivinha, Rachel, se não me engano, tentei persuadi-la de todas as formas, até... – ele sorriu de lado. Ai que nojo. – Mas ela não cedeu. Mas uma ao norte da própria Inglaterra. Pelo que sei fora o Almirante Zhang que a encontrou. Ele não concordou com o plano, mas regras são regras.
– Bruxa ao norte da Inglaterra? – perguntei. – Qual o nome dela?
– Hazel.
No mesmo momento que ele pronunciou o “rai”, eu e Charlotte nos entreolhaos. Há uma coisa que piratas odeiam mais que qualquer coisa: motim. Traição. Da última – e única – vez que algo assim acontecera, Lotte levara o responsável para a costa nordeste de uma colônia portuguesa e o fez comer um quilo de sal em baixo de um sol tortuoso. O coração do sujeito implodiu. Ela fez isso um por um, até que todos que estavam contra ela em seu próprio navio morressem.
– Luke contatara Hazel antes ou depois do casamento?
– Depois. Ele estava receoso com isso, queria realmente que Annabeth gostasse dele. Mas a garota era inteligente, o suficiente para saber o que você está pensando assim que te olha nos olhos.
– Como assim “era”? – perguntei.
– Luke disse que vocês a mataram na frente dele. Que ela estava maltrapilha e bem mais magra que o normal. Mais um motivo para pôr toda a Europa em seu favor. – suspirou – Sentirei falta da loira, ela até que beijava bem.
Charlie segurou o riso e olhou por cima do ombro em minha direção.
Saquei a pistola na cintura e deu um tiro certeiro bem no meio das pernas dele. Octavian se retorceu todo, gritando de dor. Coloquei a arma de volta na bainha e cruzei os braços, apoiando-me nas grades novamente.
– Por que fez isso? – Octavian perguntou, sua voz mais fina que o normal.
– Deu na telha.
Ele juntou as sobrancelhas loiras sujas de sangue seco, olhando-me com olhos já mortos.
– Ela não está morta, não é mesmo, sr. Jackson? – ele sorriu de lado. – E ainda te conquistou. Está estampado em seu rosto o ciúme por ela, e apenas o doce som da palavra “Annabeth” faz seus olhos brilharem. – ele riu de desdém – Eu disse que a garota era inteligente, conseguiu colocar até um pirata como você na linha.
Sua expressão era presunçosa, como se ele esperasse outra reação precipitada e o matasse logo. Ele queria morrer. Estava claro que os motivos eram (1) parar a tortura e (2) ele não se sentir culpado por ter falado de mais.
Alguém avisa para o ser que não importa o que ele faça ele vai para o inferno de qualquer maneira.
– Os planos mudaram, não? – foi tudo o que disse.
Ele não respondeu.
Não insisti.
– Charlotte. – falei como se tivesse trocado de turno, passando a guarda para ela.
– Você ouviu. – Lotte dissera, cravando novamente o punhal em Octavian, dessa vez mais fundo. – Comece a falar.
***
Octavian acabou falando, deixando várias brechas aqui e ali, mas no fim dera para entender.
Subimos as escadas em um silêncio desconfortável, então me lembrei de algo que Ariadne disse. Que Octavian era mais uma peça na vingança de Charlotte. Era estranho pensar nisso, sabia o que significava, mas pensara que Lotte deixara isso para trás.
De qualquer forma, o melhor jeito é perguntando.
– Aquilo que Ariadne disse... – comecei, mas ela me interrompeu.
– Ariadne é louca.
– Sabe do que eu estava falando?
– Tenho minhas suspeitas.
Suspirei.
As pessoas abriam caminho para passarmos, olhando para baixo e sem parar para escutar qualquer coisa, mas só tive coragem o suficiente de pegá-la pelo braço e fazer com que ela me olhasse nos olhos quando já se podia ver o céu azul à frente.
– Já faz um ano, é pouco tempo eu sei, mas...
– Percy. – ela me encarou. O maxilar estava trincado e o corpo rígido, com a postura ereta e a cabeça para cima em desafio. Poderia amedrontar qualquer um, mas eu a conhecia bem o suficiente que em seus olhos havia quase uma súplica, como se ela soubesse que se eu insistisse ela não responderia por si, e começaria a chorar ali mesmo.
Tamborilei meus dedos em seu braço, deslizando minha mão até a sua e focalizando meu olhar nos dois anéis dourados em seu anelar esquerdo. Ela não esqueceria tão cedo.
Em um condizente silêncio, deixei-a ir.
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