Closed Minds

10 Capítulo 10 — Traição


Notas iniciais
Minhas sinceras desculpas pela demora. Dois meses, eu sei, mas tive um bloquei criativo desgraçado que não me permitiu escrever nem meu próprio nome em uma folha em branco. Sim, foi sério desse jeito. MAS aqui estou. Peço desculpas, mais uma vez. E antes de começarem a ler o capítulo, só alguns avisos: 1. Esse capítulo vai seguir o mesmo estilo do anterior. Ou seja, será a continuação da "contagem regressiva" feita até o momento inicial do cap. 9. 2. Se ficar confuso, sintam-se à vontade para tirar dúvidas por MP, reviews, twitter (@_lovemyway), sinal de fumaça, bilhetinho, ou qualquer coisa que sirva para comunicação. Estou disponível em qualquer um deles :) 3. Boa sorte, e boa leitura.

Santana



24 horas antes



— Está tudo pronto — disse Sam, sentando-se ao meu lado no sofá. Observei-o por alguns instantes. Ele parecia cansado. Havia olheiras debaixo de seus olhos, e era impressão minha, ou ele estava mais magro? Arqueei a sobrancelha, mas não disse nada. Não tinha tempo para me preocupar com o comportamento estranho do Boca de Truta. Brittany não saía dos meus pensamentos.



Eu estava com uma sensação muito ruim sobre o que faríamos no dia seguinte. Era necessário, contudo. Estava claro que Quinn não moveria um dedo sequer para nos ajudar, e mesmo detestando tudo o que ela havia dito sobre Brittany, parte de mim precisava admitir que ela estava certa. Era um risco. O que estávamos fazendo. Um risco tão grande quanto ter Brittany conosco. Se o Governo estava em cima dela, procurando apenas por uma brecha, então todos que estivessem ao seu lado cairiam junto. Eu, Sam, Shawn, Quinn, Kitty, Marley... E, se fôssemos capturados, não seria nada bom.



Quinn é uma das líderes do movimento, mas não a única. Ela não poderia controlar todos os núcleos de resistência que temos espalhados pelo país. Todos eles são pequenos, como o nosso, porque não queremos chamar atenção. Só que, ultimamente, sinto que se existisse algo a mais — algo que Quinn não estava nos contando. E ler sua mente estava fora de cogitação. Primeiro, porque eu não sou capaz de fazer isso. Segundo, porque ela é muito habilidosa. Poderia esconder as informações que quisesse (e que precisasse) sem que nenhum de nós soubesse de alguma coisa.



E esse era um grande problema. Talvez Quinn já estivesse ciente do que estávamos prestes a fazer. Tantas pessoas com a mente voltada para a mesma coisa? Seria bastante fácil ver o que estava acontecendo, principalmente pela minha, já que eu não conseguia esconder meus pensamentos como os outros. Minha vantagem era que eles não podiam ler mentes se estivessem muito longe da pessoa — e eu estava tentando me manter o mais afastado dela o possível. Mas eu sentia. Sentia que ela sabia. E se ela soubesse mesmo, então por que não estava fazendo nada para impedir? As probabilidades de tudo dar errado eram quase cem por cento. Suspirei.



— Você acha que vamos conseguir? — perguntou Sam.



— Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas precisamos tentar.



— É — ele concordou, acenando com a cabeça. — Precisamos fazer muitas coisas que não gostamos.



— Você está falando do plano, não é? — questionei, desconfiada.



Sam levou alguns segundos para responder. Ele ficou parado, olhando as próprias mãos, e quando se virou para me olhar, pude ver a tristeza em seu rosto. Uma tristeza que eu nunca tinha visto antes. Lembrei-me, então, das palavras de Shawn. "Mas Quinn precisa colocar na cabeça que ela não é a única que teve o coração partido". Observando o boca de truta naquele momento, eu finalmente pude ver.



Foi quase desesperador. Nunca realmente parei para pensar no quanto deve ser difícil para os outros, ele e Shawn principalmente. Todos nós tivemos que abrir mão de grande parte de nossas vidas — mas todos nós tínhamos uma âncora a qual nos segurarmos. Exceto ele. Sam não tinha ninguém. Então, talvez o pirralho estivesse certo. Talvez os sacrifícios sejam pesados demais.



Eu queria dizer alguma coisa para tranquilizá-lo. Mas, honestamente, havia algo a ser dito? Se houvesse, gostaria de ter pensado nisso, porque nenhuma palavra me veio a mente. E, quando abri a boca para falar, o momento havia passado. A tristeza no rosto dele desapareceu, dando lugar a uma expressão neutra, e ele abriu um sorriso ínfimo.



— Sim. É exatamente sobre isso que estou falando.

Ele tocou gentilmente meu ombro, dando um aperto leve, e se levantou, caminhando para a saída. Esbarrou com Shawn, bagunçou o cabelo do pirralho, e foi embora. Shawn arqueou a sobrancelha, e eu balancei a cabeça, sem saber ao certo o que pensar sobre aquilo. O pirralho se aproximou de mim, e ocupou o lugar que Sam estava sentado.

— Precisamos começar a nos preparar — ele disse. — Só temos vinte e quatro horas.

Só vinte e quatro horas.

Eu esperava que fosse tempo o suficiente.



Duas horas antes



— Onde ela está? — indaguei, observando por cima do ombro.



— Saiu — disse Sam, dando de ombros. — Hoje de manhã. Não disse aonde ia. Mandou que ficássemos de olho em tudo. Suponho que isso tenha sido dirigido a você mais do que a qualquer outro, chefia.



— Não vá se achando — acrescentou Shawn, sorrindo. — Você é chefe só até a Quinn voltar. Quando isso acontecer, vocês podem travar uma luta de leão pelo título.



— Já podemos fazer nossas apostas? — Sam olhou para mim, mexendo as sobrancelhas sugestivamente. — Porque eu aposto na leoa latina.

— Vocês são uns idiotas — resmunguei, revirando os olhos. — Façam-se úteis, e terminem de checar suas armas.



— Já fiz isso. Duas vezes. Entrei em contato com Alex, e o grupo dele está apenas esperando as ordens para partir. Brittany está em posição, também. Marley e Kitty estão com elas, e os carros estão preparados — Sam suspirou, passando a mão pelos cabelos. Nós três trocamos olhares. — É isso, então. A hora da verdade.



Acenei com a cabeça em concordância. Fechei os olhos por alguns segundos, tentando me tranquilizar, pensando positivo. Não era algo que estava acostumada a fazer, mas não se deve sair em uma missão esperando que tudo dê errado. Você se prepara para isso, claro — e nos o fizemos tão bem quanto poderíamos —, mas não é o que você espera que aconteça. Principalmente quando a vida de todos os meus amigos estavam praticamente em minhas mãos. Seguir o maldito plano foi minha ideia, afinal de contas. Se algo acontecesse a algum deles, a culpa seria única e exclusivamente minha.



— Sam, você pode entrar em contato com Alex? Avise-o que sairemos em vinte minutos. Ele sabe o que fazer a partir daí.



Sam saiu para usar o telefone, deixando-me Shawn e eu sozinhos. Eu ainda não me sentia inteiramente feliz por levá-lo conosco. Ele era uma criança, apesar de tudo, embora estivesse certo. O garoto merecera o direito de ir. E talvez Quinn, por mais estúpida que tivesse sido, estivesse certa sobre isso, também. Se tivéssemos preparado Shawn melhor, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Contudo, a culpa de tudo isso não é dele. É nossa. Nós falhamos com Shawn. Falhamos com nós mesmos. Agora, era hora de consertar o nosso erro.



— Pode dar tudo errado — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.



Shawn esticou a mão e tocou meu ombro. Um toque reconfortante, que me passava segurança. E um pouco de calma, também. Não havia percebido o quanto estava segurando sob meus ombros até esse momento. Ele deu um aperto, sem muita força, e seus olhos encontraram os meus. Ele sorriu.



— Pode.



— Não é muito reconfortante — apontei, arqueando a sobrancelha. — Precisa trabalhar nas suas estratégias, Shawnzinho.



— Talvez — ele deu de ombros —, mas nenhuma delas funcionaria com você. San, você não está procurando por conforto.



— Estou procurando pelo que, então?



— Coragem — ele apertou meu ombro novamente, e o sorriso desapareceu de seu rosto. O garoto se aproximou mais de mim, e jogou os braços ao redor de minha cintura, abraçando-me com força. Então, ele sussurrou em meu ouvido: — Mas você não precisa de mim para ser corajosa. Você só precisa ser você mesma.



Maldito garoto”, pensei, sabendo que ele era capaz de me ouvir, “andou lendo muitos livros de auto-ajuda?”. Retribuí o abraçando, sorrindo, e o corpo dele tremeu contra o meu quando ele riu. Baguncei seus cabelos antes de me separar, respirando fundo e me preparando.



— Vamos nessa.



~x~



— Estamos perto — anunciou Sam, à medida que nos aproximávamos do cruzamento. Concordei com um aceno de cabeça, e me virei para encará-lo. Ele estava sério, seu olhar vagando entre os carros presos no engarrafamento. Tínhamos escolhido um horário de pico; seria mais perigoso para executar o plano, mas muito mais fácil para nos disfarçamos entre os civis, caso fosse necessário. Na confusão que se seguiria, haveria muitos gritos e correria. A multidão seria nossa válvula de escape.



— Eu posso vê-la daqui — disse Shawn, inclinando-se no espaço entre o banco do motorista e do passageiro. — Ela está parada. Será que os outros já estão em postos?



— Espero que sim — murmurei, tensa, observando a van branca de longe. — De qualquer forma, precisamos fazer nossa parte. Sam?



— É melhor vocês descerem agora — ele acenou com a cabeça, indicando o carro da frente. — As coisas vão ficar feias em breve. Você sabe como as pessoas ficam estressadas com batidas de trânsito. Mas vou conseguir o máximo de distração possível. Ajam rápido, tenham cuidado, e não sejam mortos. Encontro vocês com o carro no ponto de encontro.



— Certo — concordei, soltando o cinto de segurança. Shawn esticou a mão e apertou o ombro de Sam, sorrindo, e em seguida desceu do carro. Senti um aperto no peito ao abrir a porta e sair. Boca de truta estava sorrindo para mim, encorajando-me a seguir em frente. Inclinei-me na janela aberta e sorri de volta. — Não se atrase, Ken. Estamos contando com você para sair dessa confusão.



— Apenas vá, Santana — ele respondeu, revirando os olhos e rindo. — Salve sua garota, sim?



Afastei-me da janela. Passei o braço pelo ombro de Shawn, displicentemente, tentando manter a postura relaxada. Ele pegou o celular que havíamos comprado no bolso da calça, e fingiu estar digitando alguma coisa enquanto caminhávamos em direção às nossas posições. Precisávamos ser cuidadosos. As armas estavam escondidas dentro de nossas jaquetas. Se andássemos rápido demais, elas poderiam acabar expostas. Mas, se fôssemos lento demais, chamaríamos a atenção. Não podíamos nos passar por irmãos, como seria caso fosse Shawn e Sam, mas precisávamos ficar juntos. Estávamos contando com o fato de nova iorquinos serem ocupados demais para reparar nas outras pessoas porque, caso fizessem, precisaríamos improvisar alguma história. “Um plano cheio de falhas”, pensei, apreensiva.



Shawn abaixou o celular e passou o braço pela minha cintura, arqueando a sobrancelha em minha direção, seus olhos castanhos me encarando.



— Vamos lá, priminha, você não pode estar realmente sugerindo que a série é melhor que a HQ. The Walking Dead é mil vezes mais irado nos quadrinhos. E mais violento, também. Quero dizer... O Governador, sério? Fiquei totalmente desapontando com o que aconteceu com ele na série. Eu esperava mais, sabe?



Revirei os olhos, mas soltei um pequeno suspiro. Era bom estar ao lado do moleque. Se estivesse sozinha, provavelmente já teria sucumbido à minha paranóia. Assim que chegamos no cruzamento, atravessamos a rua e paramos em frente a uma mercearia, de onde eu podia ver a silhueta de Brittany dentro da van. Ela fingia falar ao celular, e gesticulava bastante, como se estivesse irritada. Shawn continuava tagarelando sobre suas séries favoritas, mas eu podia ver, em seus olhos, que ele também estava preocupado. Tirei meu braço de seu ombro e dei um aperto em sua mão.



— Santana — ele murmurou, acenando com a cabeça em direção ao outro lado da rua. Três coisas me chamaram a atenção: primeiro, havia Alex. Ele era um sujeito alto, branco, de cabelos extremamente vermelhos. Seu rosto era coberto de sardas; e, embora não pudesse ver direito sua expressão, sabia que ele deveria estar com um ar zangado. Ele caminhou em direção à van, olhando o tempo todo por cima do ombro, como se quisesse chamar a atenção para si.



A segunda coisa que notei foi que o plano estava dando certo. Várias buzinas começaram a tocar, todas ao mesmo tempo, e eu virei o rosto na direção onde havíamos deixado Sam. Eu podia vê-lo, ao longe, as mãos na cabeça, seus olhos arregalados olhando para o carro em que ele acabara de bater. O dono parecia furioso — gesticulava, com muita rapidez, e apontava para a traseira do seu carro e depois para Sam. A terceira é que havia dois carros escuros seguindo Alex. Eu não podia ver quem estava dirigindo, porque o vidro era escuro demais, mas sabia que deveria ser o governo. Eles não são tão sutis quanto imaginam.



Shawn e eu observamos, nervosos, Alex parar ao lado da porta do motorista da van e abri-la. Os carros pretos pararam. Duas pessoas desceram de cada um deles — uma do banco do passageiro, outra do banco traseiro, indicando que os motoristas ainda estavam no volante —, e se postaram a uma distância segura da van, apenas observando. Eles vestiam roupas casuais, e procuravam manter uma conversa entre si, para despistar. Entretanto, suas posturas tensas os denunciavam.



— Seis ao todo — murmurou Shawn, franzindo o cenho. — Só isso? Quando fui capturado, havia um esquadrão inteiro. Não me parece certo… Tem alguma coisa errada.



— Você acha que fomos traídos?



— É possível — ele sussurrou. — Já estávamos desconfiando disso, não é? Quando fui capturado… Não era por mim que eles esperavam, mas pela Quinn. Por isso, levaram o batalhão inteiro. A questão é: se fomos realmente traídos, e eles sabem que Brittany não está sozinha… Cadê o resto deles?



— Talvez não saibam de tudo — sugeri. — Talvez só saibam o que o espião informou. Se eles acham que é apenas Brittany… Uma pessoa é mais fácil de lidar.



— Eles não estavam esperando por uma pessoa — lembrou ele —, estavam esperando pela Brittany com novos recrutas. algo de errado nisso, Santana. Acho que deveríamos chamar a Quinn. Invocar ajuda de outras unidades…



— Não! — protestei, agarrando-o pelo ombro e o balançando com força. Ele arregalou os olhos para mim, surpreso. Soltei-o rapidamente, dando um passo para trás. Meu coração disparou no peito, e eu me senti culpada. — Desculpe, desculpe, é só que… Nós não podemos chamá-la, você entende?



— Não — discordou Shawn, olhando ao redor, certificando-se de que ninguém havia prestado atenção em nós dois. — Não entendo, Santana. Nós já estamos aqui, ela não vai ignorar a situação. O pior que pode acontecer é levarmos um sermão depois… E vai valer a pena, não acha? Um sermão, se significar que podemos sair todos ilesos disso?



— E se ela nos mandar ir embora? Evacuar? Você viu como ela tem agido. A maneira que ela agiu com você. E você é o irmão dela. O que me dá a certeza de que ela não dará as costas à Brittany também?



— Você precisa acreditar que ela vai tomar a decisão certa. Ela é nossa família. Se não podemos confiar em nossa família, então o que nos resta? Temos uns aos outros, e é isso. Quinn pode estar agindo como uma idiota, e irmãos agem como idiotas às vezes, mas não significa que tenham deixado de te amar, que não sejam mais dignos de confiança.



— Eu não posso arriscar — disse, segurando-o pelo braço e lhe lançando um olhar suplicante, desesperado. — É a vida da minha namorada, Shawn. Quinn não tem mais nada a perder, nada. Eu ainda tenho. Não posso arriscar.



Ele não me respondeu. Apenas me encarou, por uma fração de segundos, antes de pegar o celular e o colocar sobre a palma de minha mão. Shawn se afastou do aperto em meu braço e virou o rosto para encarar Alex, do outro lado da rua. Brittany estava saindo da van. Ela estava de costas para mim, mas eu podia ver seu cabelo loiro, tão longo que quase chegava em sua cintura. Ela movimentava os braços, provavelmente gesticulando. Os homens que saíram dos carros pretos observavam atentos, os olhos fixos nos dois. Shawn voltou seu olhar para mim, a cabeça erguida.



— A escolha é sua — ele disse, por fim. — Você é minha família, também, então eu confio em você. Se é o que você realmente quer…



— Sim — sussurrei —, sim, é o que eu quero.



— Eu vou estar ao seu lado no que você precisar. Mas, lembre-se, a partir de agora, o que quer que aconteça, a responsabilidade está em seus ombros. Se você escolher não chamar ajuda… Saiba que tudo pode dar errado.



Eu sei disso”, pensei, desesperada, observando quando os homens começavam a andar em direção a Brittany. Um deles levou a mão até o cinto da calça jeans. Eu pude ver o reflexo de algo prata — uma faca?, uma arma?, eu não tinha certeza. Prendi a respiração, e por alguns segundos, tudo ficou silencioso. Foi então que a primeira bomba de gás foi lançada, e o mundo pareceu explodir.



Levou apenas alguns milésimos. Brittany fez um movimento rápido e puxou uma arma, atirou no homem que se aproximou dela, e ele tombou no chão, a boca entreaberta. Seu companheiro tentou reagir — mas era tarde demais. Alex fora mais rápido, e o acertara na cabeça. Shawn gritou alguma coisa e agarrou meu braço, balançando-o com força. Não consegui escutar o que ele dizia. Ao nosso redor, as pessoas corriam, em pânico, de um lado para o outro, tentando enxergar em meio à fumaça branca que começava a se espalhar. Dei um passo para frente, quando Brittany desapareceu do meu campo de visão, mas Shawn me puxou novamente. Virei-me em sua direção, irritada, mas ele não olhava para mim.



Ele olhava para onde Sam tinha batido o carro, alguns metros atrás, o rosto completamente pálido. De repente, foi como se tudo ao meu redor tivesse ficado mais lento. Virei a cabeça para olhar… E meu coração parou. Atrás de Sam, havia carros blindados e pessoas fortemente armadas, vestindo o uniforme branco e usando o capacete da DILM. Ele estava de costas para mim, e eu só pude ver seus cabelos loiros balançando enquanto ele se mexia, tentando pegar a arma que carregava na cintura. Eu quis gritar. Gritar para ele não fazer isso, para deixá-los passar, eles não sabiam quem ele era… Mas eles sabiam. Um dos agentes aproximou-se de Sam, apontando uma arma em direção ao seu peito. Não pude vê-lo puxando o gatilho. Por alguns instantes, prendi a respiração, esperançosa, achando que nada havia acontecido, que eles não tinham atirado. Mas, no segundo seguinte, as pernas de Sam cederam, e ele caiu de joelhos no chão, as mãos no peito. O agente que atirou empurrou-o, fazendo-o cair de lado, e seguiu em frente, com os outros na sua cola.



Eu não percebi que estava correndo em sua direção. Não senti as pessoas esbarrando em mim, não ouvi os gritos, não dei ouvidos a voz de Shawn, que parecia ficar cada vez mais distante, embora eu não conseguisse distinguir suas palavras. Quando dei por mim, estava de frente para Sam, agachando-me ao seu lado, puxando sua cabeça delicadamente para o meu colo. Ele segurou minha mão com força, seus olhos azuis brilhando com as lágrimas que não caíam, seus lábios se movendo lentamente, formulando frases que eu não podia escutar. Mas eu podia entender.



— Santana… Eu sinto muito.



— Vai ficar tudo bem — disse, tentando soar segura. — Vai ficar tudo bem, Sam. Aguente firme.



Ele balançou a cabeça — um movimento ínfimo —, e fez uma careta. Tentei não olhar para todo o sangue que ensopava sua blusa. Tentei me convencer de que ficaria tudo bem. Nós ficaríamos bem. Nós tínhamos um plano. Quinn chegaria, arrastaria o traseiro do boca de truta para um carro qualquer, e ficaríamos bem… Ele ficaria bem...



Mas Quinn não está aqui”, disse uma voz em minha mente, maldosa, cruel, “você não quis chamá-la”.



— Cuide deles — sussurrou Sam, a voz saindo estranhamente rouca. — Por mim. Cuide deles por mim, San.



— Cuide você mesmo — retruquei, ríspida. — Não ouse morrer, boca de truta. Não ouse fazer isso comigo… Nem pense nisso… Eu juro que chuto o seu traseiro branco com tanta força que você… Eu juro que eu… Samuel Evans, eu juro que se você morrer, eu te mato!



Ele sorriu. Soltou a mão que segurava a minha, e a esticou, tocando gentilmente meu rosto e limpando minhas lágrimas. Senti meu coração apertar no peito, e o desespero tomou conta de mim. “Sam”, pensei, “Sam”.



— Por favor — sussurrei. — Por favor, Sam…



Seus olhos ainda estavam abertos, mas sua mão despencou, mole, e caiu ao lado de seu corpo. O sorriso não havia desaparecido de seu rosto. Mas, quando verifiquei seu pulso, não havia mais batimento cardíaco. Ele estava morto.



Ergui a cabeça. Outra bomba de gás deveria ter sido solta, porque eu não podia enxergar praticamente nada. Levantei, trêmula, sem saber o que fazer. Caminhei para longe de Sam, longe de seu corpo, tentando afastar o peso da culpa e da dor que corroíam meu peito, que me tornava mais pesada. Eu me sentia completamente desorientada. Olhava ao redor sem saber onde estava; sem lembrar meu próprio nome; sem saber de absolutamente nada, a não ser pelo vazio que me consumia, que parecia atingir minha alma. Alguém esbarrou em mim, e eu perdi o precário equilíbrio, caindo de joelhos. Levei a mão ao cinto, procurando pela minha arma, mas ela não estava mais lá.

Consegui me levantar, dando passos incertos para frente, guiando-me, sem ter uma direção para onde seguir. Foi quando eu ouvi o grito, de longe. O grito da voz que eu teria reconhecido a quilômetros de distância.



Shawn surgiu bem na minha frente, seu rosto completamente sujo, seus braços cheio de sangue, uma expressão misturada entre raiva, dor e ódio. Ele se aproximou de mim, pegou um de meus braços e passou pelos seus ombros. Ele me guiou adiante, sem dizer nada, apenas me apoiando. Então, tudo se tornou claro. Eu podia ver novamente. O branco espesso havia acabado. E lá estava ela.



Brittany.



E, de frente para ela, havia um agente da DILM. Ele apontava a arma em sua direção. Soltei-me de Shawn. Gritei o nome dela, e seus olhos azuis viraram-se para mim, suplicantes. O agente estava de costas para mim; era tão pequeno, tão minúsculo. Eu poderia acabar facilmente com ele, se estivesse perto o suficiente. Eu poderia desarmá-lo, se estivesse de frente para ele. Mas não estava.



Brittany não tirou os olhos de mim. Mesmo quando o barulho de tiro chegou aos meus ouvidos. Mesmo quando seu corpo tombou, exatamente como o de Sam, para frente. Mesmo quando ele — o covarde — passou correndo por ela, deixando-a para trás. Ela movimentou os lábios para mim. Foram apenas três palavras. Eu pude escutá-las com clareza em meus ouvidos, mesmo estando tão longe, mesmo sabendo que era impossível ouvir seu sussurro.



Ela disse “Eu te amo”.

E então, ela desabou.

Ao nosso redor, a confusão continuava. Eu podia sentir Shawn ao meu lado, gritando, tentando tirar alguma reação de mim, mas o ignorei. Tudo o que eu via era Brittany caída no chão. A expressão dela e a de Sam flutuando em minha mente, deixando-me vazia, sem ar. Não havia nada além da dor. Não havia nada além dos dois pares de olhos azuis, esvaindo-se para longe de mim, inatingíveis.

— Santana! — gritou Shawn, agarrando meus ombros e me balançando. — Santana, você está me ouvindo? Precisamos sair daqui!



Eu estava entorpecida. Podia ouvir os gritos ao meu redor. Os barulhos de tiro. Só que tudo parecia longe demais, fora de alcance, como se pertencesse a outra realidade. Uma realidade na qual eu não existia. Apenas observava. Congelada. Travada. Sem qualquer chance de reverter a situação. Sem qualquer chance de fazer alguma coisa sobre o que havia acabado de acontecer. "Mas você pode", disse uma voz, bem no fundo de minha mente, despertando-me.



Foi quando ela quebrou. A bolha na qual eu havia estado pelos últimos minutos. E toda a dormência, toda a incredulidade, deu lugar a um sentimento muito maior. O ódio. Uma raiva irracional. Afastei as mãos de Shawn de mim, e dei um passo para frente. Minhas pernas tremiam. Meu corpo todo tremia. Todos os outros pensamentos pareceram desaparecer enquanto eu o observava fugir.



— SANTANA, NÃO! — Shawn gritou.



Mas era tarde demais. Eu já estava correndo em direção a ele — aquela figura pequena, patética, ainda segurando o objeto bem apertado em sua mão —, que fugia como um verdadeiro covarde. Eu não permitiria isso. Corri atrás dele, o mais rápido que meu corpo em choque permitiu, ignorando tudo e todos ao meu redor. Era uma idiotice, eu sabia disso, porque podia acabar morta. Só que, naquele momento, minha própria vida não parecia importar. Não desde que eu o capturasse. Não desde que eu o matasse. Com minhas mãos envolta do seu pescoço. Com seus olhos assustados me encarando enquanto ele dava seu último suspiro. Eu gargalhei, histérica, sentindo uma onda de animação invadir todo o meu corpo. Estava chorando, também, porque senti o gosto salgado das lágrimas em meus lábios. Mas não importava. Não naquele momento.



Ele dobrou à esquerda na primeira rua, e eu sabia que o tinha encurralado. Conhecia Nova York com a palma de minha mão. Principalmente aquela área. A que ficava perto do nosso esconderijo. Nós sempre buscávamos rotas alternativas, ou lugares por onde escapar caso fosse necessário. E eu sabia que aquele era um beco sem saída. “Estranho que ele não saiba”, pensei. Ou talvez nem tão estranho assim. Moradores da cidade geralmente não a conhecem tanto quanto pensam. Podia ser uma armadilha, claro, mas eu já estava ali, e não ia parar. Entretanto, aproximei-me da entrada do beco com um pouco mais de atenção, mantendo os ouvidos abertos. Quando eu estava próxima o suficiente, pude ouvir. Duas vozes. Pareciam discutir. Não pude escutar o que diziam, mas havia alguém gritando, irritado. Isso atraiu minha curiosidade. “Concentre-se”, pensei. “Eles não sabem que você está aqui. Pegue-os de surpresa”.



Eu estava sem minha arma — perdi-a no meio da confusão —, então olhei pelo chão, tentando encontrar alguma coisa boa o suficiente. Havia uma pedra. Respirei fundo, contendo minha raiva, e a agarrei. Não era perfeita, mas deveria ser o suficiente para deixar alguém inconsciente. Se não fosse pelo maldito capacete. Agachei-me, e fui entrando no beco. Escondi-me atrás de uma lata de lixo. Foi quando eu vi. Jogado no chão, a alguns metros de mim, estava o capacete branco. Sujo de sangue. Perto dele, havia outro. “Perfeito”, pensei, sorrindo.



Tudo o que eu precisava fazer era esperar. Um dos dois passaria por mim, e eu agarraria o primeiro que aparecesse. Não se atreveriam a atirar. Se fosse quem eu estava procurando, ótimo. Caso contrário, eu o deixaria inconsciente e empurraria para cima dele, aproveitando sua hesitação para dominá-lo. Apertei a pedra na mão, sentindo meu coração bater com força no peito, e aguardei.



Não levou muito tempo. Um deles estava ainda falando, furioso, mas em voz mais baixa, como se não quisesse ser escutado. O outro caminhou em minha direção, provavelmente para pegar o capacete jogado no chão. Assim que ele se abaixou, eu agi. Bati a pedra com força na lateral de sua cabeça, e passei o braço pelo seu pescoço, imobilizando-o. Ele tentou se livrar do aperto, mas eu era mais alta e mais forte, e suas tentativas foram inúteis. Usei seu corpo de proteção e ergui a cabeça para o seu parceiro, pronta para uma luta.



Mas ele estava parado. De olhos arregalados. Encarando-me como se tivesse visto um fantasma. O choque foi tão grande que quase me fez soltá-lo. A raiva não me permitiu, embora. Apertei meu braço com um pouco mais de força em seu pescoço, e suas mãos agarrando meu braço, tentando, inutilmente, livrar-se de mim.



— Noah! — ele disse. — E-eu não co-consigo r-respirar…



Dessa vez, eu hesitei. Foi o que ele precisou para se soltar, e se virar em minha direção, a arma apontada para o meu rosto. Pude ver a incredulidade estampada em seus olhos. Provavelmente a mesma que havia nos meus. Parada em frente a mim, estava ela. A garota por que Quinn sempre foi apaixonada. A agente do governo.



Rachel Berry.



— Foi você — murmurei. — Você?



— Santana… Eu…



Dei um passo em sua direção, sentindo todo o ódio me preencher, mas ela segurou a arma ainda mais firme, deixando bem claro que atiraria. Eu sabia que sim. Ela sequer hesitaria. Era uma situação sem vencedor. Eu não poderia fazer nada. E não precisei.



Rachel soltou a arma no chão, e foi empurrada em direção aos meus braços. Por instinto, eu a segurei. Puxei seus braços para suas costas, segurando-os com firmeza, e a virei na direção dele, para que ela visse o que estava vendo.



Noah Puckerman acabara de entregá-la em minhas mãos.



— Leve-a — ele disse, lançando um olhar duro na direção de Rachel. — Faça o que tiver que fazer.



Ele passou por mim, sem olhar para ela, e desapareceu na saída do beco, deixando nós duas sozinhas. Então, eu ri. Ri muito alto, sentindo minha barriga doer. Rachel se mexeu, mas eu não cometeria o mesmo erro novamente. Eu não a deixaria escapar. Ao invés disso, inclinei-me em sua direção e sussurrei em seu ouvido.



— Como você se sente, Berry? Sabendo que foi traída?



Ela não respondeu.

Notas finais
Não revisei o capítulo por motivos de: minhas estruturas não permitem. Espero que ninguém esteja querendo minha cabeça USHUSHUSAHUASHUASHSAU. Até o próximo! E não esqueçam dos reviews :p