Closer to the Edge
21 Animais em geral
Notas iniciais
Grover voltara com a água em uma garrafinha um tempo depois. Ele vagou mais um pouco pelos arredores até voltar com um punhado de folhas, misturando a água e fazendo uma gosma verde.
Era nojento e o cheiro causava ânsia de vômito, mas engoli qualquer coisa que poderia sair.
Grover fez Percy engolir toda a gosma e, surpreendentemente, ele não tentou por tudo para fora nem uma só vez. Fiquei ao lado de ele, lavando seus ferimentos e pondo ataduras adequadamente. Ele começou a ficar mais pálido, mas a expressão de Grover disse-me que eu não precisava me preocupar. Aparentemente, era para ser assim mesmo.
– Pronto – anunciou Grover, assim que acabei com as ataduras.
Percy se apoiara na árvore e se levantou, seu rosto começara há ficar um pouco verde.
– Creio que seja melhor... – comecei, mas Grover me interrompeu.
– O médico disse para não discutir.
– Que médico? – Percy voltou o olhar para ele.
– Eu. – ele deu de ombros.
Percy não respondera. Apenas se apoiou nas árvores e andara como um bêbado.
– Ei. – Grover disse. – Preciso pegar algo.
Antes que pudéssemos falar qualquer coisa, Grover adentrou no meio das árvores e voltara pouco tempo depois com um pacote bege e rosa nos braços. Quando ele chegou mais perto, o pacote levantou a cabeça e olhou para mim com olhos negros brilhantes.
Ele segurava um beagle de orelhas caídas, lacinho rosa no pescoço e um vestidinho de renda rosa. Parecia um filhote pelo tamanho, mas assim que pôs os olhos em Percy começara a latim e rosnar assustadoramente. Um pensamento de um beagle cor-de-rosa correndo atrás de um Percy desesperado me fez rir um pouco.
– Eu vou ter medo de perguntar, — Percy murmurou – mas porque você pegou isso?
– Bem, porque beagles são cães de caça. – Grover explicou como se fosse bem óbvio – E eles caçam piratas...
– De novo: por que você trouxe isso? – insistiu Percy.
– Porque, gênio, ele pode nos levar ao caminho certo. – respondeu Grover, já impaciente – Pois, caso o senhor não percebeu, os cães de Rachel nos levaram para fora da trilha. Então, se acaso tenha uma ideia melhor, fale agora. – ele não respondera. – Além disso, não é “isso”, o nome dela é... – Grover olhou para cima, depois esticou os braços com a beagle nas mãos, logo depois, aninhou-a novamente – Gladiola.
Percy juntou as sobrancelhas.
– Como sabe que é uma garota?
– Talvez o vestido cor-de-rosa tenha dado uma dica – supus, o sarcasmo disfarçado.
– Diga olá para ela. – Grover ordenou.
Percy fez uma expressão teimosa, como se nem sob tortura ele falaria com Gladiola.
Sinceramente, acharia isso maluquice. Que Grover estava com um parafuso a menos. Mas o único jeito de nos orientarmos é com um olfato melhor que o nosso, e ele tinha razão, beagles são naturalmente cães de caça, mesmo sem treinamento Gladiola poderia nos fazer achar o Conçu.
– Olá, Beagle Cor-de-Rosa. – disse.
Gladiola parara de rosnar um pouco, mas seus olhos voltaram para Percy e ela tornou a latir ameaçadoramente.
– Eu não vou dizer “olá” para essa coisa. – teimou.
Revirei os olhos.
– Percy, eu disse olá ao beagle cor-de-rosa. Diga olá ao beagle.
Grover esticou os braços novamente, fazendo com que Gladiola ficasse frente a frente com Percy. Ela voltou a rosnar, mas não tentava sair das mãos de Grover, então o mais assustador que ela conseguiu fora a espuma que começara a sair de sua boca.
Percy olhou para ela por longos 20 segundos, provavelmente revendo seus valores de que falar com cães era maluquice, mas no fim ele revirou os olhos e disse olá para o beagle cor-de-rosa.
Grover explicara que havia a encontrado mancando a procura de água e, como uma vez ambientalista sempre ambientalista, Grover dera água para ela e dera um jeito na pata quebrada. Ele mostrou o curativo precário, porem ajutório, na pata esquerda dianteira dela. Gladiola também tinha um pingente no lacinho, que dizia que ela era de uma família endieirada da região, mas pelo visto ninguém dera falta dela até agora. A única coisa que havia no pingente era o endereço.
– Posso ficar com ela? – Grover pediu, pulando como uma criança.
– Pirou? – Percy respondeu de imediato.
– Mas que tem? – Grover respondera – Frank tem uma fuinha, UMA FUINHA; Nico e Bianca têm uma serpente; Hefesto tem um macaco, que eu sinceramente acho que é até pior que a fuinha; e Beckendorf já teve um papagaio. Além disso, Rachel tem esses cães. – ele apontou com a cabeça para os cães, que, como crias da magia, estavam sumindo em forma de poeira dourada. – Porque eu não posso ter um cachorro?
– Porque todos tem uma utilidade no nosso mundo. – Percy retrucou – Beagles são feitos para caça de coelhos, raposas e... – ele apontou para si mesmo. – Você aguenta a perda.
Grover ficou olhando para ele com a mandíbula trincada. Mas pouco tempo depois revirou os olhos e deu de ombros.
– Então Gladiola nos levará para o caminho certo – disse em meu melhor tom de estrategista – A deixamos em algum lugar ao qual possam encontra-la, achamos o Conçu e zarpamos para o Caribe. Simples.
Eles se entreolharam e assentiram, em concordância com meu plano.
***
Gladiola se perdeu algumas vezes quando voltamos à parte da trilha cheia de lama, mas ela logo achara o caminho certo. Sua pata ainda estava ruim e ela mancava ligeiramente, mas conseguia se manter de pé, embora eu a segurava de vez em quando, para dar um descanso a garota.
Percy também aparentava uma melhora, porem continuava a se apoiar quando precisava.
Quando chegamos à parte rural, com estrada de terra batida e areia levantando a qualquer movimento, já conseguíamos nos guiar sem dificuldade. Mas resolvi segurar Gladiola até chegarmos ao menos na parte urbana da cidade.
Fora basicamente a mesma coisa: chega à cidade e despistávamos os guardas. Sério, me pergunto como conseguiram apanhar aqueles três piratas do penhasco, ou se mataram três inocentes e colocaram roupas da pirataria. Eu não sei, Pode-se ter feito qualquer coisa.
Deixara Gladiola na rua que constava no pingente e segui com o plano.
Assim que chegamos perto do caís, a confusão sobre o Descobridor continuara, o que fez tem o triplo de guardas por todo lado.
Ouviu-se uma mordida acima de nós, e logo depois uma voz bem conhecida:
– Ah isso vai ser divertido.
Nós três olhamos para a fonte ao mesmo tempo, espadas em punho e pistolas na outra mão, mas não era necessário. Estava com uma maçã verde em mãos, com uma única mordida. Não parecia que o dono da casa onde ela estava pareceu se importar, mas, provavelmente, ele não viveu por muito tempo para discutir.
– O triplo de guardas, quatro piratas... – Charlotte sorriu, mordendo novamente a maçã – Querem complicar um pouco mais?
– E isso é possível? – Percy perguntou cético.
A morena sorriu de lado.
– Onde está o Comodoro?
Percy juntou as sobrancelhas, olhando novamente para o caís.
– Charlotte o que você fez?
– Os demônios do passado vão voltar para te atormentar – ela recitou, olhando fixamente para o horizonte – Bem, é um ser do inferno mesmo. – ela se abaixou e jogou um saco relativamente grande para nós, que tivemos que dar um passo para trás para que não caísse em cima de nós. Era impressão minha ou o saco estava respirando? – Mas o demônio não é só meu.
Ela me olhou não fixamente que não precisava falar mais nada.
Agachei-me e desatei o nó, abrindo o pacote e quase pulando de susto.
– Só pode estar de brincadeira. – falei com dentes trincados.
Dentro dele, estava um garoto franzino, branquelo e com cabelos lisos caindo nos olhos. A pele branca contrastava com os hematomas nos olhos e na bochecha magra, o nariz sangrava e a boca tinha um corte feio. A gola da blusa branca estava ensanguentada. Ele estava diferente, mas eu não esqueceria um ser tão repugnante como ele.
Senti algo cair ao meu lado, mas Charlotte caía como um gato.
– O que você quer com ele? – perguntei.
– Preocupada? – ela comentou, seu tom idêntico ao meu com Rachel.
– Nem um pouco – respondi. – Mas o que você quer com ele?
– Vingança. – ela respondeu. – Óbvio.
– Bem, pelo visto você já o encarou.
– Foi o único que conseguiu me prender. – ela deu de ombros – E chegou a meu ouvido que esse maldito ainda insiste em lembrar esse feito. Claro, há outras coisas também. Não é apenas por isso porém ninguém mandou se meter no meu caminho.
– Vai leva-lo? – perguntei.
– Não ficou óbvio? – ela respondeu, seu sorriso torto nem se deu ao luxo de se esconder – Em Tortuga as coisas ficam bem melhores.
– Tortuga? – ele sussurrou, como se doesse falar.
Charlotte abaixou os olhos, em uma expressão de falsa piedade.
– Não se preocupe querido. – Charlotte sorriu. – Um traste como você não merece muita atenção. – ela olhou para nós – Percy e Grover, levem esse troço – disse do mesmo momento em que atara o nó firmemente – Chase, despiste os guardas.
– Eu o quê? – arregalei os olhos instantaneamente.
– Você me ouviu. Se algo der errado, você resolva.
Ela o jogou com uma facilidade sobre humana para Percy e Grover, que seguraram com a mesma facilidade. Levantei-me e dei tapinhas na calça para retirar a areia, suspirei e olhei para o caís. Despistar os guardas não era a coisa mais simples no mundo quando se estava vestida daquela maneira, e também não entendia como o temperamento de Charlotte estava extremamente implicante, mas resolvi que seria melhor pensar em algo melhor.
Percy e Grover foram à frente, se escondendo da melhor forma com o corpo quase morto. Charlotte nem ao menos se importou, só havia grupos de pessoas aqui e ali, mas todas estavam se importando mais com suas compras e afazeres.
Os três contornaram as casas até não poder mais vê-los.
Logo depois, os segui.
***
Uma coisa engraçada sobre se esconder de autoridades é que você deve estabelecer um plano. Uma prioridade. Chame como quiser.
De qualquer forma, meu plano era chegar ao caís sem ter que precisar encontrar algum guarda, ou qualquer um que possa gritar por alguma autoridade maior. Mas quando se entra em um mundo novo, você deve esperar o inesperado.
Não demorara muito para que eu chegasse ao caís, de onde estava conseguia ter uma visão do que estava acontecendo. Percy, Grover e Charlotte foram pelo mar mesmo. Não a nado. Consegui vê-los se escondendo dentro de um bote de madeira, a poupa para cima, de forma que iriam conseguir ter ar mesmo dentro d’água.
Avaliei onde me encontrava, abaixo de uma ponte de pedra, onde conseguia ouvir os passos das pessoas andando logo acima de mim. O rio era raso e parecia se misturar a água salgada. A cidade se abria logo depois da ponte, e a minha frente o caís lotado. E, se olhasse para o mar aberto, logo depois de falanges de pedra, conseguia ver o Couçu.
Ainda me admirava como um navio daquele porte conseguia se esconder bem abaixo do nariz da Inglaterra, em uma cidade em construção de sua própria colônia.
Olhei para os lados e corri o mais rápido que pude para o outro lado, esperando obter uma altura favorável para pular, já que não podida me dar o luxo de ficar mais tempo ali.
– Senhorita. – uma voz aguda falou às minhas costas. – Pessoas da sua espécie não podem trafegar sobre essa terra.
Fiz uma careta sobre a ordem imposta pelo ser e me virei. Eram dois homens com espingardas nas mãos e casaca vermelha, aquelas meias brancas até o joelho com sapatos com fivelas na frente, aqueles chapéus que pareciam barquinhos de papel e por baixo as perucas com um rabinho-de-cavalo preso a uma fita vermelha.
– Como? – respondi com o tom mais sínico que conseguira.
– Para melhor nos expressarmos, melhor a senhorita vir conosco sem discussão. – disse o mais alto.
– Ah sim. – respondi, logo pensando em algo para escapar dali. Atirar? Não. Espada? Nhá. Enrolar? É, poderia tentar. – Mas eu percebi que algo aconteceu naquele caís e eu acho que cavalheiros como vocês... – disse, chegando mais perto deles – deveriam estar lá em vez de estar nesse pedaço de terra ingrato da praia, não acho que é uma obrigação digna de senhores como vocês. Ou, até mesmo – continuei, alisando a casaca de ambos – que deveriam estar em patentes melhores.
– Olha... – o mais baixo começou, mas logo foi interrompido pelo mais alto.
– Ela tem razão. – hesitou um pouco, mas eu concordei com a cabeça em um sinal de incentivo. – Há piores que nós, porque estamos aqui?
– Porque o Comodoro mandou, idiota.
Lembrei-me do homem no saco, e Percy procurando o Comodoro sem sucesso.
– E onde o responsável está? – perguntei – Digo, não estou vendo o Comodoro por aqui.
Eles se entreolharam e tornaram o olhar para o caís, procurando seu comandante sem sucesso. Ambos arregalaram os olhos e correram desengonçadamente para o caís, gritando que o Comodoro sumiu e segurando os chapéus para que não voassem. No meio do caminho, perceberem o que fizeram e correram novamente para mim, a tempo de eu dar um thauzinho com a mão e mergulhar em água cristalina.
Fale com o autor