Closed Minds
1 Capítulo 1 –– Recomeços
Notas iniciais
Quinn
New Haven
2013
O barulho de batidas na porta interrompeu o silêncio. Minha colega de quarto, Kelly, levantou-se da cama num pulo, o sorriso estampado no rosto, e as mãos alisando a saia curta que usava para o encontro com o namorado. Ela era uma garota completamente normal, e, na minha concepção, nada poderia ser mais estranho do que isso. Desde os acontecimentos de dois anos atrás, qualquer resquício de normalidade em minha vida foi completamente destruído, bem como todo o resto. O que sobrou foram apenas cacos que não pude juntar, e poeira, que não consegui limpar. Não importa quanto tempo passe, as memórias do meu passado serão sempre uma barreira que me impedirá de seguir em frente.
É em momentos assim que eu a invejo. A pessoa que amei — e ainda amo — com todo o meu coração. No começo, tudo o que senti foi raiva; mas, então, veio o alívio. Nós não estaríamos juntas, e isso doía mais do que qualquer outra coisa. Meu único consolo era saber que, ao menos, ela não conseguia se lembrar do que tinha acontecido, e teria a oportunidade que eu não tive: esquecer e seguir em frente.
Escutei a porta do quarto se abrir e voltei para o meu livro, mais interessada em ler do que apreciar o show que, com absoluta certeza, aconteceria na porta do quarto. Kelly tinha uma mania irritante de se agarrar com o namorado na frente de todo mundo, como se todos estivessem interessados em saber sobre sua vida amorosa. E talvez até estivessem mesmo, já que ela era uma líder de torcida, e provavelmente uma das garotas mais populares de Yale. Para mim, contudo, isso não fazia a menor diferença. Eu a tratava como qualquer outra pessoa, sendo sempre respeitosa e nunca me metendo em sua vida — em troca, ela não me irritava. Era como um acordo que fizemos, embora não o tivéssemos pronunciado em voz alta.
— Hum... Quinn? É pra você.
Foi uma verdadeira surpresa ouvi-la dizer meu nome. Para ser honesta, eu nem mesmo achava que ela soubesse como eu me chamava –– porém, o que realmente me fez erguer a cabeça e me distrair do meu livro novamente foi ver a pessoa que estava parada na minha porta, um olhar sério no rosto, e as mãos segurando com força uma mochila. Ao seu lado, havia um garoto. Ele deveria estar por volta dos nove anos. Parecia alto para a idade, bastante magro, e seus cabelos loiros quase cobriam completamente seus olhos. Quase. Apesar disso, eu ainda conseguia vê-los. Aquelas duas orbes de um tom de castanho misturado com avelã. E foi assim que eu soube quem ele era.
— Você pode nos dar licença, Kelly? — pedi educadamente.
Ela lançou um olhar curioso em direção ao garoto, e acenou com a cabeça para mim, saindo logo em seguida e fechando a porta atrás de si. Uma sorte ela não ser bisbilhoteira. Esse não era um assunto que eu gostaria que se espalhasse pelo campus. Soltei um longo suspiro, fechei meu livro, coloquei-o sobre a mesa de cabeceira e encarei a mulher e o menino. Ela era baixa, ao contrário dele; seus olhos eram castanhos escuros, e seus cabelos, embora também fossem castanhos, eram um pouco mais claros que seus olhos. Soube imediatamente quem ela era. Sua semelhança com Alexia Reynolds — ou Wonder, como eu a conhecia — era inegável.
— Sentem-se — disse, indicando a cama desocupada com a cabeça. — Fiquem à vontade.
— Não posso me demorar — negou a mulher, observando-me com apreensão. — Você sabe quem eu sou?
— Sei.
— Você sabe quem ele é?
Foi a primeira vez que meu olhar encontrou o do garoto. Meu irmão. Ele era bastante parecido com o nosso pai; tinha a mesma covinha no queixo, o formato da boca, e até mesmo as sobrancelhas. O sorriso, por outro lado, era mais parecido com as lembranças que eu tinha de Wonder. Foi quase impossível não abrir um sorriso, mesmo que ínfimo, em retribuição. Eu ainda não o encontrara pessoalmente desde a promessa que fiz a Alexia — isso não significava que não estivesse de olho nele, embora. Sam Evans, um amigo do colegial, estava em uma Universidade na mesma cidade em que ele morava; por isso, pedi-lhe para, vez ou outra, apenas dar uma checada nele. Ele aceitou, e nunca me fez perguntas sobre isso, algo a que sou extremamente grata.
— Acho que a verdadeira questão é saber, senhora Reynolds, há algum motivo especial por trás dessa visita? — perguntei.
Ela olhou ao redor, nervosa, e soltou um longo suspiro derrotado. Sentando-se na beira da minha cama, ela pegou minhas mãos e me encarou com seriedade.
— Aconteceu o que temíamos. Ele também... Ele também pode fazer aquilo. As pessoas estavam percebendo que ele era diferente. Surgiram perguntas. Fiquei com medo de que aqueles homens para o qual minha filha trabalhava aparecessem e... Eu não sabia mais o que fazer. O pai dele sumiu, então não tinha mais a quem recorrer.
— Pai dele? — indaguei, arqueando a sobrancelha.
— O marido da minha filha. Criou Shawn como se fosse dele, depois que ela precisou partir. Nunca reclamou. Sempre foi muito compreensível; um homem maravilhoso.
— O que aconteceu?
— Está desaparecido. Aconteceu logo após o surgimento dos boatos. Pensei que Shawn não estivesse mais seguro comigo, e fiz o que Alexia me mandou fazer caso algo assim acontecesse. Procurei seu pai primeiro, claro, mas me informaram que ele está fora do Estado...
— É verdade.
— Então vim direto a você.
— O que você quer que eu faça?
— Não é mais seguro para Shawn ficar comigo, então eu preciso que você cuide dele até que seu pai chegue de viagem. Ele saberá o que fazer.
Mordi o lábio inferior — uma mania que adquiri da Rachel — e analisei a situação. A mãe de Wonder estava certa, claro, não era mais seguro para o garoto ficar com ela, especialmente se ele também tinha herdado os genes. Nem ao menos posso dizer que estou surpresa. Meu pai o passou para mim e para minha irmã; se os dois pais fossem leitores, então a probabilidade de a criança também ser era enorme.
“Não há outra escolha”, pensei. Eu fizera uma promessa. Pelo visto, chegara a hora de cumpri-la.
— Tudo bem — concordei, soltando a respiração que nem ao menos percebi ter prendido.
— Muito obrigada, querida — agradeceu a mulher, aliviada. Ela se levantou e deu um forte abraço em meu irmão, sussurrando-lhe coisas ao pé do ouvido. Ele concordou com a cabeça uma vez, e seus olhos encontraram os meus novamente. A mulher apertou minha mão, deixou a mochila que estava carregando anteriormente em cima da minha cama, e partiu, deixando-nos a sós.
— Você não quer sentar? — perguntei insegura, apontando para a cadeira vazia da minha escrivaninha. Ele deu de ombros e sentou, olhando ao redor, parecendo nervoso. Não poderia culpa-lo. Eu mesma estava uma pilha de nervos. Não havia a menor possibilidade de Shawn ficar no dormitório comigo, ainda que eu fosse capaz de explicar de forma superficial uma explicação para a monitora do nosso andar. Eu precisaria de ajuda. E isso significava envolver pessoas que eu prometi a mim mesma que não o faria.
Olhei para minha mesa de cabeceira e peguei meu celular, digitando uma mensagem. Abaixei o celular e deixei escapar um suspiro.
— Quando começou?
Shawn ergueu a cabeça de suas próprias mãos e me olhou, confuso. Abri um pequeno sorriso. Eu sabia o quanto tudo aquilo poderia ser estranho, principalmente quando você não tinha a menor ideia do que estava acontecendo; levantei-me e sentei na beirada da cama, o mais próximo dele possível, e peguei uma de suas mãos com as minhas. Ele não a tomou de volta.
— Shawn, você sabe quem eu sou?
— Você é minha... Irmã, não é?
— Sim — concordei. — Mas também sou mais do que isso. Eu sou como você. Eu posso fazer o que você faz. É um dom; um dom que herdamos de nossos pais. Um dom que nos foi passado através de nossa genética, e que nos faz diferentes das outras pessoas.
— Matou minha mãe — resmungou ele, virando o rosto e se afastando de mim.
Fechei os olhos por alguns instantes. As lembranças do que aconteceu naquele armazém ainda me assombravam em meus pesadelos, ainda me faziam passar noites em claro pensando no que poderia ter sido diferente se eu tivesse tomado outras escolhas — mas meu pai estava certo em uma coisa, minha irmã, Blair, estava mesmo fora de controle. E, como qualquer pessoa à beira da insanidade, ela simplesmente se perdeu. Não foi minha culpa; ou dele; ou de ninguém. Ou, talvez, em parte, todos nós sejamos culpados.
Se há algo que aprendi, contudo, é que lamentar-se pelo que passou não vai nos ajudar a consertar o que está quebrado. Eu disse que ia lutar, e vou. Contra o que, exatamente, eu ainda não sei — Russel diz que vai chegar a hora em que precisarei escolher um caminho. Ele viaja ao redor do mundo, procurando pessoas como nós, obtendo o máximo de informações e aliados que pode conseguir. Ele diz que há uma batalha próxima, e eu não sei se devo ou não acreditar. Ou, ao menos, não sabia. Agora está claro para mim que ele está certo. Não importa o quão calado fiquemos; as pessoas “normais” sempre vão nos perseguir. E assim que nos recusarmos a sermos seus escravos, eles vão nos caçar. Não há dúvidas quanto a isso.
— Matou minha irmã — disse, levantando a cabeça. O tempo de sentir pena de mim mesma havia acabado. Agora era hora de ser forte e seguir em frente da melhor maneira possível. No fundo, lamentei pelo meu irmão. Era novo demais para ter que passar por tudo isso, para precisar sentir tanta dor. Mas, infelizmente, não havia nenhuma alternativa. Ele precisava saber.
Ele me olhou novamente. Inclinei-me em sua direção e limpei as lágrimas que caíam de seu rosto, sentindo meu coração pesado.
— O nome dela era Elizabeth, como a rainha, mas nós a chamávamos de Blair. Segundo nome, entende? — Shawn concordou com a cabeça, e eu prossegui. — Meus pais se separaram quando eu ainda era pequena, e nunca compreendi bem o motivo. Ao menos, não até dois anos atrás, quando meu pai me contou sobre você. Minha irmã, contudo, descobriu isso antes de mim. Não é surpreendente, na verdade, porque Blair adorava bancar a detetive e descobrir coisas. Ela vivia fazendo isso quando éramos crianças. Só que, quando cresceu, minha irmã se tornou alguém irreconhecível.
“Ela foi consumida pelo poder e pela insanidade. O que podemos fazer... Para nós dois, é uma maldição. Para ela, era um presente dos céus, ou algo assim. Ela se sentia melhor do que todos os outros, ela queria cada vez mais. E, com o tempo, isso a fez se perder por completo. Só que, quando ela viu tudo desabando às suas costas, todo o mundo dela dando errado, ela surtou. Blair morreu no mesmo incêndio que matou sua mãe”.
— O que? — perguntou Shawn, surpreso. — Como você sabe?
— Porque eu estava lá. Eu, Blair, sua mãe, e Rachel, minha na... Amiga. Minha melhor amiga. Apenas eu consegui sair praticamente ilesa do lugar.
— O que aconteceu com a sua amiga?
— Perdeu a memória.
— Isso é bom ou ruim?
— Não sei — admiti. — Acredito que seja bom. Espero que seja bom. Mas essa é uma resposta que só o tempo vai poder nos dar. Você precisa saber que, de agora em diante, nada jamais será como antes. Você não vai ser uma criança normal, porque, nos padrões da nossa sociedade, você não é normal. Entretanto, isso não quer dizer que o que somos capazes de fazer é uma coisa ruim. Não é. Desde que saibamos nos controlar, desde que tenhamos limites.
“Meu pai me ensinou a fechar minha mente. Deixar todos de fora. Agora, eu só escuto a mente das pessoas quando eu quero escutar. Você pode aprender a fazer o mesmo, mas precisa treinar. Russel pode ensinar você a fazer isso, também, quando voltar de viagem. Você vai morar com ele e minha mãe, agora. Eu sei que parece assustador, mas, por hora, você não tem nada com o que se preocupar. Mamãe e papai vão estar lá por você; ela vai te tratar como se você fosse filho dela, e passado o estranhamento inicial, sei que você vai gostar do Russel. Ele é um bom pai. Você não vai estar sozinho, Shawn. Nunca”.
— Você vai estar por perto? — perguntou-me, inseguro.
— Sempre que você precisar, querido. Sempre que você precisar.
E, então, ele sorriu. Meu coração apertou no peito. Foi como ver Wonder sorrindo para mim mais uma vez.
~ x ~
Cinco horas depois
Observei o relógio impaciente. Não gostei de deixar Shawn sozinho no quarto, mas ao menos sabia que, por hora, ele estava em segurança. Trazê-lo à estação não era uma opção. Além disso, ter que esperar deixava meus nervos ainda mais próximos do limite. O alto-falante anunciara que o trem estaria chegando dentro de alguns minutos, e eu mal podia ver a hora de vê-la. Eu precisava dela naquele momento.
No enterro de minha irmã, eu fiz várias promessas. Prometi à Santana Lopez que não envolveria Brittany em nada perigoso; prometi a mim mesma que deixaria para trás o passado e seguiria em frente; prometi que protegeria meu irmão. E eu estava prestes a quebrar mais uma dessas promessas. Eu sabia que chegaria a hora de tomar uma decisão. Só nunca esperei que fosse ser tão cedo.
O trem parou na estação. Uma garota alta e loira saiu com uma pequena mochila pendurada nas costas. Ela me viu e correu em minha direção, abraçando-me com força.
— O que aconteceu, Quinn? O que é tão urgente para você me pedir para vir à New Haven?
— Eu disse a Santana que não pediria para você fazer parte disso — disse, afastando-me dela o suficiente apenas para encontrar seus olhos azuis me observando com atenção. — Mas eu preciso de você, Britt. De você e da Santana, se ela estiver disposta.
— Quinn...
— Está tudo bem agora, mas vai piorar. Meu pai ainda tem informantes no Governo, e eles estão criando uma divisão só para cuidar de “casos especiais” como o nosso. Já até deram um nome, DILM. Eles estão rastreando qualquer atividade que possa leva-los a pessoas como nós. Meu irmão mais novo estava sendo monitorado, Russel me disse isso. Ele está sendo monitorado desde que Wonder saiu do Governo. E agora ele começou a desenvolver suas habilidades... Os boatos começaram... A avó o trouxe para mim.
— Eu não entendo... Não havia leitores trabalhando para o Governo?
— Saiu de controle, Britt. Tudo o que aconteceu dentro e fora do Governo os fez perceber que eles perderam completamente o pouco controle que tinham. Papai acredita que Blair tenha sido a fagulha que faltava para acender a fogueira. Eles vão esperar pelo momento certo para revelar nossa existência. Eles vão causar o medo na população, e vão usar esse medo para virar as pessoas contra nós. E, no momento certo, eles vão atacar.
— Mas qual o objetivo? O que eles querem?
— Querem o que nós temos. Querem ser capazes de utilizar nossa habilidade para seus próprios fins. Papai acredita, e eu concordo com ele, que eles estão procurando crianças porque elas são fáceis de manipular. Nós, por outro lado, temos a cabeça formada. Então não faremos diferença; somos descartáveis. Nós estamos criando a resistência. Russel está procurando por mais aliados. Seja o que for que o Governo tenha em mente, nós precisamos estar preparados.
— Meu Deus... Por que você não me contou antes, Quinn?
— Eu não queria que você fizesse parte, Britt, eu prometi a Santana. Mas agora eu sei que não tenho mais escolha. Eu ia procurar você em Nova Iorque nesse fim de semana, contar tudo... Mas a chegada do Shawn muda tudo. Eu preciso de ajuda. Meu pai ainda não voltou de viagem, mamãe está com ele, e não posso ficar com meu irmão no dormitório.
— Acho que está na hora de você ir para NY, Q. — disse Britt. — Santana e eu estamos dividindo um apartamento. Tem dois quartos, mas só usamos um. Você e Shawn podem ficar com o outro pelo tempo que precisarem. E então podemos contar ela a verdade. Ela nunca me pressionou por nada, mas sei que ela sempre teve curiosidade em saber. Só que essa decisão não cabia só a mim.
— Obrigada, B., de verdade. Por tudo o que você está fazendo agora, por tudo o que você já fez...
— Por tudo o que eu farei — brincou Brittany, sorrindo. — Tudo bem, Q. Santana costuma dizer que amigos são a família que escolhemos. Isso faz de você minha família, e eu protejo minha família.
Abracei Brittany com força, sentindo um grande peso ser tirado de minhas costas. Desde que eu tivesse aqueles que eu amava perto de mim, tudo ficaria bem. Ou, ao menos, assim eu esperava.
Fale com o autor