Closer to the Edge
10 Conversando com a bruxa legal não tão legal assim
Notas iniciais
–84 anos, você disse. – sussurrei para Lotte, enquanto olhava para uma Hazel de, no máximo, treze anos.
–Não me pergunte – Charlotte falou. – Ela é um tanto conservada.
–Imortal é uma palavra melhor. – Hazel sorriu – Também não me pergunte como. Mas vamos ao problema de vocês.
Ela virou as costas para nós e sumiu dentro da casa.
Eu olhei para Percy, com uma sobrancelha levantada, ele simplesmente deu de ombros e entrou no casebre sem nem hesitar. Leo e Charlotte estavam logo atrás dele, Leo colocando o lampião eu um gancho perto da porta, e eles também sumiram dentro da casa. Eu ainda estava desconfiada se estar no mesmo local que a tal Hazel era bom negócio, mas entrei mesmo assim, tentando disfarçar a hesitação, fechando a porta de entrada atrás de mim.
Enquanto andava para o fim da sala, avaliei o lugar com os olhos. Era pequeno, mas eu não diria exatamente aconchegante.
Não para mim, pelo menos.
Havia armas quebradas, de espadas a balistes, nas prateleiras mais altas, como se fossem prêmios de batalha. Recipientes de vidro com coisas estavam pendurados na altura dos olhos. Quero dizer, coisas muito estranhas, como olhos – que eu realmente esperava que fossem de vidro – unhas claramente humanas, um líquido amarelado que parecia gordura e outras coisas que eu realmente não fiquei muito interessada em saber. Uma serpente, provavelmente uma jiboia, dormia tranquilamente enroscada na viga que a faca de Hazel foi parar. O cheiro do lugar era uma mistura um tanto quanto estranha de rosas recém-colhidas com um aroma fétido de sangue.
No canto noroeste do cômodo, Hazel retirou um embrulho do tamanho de um homem adulto com uma enorme mancha vermelha de cima de uma mesa redonda de madeira, colocou uma toalha roxa encardida e algumas velas e sentou-se, fazendo sinal com a mão para fazermos o mesmo.
Admito que fiquei com um certo receio de ficar perto dela, qualquer ser humano teria, havia algo nela que me parecia familiar. Por mais que ela fosse imortal, eu duvido que eu tenha visitado essa ilha algum dia antes daquele momento. Mas eu tive que engolir qualquer coisa que estivesse sentindo, manter a expressão ilegível e me juntar à roda que se formou em torno da mesa. Qualquer coisa para sair dali o mais rápido possível.
– Então, — Hazel começou – vocês querem o mapa.
– Dãã – respondeu Charlotte – Não veríamos aqui se não precisarmos de alguma coisa, Hazel, você sabe disso.
– Claro. – Hazel deu aquele tipo de sorriso que mistura uma coisa amigável com outra muito psicopata.
Alias, anotem aí: psicopatas são bipolares até nos sorriso.
Ela se levantou e se dirigiu a uma outra sala que apenas uma cortina de missangas que pareciam ossos a separava de onde estávamos.
– Eu deixei aquilo em algum lugar... – ela disse, mais para si do que para nós.
Houve alguns barulhos de vidro sendo quebrado e um miado assustado de um gato até ela voltar com o que parecia algo de madeira verde enrolado. Hazel empurrou as velas para o lado e foi abrindo com cuidado o tal mapa. Enquanto ela ia abrindo, eu percebi que no centro dele havia uma pequena ilha, talvez o nosso destino, com a rosa dos ventos bem no meio. Em volta da ilha, tinha um caminho confuso, dava para perceber que era o mar, mas havia desenhos e frases em uma língua na qual não conhecia.
Inclinei o corpo para frente para ver melhor o mapa. Assim que Hazel o abrira totalmente, ela sem querer esbarrou a mão em meu antebraço, fazendo-a arregalar os olhos dourados instantaneamente.
– Como eu não te reconheci antes? – ela perguntou, novamente mais para si do que para mim.
– Claro que me reconheceu – respondo, retirando rapidamente sua mão do meu braço. – Você disse meu nome.
– Qual o sobrenome de sua mãe? – ela insistiu, como se não tivesse ouvido o que eu disse.
– Eu não sei nem o primeiro nome dela.
Ela suspirou frustrada. Logo depois seus olhos se arregalaram novamente, o brilho em seus olhos indicava que uma ideia brotara de sua mente.
– Você é virgem?
Não acho que a ideia dela fora tão brilhante assim. Senti minhas bochechas esquentarem como fornalhas. Eu abri a boca, mas nenhum som saiu. Ao meu lado, vi de rabo de olho Percy tentar esconder um sorrisinho.
– Não. – Leo respondeu por mim.
– Com certeza não. – completou Charlotte.
– E com quem foi? – Hazel perguntou.
– Com o Percy. – Leo e Lotte responderam em uníssono, ambos deram de ombros como se isso fosse óbvio.
– É claro. – Charlotte acrescentou.
– Como assim “é claro”? – perguntou Percy, com as sobrancelhas juntas.
– Espera. – Hazel disse com um sorriso divertido nos lábios, e perguntou algo claramente dirigida à Charlotte – Você não contou a eles, não é?
Juntei as sobrancelhas, com a mesma expressão confusa de Percy, meus olhos passando de Hazel para Charlotte e de volta para Hazel.
– Contar o quê, exatamente? – perguntei
– Nada, Hazel provavelmente está confundido vocês. – os lábios de Charlotte continham um sorriso fino e calmo, mas seus olhos estavam duros como gelo.
– Ah, não! – Hazel mantinha o sorriso debochado no rosto – Eu nunca me engano, Charlotte Green. Você, mais do que ninguém, sabe disso.
– Charlie... – Percy olhou para a irmã como se mais da metade da confiança que depositara nela tivesse desaparecido em um passe de mágica – Do que ela está falando?
– Conversamos mais tarde. – Foi tudo que Charlotte disse, mas eu sabia que uma boa parte dela odiava a si mesma por omitir e esconder algo do irmão (o que quer que seja) e dava para ver em seu olhar que se não fosse pelo mapa Hazel já estaria morta e enterrada a sete palmos. – Faça o que tem que fazer Levesque.
A bruxa suspirou desapontada, com seu divertimento de tentar irritar Charlotte não dera o que ela provavelmente queria, ela torceu o nariz e fechou os olhos, começando uma cantiga em uma língua que para mim era extraterrestre.
– O que ela está falando? – sussurrei para Percy.
Ele fez um movimento singelo com os ombros.
– Não sei falar feiticêires.
– Cthniano. – corrigiu Charlotte.
– Feiticêires. – Percy teimou, fazendo a irmã revirar levemente os olhos.
– Pronto. – Hazel anunciou.
O mapa em na mudou, para falar a verdade, somente às frases sem sentido mudaram de idioma – mudou para latim – e mesmo eu entendo as palavras, as frases não tinham o menor sentido. Fora isso, ele tinha um leve brilho azul pairando acima do círculo como poeira em moveis, o que estranhamente o fazia parecer mais sólido.
Hazel enrolou novamente o mapa e o entregou a Charlotte, que pegou uma bolsinha de moedas do cinto e jogou para Hazel, essa que pegou a bolsinha em pleno ar.
Eu dei um suspiro de alívio quando me levantei, estávamos quase livres. É pra igreja glorificar de pé. AMÉM, irmãos?!
Aliás, o Leo me paga. A bruxa legal dele não era tão legal assim. O que eu disse sobre a pimenta malagueta?
– Percy e Annabeth. – Hazel pronunciou, eu murmurei um “droga” e me virei para ela, que estava com uma expressão pensativa, como se ela tivesse falado novamente para si. – Percyanna? Não, seria ridículo. Annercy? Argh, credo. Percabeth...? Ah! Sim. Perfeito.
Ela piscou para nós. Eu e Percy nos entreolhamos, ele levantou as sobrancelhas em uma perfeita expressão de “esquece”. Eu ia dizer algo, mas preferi ficar quieta e apreciar esse momento de liberdade.
– Ah, e Charlotte... – Hazel chamou.
Adeus sensação de liberdade.
Lotte fechou os olhos, provavelmente procurando a pouca paciência que tinha, e se virou para Hazel, essa que continuou:
–Você não está mais no controle. A Inglaterra não tem mais piedade nem de uma criança, se essa for pirata ou descendente de um. As coisas mudaram. O mundo mudou.
– O mundo não mudou, Levesque. Só há menos razões para se viver nele.
***
– LATIM?! VOCÊS AGUENTARAM AQUELA MALUCA ESSE TEMPO TODO PARA ELA ENTREGAR UM MAPA EM LATIM?!
Malcolm, um garoto estranhamente parecido comigo e que era o melhor cartografo dali, estava praticamente em pânico por encontrar o primeiro mapa que não conseguia ler. O escritório agora estava com a grande maioria das cadeiras ocupadas por membros da tripulação. A mesa agora estava limpa, somente com o mapa no centro dela.
Eu olhei para as janelas, já havia anoitecido e não dava para saber onde a ilha escura estava, aliás, nem dava para saber a diferença entre o céu noturno e o mar.
– Vocês já estiverem nessa ilha, certo? – perguntou Piper. – Então porque é preciso de um novo mapa sempre?
– Porque a ilha muda de lugar sempre. – Charlotte respondeu. – Idiota.
Charlotte como sempre muito sentimental.
Piper preferiu não dizer nada, nem ao menos lançou um olhar mortal para Lotte, ela dava valor à vida e era a garota mais inocente que eu já havia conhecido.
– Bem, — comecei, eu provavelmente era a única ali que sabia o mínimo de latim e já havia percebido que o mapa continha vários círculos, como camadas, provavelmente podíamos girar até alguma frase ou desenhos fazer sentido. – Eu sei um pouco de latim.
Puxei o mapa para a minha direção, tentando ler o que havia escrito, e comecei a por o meu plano em ação. Empurrei levemente a primeira camada para direita, para ver se ela mexia, e, como eu pensava, ela realmente se mexeu sem eu precisar de muito esforço. Eu girava ansiosamente por uma frase que prestasse nos círculos, e somente uma se mostrou válida:
– Decurritur ad affligendum te redit daemones – murmurei, aí eu me lembrei de que era a única que entendia isso, então falei mais alto em inglês: — Os demônios do passado voltarão para te atormentar. – girei a terceira camada, mas percebi que somente a frase que acabara de falar estava visível. – Onde, exatamente, estamos indo? Quero dizer, essa ilha aparece em qualquer mar que der na telha ou...?
– Não. – respondeu Percy. – Somente no mar do Caribe.
Ele apontou para a palavra “Caribean” em um tom de ferrugem quase ilegível no canto superior do mapa.
– Eu amo aquele lugar. – murmurou Leo. – Os ingleses estão tão ocupados com o começo da revolução para a independência que está acontecendo nas Treze Colônias que nem repara na gente. Genial.
Malcolm puxou o mapa de volta para perto dele, ele parecia ver onde se localizava a frase.
– Bem, alguém vai rever os demônios do passado perto da Flórida. – disse ele com um tom de sarcasmo.
Charlotte estava com um olhar distante, mas pareceu voltar à realidade:
– Bem, hoje foi um longo dia. Amanhã vai ser nossa última parada antes de seguirmos para alto mar. É. Durmam.
Todos foram saindo aos poucos. Mas eu continuei sentada, até ter finalmente coragem para perguntar:
– O que a Hazel disse, sobre eu e o Percy, o que você sabe?
Charlotte não olhava para mim. A expressão distante voltara ao seu rosto.
– Não é nada. Você viu, Hazel é maluca.
– Ela não me pareceu maluca.
– Annabeth, não vamos desenterrar algo antigo. – ela suspirou.
– Os demônios do passado... A frase no mapa é para você, não é? – perguntei, quando nenhuma resposta veio, eu me levantei e perguntei novamente.
– Eu não sei. – ela respondeu derrotada. – A única coisa que posso dizer é que não quero meu irmão morto.
***
Percy estava apoiado no batente da porta, na verdade, ele estava sentado como se estivesse criando coragem para pular no mar.
– Por favor, não me diga que quer se suicidar.
Ele sorriu e olhou para mim, ainda estava com as mesmas roupas de hoje de manhã e estava com um olhar cansado, como se tivesse corrido uma maratona psicologicamente.
– Não. Com certeza não. – e voltou o olhar para o mar calmo.
Eu me aproximei silenciosamente dele, me sentando ao seu lado tomando cuidado para não cair.
– Ontem... – comecei, já sentindo as bochechas esquentando – Bem... O que foi aquilo?
– Sexo. – ele disse simplesmente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, e na verdade era mesmo.
– Não foi isso que quis dizer, Cabeça de Alga.
Ele pareceu levar um certo tempo para entender. O que não me surpreendera muito. O cérebro do Percy às vezes parece ser uma manivela enferrujada rodada por um hamster gordo.
– Ah, você quer saber o que eu senti, certo? – assenti, e ele sorriu timidamente quando disse: — Se eu falasse que foi a melhor noite da minha vida você acreditaria?
– Acreditaria.
Senti meu coração se despedaçar. Eu sabia que o que Charlotte falara no escritório tinha algo a ver comigo e com Percy. Eu também não podia deixa-lo morrer.
– Aonde você quer chegar, Annabeth? – ele perguntou, seus olhos incrivelmente verde-mar pareciam varrer minha alma procurando tudo que podia saber sobre mim.
Eu mordi meu lábio inferior e senti o resto do meu coração se despedaçar quando pronunciei:
– Que devíamos esquecer qualquer coisa que tenha acontecido naquela noite.
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