Closer
9 9 - Posso te mostrar assim para o mundo?
Notas iniciais
Yuri acordou com um raio de sol batendo diretamente nos seus olhos e sua cabeça doendo. Bloqueando a luz para ver melhor ao seu redor, buscou o relógio de mesa que ficava na cabeceira de sua cama. 6:28. Em pouco mais de um minuto seu despertador ressoaria e o mandaria trabalhar. Mexeu-se levemente, apenas para sentir braços puxando-o mais para perto e uma perna entrelaçando-se entre a sua. A parte traseira de si encostou em um corpo quentinho e musculoso com um volume duro cutucando suas nádegas. O russo sorriu, divertido com a ereção matinal e toda a situação. Desligou o despertador antes que ele tocasse e se virou para Otabek, que dormia de forma despreocupada, enquanto tentava entender o que sentia.
Verdade fosse dita, ele não queria sair daquela cama e nem daqueles braços, mesmo que fosse para dançar. Era estranha aquela sensação. Geralmente acordava todos os dias sentindo uma gratidão imensa por ganhar a vida com a dança e saber que voltaria para casa exausto depois de tanto fazer o que ama. Não tinha deixado de amar o que fazia, mas naquele dia, só naquele dia, tinha muito em jogo para sair da cama para trabalhar. Queria poder acordar naturalmente com o cazaque e ter um dia só com ele. Mas a responsabilidade chamava e ele era um profissional que prezava o que fazia, não seria uma noite de sexo casual que o deixaria amolecido daquela forma. Exceto se não fosse casual...
Frustrado, Yuri levantou em direção ao banheiro, pois um banho lhe faria recobrar o juízo além de tirar de si o tentador cheiro de sexo que parecia grudado em sua pele. Saiu do banho relativamente seco, penteado, com os dentes escovados e cheirando a flores em contraposição ao quarto que ainda cheirava à luxúria da noite anterior. Vestiu roupas íntimas, uma calça jeans surrada e a primeira blusa que viu e foi se olhar no espelho para ver se estava tudo no lugar. Viu que a calça e a cueca de Otabek ainda eram um montinho ao pé de sua cama e o espelho evocava lembranças sexuais poderosas, arrepiando-o ao lembrar do que fizeram horas antes.
Olhou para o relógio. 7 horas. Seu ônibus passaria em quinze minutos e ele ainda precisava comer algo. Droga. Seus olhos foram capturados por aquele homem dormindo em sua cama. Ele era tão bonito que fazia seu coração bater mais forte e parecia tão vulnerável em seu descanso que doía deixá-lo ali. Olhou para o relógio. 7:04. Droga, seu ônibus!
Saiu do quarto resoluto a comer algo. Encontrou as pizzas em cima da mesa. Não pareciam estragadas e nem mexidas por Tepa. Infantilmente fez um sanduíche com duas fatias e comeu-as. Bastante queijo, como quis Otabek. Lembrou-se dele sentado em seu sofá, bebendo cervejas assim como ele. Agora entendia de onde vinha sua dor de cabeça incômoda. Era ressaca, que estava mais fraca que o habitual, mas ainda incomodava. Mas também vinha do seu corpo doído pela tórrida sessão de sexo com o cazaque. Pegou o celular de cima da mesa de centro. 7:13. Estava irremediavelmente atrasado. O próximo ônibus só passaria as 7:30.
"Puta que pariu, fodeu-se!" Reclamou Yurio, sentindo sua cabeça latejar, somando estresse à ressaca.
Suspirou. Ao menos ainda tinha alguns minutos para deixar um bilhete a Otabek. Não poderia deixá-lo achar que ele não era...
"Não era o que, caralho?" Yuri se questionou em voz alta.
Tivera sexo casual outras vezes e até então nunca sentira remorso de sair no dia seguinte sem nunca mais olhar na cara dos sujeitos, ou pelo menos de alguns deles. A única solução era assumir que Otabek Altin não entraria para aquela lista. No entanto, baixar a guarda daquele jeito seria prejudicial para si mesmo se a dita estátua de Adonis humano que estava deitado em sua cama não achasse o mesmo. Respirou fundo e decidiu esperar. Pagaria para ver o que viria a seguir. Mas poderia ajudar o destino deixando um bilhetinho. Nada muito óbvio, mas também não tão obtuso quanto o cazaque era capaz de ser. Algo normal, simples e direto.
Caçou papel e caneta e riscou tudo apressadamente, deixando o bilhete na mesa de cabeceira, usando o relógio de mesa como apoio para o papel não voar. Aquilo serviria. 7:27. Seu ônibus passaria em três minutos.
"Puta que o pariu, estou fodido e mal pago!" Yuri disse, sentindo suas dores físicas piorarem consideravelmente.
Se corresse talvez chegasse a tempo.
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Otabek acordou a contragosto do sonho que estava tendo com Yuri, mas logo se animou ao perceber que o colchão estava mole, diferente do seu que era ortopédico, e o cheiro de flores ainda forte, junto com uma já fraco cheiro de sexo. Estendeu o braço, buscando sua companhia, e abriu os olhos ao notar que estava sozinho na cama. Sentou-se, frustrado. Foi quando viu o bilhete perto do relógio de mesa, que indicava ser oito horas da manhã.
"Beka, infelizmente tive que ir trabalhar, porque não posso tocar o foda-se e ficar sem emprego. E hoje é segunda caso não tenha notado.
Enfim, eu tive que sair.
Yuri."
Otabek sorriu levemente ao ler aquilo. Notou a letra apressada e pouco caprichada, beirando ao ilegível, e também as rasuras. Podia ver os lábios crispados do rapaz ao ficar frustrado por errar ou escrever mais do que deveria. Não teve muito tempo para se divertir mais com bilhete, porque ouviu um barulho de garras arranhando a porta desesperadamente.
Levantou-se e viu Tepa, a gata de Yuri, miar incessante e angustiadamente, correndo para a cozinha, arranhando o que parecia ser sua tigela de comida e depois sua caixinha de areia. Ainda miava, mas agora parecia resmungar, exatamente como seu tutor fazia e depois baixou o tom, como se suplicasse para que aquele humano cuidasse de si, já que seu dono irresponsável foi embora sem limpar sua caixa de areia e lhe deixar comida. Por fim, esfregou-se nas pernas do moreno, como se nada do que tivesse feito e a história que tivesse miado não fosse o suficiente para comover o visitante. Otabek se abaixou e pegou a gata no colo, conversando com ela.
"Ok, garota, vamos negociar. Eu te dou comida agora e limpo sua caixa depois do meu banho, pode ser?"
Quando a gata chiou para ele, abaixando levemente suas orelhas, o cazaque soube que era um homem morto se fizesse o que propunha. Mas ela realmente parecia com Yuri quando estava irritado ou desagradado de algo.
"Certo, mocinha. Comida e caixa limpa primeiro, depois qualquer coisa que eu precise." O moreno se remendou, divertido.
Ele cumpriu sua promessa depois de vasculhar a cozinha inteira atrás do que a gata precisava e foi tomar seu banho. Seu dia seria um tanto longo, mas por sorte tinha trazido seu Macbook Pro, os HDs externos de 2 TB e seu material de gravação ainda estava no carro. Tinha o dia todo para trabalhar enquanto Yuri não voltasse. E sabe Deus que horas ele voltaria.
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Yuri estava no ônibus voltando para casa antes do turno da tarde. Segunda geralmente era seu dia mais cheio, mas havia sido dispensado do trabalho por seu "estado de saúde", digamos assim. Sabia que era tudo fruto de ressaca e uma intensa noite sexo, mas fingira tosse e forçara espirros para somar ao corpo cansado e menos vigoroso que o habitual, alegando ser um resfriado. Como o garoto quase nunca ficava doente, todos acreditaram e ele foi despachado para casa.
Não esperava voltar antes da meia noite para sua residência, então estar de volta ao meio dia era uma surpresa e também um fator de ansiedade. Procurava não pensar muito se Otabek ainda estaria em sua casa, mesmo que dormindo, mas a simples menção daquele nome já lhe causava ansiedade. Focava em se acalmar chutando continuamente uma pedrinha até chegar em seu prédio, entrar no elevador e apertar o sete no painel de andares. Buscou as chaves no bolso externo enquanto o elevador antigo fazia seu serviço de forma lenta e trepidante.
Abriu a porta e não soube como reagir quando viu Otabek sentado em seu sofá, as pernas esticadas e cruzadas de forma confortável, o computador portátil prateado apoiado em uma almofada no seu colo, a calça de moletom cor de vinho folgada, sem blusa e usando óculos de aros retos e negros um tanto grossos que não chegavam a envolver completamente as lentes que se arredondavam nos cantos. O acessório era elegante e sofisticado, e lhe dava ares de intelectualidade, mas a única coisa que importava para Yuri era que o cazaque ficava ainda mais sexy e atraente usando aquilo.
"Espero que esteja com fome. Tem almoço aí." Altin disse, a expressão emburrada e concentrada sendo substituída pelo charmoso sorriso de canto.
O coração de Yuri pulava loucamente no peito, incapaz de lidar com aquela informação. Otabek ainda estava em sua casa e parecia completamente a vontade. Sua expressão demonstrava o quão chocado estava com o fato, pois o moreno simplesmente disse, sem desviar o olhar da tela do computador:
"Se me queria fora daqui antes que você voltasse, deveria ter sido claro no bilhete que deixou."
Yuri ainda tentava entender os sinais e mensagens que o fotógrafo emitia com o seu comportamento, mas ainda era difícil, pois nada fazia sentido e nada com o que Otabek era o que parecia ser. Só tinha um jeito de saber o que pensar. E o bailarino iria descobrir.
Quando Altin deu por si, Yuri o beijava nos lábios com vontade, embora fosse um selinho. Sorrindo de levinho, o visitante apoiou o computador no sofá e fez o russo sentar no seu colo, abraçando-o e aprofundando o beijo com paixão. Esperou as primeiras palavras do dono do apartamento depois da surpresa e ficou espantando com o que ouviu:
"Você não sente frio?" Yuri perguntou, referindo-se ao vento outonal relativamente gelado que entrava pela janela.
"Quer que eu vista uma blusa?" O moreno provocou, tocando o rosto do russo e o acarinhando com o polegar.
Plisetsky definitivamente estava enfeitiçado e seduzido por Altin. Já não respondia por si tamanho era o desejo que tinha pelo outro homem e talvez por isso tenha deixado escapar:
"Quero que tire essa calça, isso sim."
E quando se tocou do que falou, ficou vermelho feito um pimentão, emburrando-se e desviando o olhar do fotojornalista, envergonhado. Não era problema desejá-lo, mas geralmente seduzia seus parceiros ao invés de ser tão direto e quase pueril em suas táticas. Otabek apenas riu, dando um beijo suave na bochecha do bailarino e disse:
"Tá com fome, Yura? Providenciei almoço."
O rubro no rosto de Yuri aumentou em dois tons pelo uso do apelido íntimo e pela risada do... Amigo? Ex-chefe? Amante? Como definir Otabek Altin?
"Vou tomar banho e me trocar. Espero que esteja servido quando eu voltar." O loirinho disse, tentando parecer superior, mas violentamente envergonhado por estar fora de si perto do cazaque.
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"Que merda é essa, Altin? Puta que pariu, isto está muito ruim." Yuri disse, quando enfiou a garfada de lasanha de queijo, verduras e molho de tomate na boca.
Otabek pareceu magoado ao ouvir aquilo, mas retomou a postura indecifrável, olhando para o garoto que estava sentado no outro lado na lateral da mesa de centro da sala de estar de sua própria casa.
"Foi você que fez isso?" Yuri perguntou, usando o garfo para enfatizar seu questionamento, depois de comer mais um pedaço.
O fotógrafo permaneceu impassível.
"Me responde, porra." E quando o silêncio seguiu pesado, ele acrescentou. "Foi você quem fez isso. Vai negar?"
Otabek olhou para Yuri parecendo magoado e disse:
"Como você sabe?"
"Você deixou a minha cozinha uma bagunça." O rapaz respondeu de boca cheia.
"Mas está tudo limpo! Eu lavei tudinho!" O fotógrafo retrucou.
"Mas tá tudo fora do lugar. Eu conheço a porra da minha cozinha, Altin." O loiro respondeu, comendo um pedaço particularmente grande de lasanha.
"Se está ruim por que você continua comendo?" O cazaque perguntou, ainda tentando ganhar a argumentação.
"Porque eu menti pra você assim como você mentiu pra mim. Você cozinhou hoje e cozinhou naquele dia do ensaio Ágape." O bailarino disse, sério.
Otabek agora parecia surpreso enquanto Yuri mastigava com ar vitorioso.
"Como você sabe que eu cozinhei aquele dia também?"
"Na verdade, eu descobri isso hoje. Você carrega a mão no alho e nos temperos, além de usar mais sal do que o normal." Yuri disse como se fosse a coisa mais óbvia, notando o constrangimento do moreno. "Isso deixa a comida do jeitinho que eu gosto."
"Então você gostou da lasanha?" Altin perguntou, incerto do motivo pelo qual precisava da aprovação de Yuri para a banal lasanha rápida que fizera.
"Sim. E da comida depois do ensaio também. Está tudo delicioso. Onde aprendeu a cozinhar desse jeito, Beka?" Yuri perguntou com o tom macio e cheio de gentileza, agora comendo como um pequeno glutão de sempre.
"Internet, livros de receitas, tentativas frustradas e algumas cozinhas explodidas..." O rapaz respondeu, relaxado e com o orgulho visivelmente refeito. "Faz parte de morar sozinho, eu acho."
"E não assumiu que cozinhou para mim por quê?" A pergunta do russo vinha acompanhada de mais um pedaço de lasanha posto em seu próprio prato.
"Eu não cozinho para qualquer um. Acho um ato íntimo demais, sabe? Demonstração de carinho. Mas você cozinhou para mim naquele dia e tava uma delícia, então eu quis retribuir..." O cazaque respondeu.
"E agora cozinhou de novo, porque decidiu mostrar que tem carinho por mim." Yuri interrompeu, confiante.
Otabek corou, sentind0-se exposto, e respondeu, sem desviar o olhar:
"Talvez."
Yuri odiava como aquele homem podia ser obtuso e escorregadio.
"Por quê?" Altin perguntou genericamente, curioso com o que o garoto pensava.
"Porque talvez o que você sente por mim seja recíproco." Plisetsky respondeu, charmosamente confiante. "O que fazia antes de eu chegar?"
"Trabalhava." Disse o cazaque simplesmente, depois de engolir a comida.
"Por que não estou surpreso?" O loiro retrucou, levantando uma sobrancelha.
"Estava assistindo as gravações de Serenade for Two para pensar na edição do vídeo. Eros e Ágape estão prontos."
"E Intoxicated?" Yuri perguntou, provocativo e curioso.
"Ninguém além de mim vai ter acesso a esse ensaio." Otabek respondeu de pronto, sério.
O russo geralmente não gostava de ciúmes e possessividade, mas a forma com que Otabek falava de si, como se já o pertencesse, era atraente demais, causava-lhe arrepios de prazer, excitação e expectativa. Talvez aquela atitude fosse causada pela insegurança da instabilidade do relacionamento dos dois, mas se não fosse, daria um jeito nisso.
"Não que eu seja ciumento ou qualquer coisa assim, mas eu não quero ninguém mais sendo seduzido por você dançando daquele jeito além de mim." Otabek disse, de forma séria e compenetrada.
Yuri não soube o que dizer de volta a princípio. Queria soar sexy como o outro, mas não conseguia pensar em nada a altura. Ao invés disso, deixou falar o coração, corado:
"Ainda bem. Você é a única pessoa que eu queria seduzir com aquela dança."
Otabek corou, surpreso com a declaração. Sem saber o que retrucar, comeu sua lasanha em silêncio. Yuri, por outro lado, não insistiu. Tinha sido sincero demais em uma situação ambígua e pisava em terreno incerto. Seguiu comendo em silêncio. Uma hora saberia o que fazer. Foi quando uma curiosidade o assaltou de súbito.
"Beka, qual foi sua motivação para escolher as músicas que eu dancei?" O russo perguntou.
Aquilo pegou Otabek com a guarda baixa. Ele já esperava aquele tipo de pergunta, mas não naquele momento. Pensou em como responder a questão. Ele não sabia que estava sendo atentamente observado por Yuri, que estava curioso com o comportamento do mais velho.
"Sabia que você pensa demais, Beka? Você pode simplesmente me falar o que está preso ao invés de pensar em como vai me dizer." O bailarino disse, massageando a têmpora de leve, sentindo ainda as dores da ressaca.
"Sua cabeça dói?" O cazaque perguntou, preocupado.
"Quê?" Yuri perguntou, confuso com a súbita troca de assunto.
"Você me disse que não bebe porque sua ressaca é com dor de cabeça." Ele respondeu calma e preocupadamente. "Mas você bebeu ontem. Precisa de remédio?"
Yuri olhou para Otabek e notou como ele parecia genuinamente preocupado. Não estava simplesmente desviando do assunto, realmente queria saber sobre o bem-estar do bailarino. O mais novo sentiu seu coração tremer de tanto carinho que recebia. Não estava acostumado com esse tipo de coisa, especialmente depois que seu avô morreu. E sabia que aquilo já não era mais só sobre a sua dor de cabeça. Tinham coisas que os dois não conseguiam ainda comunicar com palavras, mas que sentiam um pelo outro.
Sentiu o moreno lhe tocar o rosto com carinho, fazendo o corpo todo se arrepiar. Incapaz de resistir ao amor que recebia, Yuri se aproximou de Otabek de gatinhas e apoiou sua cabeça no ombro do outro, aceitando de bom grado o abraço que se seguiu.
Altin respirou fundo e ajeitou seu bailarino no colo, abraçando-o e sendo retribuído. Achava que não precisava de mais nada além disso, mas seu gatinho arisco lhe beijou o queixo. Achava curioso como seu coração disparava loucamente no peito ao mesmo tempo que se sentia tão calmo, querido e aquecido por aquele momento que compartilhava com o russo. Queria mais daquilo. Suspirou e tocou o rosto de Yuri, trazendo-o para um beijo amoroso.
Verdade fosse dita, Otabek não conseguia dizer o que sentia. As implicações do envolvimento emocional assustavam seu lado racional, mas parte de si não conseguia negar que tinha afeto por Yuri e que queria mais dele.
O bailarino apreciou o beijo o máximo que pôde, adorando como os lábios de Altin envolviam os seus e como a língua nunca falhava em excitá-lo e derreter-lhe o corpo com suas carícias. Já nem lembrava mais que sua cabeça estava doendo e quase esquecia o que faziam antes disso. Apreciando o abraço que se mantinha depois do beijo, o dançarino ouviu:
"Sua cabeça está melhor?" Altin perguntou, a voz grave não notando o quão carinhosa soava enquanto acariciava a nuca de Yuri.
"Parece que nunca doeu." Plisetsky respondeu, sentindo seu rosto contra o peito nu do cazaque e aspirando seu cheiro calmante. "Mas você ainda tem uma pergunta para responder. Sobre as músicas que você escolheu para que eu dançasse."
"O que você quer saber?" Otabek perguntou sem olhar para o garoto, apenas dando-lhe carinho através de suas mãos que não largavam o outro.
"O que você tinha em mente quando as escolheu? Quero dizer, pelo visto seus ensaios tinham um tema central e você nunca me falou nada disso. Eu queria saber o que te inspirou a montar tudo isso." Yuri se explicou, perdido no amor que recebia e por isso falando mais que o habitual. "Se possível, pense menos e fale mais. Eu gosto de te ouvir."
"Hum?" Otabek questionou, olhando um Yuri corado de vergonha.
"Sua voz é bonita." O bailarino retrucou, desviando o olhar, incapaz de dizer que também gostava do que Otabek dizia. "Vai me dizer ou não?"
"Foram pequenas inspirações que se juntaram." Altin respondeu. "Eu nunca realmente entendi isso de amor, mas essas músicas me inspiram para além disso. Aí você apareceu."
Yuri ficou esperando o resto da explicação, que não veio. O jeito que ele falava as coisas e construía as frases eram um meio excelente para causar confusão na cabeça já conturbada do bailarino.
"Seja mais claro, Altin." O russo disse duramente, emburrado.
Otabek se espantou com a reação, mas sorriu com leveza.
"As músicas, pra mim, retratam uma fase do amor ou um ponto de vista dela. Ágape é o amor abnegado e também o fraterno. O Eros é a sedução. Serenade for Two, apesar dos pesares, me faz pensar em duas pessoas que se amam e estão se envolvendo, com uma delas se declarando. E Intoxicated é o caminho sem volta desse casal envolvido e o sexo." O moreno explicou, afogando-se no aroma floral que o cabelo de Yuri desprendia.
"E o que eu tenho a ver com tudo isso?" O garoto perguntou, aflito.
"Eu disse que as inspirações chegaram separadas, não é?" Otabek introduziu, incerto do motivo de falar tudo aquilo.
Talvez fosse o cheiro do menino, o calor que ele emanava naquele abraço ou como ele se sentia bem em tê-lo tão perto de si, compartilhando tamanha intimidade.
"Eu fotografo paisagens e pessoas e o que eu sentir que devo, mas nunca tinha pensado em fotografar um artista até eu te ver dançar e isso foi inspirador, mas, ao mesmo tempo, confuso. Eu fotografava fatos, até então nunca tinha considerado... Fotografar a arte, porque eu nunca fui exatamente... Artístico." Otabek se explicava até se perder no seu raciocínio e silenciar.
O russo tentava compreender em que ponto o fotógrafo queria chegar.
"Você é um grande artista, Otabek Altin. E eu não estou dizendo isso porque você é meu patrão, porque inclusive você não é mais." Yuri disse, beijando levemente o pescoço de Otabek. "Digo isso porque nunca me vi como você me vê. Antes eu achava que era porque eu me via bonito, mas é porque..."
Dessa vez foi Yuri que se perdeu nos seus pensamentos.
"Beka, posso ver o resultado da sua edição de vídeos? E as fotos?" O bailarino perguntou de um jeito tão agridoce que o moreno não tinha como recusar.
"Eu queria sua opinião sobre o resultado, na verdade." Altin respondeu, virando-se para pegar o computador no sofá sem desfazer a posição.
Yuri afastou a travessa de lasanha e a louça suja, abrindo espaço na mesa de centro para o computador do mais velho. Respirou fundo e se ajeitou, acomodando suas costas no peito do cazaque, sentindo a mão deste envolver sua cintura enquanto a outra buscava com eficiência o vídeo no computador.
O coração do bailarino batia de forma quase insana de tão nervoso que estava. Depois daquele dia nunca mais tinha ouvido Sobre Amor: Ágape e sua memória afetiva e física sobre a música e aquele dia ainda era um emaranhado. Fechou os olhos e respirou fundo. Precisava enfrentar aquilo. Sentiu a mão de Otabek entrelaçar os dedos nos seus e o abraço, antes pela metade, agora completo.
"Por que você se importa tanto com a minha opinião?" Yuri perguntou, constrangido. "É a sua exposição. Você faz dela o que quiser."
"É sua imagem que eu estou expondo." O cazaque respondeu, seco e obtuso como sempre.
"Eu assinei todos os papeis que você me deu para ceder o direito de imagem." O loiro contra-argumentou, tentando parecer que não se importava.
"Não se trata de uma formalidade. Contrato assinado nenhum supre o fato de que eu posso estar expondo sua alma e quem você é de verdade para o mundo. Eu preciso que você esteja confortável com isso." A voz grave era incisiva, mas carinhosa, deixando o russo confuso sobre como se sentir.
"Tanto faz." O bailarino respondeu, dando de ombros, incomodado sobre a falta de certeza que estava se habituando a ter, embora odiasse tudo aquilo.
"Quando estiver pronto, aperte a barra de espaço para o vídeo rodar." Altin instruiu, ciente de que o bailarino enfrentava uma batalha emocional dura.
Yuri desfez os toques com as mãos para fazer um coque rápido no cabelo. Otabek pareceu entender o recado e o abraçou de novo, entrelaçou os dedos da sua mão direita com a mão esquerda do outro e apoiou sua cabeça no ombro livre. Plisetsky respirou fundo e, tremendo ligeiramente, apertou a barra de espaço, dando play no vídeo. Incerto do que esperar, buscou apoio no fotógrafo, que cobriu sua mão livre, dando-lhe suporte.
O vídeo começava com os seguintes dizeres se desenhando em uma tipografia de um azul que lhe remetia inocência e pureza: "Sobre o amor: Ágape. Por Yuri Plisetsky" e aquilo só o deixou mais nervoso. Por fim, Yuri se viu e a tela do vídeo se dividia em duas: uma parte mostrava sua primeira reação inicial à música, aquela em que ele não conseguia fazer nada a não ser sucumbir, mas o outro lado lhe mostrava dançando, já refeito. Depois que já sucumbira e chorava livremente, a imagem de sua derrota gradualmente desaparecia e a tela era dominada por sua dança.
O jogo de câmeras feito pela edição era impressionante. Cada corte parecia mostrar o melhor ângulo de Yuri e sua dança de forma dinâmica, com beleza e verdade daquilo que Yuri amava. Foi quando ele notou que ao fundo de tudo isso, em uma transição mais fraca, seus olhos estavam ali, chorando e encarando diretamente a câmera. Sua respiração se prendeu ao notar isso. Seus olhos não pareciam o de uma pessoa fraca. A forma como Otabek jogava as imagens, na verdade, mostrava como ele lutava por sua sanidade durante o choro e pelo o que amava através de sua dança.
A forma como a luz batia o fazia parecer uma fada selvagem, tal como Otabek queria, assim como seus olhos e bochechas vermelhas contrastando com o seu sorriso, sua alegria contrastando com o seu choro, sua vitória contrastando com sua luta, a luz do sol que criava em si uma aura brilhante e quase divina contrastando com sua sombra interior, revelada apenas por seus olhos ao fundo e rápidos cortes da filmagem de sua primeira reação à música.
Conforme a música ia evoluindo, também aparecia mais a evolução da luta de Yuri, deixando momentaneamente a sua dança em segundo plano, mas ainda ali, aparecendo nas transições. Quando a música chegou no auge, o Yuri lutador caiu de joelhos e tudo relativo ao primeiro take desapareceu, restando apenas a primorosa dança do bailarino e seu sorriso radiante, que competia diretamente com a luz do sol que lhe banhava o fazia brilhar, quase como se fosse uma criatura mítica ou um deus.
Yuri nunca se sentiu tão... Bonito não era a palavra. Esta não chegava nem perto de expressar como se sentia. Também não era orgulho. Nem sensação de dever cumprido. O olhar de Altin demonstrado naquele vídeo e sua arte só o faziam pensar em uma palavra: amor. Sentia-se amado por Otabek Altin ao ser retratado daquele jeito. Contendo as lágrimas, ele se emocionou ao constatar que se Otabek o via daquela forma e queria mostrá-lo assim para o mundo, mesmo com suas fraquezas, mas principalmente com sua força, ele cederia. Mais que isso, ele adoraria ser visto assim, porque, pelos olhos de Otabek Altin, ele era uma pessoa melhor.
Enquanto a música terminava, Yuri estendia suas mãos entrelaçadas para o alto em uma prece silenciosa que ele lembrava bem qual era, corando por isso. O que ele não esperava foi o que veio depois: lembrava que desfazia a pose, botando a mão na cintura, mas não de que sorria de forma tão sincera, bonita e brilhante, com a luz do sol ainda o envolvendo. Parecia vitorioso em vídeo e assistindo agora, depois de um certo tempo, era assim que se sentia: vitorioso. E amado.
Quando o vídeo deu black, indicando seu fim definitivo, Yuri se virou para Otabek, buscando seus olhos, visivelmente emocionado.
"Você me faz parecer melhor do que realmente sou, Beka." O menino disse, repreendendo-se por sentir uma lágrima teimosa escorrer por sua bochecha.
"Eu apenas mostro as coisas e as pessoas como elas são, porque esse é o modo vejo as coisas. É assim que eu te vejo, Yuri Plisetsky. E é assim que eu quero te mostrar para o mundo." Otabek respondeu, limpando as lágrimas silenciosas de Yuri. "Posso?"
Yuri não conteve os arrepios que sentiu. Não eram apenas as palavras de Otabek, era também a forma com que ele lhe olhava, o jeito com que ele lhe segurava, como transmitia seus sentimentos que o bailarino nem ousava tentar traduzir com a razão, porque aquela era uma língua desconhecida para si. Yuri apenas tocou a mão cazaque que acariciava seu rosto e respondeu, o mais sério e firme possível:
"Pode."
E com isso sentia que autorizava muito mais do que fora verbalmente dito, enquanto tentava entender se ele beijara o fotógrafo ou se era o contrário. A forma com que os lábios se tocavam não carregava luxúria. Era uma comunicação tácita de sentimentos profundos, mas confusos. A seu modo, cada um tinha medo de expressar logicamente o que tudo aquilo significava, mas os novos laços se formavam e os antigos se aprofundavam independentes da razão ou de qualquer outra coisa ligada ao controle. Mas nada daquilo importava agora. Que o racional depois consertasse o que as emoções faziam, porque nada pararia aquele beijo e o abraço silencioso, longo e amoroso que vinha depois dele.
Mas Yuri estava curioso e ansiava por mais. Mais de como o fotógrafo lhe via e mais de como se mostrava para aquelas lentes.
"Você escolheu as fotos?" O bailarino perguntou, mexendo no computador sem pedir licença enquanto caçava as dita cujas.
"Algumas. Comecei as edições também, mas nada definitivo." Otabek respondeu, colocando sua mão por cima da do bailarino e acelerando o processo de busca e abrindo o visualizador de fotos. "Passe para a direita."
Yuri apertava para a direita de forma robótica, dando pausas estratégicas para fingir que observava detalhes das fotos, mas a verdade é que não se permitia ver as coisas com atenção. Não confiava nas suas reações.
'Eu não estou pronto pra essa porra toda, mas se eu ficar de merdinha ele vai entender e ficar, no mínimo, tirando onda da minha cara! O que eu faço? Tô fodido!' Yuri pensou, desesperado.
Respirou fundo e notou que Otabek fazia um carinho distraído em sua barriga por cima do moletom enquanto jogava no celular com a testa franzida e o lábio curvado para baixo, parecendo emburrado. Qualquer teria pensado o contrário, mas Yuri sabia que ele era sério demais e parecia chateado com tudo, mas era só o jeito dele e Yuri achava aquele ar rabugento um tanto charmoso. Sem dar na vista, o bailarino mexeu no computador e achou um programa que tirava fotos através da webcam.
Quando a tela de seu computador piscou, Otabek viu na miniatura da foto que ele saiu com o que ele chamaria de sua cara de sempre, enquanto Yuri parecia tirar sarro dele. Programou rapidamente o computador para tirar foto dele, deixando o bailarino curioso. Foi quando teve seus lábios subitamente tomados por fotógrafo e seu choque foi parar na foto seguinte. Inconformado, Yuri deixou a câmera em prontidão e beijou Otabek com carinho, sendo retribuído. O fotógrafo notou a tela piscar diversas vezes, indicando que tinham tirado algumas fotos, mas não se importou, aprofundando o beijo até perder o fôlego e encerrando com selinhos.
Yuri corou ao ver a miniálbum com o beijo deles e o quanto eles pareciam apreciar o carinho de forma mútua. Otabek apenas sorria de canto, satisfeito com as lembranças que guardaria daquele momento.
"Acabou de ver as fotos de Ágape?" O moreno perguntou do jeito indecifrável que agoniava o loirinho, que balançava a cabeça positivamente.
Qualquer artista estaria agonizando por feedback, mas Otabek, pelo contrário, não parecia se importar. Aquilo lhe dava nos nervos.
"Não quer saber o que eu acho?" O mais novo perguntou, agoniado.
"Apenas se você quiser me dizer." O moreno respondeu, indiferente.
Yuri se agoniou. Queria dizer algo, qualquer coisa. Queria dizê-lo que ele era genial e comentar detalhes. Detalhes que ele não tinha na cabeça, porque não prestara atenção nas fotos com medo de se expor.
'Puta merda, ficar de merdinha é uma bosta mesmo. O que eu faço? Tô fodido!' Plisetsky agonizou mentalmente, desesperado.
Foi quando teve uma ideia.
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