Flashback – Março de 2008


Sempre me dei muito bem com a maioria das pessoas que eu conhecia. Na verdade, acho que em dou bem com todo mundo. Todos conversam comigo, e eu sempre dou o máximo de mim para ser uma boa amiga. Ajudo quando eles precisam, e na maioria das vezes que preciso também sou ajudada.


Mesmo por tantos anos estudando com as mesmas pessoas, eu tenho laços bem fortes com quatro delas: Meg, Camila, Laís e Luc.

Meg é o tipo de garota meiga e fofa. Ela tem os cabelos castanho-mel formados por pequenos cachos que caem pouco à baixo de seu ombro. Olhos incrivelmente grandes, castanhos e cílios que, se ela usasse óculos, tocariam as lentes. Ela é a que tenho amizade há mais tempo, sempre andamos juntas e nunca brigamos. Vamos uma na casa da outra e damos muitas risadas juntas. Trocamos cartas praticamente todo mês.

Camila. Estatura média, cabelo liso, longo e castanho com as pontas levemente cacheadas, mas ela odeia isso e vive passando produtos e chapinha pra ter os longos e tão sonhados cabelos lisos. Camila era do tipo perfeitinha. Ia para escola com cabelo e roupas impecáveis, e digamos que, os garotos da escola tinham os olhos sobre ela. Eu a conheci um ano depois de Meg, e criamos laços com muita rapidez. Diziam que éramos o trio parado dura da escola, até Laís aparecer.

Foi um pouco difícil fazer amizade com ela. Laís era fechada, se escondia atrás dos seus enormes cabelos castanhos que eu, durante todos esses anos, nunca os vi preso. Ela andava com os garotos, e quando chegávamos perto dela, ela praticamente saía correndo, mas, aos poucos acabamos conquistando-a e nosso trio, acabou virando um quarteto.

E por fim, Luc. O garoto mais incrível do mundo. Mais ou menos da minha altura, pele morena, cabelos ondulados e um par de olhos castanhos escondidos atrás das lentes dos óculos. Ele era praticamente o garoto mais inteligente da classe, que empatava comigo se comparasse minhas notas as das outras garotas.

Eu não tinha uma amizade muito próxima e também não tinha muita intimidade, mas conversávamos o suficiente para eu considerá-lo muito mais que um amigo.

Muitas vezes, nas aulas de educação física fui atingida por bolas que vinham dos pés de Luc. Em um desses acidentes, ele acertou meu olho esquerdo deixando a pálpebra roxa. Perdi a conta de quantos pedidos de desculpa ele fez. Parece que a cada bolada meu sentimento crescia mais um pouco.

Eu não nunca expus o que sentia. Digamos que eu era praticamente uma criança, aquilo não poderia ser amor. Mesmo que esse sentimento viesse desde que eu o conheci, não foi algo que eu dei muita atenção.

Cheguei à escola e tudo estava como sempre esteve. Entrei na classe e fui saudada por uma chuva de bom dia. Fui direto ao meu lugar e cumprimentei minhas amigas com a maior felicidade:

— Bom dia gente!

— Bom dia! – elas me responderam em coro.

Passei os olhos pela sala a fim de encontrar Luc. Olhei para o lugar dele e ao invés de Luc, tinha uma garota sentada lá. Eu nunca havia a visto. Ela era baixinha, longos cabelos pretos amarrados à um rabo de cavalo e ela estava sem o uniforme, logo concluí que era aluna nova.

— Quem é ela? – perguntei à Camila em tom baixo.

— É nova – ela me respondeu -, Seu nome é Clarisse.

Luc chegou alguns minutos depois vendo seu lugar ocupado, olhei pra ele e vi sua cara de desentendido e um sorriso leve de cumprimento apareceu em seu rosto e eu retribuí. Ele procurou outro lugar vazio e se sentou.

Observei Clarisse durante a aula e percebi que ela não tirava os olhos de Luc. Durante o intervalo, Camila, Meg, Laís e eu fomos conversar com ela.

— Mel – estendi minha mão para cumprimentá-la.

— Clarisse – disse ela estendendo a mão para mim e sorriu gentilmente.

— Essas são Camila, Meg e Laís, se você quiser andar conosco, vai ser muito bem vinda.

Ela nos observou por um tempo com a expressão confusa, e um pouco de indecisão, mas em seguida concordou:

— Tudo bem.

Passamos o intervalo juntas, nós cinco. Passei a maior parte do tempo com elas, mas dei uma escapada na metade indo encontrar Luc na biblioteca.

Ele estava sentado em uma mesa sozinho, e estava debruçado em um livro de geografia, sua matéria favorita. Sentei-me do seu lado e ele desviou o olhar do livro e olhou para mim.

Apesar de tanto tempo de amizade com Luc, eu ainda não conseguia conversar com ele naturalmente, então, as vezes por impulso, acabava falando besteira. Dessa vez respirei fundo, me concentrei e disse:

— Placas tectônicas são legais né? – parabéns Mel, falou merda novamente. Cuidado hein, você ta ficando PhD nisso.

Envergonhei-me mais do que já tava e meu rosto corou completamente, Luc percebeu e soltou uma risadinha.

— Sim, é uma das minhas partes favoritas – disse ele com o lindo e habitual sorriso nos lábios.

Soltei o ar aliviada e então tentei me convencer de que, talvez, o que eu disse não possa ter sido tão idiota assim. Continuei observando Luc a ler o livro. Tudo nele era perfeito. Seu cabelo, preto, levemente comprido e formado por grandes cachos. Sobrancelhas perfeitamente alinhadas, nem tão grossas nem tão finas. Olhos castanhos, e quando estava sem éculos eles eram pequenos e com cílios bem curtos. Seu nariz era fino e proporcional com o resto do corpo. Pele morena e lábios perfeitamente desenhados e suficientemente grossos.

Parei minha análise do rosto de Luc quando finalmente percebi que ele olhava fixamente pra mim meio desentendido.

— Algum problema Mel?

Arregalei meus olhos assustada e me levantei na hora me despedindo de Luc de qualquer jeito e saí da biblioteca atordoada. Como ele poderia mexer tanto assim comigo? Fui perdida em meus devaneios até a sala de aula, e lá estavam Camila, Meg, Laís e Clarisse, conversando e rindo juntas como se conhecessem há muito tempo. Sorri e fui em direção à elas para conversar também.

Tentei me entrosar na conversa, mas não deu muito certo, então só fiquei observando. A cada dia que passava eu me sentia mais afastada de minhas amigas e Clarisse se aproximava delas cada vez mais.

Em apenas um mês, a coisa mudou totalmente. Camila, Laís e Meg mudaram de lugar para sentarem perto de Clarisse sem me convidar. Durante o intervalo, podia ver elas conversando em rodinhas dos garotos e garotas mais velhas da escola. Eu não me sentia muito bem perto deles, então ficava de lado como sempre.

Na manhã seguinte, cheguei a escola e encontrei minhas amigas e Clarisse em uma rodinha no pátio, fui alegre em direção delas:

— Bom dia!

Elas pararam de falar e me olharam com desdém. Não entendi bem a expressão delas mas continuei mesmo assim.

— Então, estava pensando se talvez vocês quisessem ir lá em casa hoje pra...

— Acho que não vai dar – Clarisse me cortou antes que eu terminasse de falar.

— Com licença, mas eu estava falando com elas – apontei pra Camila, Laís e Meg, — Não com você.

— Ponha-se no seu lugar garota. Quem andaria com uma nerd chata e mal vestida como você.

Engoli seco e olhei para minhas amigas esperando uma defensão mas a única palavra que saiu da boca de uma delas, Meg no caso, foi um “desculpa” que por sinal, muito falso.

Dei as costas e fui para classe. Durante a aula era fácil perceber todos girando em torno de Clarisse e minhas ex amigas.

O que ela tinha que enfeitiçou a escola inteira? Ela era uma garota como outra qualquer. Baixinha, pele bronzeada, cabelos pretos e ondulados até a cintura, olhos castanhos e o rosto entupido de maquiagem todos os dias em plena 7 da manhã. Ela conseguia ficar sexy em uniforme de escola e criou uma boa relação com a escola toda e de quebra fez minhas amigas ficarem contra mim.

Afinal, o que há de errado comigo? Eu sou uma pessoa como qualquer outra. Sempre tratei todos bem e nunca dei nenhum motivo para me odiarem. Nerd? Só porque eu tenho centena de neurônios a mais do que ela? Ta que eu tenho as melhores notas da classe.

No dia seguinte, após o intervalo, um bilhete apareceu em cima da mesa. Abri e meus olhos se arregalaram e senti eles arderem com lágrimas prontas para escorrerem. Lá havia uma espécie de ameaça em relação as pessoas da minha classe e da escola, seguido de vários xingamentos e calunias à mim.

Em menos de dois meses, ninguém mais falava comigo na escola, e por onde eu passava ouvia xingamentos e comentários ofensivos, relacionados à mim e minha família. Nem Luc falava mais comigo, e um tempo depois pude ver ele e Camila, que me encorajava em relação à ele e me dizia que faríamos um casal lindo, muito mais próximos do que apenas amigos.

Cheguei em casa e tomei uma decisão: a Mel meiga, fofa, inteligente e dedicada morreu ali. Desse dia em diante, me fechei em tudo. Não falava com ninguém, fiquei agressiva e quando alguém se aproximava de mim, eu repelia ao máximo e acabava sendo grossa e incompreensiva.

Acho que tive motivos suficientes para ser o que sou hoje.

Notas finais
Sim, ficou pequeno. to com um pouco de dificuldade de escrever, mas não vou abandonar a fic.

O capitulo foi um fato que aconteceu na vida da Mel, em 2008, que consequentemente aconteceu comigo também. Não é motivo pra ter dó, isso me fez crescer e segregar em quem devo confiar ou não. É isso, desculpa pela demora, até mais.

Obs: não há previsão para o cap 17.
obs²: n deu tempo de revisar, se tiver erro comenta ai pra eu corrigir.