Close To The Flame
1 New life
Notas iniciais
Até onde o destino e os caminhos trilhados podem influenciar a vida das pessoas? Até onde somos donos de nossas próprias escolhas? Às vezes o coração escolhe o caminho que parece errado e se afasta de todos os motivos e de todas as razões. É justamente aí onde nasce o mais intenso e devorador de todos os amores, o amor impossível.
Lizzy’s P.O.V
–PUTA QUE PARIU! – pulei literalmente da cama dando um tapa no meu despertador que foi parar de imediato no chão do quarto. – VOCÊ NÃO PODIA TER FEITO ISSO COMIGO, NÃO MESMO!
Sei o que devem estar pensando, olha a louca brigando com o despertador... Pois é, é exatamente isso que eu sou, uma louca que tem mania de descontar todas as suas raivas, frustrações e no caso atrasos em objetos inanimados que na maioria das vezes, quer dizer, que sempre não têm culpa de nada.
–Despertador imbecil. – resmunguei mais uma vez correndo na direção do banheiro, mas acabei enrolando meu pé no lençol e caindo de bunda no meio do quarto. – que bosta!
Me levantei retirando os cabelos do rosto e voltando a correr para o banheiro, tomei um banho apressado, escovei os dentes e voltei para o quarto. Abri a minha mala rapidamente, peguei minhas roupas e comecei a vestir de forma desengonçada.
–Entra aí camiseta dos diabos! – resmunguei sozinha mais uma vez.
Eu já disse que odeio Murphy? Ele e sua lei idiota de que se uma coisa pode dar errado com certeza dará e que tudo o que está ruim pode e vai piorar, pois é, maldito se não estivesse morto eu mesma o mataria, imbecil, parece que quando você está apressada as coisas só ficam cada segundo mais difíceis. Culpa do Murphy!
Ok desculpem, eu sei que o coitado não tem nada a ver com o fato de eu nunca conseguir acordar cedo ou fazer qualquer coisa na hora, mas ele precisava ter inventado uma lei para isso? E depois eu que sou a louca.
Praticamente me deitei no chão procurando meu par de sapatilhas de baixo da cama, ah lá estavam elas, jogadas de forma desajeitada. Me esforcei para pegá-las quando o fiz as coloquei na mochila, pus um tênis qualquer nos pés e segui arrastando a mochila pesada na direção da porta do quarto, chutando todos os lençóis e roupas que eu espalhara pelo meio do caminho.
–Bom dia Jenna. – falei ao passar pela recepcionista da pensão que abriu um sorriso a me ver.
–O café já está servido Lizzy. – ela falou me encarando. – parece que acordou mal hoje, não é?
–Atrasada. – falei com um sorriso prendendo os cabelos em um coque com rapidez.
–Hoje é seu último dia, não é? – Jenna me encarou, ela parecia tão tranqüila enquanto lia o jornal e comia algumas torradas.
–É sim, nem sei como o pessoal na companhia vai reagir. – falei entregando as chaves do meu quarto para ela.
–Ainda não entendi porque está deixando a companhia, é sério Lizzy você é a melhor bailarina que conheço e só ficou lá por sei lá, três meses?
–E foi muito já. – falei sorrindo enquanto ela me encarava como se eu fosse algo de outro planeta. – olha Jenna três meses está sendo o maior período que já passei em um lugar.
–Nunca entendi a forma que você vive, quer dizer, nunca para em um lugar?
–Sou uma bailarina de estrada. – falei sorrindo. – agora me deixa ir senão não vou conseguir me despedir das garotas, até mais tarde.
Segui na direção do restaurante da pensão, precisava pelo menos pegar sei lá, uma maçã ou algo assim.
–Está atrasada!
A voz me fez virar de imediato, ele estava lá de pé me encarando com um sorriso enorme no rosto.
–Bom dia para você também Zachary. – falei com sarcasmo, me aproximando e lhe dando um beijo delicado nos lábios, ele sorriu.
–Seu ônibus já passou, sabia?
Eu fiz um gesto impaciente.
–Sei, sei sim e a culpa não foi minha, foi do Murphy.
–De quem? – ele me olhou confuso enquanto eu arrumava a mochila nas costas e pegava uma maçã.
–Esquece não tenho tempo para te explicar isso, tenho que correr até a companhia e pra isso não posso perder meu trem.
–Eu te levo até a estação. – ele falou com um sorriso.
–É claro que leva. – falei puxando-o pelo braço restaurante afora.
–Você já estava contando com isso, não era?
Eu sorri enquanto ainda o arrastava porta afora.
–Tchau Lizzy! Tchau Zac! – Jenna gritou e eu fiz apenas um gesto com as mãos.
Entramos no carro e seguimos na direção da estação. Desde que eu chegara em Nova York Zac tinha se tornado uma pessoa importante para mim, eu gostava de estar com ele, na verdade eu não sabia o que ele tinha visto em mim, uma garota inconstante, maluca, mau educada, louca...
–Hoje é meu último dia na companhia. – falei enquanto olhava através do vidro do carro, Zac ainda não sabia daquilo.
–Como assim? Vai mudar de companhia?
Eu respirei fundo forçando um sorriso e o encarei.
–Vou embora Zac.
Ele me encarou durante um segundo sem dizer nada, depois voltou a olhar em frente.
–Quando?
Zac sabia como eu levava a vida, ele sabia que mais cedo ou mais tarde eu iria embora, não sabia? Eu não tinha deixado aquilo bem claro quando nos conhecemos?
–Amanhã bem cedo, recebi uma proposta de uma academia de artes e bem, estou indo.
Ele não disse nada de inicio, continuou apenas olhando em frente.
–Diz alguma coisa. – me irritei.
–Dizer o que? Que não quero que você vá? Isso vai te impedir de arrumar as malas e me virar as costas?
–Não. – falei secamente.
–Então quer que eu diga o que?
–Não sei, diz o que está sentindo, o que está na sua mente, odeio quando as pessoas não demonstram o que sentem.
–Nem todo mundo é assim como você. – ele falou irritado, eu o encarei. Assim como?
–Assim como? – perguntei.
–Fria, distante de todo mundo, nem todos vivem como você vive Lizzy.
–E como eu vivo?
–Da forma que quer, sem regras, sem respeito e sem se importar com ninguém além de si mesma.
Eu ri alto mesmo sabendo que isso o magoaria.
–E você acha isso ruim?
Ele mais uma vez não respondeu de imediato, mas me lançou um olhar de canto de olho.
–Desculpe se estou te magoando. – falei quando chegamos na estação e eu desci do carro. – não era minha intenção, te avisei quando nos conhecemos eu não pertenço a ninguém, não pertenço a lugar nenhum.
–Como pode viver assim? Como pode não se apegar ou não se importar com ninguém além de si mesma?
–Na verdade Zac acho que todos somos assim eu sou apenas uma das poucas pessoas que conseguem demonstrar isso.
–Como consegue mudar de vida assim? A toda hora?
–Não é a vida Zac, ela continua a mesma só as pessoas que passam por ela que mudam.
Ele não respondeu, não pensei que responderia. Me aproximei, toquei seu rosto de leve e lhe dei um beijo delicado no rosto.
–A gente se vê.
Segui estação adentro sem dizer mais nada, todos sempre acharam a forma que eu vivia errada e inconseqüente, mas eu não. Eu fazia tudo o que queria na hora que tinha vontade, a maioria das pessoas que eu conhecia me chamavam de doida, mas eu nunca liguei, eu odiava ficar muito tempo presa em qualquer coisa que fosse e aquela companhia de balé já tinha tomado tempo demais na minha vida.
Entrei no trem e tomei meu lugar de costume nos últimos bancos, coloquei meus fones de ouvido e me encostei na cadeira, eu estava cansada daquela cidade, cansada de ver sempre as mesmas coisas e as mesmas pessoas, eu estava sufocada e precisava de liberdade, precisava de um lugar novo para explorar.
Fechei os olhos sem me importar com as pessoas que sempre me observavam quando eu entrava naquele maldito trem. O que era? Elas nunca tinham visto uma bailarina na vida? Que bosta!
–Então meninas. – a professora começou me puxando pelo braço para que eu ficasse ao seu lado no meio da classe. – hoje é o último dia da Elisabeth nossa melhor bailarina e a inspiração de muitas de vocês sei disso..
–Ela é minha maior inspiração, professora. – Melanie, a garota mais falsa e dissimulada da companhia começou. – ela me inspira, a forma com que dança, como se move...
–A forma como a deixo sempre em segundo. – falei baixo só para mim mesma, mas uma das garotas que estava por perto pareceu ouvir e abafou o riso.
–Ser a substituta dela nos espetáculos era uma honra para mim.
Enquanto ela falava eu tentava me concentrar em cada palavra, mas era praticamente impossível, aquele discursinho imbecil e hipócrita estava me dando nos nervos.
–Quando tiver uma filha e ela for bailarina vou falar para ela que...
–Que tentava sabotar minhas sapatilhas e minhas roupas enquanto eu estava no vestiário ou no camarim? – eu comecei e todos me olharam como se eu fosse louca. – vai dizer também que o dia em que eu fui embora foi o mais feliz da sua vida, já que agora vai parar de ser segundo em tudo o que faz e pela primeira vez talvez consiga um papel principal?
–Elisabeth, por favor. – a professora começou enquanto Melanie me olhava com uma expressão fingida de mágoa.
–Eu nunca fiz nada disso.
–Ah fez sim e está dando pulos por dentro porque eu estou deixando a companhia Mel, mas quer saber? Mesmo que eu nunca mais dance ou que sei lá, quebre minhas duas pernas e fique manca para o resto da vida, eu ainda vou dançar melhor que você.
As garotas agora começaram a rir com vontade.
–Manca, de muletas ou até mesmo de cadeira de rodas, eu SEMPRE, vou dançar melhor do que você.
Os aplausos vieram em seguida, Melanie saiu correndo para os vestiários enquanto as outras bailarinas se aproximavam de mim.
–A gente vai sentir sua falta. – Carol, uma das garotas mais doces que eu já conhecera na vida falou com um sorriso fraco.
–Vão nada, eu sou apenas a garota que bagunça tudo por aqui, com a minha ausência com certeza a professora vai ter mais tempo para ensinar alguma coisa para vocês ao invés de perder tempo brigando comigo, não é professora?
Ela não respondeu, apenas me deu um sorriso tímido.
–Você é uma ótima bailarina Elisabeth e seja qual for seu caminho quero que nunca desista de dançar.
Eu fiz um gesto positivo com a cabeça, eu estava deixando a companhia e não a vida de bailarina.
Sai da companhia me sentindo um pouco mal, sei que todo mundo pensa que eu sou sei lá, uma porra louca que não liga para nada e nem para ninguém, mas de certa forma deixar todas aquelas garotas para trás mexeu comigo.
–Ai que ódio. – falei para mim mesma enquanto pegava o celular do bolso, eu sabia exatamente o que ia fazer daquele minuto em diante, meu coração deu um salto e eu sorri sozinha atraindo a atenção de todos ao meu redor. Eu estava pronta para uma nova vida.
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