Closer to the Edge
24 Alívio
Notas iniciais
P. o. V Annabeth
Ancoramos na manhã seguinte em Tortugas, a famosa ilha pirata.
Acho que deveria lhes dizer o que é Tortugas: do mesmíssimo jeito que os vikings ansiavam por descobrir o ninho dos dragões — ou invadir Roma, tanto faz – a marinha britânica anseia pelo dia ao qual tacaria fogo e mandaria para o inferno todos os pecadores que ali abitam.
Muitos voltavam com uma desculpa – os perdemos, quando seguiam piratas a fim de procura-la. Acabamos em uma tempestade, quando seguiam em águas tortuosas. Houve uma vez que disseram que tartarugas-marinhas amaldiçoadas quiseram comê-los, lembro-me que caí na gargalhada ao ouvir esta – mas, convenhamos, já sabemos o real motivo de porque nunca nenhum homem do mar voltara com a notícia de que havia encontrado Tortugas, ou que a ao menos voltasse com vida de tal aventura.
É preciso encontrar o mapa certo e atualizado, já que o pedaço de terra ao qual falo muda de lugar a cada quatro luas. Ter raciocínio rápido para desvendar as pequenas profecias descritas no mapa. E, mais do que isso, enfrentar os acontecimentos de sua grande maioria desastrosa que vem logo a seguir.
Além disso, ainda havia uma barreira – uma muralha, se assim preferirem – fincada nos bancos de areia há 500 quilômetros de distância da costa. Tinha, pelo menos, altura o suficiente para que, se caíssem, derrubariam qualquer navio. Talvez fora construída já que não era como a grande maioria das ilhas no Caribe: não tinha o recife em volta de sua costa como proteção natural.
– Ali é onde os canhões ficam – Percy sinalizou para um pouco acima de onde as ondas batiam, demorei um pouco até percebê-los, estavam camuflados em meio às pedras – a Muralha Dioses é oca por dentro, eu acho que você imagina do por que, e contorna toda a ilha. – ele juntou as sobrancelhas – Acaso você esteja se perguntando do porque estou falando isso... Bem, creio que você gostaria de um pouco da nossa arquitetura.
– Acredito eu que há somente estilos arquitetônicos de países e tempos. Para mim, arquitetura é algo universal e imortal. – percebi que havia falado como uma intelectual metida falaria qual é o material que usa para fazer pães a um ignorante qualquer: da maneira mais imponente impossível. Sabia que quando fazia algo assim deixava Percy e qualquer um levemente incomodado ou irritado, afinal, quando me pronunciava assim deixava minhas raízes reais expostas. Portanto, sorri para ele logo depois: – mas, sim, adorei como conseguiram fincar madeira e pedra na areia mesmo tão longe da costa.
Percy sorriu e balançou a cabeça;
Eu não havia percebido o quanto ele estava bonito até então, digo, o Cabeça de Alga era irritadamente atraente, mas naquela manhã ele estava tão irresistível que parecia covardia.
Seus olhos pareciam mais verdes que o normal, como se o mar do caribe tivesse dado cor a eles. O sorriso parecia mais brilhante também e toda vez que ele lançava um para mim lembrava-me o de uma pequena criança, muito embora com seus dedos roçando todo o lado do meu corpo, indo de onde o cós da calça pega até o lado dos meus seios e ainda por cima por de baixo da blusa, bem, apenas digamos que o que eu pensava em fazer com ele não era da mesma inocência. Os cabelos estavam rebeldes como sempre, creio que não dá pra ajeitar aquilo. Vestia quase as mesmas roupas de quando o conheci, tirando que estava com um colete fino cinza com a blusa branca aberta em baixo e o casaco de couro castanho; além disso, tento de admitir que ele fica uma graça com lenço vermelho.
Uma verdade ao qual ninguém pode negar é que voltar para casa muda com a pessoa de um jeito bom.
– Talvez, só talvez, apreciaria muito mais o que irei ver se alguém parasse com uma mão inconveniente – digo, rangendo os dentes e dando-lhe uma tapa em sua mão.
Ele riu. Cretino. Mas tirou a mão de dentro daminha blusa. Continua cretino.
– Não tenho culpa se você está com uma blusa que realça minha perdição, minha cara. – ele olhou descaradamente para a blusa de pregas na parte do busto, exatamente para as pregas. – Além disso, está praticamente me torturando, senhorita Chase. Sinceramente se continuarmos assim esquecei até do seu gemido.
Abafei minha constrangedora risada com uma mão e balancei a cabeça.
– Às vezes parece que você não sabe que tudo fica bem melhor quando o sol se põe. – digo, o puxando pela nuca até selar meus lábios com os dele.
Mordi seu lábio e tracei uma trilha de mordidas e beijos pelo seu pescoço.
– Parece-me que alguém não é tão inocente assim. – ele comentou ao meu ouvido.
Sorri contra sua pele e meu sorriso se expandiu quando percebi que seus pelos estavam eriçados. Fiz outra trilha, dessa vez só deslizando meu lábio, até sua orelha e sussurrei:
– O lado bom de parecer ou ser santa é que ninguém espera sua maldade. – mordi seu lóbulo logo em seguida e afastei-me dele – Além disso, quem me corrompeu fora você, senhor Jackson, não reclame.
– E quem está reclamando qualquer coisa aqui, senhorita Chase? – Percy sorriu e o sorriso torto permaneceu mesmo com um solavanco do navio, mas percebi com alivio que era só a âncora fincando-se na terra. – Seja bem vinda à Tortugas, senhorita, não repare na bagunça.
***
Já ouvira dizer que quem nunca sentiu o doce odor de Tortugas não era realmente um pirata. Mas se cheiro de bebidas, orgias e peixe estragado era necessário para ser um pirata então só bastava você ir a qualquer porto de esquina.
A cidade, se é que posso chama-la assim, era de sua grande maioria feita de madeira. Do cais de uma maneira que rangia sobre meus pés, com uma fileira de navios, todos com velas negras, podia-se ver o caus. Homens rodeados por mulheres ou por bebidas – ou até mesmo os dois – praticamente brotavam da terra aqui e ali. Sendo expulsos de bares – aliás, que mais tinha ali eram botecos, bares e bordeis – deixados na terra e bebendo vinho direto de barris furados; mulheres com espartilhos apertadíssimos, quase com os seios para fora, se misturavam em bandos e de vez em sempre uma era tirada do grupo e entrava em algum lugar com um homem.
Basicamente, essa fora minha visão do que é Tortugas em menos de trinta minutos e ainda estando no caís. Não estava tão animada assim para adentrar nela.
– Estar em casa não é reconfortante? – Percy suspirou ao meu lado – Se todas as cidades fossem como Tortugas nenhuma pessoa se sentiria indesejada.
Arqueei uma sobrancelha e o olhei de lado.
– Você ainda tem a cara de pau de me falar isso?
Percy precisou pensar um pouco.
– Te preparando para o pior.
Revirei os olhos e me virei para frente, assim que fiz isso, preferiria nem ter feito.
Uma garota com, o que?, quinze ou dezesseis anos vinha em nossa direção com um sorriso enorme e olhando diretamente para Percy. Ela era extremamente magra e o espartilho apertado realçava o que não tinha. O cabelo caramelo estava em um nó trançado acima da cabeça; a maquiagem era pouca, porém o batom vermelho estava borrado e eu não queria saber onde a boca dela passou para estar daquele jeito. O vestido floral estava sujo nas pontas, aliás, estava sujo em todas as partes, porém algumas eram manchas... Esbranquiçadas. O pensamento do que poderia ser aquilo me fez ter ânsias de vômito.
– Deitava-se com ela? – perguntei o óbvio, ainda com a careta de nojo.
– Uhuum. – ele concordou – Não que eu tenha orgulho disso.
– Não estou pensando se você gostaria de fazer isso de novo, estou perguntando como ela não partiu ao meio dormindo com você. – recebi uma risada em resposta, mas não ao acompanhei. – Antes que ela te agarre qual o nome da desnutrida?
– É alguma dança latina... – ele parou de rir e entortou o queixo – Merengue? Não. Flamenco?... – antes que ele pudesse dizer qual era o nome da Merengue Desnutrida, a dita cuja jogou os braços em seu pescoço com um gritinho de felicidade. Ai que vontade de vomitar. – Oi... – Percy disse quase sem ar com o impacto surpresa — ...Calipso.
– Ora vejam só! – ela sorriu e se afastou dele, não o suficiente quanto eu queria. Meu nariz se infestou do cheiro de canela enjoativo vindo dela – Parece que alguém lembrou meu nome mesmo sem eu precisar falar.
Mordi meu lábio para engolir o riso.
– Pois é. – Percy afirmou, sua expressão era uma mistura de constrangimento e aquela cara que fazemos quando somos obrigados a falar com alguém que a gente não gosta – Hãm, Calipso essa é Annabeth... – ele gesticulou em minha direção, Calipso olhou para mim com o mínimo de vontade possível. -... E Calipso essa é a Annabeth.
Calipso deu um sorriso forçado e esticou a mão em minha direção.
– Sou Calipso Atlas, — disse assim que apertara minha mão – mas também sou o grande e se do Percyto aqui.
Arqueei uma sobrancelha para Percy, ele estava mais constrangido agora, mas tentava não rir. Seu olhar para mim era algo que eu pude decifrar como ”por favor, não soca o rosto dela por mais que você queira”.
Resolvi que pensaria no caso.
– Grande “e se”? – perguntei.
– É. – Calipso concordou com um sorriso – Assim que ele perceber que eu sou muito melhor do que ficar perdido no mar, — seu tom era de indireta, mas Percy concordava porque estava claro que ele queria ver o que eu iria fazer. Socar a cara dela, dar uma voadora, ainda não me decidi. — ele volta para mim, para sempre.
– Então quer dizer que se ele não achar coisa melhor ele vai ficar com o que sobrar, no caso, você.
Calipso ficara com a boca entreaberta, finalmente se desgrudando do Jackson.
– Como é...?
– Fora isso que ouviu – respondi, sorrindo – querida.
– Perdoe-me, mas quem você pensa que é?
– Noiva dele. – não era totalmente verdade, mas como agíamos como tal, uma mentira dessas passaria ser verdade aos olhos de quem vê.
– Ah, é? – ela pôs as mãos na cintura – E cadê seu anel?
– Quem precisa de uma aliança quando se tem isto? – girei o colar que pertencia à mãe de Percy, não o tirei de meu pescoço desde que ele me dera.
Calipso parecia querer chorar, mas juntou o resto da sua dignidade e saiu batendo o pé. Gostaria imensamente de vê-la quebrando a madeira sobre seus pés e afundar na água.
Cruel, mas engraçado.
– Mais alguma? – perguntei, cruzando os braços.
– Atrás de você, — ele respondeu – futura Sra. Jackson.
Ignorei seu último comentário.
Suspirei pesadamente e me virei, a tempo de ver uma chinesa, japonesa ou o que quer que seja vindo em nossa direção. Já não me afeiçoei a ela no momento em que era extremamente parecida com a minha madrasta, e o fato de ela ser mais uma pedra no sapato não ajudava. O cabelo preto estava do mesmo jeito que o de Calipso; conseguia ser mais magra do que a Merengue Desnutrida, se é que era possível. Seu rosto estava mais branco do que o resto do corpo e o tanto de maquiagem que tinha nele fazia-me lembrar de gueixas japonesas, aliás, seu vestido tinha desenhos japoneses.
– Nome? – perguntei.
– Dorota... Não. Denise. Não, também não é isso.
– É Drew. – a garota asiática parou ao meu lado.
– Sim. – Percy sorriu – Drew.
A tal Drew o olhava com veneno no olhar, daria até medo se sua careta não fosse engraçada. O nariz estava entortado e ela fazia um bico de indignação e, considerando a sua maquiagem, sua imagem me daria pesadelos.
– Quem era ela? – ela acenou para trás, em direção à Calipso.
– Ela q... – antes que ele pudesse continuar o que quer que fosse dizer, Drew dera uma tapa em seu rosto, daqueles de estalar virar a pessoa ao contrário.
Depois, ela pareceu engolir o choro e andar com o nariz lá em cima para fora do caís.
–Acho que eu não mereci essa. – Percy massageou a bochecha.
– Mereceu sim, — digo – até porque se ela não tivesse feito isso eu teria feito.
– Mas o que foi que eu fiz?
– Seu grande e se. – digo, tentando não parecer enciumada.
– Ora, por favor – ele diz, se aproximando de mim – Calipso pode até ter sido meu grande e se, mas você sempre vai ser minha grande certeza.
Suspirei profundamente pelo nariz, idiotice ficar com raiva de algo que ele fez ou falara até antes de me conhecer.
– Rachel, Drew, Calipso... – digo antes de virar o rosto para ele não me beijar – preciso conhecer mais alguma?
Percy abriu a boca para falar algo, mas Charlotte o gritara.
– Por favor, será que eu posso falar com vocês sem ter que impedir que vocês se comam em público? – ela estava com um misto de indignação e tédio, balançando a cabeça logo depois. –Santo Deus, o que foi isso na sua bochecha? – Lotte aparentava estar levemente preocupada, juntando as sobrancelhas e fazendo uma expressão como se pudesse sentir a tapa.
Percy se afastou e Charlotte pegou seu rosto, examinando melhor. Drew era magrela, mas seu tapa deixara uma bela marca avermelhada, ficou até a marca dos dedos.
– Drew. – ele respondeu.
– Bem feito. – ela disse, empurrando a cabeça do irmão para trás – Mas agora eu preciso que você fale com Quíron, nossa madrasta pedira para que assim que chegarmos a avisasse.
– Espera, — digo, juntando as sobrancelhas – Quíron? Alto como se estivesse em um cavalo, moreno, barbudo, bom de arco e flecha...
– Esse mesmo. – Percy concordou. – O conhece?
– Ele era meu professor até os cinco, depois fora condenado por traição ou alguma coisa do gênero, de qualquer forma ele foi condenado à prisão perpétua, mas fugira cinco dias depois. – respondo. Para falar a verdade Quíron era um tipo de pessoa que eu considerava da família, como aquele tio distante que sempre se apresenta com um sorriso e com um presente para você. – Agora, entendo a, abre aspas, traição.
– Ele é algo perto de secretário do nosso pai e da nossa madrasta. – Charlotte disse – Além disso, — ela acenou com a cabeça para o horizonte – advinha quem está chegando.
Um navio totalmente negro, digo, todo negro mesmo. Das velas furadas até a madeira, a única coisa que não era da cor escura era o nome entalhado em prata, ao qual não conseguia distinguir porque o sol se refletia nele.
Percy limpou a garganta, ficara pálido repentinamente.
– Acho que...
– Até logo. – Lotte disse, seu sorriso de divertimento era algo inexplicável até então – Annabeth, querida, preciso que fique.
Assenti e continuei onde estava, Percy dera um beijo em minha bochecha e saíra disparado, no minuto seguinte não conseguia vê-lo entre a multidão de homens bêbados.
O navio negro chegara mais perto à costa e pude decifrar seu nome.
– Dumort? – perguntei, levantando a sobrancelha para Charlotte – Navio de morte?
Ela balançou a cabeça em consentimento, suspirando pelo nariz logo depois.
– E quem disse que os Di Angelo não têm senso de humor?
***
– Os Di Angelo? – perguntei – Bianca e Nicholas Di Angelo?
– Esses mesmo. – ela respondeu, mexendo em seu medalhão de ouro – Saqueadores excelentes, assassinos cruéis, ótimos amantes italianos e ressuscitadores de mortos em tempo integral.
– Pessoas agradáveis – comentei.
– São meios-irmãos de Hazel. – algo em sua voz quando pronunciara o nome da bruxa com um parafuso solto como se quisesse que ela morresse ao pronunciar seu nome – São mais admiráveis do que a irmã, prometo.
– Mas ela não é imortal?
Charlotte suspirou e, se não me engano, ouvi um “infelizmente” no meio do suspiro.
– Longa história. Resumo básico: meu avô, Cronos, casara com uma feiticeira e ela deu o poder de imortalidade para o filho mais velho, Hades e para o marido, os outros filhos vieram bem depois e continuaram mortais. Depois de um tempo Cronos se tornara mal de verdade, sem nenhuma humanidade, e ela acabou com a imortalidade do homem. Os anos que ele viveu voltaram todos para ele.
– E eu achando que a minha família tinha problemas. – comentei.
Ela sorriu.
– Não vira nada. Além disso, houve uma briga básica entre os irmãos Zeus, Poseidon e Hades para ter o poder. Acabou que quem ganhou foi o mais novo, Zeus. Meu pai, Poseidon, não se importou muito com isso e ficou como capitão mesmo, depois criara o Código Pirata, acho que já ouviu falar dele. – assenti em resposta – Hades foi bem mais rancoroso que isso, ele meio que se isolou e virou uma mistura de pirata e bruxo. Dera a dádiva da imortalidade para Hazel e para os Di Angelo, dera o poder de aparentar a idade que quiserem. Têm quase 90 anos e com um corpinho de 16.
– Acho que Hazel não merecia algo como a imortalidade.
– A questão nunca é a pessoa em si. É uma dádiva. Você não pode merecê-la, se não deixa de ser uma dádiva.
– Entendi. – digo – Não que seja da minha conta, mas porque quer que eu os conheça?
– Não quero te matar, se é isso que pensa...
– Se quisesse, teria feito isso há muito tempo. – comentei.
– Certamente. – ela concordou – Mas lembra-se de quando disse que a parte de trás de um bêbado não tem dono?
– Ao qual prefiro não entender.
– Ao qual eu ainda acho uma sábia escolha. – ela concordou – A coisa é que isso não é tão verídico quanto eu demonstrei que fosse.
– Isso é... – mordi o lábio procurando a palavra certa – bem, dá certo alivio se pensar bem, acho.
Charlotte abrira a boca, mas qualquer coisa que ela fosse falar fora impedida por alguém a chamando com um sotaque extremamente italiano, tanto que falara “Thiarlore”. Ela sorriu e se virou, abraçando um garoto que conseguia ser mais alto que ela.
O garoto – que presumi ser Nicholas Di Angelo – era, como eu já disse, magro na medida certa, nem tanto magricela quanto Calipso nem gigante como Beckendorf, e devia chegar aos 1,90 mais ou menos de altura. Obtinha uma pele avoa de mais para alguém do mar, alguém que ficava boa parte do dia debaixo do sol, contrastando com os olhos e o cabelo cacheado totalmente negros. Suas roupas – chapéu, blusa, casaca, calças, botas e até os anéis – eram da cor preta e os detalhes em prata. Lembrava-me a figura da morte em cartas tarô, mas ele era... Bem mais bonitinho que uma caveira com uma lâmina.
Dava medo só de olhar, mas bonitinho.
– Di Angelo, sua tartaruga sem casco! Pensei que havia sido pego pelo nosso querido Comodoro Zhang. – Charlotte olhou para cima – É esse o nome dele, não?
– É, sim. – ele respondeu, seu sotaque era tão forte que parecia que falava italiano, não inglês – Mas quando descobriu que eu era irmão mais velho de Hazel deixara uma brecha para que partisse, Frank meio que gostou dela e o sentimento foi incrivelmente recíproco.
– Frank?
– É o primeiro nome dele.
– Não, o primeiro nome dele é Comodoro. Que história é essa de Frank? – ela se afastou dele, com a expressão de indignação – Não me vá dizer que conseguiu o afeiçoamento de um comandante da Marinha Britânica?
– Pois é. – Nicholas deu de ombros, como se fosse algo bem comum uma ponta de amizade entre um pirata e um Comodoro. – Eu sou um gênio, sei disso.
– Tua sorte me espanta. – Charlotte balançou a cabeça sorrindo. – Aliás, Nico, essa é a Annabeth. – ela inclinou a cabeça em minha direção, Di Angelo me encarara com tanta atenção que fiquei um pouco desconfortável – Annabeth, esse é o idiota do Nico.
Consegui sorrir amigavelmente e estiquei meu braço em sua direção.
– Olá, Nicholas.
– Me chame de Nico, — ele sorriu, pegando minha mão e depositando um breve beijo no dorso da mesma — por favore.
Olhei para Charlotte pelo canto do olho, ela desenhou as palavras sem emitir som “vá se acostumando”.
– Uma Annabeth loira? – ele perguntou, ainda segurando minha mão – Por acaso não é parede direta DA Annabeth Chase, a nossa falecida não tão futura soberana? – seu tom era de ironia e eu pensei se era bom negócio falar a verdade ou não.
Fitei Charlotte novamente e ela deu de ombros.
– Vá em frente, garota. – foi tudo que disse.
– Eu sou a Annabeth Chase. – digo e, diferente do que pensei, Nico não começou a rir, na verdade, acho que meu tom foi tão convicto que ele acreditou de primeira. – a não tão falecida futura soberana.
Nico passou os olhos entre mim e Charlotte algumas vezes e dera um passo para trás, soltando minha mão. Agora ele parecia desconfortável, ou apenas confuso.
– Hmm... – ele murmurou – belo colete. – estava claro que gostaria de mudar de assunto, transferindo a conversa para o colete preto com bordados de caveira que eu usava. – Charlotte pode me explicar o porquê teve a ideia de jerico de sequestrar a futura rainha da Inglaterra? – Nico falava como se eu não estivesse na frente dele – Por que, sinceramente, eu ainda não encontrei um bom motivo.
– Longa história. – Charlotte respondera por fim – Mas Annabeth está indo surpreendentemente bem como pirata, não é Annie? – juntei as sobrancelhas com o “Annie”, mas assenti em concordância – Além disso, meu irmão está... Como posso dizer?... Encantado não é a resposta certa, acho que apaixonado seria melhor para qualificar o que ele sente pela loira aqui, aliás, é exatamente de Percy que eu queria falar.
– Ah. – Nico suspirou, sorrindo torto logo depois. – Entendi. Já falou para ela?
– Não, eu falei sobre o boato, não falei sobre a verdade.
– Que seria? – perguntei cansada de mais para ficar dando voltas.
– Umdiaopercydormiucomathaliaeeumeioquefaleiqueeledormiucomonico. – Charlotte falou apressadamente.
– Quê?
– O Jackson já dormiu com a Thalia uma vez, ao qual eu prefiro nem comentar – Nico acrescentou em um suspiro – e depois ela ficou com vergonha de ir acordá-lo e pediu para que eu o fizesse. Aí aquele lerdo achou que havia acontecido outra coisa, já que ele não se lembrava de nada que acontecera, e a Charlotte como a excelente irmã mais velha que é, aproveitou a oportunidade para fazer disso piada.
– Entre outras palavras a masculinidade do Jackson continua intacta, muito embora ele ache que não. – digo – Ele ainda acha que bebeu mais do que precisava e acabou dormindo com um homem.
– Infelizmente, não acontecera de verdade. – Nico diz e eu arqueio uma sobrancelha – Que foi?
– O infelizmente é porque o Nico aqui tem uma queda assumida pelo Percy. – Charlotte explicou, Nico não parecia nem um pouco constrangido – E ao mesmo tempo tem um penhasco pela Thalia e que o penhasco é recíproco, portanto, comporta-se Di Angelo.
Nico abriu um sorriso torto e em um estalo percebi que foi ele a pessoa abençoada por chegar ao coração de Thalia, fazendo-a desistir da Caçada.
– Eu sou um santo, você sabe. – Nico praticamente ronronou, recebendo um revirar dos brilhantes olhos verdes de Charlotte – Mas não deixe Thalia lembrar-se disso, aliás, preciso me despedir das senhoritas.
Nico se despede e anda até o fiz do caís, saindo das madeiras rangentes e encontrando Thalia. Os brilhos nos olhos da garota assim que o vê é tão apaixonado que eu me pergunto se estou vendo a mesma Thalia que conheço.
Gostaria de sentir alivio ou qualquer coisa do gênero por entender que algo realmente não acontecera como eu achava que acontecera, mas algo me diz que esse pequeno desentendido não iria ser a única coisa que eu tiraria do pendente.
– Mais alguma?
– Não, eu acho que não. – Charlotte me responde – Ficarei por aqui, mas Silena quer que você vá até o bordel da mãe dela, é uma construção grande pintada de vermelho, você vai conseguir ver de qualquer ponto de Tortugas. E, acredite em mim, não gostaria de deixa-las esperando.
Silena sabia ser extremamente egocêntrica, portanto, não contestei.
***
O Bordel Lotus Flower fora construído em estilo francês, portanto, contrastava tanto com o lugar ao seu redor que era praticamente gritante. Ao longo do caminho, recebi olhares desconfiados de mulheres e garotas, assovios de alguns homens e fui mais cortejada do que gostaria. E, sinceramente, Tortugas não é mais atraente de perto tanto quanto é em histórias e lendas.
Subi os dez degraus, a única coisa que vira suja na construção inteira, e puxei a aldraba, aquela tranqueta metálica da porta, para trás e para frente. Para minha surpresa, quem atendeu foi Piper.
– O que você está fazendo aqui? – juntei as sobrancelhas.
– Te pergunto o mesmo. – Piper respondera.
Antes que pudesse lhe responder, ouvi um grito vindo de dentro do cabaré, ao qual eu reconheci sendo de Silena. Ela bravejava algo como uma bronca em francês – dã-a – e aparecera ao lado de Piper, sorrindo e usando um vestido em tantos tons de rosa que me deixava tonta encará-lo por um tempo.
– Aleluia, você chegou. – ela olhou de cima em baixo para Piper, que entendera a deixa e dera um passo para trás. Silena se virou para mim novamente e sorriu, me puxou para dentro com mais força do que aparentava e saiu correndo prendendo meu pulso, forçando-me a correr também. – Você quer saber o porquê está aqui não é? Bem nenhuma garota que se preze anda sobre as ruas de Tortugas sem antes conhecer Afrodite Lancaster. Sendo ela uma mulher do mar ou alguém que só quer...digamos...dar prazer. E, depois que falei sobre você, céus! Ela tá alvoroçada em conhece-la.
Abri a boca para falar para Silena que ela não usou corretamente a palavra “alvoroçada”, mas ela parou de correr e de falar quando o corredor se abriu em um grande salão com chão de madeira polida e paredes de mármore. Como eu disse, o contraste do local com o lugar onde se encontra era gritante.
Bem no meio do salão, uma mulher loira e extremamente bonita tomava chá em uma mesa com toalha decorada e com mais comes e bebes do que ela precisava. Uma garota mais jovem – mais ou menos da idade da maioria das jovens lá fora, mas muito mais bem cuidada – estava posicionada ao lado da mulher e parecia estar pronta para tirar nota de algo importante ao qual ela fosse falar.
– Aquela ali sentada é a sua mãe? – minha pergunta fora direcionada à Piper, mas Silena respondera:
– Não entendi sua surpresa.
– Não estou surpresa com a semelhança entre você e... Afrodite? – antes que Silena respondesse, a belíssima mulher levantou a cabeça e sorriu a me ver.
A garota-secretária se apressou e gesticulou para que sentássemos nas cadeiras brancas na frente de Afrodite e depois se posicionou no mesmo lugar de antes.
– Obrigada, Miranda. – ela sorriu para garota e depois voltou-se para sua xícara, bebendo um pouco e logo depois pondo a xícara no pires e logo depois ambos na mesa. Afrodite era bonita, loira com olhos castanhos. – Acho que está se perguntando do porque quis te conhecer. Bem, toda menina que chega à Tortuga passa por mim. Não para eu avalia-las ou qualquer coisa assim, mas porque eu as acalmo. A grande maioria chega com uma história triste para contar e continua ou porque não tem opção ou porque toma gosto pelo dinheiro.
Os olhos castanhos me avaliaram divagar, mas eu não corei com seu olhar atento.
– Mas você está aqui por um motivo bem diferente, não? – ela sorriu – Miranda, Piper e Silena, nos deem licença – as três se entreolharam, mas no fim saíram do salão, assim que saíram, o sorriso de Afrodite se abriu. – Ah, eu não creio que você, uma garota tão distante de nossa realidade, logo você, conseguiu chegar ao coraçãozinho do Percyto. – ela parecia até emocionada – Então, conte-me, também gosta dele?
Estava atônita com sua animação, mas logo que consegui retornar a realidade assenti.
– Ai, meu santo Urano! – Afrodite quase dera um gritinho – Se permite, vou te arrumar e ainda lhe digo a longa história dessa ilha, é meio complicada acredite, por isso vai demorar, mas como o seu cabelo está... – ela fez uma careta – não como estaria se estivesse na Inglaterra, acredito eu.
Franzi a testa e olhei o meu cabelo. Continuava o mesmo loiro cacheado, um pouco mais volumoso talvez. Mas nada de errado.
– O que há de errado com meu cabelo?
– O que não há de errado é a pergunta certa a se fazer. – ela se levantou e se aproximou — Mas posso dar um jeito. Ande, levanta, vou ajeitar a senhorita e transformarei você em uma verdadeira deusa.
– Ei, espera! – digo – Me arrumar, exatamente, para quê?
Afrodite deu uma risadinha, como se não acreditasse na minha estupides.
– Ora querida, uma noite em Tortugas vale mais que cinco mil em qualquer outro lugar. – ela sorriu – Seja bem-vinda ao Caribe.
P. o. V Percy
Assim que terminei a pequena reunião com Quíron, que era só para falar “ei! Chegamos” embora isso soasse extremamente obvio, Quíron sempre gostava de dar um concelho e – como eu tenho educação, ou muita paciência, escolham – uma frase vira uma pequena palestra educacional. Mas no fim desta, ele me surpreendeu:
– Estou sabendo da loira – eu estava prestes a sair da sala, mas fiquei petrificado. Quíron nem sempre aprovava a parte mulherenga do meu ser – É diferente dessa vez, Percy. Não a machuque, tenho a impressão que se você fizer isso, será sua sentença de morte.
Disse que havia entendido o recado e saí da sala.
Sim, entendendo que Annabeth parecia inofensiva. Mas eu havia visto o que ela conseguiu fazer com os cães de guarda de Rachel. Além disso, o seu nome tinha um peso a mais e, se ficasse realmente machucada tanto fisicamente tanto psicologicamente, em um estalo poderia tirar todos os piratas do mapa.
Fiquei levemente atordoado, pensando no que ela seria capaz se eu saísse da linha, mas nada que está ruim possa ficar pior.
– Estava lhe procurando. – uma voz irritantemente conhecida se ouviu atrás de mim – Fiquei sabendo sobre a sua loira, princesa da Inglaterra, sério mesmo Jackson?
Virei-me para ela.
Bianca Di Angelo conseguia ser mais manipuladora e repugnante do que sua meia-irmã, Hazel Levesque. Era bonita, reconhecia isso. Tinha uma pele levemente morena e tinha cabelos totalmente negros. Sempre usava roupas pretas, como a blusa rendada com o colete por cima e a saia bordada que usava. Os olhos eram de um castanho escuro. Quando ficava irritada, transforma sua cobra de estimação em um chicote prata. Não, eu não estou brincando. Ela sempre a tinha enrolada em um dos braços e quando precisava dela esticava a mão e a transformava em um chicote, depois, salve-se quem puder.
Eu, particularmente, não sinto medo. Sinto nojo talvez, acho que não há palavras para descrever. Acontece que Bianca tem uma paixão compulsiva-obsessiva por mim, dava medo quando tínhamos doze anos, mas depois de ela ter pisado em tantas pessoas para que eu prestasse atenção nela, eu só sinto um misto de nojo e repugnância. E quando eu digo coisas horríveis eu estou dizendo que ela pôs uma adaga na garganta do meu irmão Tyson, quando ele ainda tinha cinco anos, só porque ela queria que eu a beijasse.
Meus lábios ainda formigavam de um jeito ruim com a lembrança. Argh.
– Oi Bianca. – minha voz saiu menos rude do que gostaria.
– Pensei que preferia as morenas, no máximo uma ruiva. Nunca uma loira. – ela se aproximou, me agradando nem um pouco; seu cheiro de orvalho com perfume italiano infestou meu nariz, dando-me ânsia de vomito – Ela não é igual a mim não é mesmo?
– Certamente que não. – ela sorriu com a minha resposta, cheguei mais perto da garota e sussurrei em seu ouvido – Por isso ela é melhor que você. Agora, se você puder me dar licença...
– Se você me der às costas, eu juro pelos deuses do céu e da terra que eu transformo sua vida em um inferno. A começar por acabar de vez com a vida da princesinha...
Não consegui me controlar, pra falar a verdade nem tentei, virei-me para Bianca e a agarrei pelo pescoço, prensando-a na parede. Suas mãos foram direto para a minha, tentando se soltar. Pela primeira vez a vi em pânico.
– Você não é importante o suficiente para manchar minhas mãos com esse seu sangue sujo, mas se você pensar em colocar as mãos em Annabeth eu revogo isso. – ela pareceu tentar responder, mas soara engasgada – Você pode ter a aparência da idade que quiser. Sua irmã não pode morrer, mas você pode.
Retirei minha mão do seu pescoço e ela desabou no chão, colocando a mão sobre os hematomas que deixei em sua pele.
– Está avisada.
Com isso, virei as costas para Bianca e segui meu caminho.
***
A única coisa que eu queria era a minha cama e assim que entrei pela porta senti como se o ar que tinha não era suficiente.
Annabeth estava com um vestido branco longo, com fendas de ambos os lados, deixando as pernas – e que pernas – a mostra. Ainda não havia me percebido, ainda olhava distraída para além da janela, sentada em um banco embutido, a luz do sol deixava-a com a aparência de um anjo. O cabelo parecia mais liso e o cacheado só vinha nas pontas, aliás ela usava algo que parecia rosas vermelhas no cabelo.
Afrodite, pensei. A marca da quenga major eram rosas vermelhas, ou qualquer flor vermelha. Têm vermelho? Dedo de Afrodite no meio.
– Então... – limpo a garganta, chamando sua atenção – Afrodite?
Annabeth assentiu, ainda sem se virar para mim.
– Estou ridícula, não estou?
– Não acho. – respondo, andando devagar em sua direção – Mas se não gosta, porque não retirou isso?
Ela sorriu de lado e finalmente me olhou.
– Prefiro que você faça isso por mim.
Fale com o autor