Closed Minds
9 Capítulo 9 — 72 Horas
Notas iniciais
Santana
É como estar em um daqueles pesadelos em que tudo o que você faz é cair. Você quer gritar, mas a voz está presa na garganta. Você quer voar, mas não tem asas. Você precisa fazer alguma coisa — qualquer coisa — para diminuir a velocidade da queda e te impedir de quebrar a cara no chão, só que não há nada para se fazer exceto observar. Observar tudo ao seu redor, como se estivesse em câmera lenta, escutando as batidas do seu próprio coração.
O problema é que, por mais lenta que seja a queda, uma hora você atinge o chão.
O impacto nem sempre é fatal. Só que há coisas bem piores que morrer.
— Santana! — gritou Shawn, agarrando meus ombros e me balançando. — Santana, você está me ouvindo? Precisamos sair daqui!
Eu estava entorpecida. Podia ouvir os gritos ao meu redor. Os barulhos de tiro. Só que tudo parecia longe demais, fora de alcance, como se pertencesse a outra realidade. Uma realidade na qual eu não existia. Apenas observava. Congelada. Travada. Sem qualquer chance de reverter a situação. Sem qualquer chance de fazer alguma coisa sobre o que havia acabado de acontecer. "Mas você pode", disse uma voz, bem no fundo de minha mente, despertando-me.
Foi quando ela quebrou. A bolha na qual eu havia estado pelos últimos minutos. E toda a dormência, toda a incredulidade, deu lugar a um sentimento muito maior. O ódio. Uma raiva irracional. Afastei as mãos de Shawn de mim, e dei um passo para frente. Minhas pernas tremiam. Meu corpo todo tremia. Todos os outros pensamentos pareceram desaparecer enquanto eu o observava fugir.
— SANTANA, NÃO! — Shawn gritou.
Mas era tarde demais. Eu já estava correndo em direção a ele — aquela figura pequena, patética, ainda segurando o objeto bem apertado em sua mão —, que fugia como um verdadeiro covarde. Eu não permitiria isso. Corri atrás dele, o mais rápido que meu corpo em choque permitiu, ignorando tudo e todos ao meu redor. Era uma idiotice, eu sabia disso, porque podia acabar morta. Só que, naquele momento, minha própria vida não parecia importar. Não desde que eu o capturasse. Não desde que eu o matasse. Com minhas mãos envolta do seu pescoço. Com seus olhos assustados me encarando enquanto ele dava seu último suspiro. Eu gargalhei, histérica, sentindo uma onda de animação invadir todo o meu corpo. Estava chorando, também, porque senti o gosto salgado das lágrimas em meus lábios. Mas não importava. Não naquele momento.
Ele dobrou à esquerda na primeira rua, e eu sabia que o tinha encurralado. Conhecia Nova York com a palma de minha mão. Principalmente aquela área. A que ficava perto do nosso esconderijo. Nós sempre buscávamos rotas alternativas, ou lugares por onde escapar caso fosse necessário. E eu sabia que aquele era um beco sem saída. “Estranho que ele não saiba”, pensei. Ou talvez nem tão estranho assim. Moradores da cidade geralmente não a conhecem tanto quanto pensam. Podia ser uma armadilha, claro, mas eu já estava ali, e não ia parar. Entretanto, aproximei-me da entrada do beco com um pouco mais de atenção, mantendo os ouvidos abertos. Quando eu estava próxima o suficiente, pude ouvir. Duas vozes. Pareciam discutir. Não pude escutar o que diziam, mas havia alguém gritando, irritado. Isso atraiu minha curiosidade. “Concentre-se”, pensei. “Eles não sabem que você está aqui. Pegue-os de surpresa”.
Eu estava sem minha arma — perdi-a no meio da confusão —, então olhei pelo chão, tentando encontrar alguma coisa boa o suficiente. Havia uma pedra. Respirei fundo, contendo minha raiva, e a agarrei. Não era perfeita, mas deveria ser o suficiente para deixar alguém inconsciente. Se não fosse pelo maldito capacete. Agachei-me, e fui entrando no beco. Escondi-me atrás de uma lata de lixo. Foi quando eu vi. Jogado no chão, a alguns metros de mim, estava o capacete branco. Sujo de sangue. Perto dele, havia outro. “Perfeito”, pensei, sorrindo.
Tudo o que eu precisava fazer era esperar. Um dos dois passaria por mim, e eu agarraria o primeiro que aparecesse. Não se atreveriam a atirar. Se fosse quem eu estava procurando, ótimo. Caso contrário, eu o deixaria inconsciente e empurraria para cima dele, aproveitando sua hesitação para dominá-lo. Apertei a pedra na mão, sentindo meu coração bater com força no peito, e aguardei.
Não levou muito tempo. Um deles estava ainda falando, furioso, mas em voz mais baixa, como se não quisesse ser escutado. O outro caminhou em minha direção, provavelmente para pegar o capacete jogado no chão. Assim que ele se abaixou, eu agi. Bati a pedra com força na lateral de sua cabeça, e passei o braço pelo seu pescoço, imobilizando-o. Ele tentou se livrar do aperto, mas eu era mais alta e mais forte, e suas tentativas foram inúteis. Usei seu corpo de proteção e ergui a cabeça para o seu parceiro, pronta para uma luta.
Mas ele estava parado. De olhos arregalados. Encarando-me como se tivesse visto um fantasma. O choque foi tão grande que quase me fez soltá-lo. A raiva não me permitiu, embora. Apertei meu braço com um pouco mais de força em seu pescoço, e suas mãos agarrando meu braço, tentando, inutilmente, livrar-se de mim.
— Noah! — ele disse. — E-eu não co-consigo r-respirar…
Dessa vez, eu hesitei. Foi o que ele precisou para se soltar, e se virar em minha direção, a arma apontada para o meu rosto. Pude ver a incredulidade estampada em seus olhos. Provavelmente a mesma que havia nos meus. Parada em frente a mim, estava ela. A garota por que Quinn sempre foi apaixonada. A agente do governo.
Rachel Berry.
— Foi você — murmurei. — Você?
— Santana… Eu…
Dei um passo em sua direção, sentindo todo o ódio me preencher, mas ela segurou a arma ainda mais firme, deixando bem claro que atiraria. Eu sabia que sim. Ela sequer hesitaria. Era uma situação sem vencedor. Eu não poderia fazer nada. E não precisei.
Rachel soltou a arma no chão, e foi empurrada em direção aos meus braços. Por instinto, eu a segurei. Puxei seus braços para suas costas, segurando-os com firmeza, e a virei na direção dele, para que ela visse o que estava vendo.
Noah Puckerman acabara de entregá-la em minhas mãos.
— Leve-a — ele disse, lançando um olhar duro na direção de Rachel. — Faça o que tiver que fazer.
Ele passou por mim, sem olhar para ela, e desapareceu na saída do beco, deixando nós duas sozinhas. Então, eu ri. Ri muito alto, sentindo minha barriga doer. Rachel se mexeu, mas eu não cometeria o mesmo erro novamente. Eu não a deixaria escapar. Ao invés disso, inclinei-me em sua direção e sussurrei em seu ouvido.
— Como você se sente, Berry? Sabendo que foi traída?
Ela não respondeu.
~x~
72 horas antes
— Santana! — gritou Shawn, correndo em minha direção. Arqueei a sobrancelha. Ele usava uma camiseta regata branca, e uma cueca do X-Men. Seus cabelos loiros estavam completamente desarrumados. Pela olheira debaixo de seus olhos, ele parecia ter ficado acordado a noite inteira.
— Se você veio me pedir uma cueca igual a essa de aniversário, pode esquecer, Shawnzinho.
— O que está acontecendo? — ele perguntou, ignorando as risadinhas de Sam e focando o olhar em meu rosto, os braços cruzados sobre o peito.
— Além de você correndo praticamente pelado pela casa? Não muito.
— Não minta para mim! — Shawn gritou, irritado. — Eu ouvi Marley e Kitty conversando. Estava pensando em visitar Quinn, saber como ela está… Então vi as duas na porta do quarto dela. Elas estavam falando sobre um plano. Um plano para salvar Brittany. E você não me contou nada!
— Vamos lá, Shawn — disse, esticando a mão para tocar em seu ombro. Ele deu um passo para trás, afastando-se de mim. Franzi o cenho. Nós tínhamos uma relação boa. O garoto era como um irmão para mim. Senti uma pontada de dor no peito quando ele recusou meu toque. Acho que muitas coisas estavam mudando ultimamente. Só não queria que nossa relação fosse uma delas. — Você é só uma criança.
— Criança? — ele balançou a cabeça, rindo. Descruzou os braços, e levantou a camiseta, apontando para os hematomas que ainda não haviam curado completamente. — Então me diga uma coisa, Santana. Será que todas as crianças são obrigadas a passar por isso? Porque eu fui. Vocês esconderam coisas de mim, e veja só como isso acabou.
Foi como levar um soco na cara. Ele deve ter percebido o quanto me atingiu, porque abaixou a camiseta e colocou as mãos sobre meus ombros, seus olhos castanhos fixos nos meus.
— Eu sei que vocês estavam tentando me proteger. Eu entendo isso, San. Mas quando você vai perceber que não pode me manter de fora do que acontece por aqui? Eu sou parte disso. É da minha vida que estamos falando, também. E eu te amo, você sabe, quase como uma irmã. Eu confio em você. Então você precisa aprender a confiar em mim. Não quero que nada aconteça à Brittany. Vocês são minha família. E eu quero defender a minha família.
— Shawn, você sabe que não é escolha nossa — disse Sam, aproximando-se de nós dois e dando um tapinha nas costas do garoto. — A decisão é de Quinn. Ela é sua irmã. Ela quem tem a palavra final sobre isso.
— E ela diz que o garoto pode ficar sabendo de tudo, se é o que ele quer.
Nós três nos viramos em direção a porta. Quinn estava parada lá, um sorrisinho em seu rosto, a sobrancelha arqueada. Um alerta começou a soar em minha cabeça. Havia alguma coisa de errada com ela. Alguma coisa de diferente. Eu podia ver isso em sua postura, em seus olhos. A sua raiva. O rancor. Mas ela não estava prestando em mim — sua atenção estava, exclusivamente, em Shawn. Ela o analisou de cima a baixo, e riu com gosto ao ver o que ele estava vestindo. O garoto corou.
— E depois não quer ser tratado como criança — ela zombou. Não pude ver a expressão no rosto de Shawn, porque ele estava de costas para mim, mas pude perceber que ele ficou tenso. — Conte para ele, Santana. Shawnzinho não quer mais ser tratado como bebê, não é? Ele está certo. Tem idade o suficiente para saber das coisas. Talvez, se não tivéssemos escondido a verdade por tanto tempo, ele não fosse tão frágil.
— Frágil? — indagou Shawn, com raiva. — Você está me chamando de fraco?
— Claro que não, irmãozinho. Estou afirmando que você é fraco. Você não vai chorar por causa disso, ou vai? — ela perguntou, abrindo um sorrisinho sarcástico. — O que foi? Não gostou de ouvir isso? Pensei que quisesse ser tratado como um adulto. Adultos aceitam críticas, Shawnzinho.
— O que você pensa que está fazendo? — perguntei irritada, dando um passo para frente.
— Estou dizendo a verdade — ela deu de ombros. — E a verdade é que eu protegi Shawn por tempo demais. Ele se tornou muito dependente. Se fosse mais inteligente, se soubesse melhor, ele não teria sido capturado. O que nos teria poupado o trabalho de resgatá-lo, e arriscar nossas próprias cabeças. Agora é Brittany que está na linha de fogo. E a culpa é de quem? Sua — ela acusou, apontando para ele. — Você atraiu atenção indesejada. Agora, se vocês pensam que eu vou deixar que arrisquem mais em um plano estúpido que vai dar errado, vocês estão muito enganados.
— O que isso significa? — perguntou Sam.
— Significa que, com o traseiro da Brittany em perigo, nossa querida Santana não vai medir esforços para ajudá-la. Não vai pensar direito. E eu não posso permitir isso. Seja qual for o plano que vocês armaram com o espião, cancelem. Não vai acontecer. Não vou arriscar todas as nossas vidas por conta de uma pessoa. Fizemos isso com o Shawn, e isso foi obviamente um erro. Devíamos tê-lo deixado lá. Mas eu agi como uma irmã mais velha, e não como uma líder. E a verdade é que, às vezes, líderes precisam tomar decisões difíceis.
— Você não pode estar falando sério! — gritou Shawn. — É da Brittany que estamos falando!
— Você me obrigou a isso! — ela berrou, perdendo a compostura e caminhando na direção de Shawn, ficando de frente a ele. Ela enfiou o dedo no peito do garoto, fazendo-o dar um passo para trás. — Se você não fosse tão estúpido, talvez não tivesse sido capturado. Não vou permitir que vocês nos exponham novamente. Olhe o que deu na última vez. Já temos pessoas demais comprometidas. Mais um pouco, e eles terão uma lista com todos os nossos nomes seguidos de um x em vermelho.
— Você está dizendo que devemos deixá-los capturar Brittany? — perguntei, num tom de voz calmo. Quinn me lançou um olhar desconfiado.
— Estou dizendo para deixar as coisas do jeito que estão. Pode ser que a capturem, pode ser que não.
— Pode ser que chegue a hora em que precisemos escolher — esclareci, contendo minha fúria. — Pode ser que chegue a hora em que eles descubram nosso esconderijo. E pode ser que, nessa hora, precisemos que alguém se sacrifique em nome dos demais. Para manter o movimento funcionando. Em prol do bem maior.
— Sim — disse Quinn, concordando com um aceno de cabeça. — Pode ser que cheguemos a esse ponto.
— E tudo o que podemos fazer é rezar para que isso nunca aconteça.
— Reze bastante — retrucou Quinn. — É tudo o que você pode fazer.
Dando-nos as costas, Quinn caminhou em direção a porta e desapareceu, provavelmente voltando para o seu quarto. Olhei para os dois homens ao meu lado. Shawn estava pálido, e seus lábios tremiam. Sam parecia ter acabado de acordar depois de ser nocauteado. Alternava olhares entre mim, Shawn e a porta, a boca aberta. O garoto foi o primeiro a se recuperar. Ele se virou em minha direção, um olhar decidido em seu rosto.
— Qual é o plano?
~x~
— Então Quinn não sabe que estamos fazendo isso? — perguntou Marley.
— E nem pode saber — alertei-a. — Então, se não estiver de acordo, caí fora.
— Santana — disse Shawn, revirando os olhos. — Não precisa ficar tão defensiva.
— Qual o plano? — perguntou Kitty. — Sabíamos que tinha um, mas não sabemos dos detalhes.
— Eu entrei em contato com o outro grupo que temos aqui em Nova York, e conversei com Alex. Ele é o líder deles. Expliquei a situação, e eles concordaram em nos ajudar. Conversei com nosso espião, também, e conseguimos bolar um plano. Shawn?
— Nosso espião vazou a informação que Brittany estaria num grupo que supostamente estaria transportando alguns de nós para o esconderijo. Um esconderijo falso. Eles acham que estaremos protegendo o caminho inteiro, exceto por um trecho na Quinta Avenida, por ser muito movimentada e chamar bastante a atenção. O que vamos fazer é uma armadilha. Eles vão vir atrás de Brittany, que estará dirigindo a van, e vão parar nesse cruzamento — ele indicou um ponto no mapa —, e nós vamos fechá-lo. Nós nos posicionaremos em quatro pontos diferentes para cercá-los.
— E de que isso vai adiantar? — perguntou Marley. — Se não vamos usar armas?
— Bombas de fumaça. Apenas o suficiente para que eles não enxerguem nada. Agora, vejam bem, esperem uma troca de tiros. Vai haver confronto direto. Nós vamos estar armados.
— E os civis?
— Vamos torcer para não acertar nenhum — disse. — É o melhor que podemos fazer por eles. Não dá pra evacuar a área sem chamar atenção para o que estamos fazendo.
— O máximo que poderíamos fazer é causar uma distração — concordou Sam. — Ou diminuir o ritmo do trânsito para que eles fiquem fora do cruzamento na hora que tudo acontecer. Com uma batida de carro, por exemplo. Mas vai haver gente lá, não importa o que façamos. Estamos contando com a sorte.
— E como vamos forjar a minha morte? — perguntou Brittany, pronunciando-se pela primeira vez.
— Sangue falso. Você vai ter alguns espalhados pelo corpo. Nosso espião vai atirar em você, e errar propositalmente. Só que, para todos os efeitos, ele terá acertado. Você usar algum objeto afiado para estourar os sacos com o sangue falso, e cair no chão. O governo só precisa ver. Depois, nós tiramos seu “corpo” e vamos embora. Outra bomba de fumaça deve ajudar a confundi-los.
— Isso pode acabar terrivelmente errado — disse Kitty, soltando um suspiro. — Vocês têm certeza que é a melhor opção?
— Não — admiti. — Mas é bem melhor que não fazer nada.
— Então, todo mundo está de acordo? — perguntou Shawn. — A hora de se manifestar é agora. Se alguém não se sentir confortável, por ser muito arriscado, nós vamos entender.
— Nem pense nisso, garoto bonito — disse Kitty, dando uma piscadela em sua direção. — Nós estamos nessa.
— Até o fim — concordou Marley, sorrindo para a namorada e segurando as suas mãos. As duas se beijaram. Shawn fez uma careta.
— Certo, certo, senhoras, mas não vamos nos empolgar, ok?
— Estou curioso — disse Sam, olhando para o garoto. — Você já beijou uma garota? Ou garoto?
— Eu não sou gay!
— Como você sabe se nunca beijou um garoto? — perguntei rindo. — Ou uma garota, para falar a verdade.
— Deixem ele em paz — Brittany revirou os olhos, sorrindo. — Não há problema algum em ser bv.
— Ele está ficando vermelho — observei. — Quer ganhar um beijinho do Sam?
— Por que meu? — indagou Sam, emburrado. — Você deveria tirar o bv dele, Santana. Vocês não são tão amiguinhos?
— Ok! Chega! — gritou Shawn, vermelho feito um tomate. — O assunto aqui é sério! Estamos falando de Brittany. Isso é sobre ela. Não sobre quem beijei ou deixei de beijar.
— Mais especificamente sobre quem você deixou de beijar — acrescentei.
Todo mundo começou a rir. Shawn fez uma cara de emburrado, mas depois acabou cedendo, e riu também. Por isso eu gostava tanto daquele garoto. Ele agia como uma criança, às vezes. Gostava de revistas em quadrinhos, tinha pôsteres de carros nas paredes do quarto, jogava videogames — mas, também, era maduro para a idade. Alguém em quem você pode confiar. Com quem você pode contar a qualquer momento. E que vai rir de si mesmo, às vezes, coisa que muita gente não consegue fazer.
Olhei ao redor. Éramos um grupo unido, apesar de tudo. Certo, Marley tinha nome de cachorro; Kitty parecia ter mil anos de idade (minha teoria é que ela é filha de Sue Sylvester); Sam era um idiota na maior parte do tempo; Shawn podia ser bastante teimoso, e Quinn… Balancei a cabeça, suspirando. Ela era a pior de todas. E me doía vê-la daquele jeito. Só que há certas coisas que eu não vou tolerar. Se ela quer desistir de tudo, problema dela. Mas não é assim que fazemos as coisas. Depois de sete anos, ela deveria saber disso.
Passei o braço pelo ombro de Shawn, e ele sorriu para mim.
— Vai dar tudo certo — ele disse.
~x~
48 horas antes
— Conversei com o Alex — murmurou Shawn. — Tudo certo. Ela continua a não saber de nada?
— Não. Tenho certeza que ela teria feito algo para nos impedir.
— Eu não entendo — ele admitiu. — As coisas que ela me disse…
— Shawn — cortou-o Brittany. Ela sabia tudo o que tinha acontecido, mesmo não tendo estado presente no momento. — Ela só está magoada. Descobrir sobre Rachel… Isso teve um impacto muito grande sobre ela. Maior do que eu teria esperado. Eu pensei… Achei que depois de todo esse tempo, teria diminuído. O que ela sente por Rachel. Mas continua forte. E saber que a pessoa que você ama está inalcançável e, pior, que é o inimigo…
— Isso não dá a ela o direito de agir assim — retruquei. — Estamos falando de você, Britt. Ela se negou a ajudá-la. Não a defenda.
— Alguém precisa — resmungou minha namorada. — Porque ela não vai fazer isso por si mesma. E vocês parecem magoados demais para se importar. Ela só está machucada, é tudo.
— E você acha que nós não estamos? — perguntou Shawn. — Todo mundo aqui perdeu alguma coisa. Todo mundo aqui lida diariamente com um monte de merda. Por que ela tem o direito de jogar isso em cima da gente? Eu amo minha irmã, Britt. Você sabe que sim. Mas Quinn precisa colocar na cabeça que ela não é a única que teve o coração partido.
— Do que você está falando? — perguntei confusa.
— Sam realmente gostava dela, você sabia? — indagou Shawn. — De Rachel. Claro, ele se aproximou dela porque Quinn pediu, mas acho que em algum momento, ele acabou tendo sentimentos por ela.
— Wow — disse, rindo. — Você está dizendo que o boca de truta ama a hobbit?
— Não — retrucou ele, balançando a cabeça. — Estou dizendo que você tem Brittany, Marley tem Kitty, mas Sam também precisou abrir mão das pessoas que ele amava. Você lembra daquela garota? A que ele se apaixonou?
— Acho que sim — franzi o cenho, tentando me lembrar. — Não é uma que deu um chute na bunda dele?
— Ele terminou com ela. Pela segurança dela. Ele disse a gente que ela tinha terminado, mas ele mentiu. Eu posso ler mentes, sabe? — brincou Shawn. — De qualquer forma, ele a amava. Essa garota. Mas a deixou partir. O que eu estou querendo dizer é que todos fizeram sacrifícios. E Quinn pode estar magoada o quanto estiver, mas não pode nos pedir para fazer mais um.
— Suponho que não — murmurou Brittany, cansada.
— Sabe o que eu acho? Que você está com sono, e começando a falar besteiras. Vai dormir, moleque.
— Yeah, como se você não quisesse me expulsar só para se agarrar com sua namorada.
Mas ele se levantou, de qualquer forma, deixando Brittany e eu sozinhas na sala. Ela se aconchegou em mim, e deitou a cabeça em meu ombro. Passei o braço pela sua cintura, e a trouxe para mais perto.
— Não queria que você se arriscasse tanto por mim — ela sussurrou, sonolenta.
Com a mão livre, toquei seu rosto e a fiz olhar para mim.
— Por você — sussurrei —, eu iria até o fim do mundo.
Ela sorriu para mim, os olhos brilhando. Acariciei seu rosto, e beijei seus lábios de leve.
— Vai dormir, amor — disse. — Eu estarei aqui quando você acordar.
— Promete, San? — ela perguntou, seus olhos quase se fechando.
— Eu prometo.
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