Clichê Agridoce - Sasuhina
4 Capítulo 03
Hinata odiava matemática, ainda que se obrigasse a participar de todas as olimpíadas. De certa forma, se desafiar no que detestava era como provar a si mesma que seria boa o bastante para qualquer coisa que a vida colocasse em seu caminho, mesmo os piores desafios.
Parecendo ler os pensamentos dela, Sasuke Uchiha se aproximou assim que a garota fechou a apostila de matemática financeira. Ele deu um sorrisinho presunçoso ao perceber que a maioria dos exercícios dados em aula estavam em branco no caderno ainda aberto da Hyuuga.
— Sabe, ouvi dizer que para entrar nos matletas daqui precisa ter um alcance de pelo menos 90% na prova de aptidão. Eles são bem seletivos.
— É por isso que você não entrou? — Hinata direcionou seu olhar mais cruel para a figura à sua frente.
Nunca odiou Sasuke, mas rivalizar em tudo que envolvia a vida acadêmica era a maneira deles de se entenderem e interagirem. Não sabia agir de outra forma, mesmo quatro anos depois.
Sasuke riu da provocação dela e cruzou os braços.
— Já te disse que não me meto mais com coisas de nerd, Hyuuga, mas se eu ainda pertencesse a esse mundo, você não teria a menor chance.
Tinha uma resposta atravessada para dar a ele na ponta da língua, entretanto, um novo professor adentrou a sala, e a aluna exemplar pegou a próxima apostila e ignorou a presença do Uchiha, que voltou para a sua classe no fundão.
Por mais que não quisesse admitir, Sasuke tinha uma parcela de razão. O programa de Negócios não era algo para Hinata — mesmo que ela se esforçasse, achava todas as disciplinas deste programa detestáveis, sequer estimulava o seu intelecto como os matletas costumam fazer.
Foi por isso que, ao ser liberada para o intervalo de almoço, ela verificou no mural de avisos ao lado da secretaria que aquele era o último dia para realizar a mudança de programa diretamente com a orientadora. Deu uma chance aos negócios por uma semana, e agora faria questão de resolver o seu problema.
Novamente, Sasuke Uchiha entrou em seu caminho. Ele havia saído durante todo o período anterior ao intervalo e agora estava sentado do lado de fora da sala da orientadora Shizune, com uma expressão fechada de irritação muito óbvia. Não era bom em esconder o mau humor.
— Problemas no paraíso, Uchiha? — Hinata indagou ao aguardar que a sala da orientadora se liberasse novamente.
Sasuke reparou no rosto impassível da Hyuuga, nas roupas impecáveis sem um amassado, no cabelo liso e longo que caía em cascatas sobre os ombros, na franja que, apesar de ventar, não se movia um centímetro do lugar. Ela era a Sra. Perfeitinha.
— Você quem deve estar tendo esses tais problemas, afinal, é a garotinha boazinha e está na zona de perigo. O que você fez? Falou alto com uma professora? Fez o dever de casa rápido demais?
O tom irônico e prepotente na voz de Sasuke a irritava, mas ela se ateve a sorrir inocentemente.
— Eu nem preciso perguntar o que você fez. Sua má reputação parece um assunto bastante compartilhado nesse Instituto, me impressiona ainda não ter sido expulso.
Hinata queria perguntar em que momento ele parou de ser o primeiro da turma, provocá-lo até extrair algum senso de competição do moreno. Entretanto, a sala da orientadora Shizune foi aberta e pela porta saíram Mikoto e Fugaku Uchiha, ambos com expressão de poucos amigos que foram iluminadas apenas ao ver a garota Hyuuga.
— Hinata! — Mikoto se apressou para apertá-la em um abraço. — Acabamos de chegar de Tóquio e tivemos que passar direto na escola para solucionar problemas. Está tudo bem em casa, querida? Os meninos estão te tratando bem? Itachi disse que você dorme muito cedo, ele não têm conseguido falar com você para te perguntar se precisa de algo!
Ela sorriu diante da preocupação de Mikoto. Há muitos anos que não a via, mas lembrava-se da mulher tremendo e chorando muito no enterro de sua amada mãe. Infelizmente, tanto pela distância quanto pela relutância de Hiashi em deixar as filhas terem contato com Konoha, Hinata não teve notícias dela durante algum tempo.
— Está tudo bem comigo, tia. O quarto é maravilhoso!
— Que bom, querida! — Mikoto afastou-se do abraço e a olhou com um sorriso compreensivo. — Mas o que está fazendo aqui? Está tendo algum problema com as aulas?
— Deixa disso, Mikoto. Hinata não deve estar aqui pelos mesmos motivos que o nosso filho problemático — ela viu Fugaku direcionar um olhar duro à Sasuke, e em seguida olhá-la novamente de maneira mais suave. — Deveríamos ter tido meninas! Não teríamos o tanto de problemas que temos com esses garotos…
— Bom, quem sabe a companhia de uma garota doce e boa como Hinata não apazigua a personalidade complicada do Sasuke? — Mikoto sugeriu ao marido, como se os dois adolescentes não estivessem ali.
— Garanto a vocês que minha irmã mais nova, Hanabi, causa tantos problemas ao meu pai quanto garotos causariam.
Os adultos riem da fala de Hinata. Ela sempre atraiu atenção das pessoas mais velhas por seu jeito comportado e educado, visto que foi criada pelos Hyuuga como uma verdadeira dama da alta sociedade.
— É bom ver vocês também, mãe e pai — Sasuke se meteu após algum tempo, levantando-se para encará-los. — Uma semana longe e pelo visto nem sentiram minha falta.
— Deixa de drama, Sasuke — Mikoto avisou, mas abraçou seu filho mesmo assim. — Temos muito o que conversar, é melhor irmos agora. A orientadora Shizune te liberou pelo resto do dia. Hinata, foi um prazer te encontrar de novo! Nos vemos em casa.
A garota observou a família Uchiha partindo. Fugaku parecia segurar um sermão que em casa deveria ser dos grandes, e isso preocupou a Hyuuga. Nunca soube exatamente o que acontecia na casa dos Uchiha, mas sabia que algumas vezes na infância, Sasuke chegava à escola um tanto deprimido e dizia ser por causa dos pais.
Perguntava-se que tipo de problemas eles deveriam ter, e se foi isso que influenciou na personalidade atual de seu arqui-inimigo de infância.
— Hyuuga? — Shizune indagou ao sair da sala. — O que posso fazer por você?
— Eu queria falar sobre troca de programas, é o último dia hoje.
— Ah, sim, isso é da alçada da orientadora Kurenai, que fica com toda parte legal enquanto eu cuido dos problemas — Shizune explicou com um semblante entediado, direcionando a garota para a sala do outro lado do corredor de espera. — Ali, pode ir falar com ela, sei que está livre agora… como quase sempre.
— Obrigada!
Ela não esperou e se dirigiu rapidamente à sala indicada, batendo na porta e ouvindo um “entre” imediato.
A sala tinha paredes de cor bordô e móveis de carvalho escuro, além de uma decoração de muito bom gosto, com esculturas e quadros sofisticados. Um armário de bebidas caras no fundo da sala denunciava que aquela mulher deveria ganhar muito dinheiro trabalhando como orientadora na Genius.
— Bom dia, posso ajudá-la? — A mulher de cabelos volumosos e olhos carmesim lhe indagou, indicando uma cadeira para que Hinata sentasse à sua frente.
Obedecendo, sentou-se e suspirou, sabendo que ao solicitar a mudança de programa, não teria volta. E se descoberta por Hiashi… Bem, as coisas poderiam ficar tensas para ela.
— Bom dia, Kurenai-sensei! Meu nome é Hinata Hyuuga e eu gostaria de solicitar a mudança de programa, de Negócios para Artes.
Kurenai analisou a garota com os olhos por um segundo e então virou-se na cadeira para o arquivo atrás de si, procurando na letra H o nome dela. Quando retornou para frente com a ficha em mãos, abriu-a e percorreu os olhos pelas letrinhas miúdas.
— Srta. Hyuuga, pelo que posso ver aqui, seu pai solicitou pessoalmente que estivesse no programa de Negócios para que facilitasse a sua entrada em administração na U-tokyo. Se trocar de programa, isso pode manchar o seu currículo e você pode não ser aceita em administração, tem certeza de que quer realizar essa mudança?
Hinata sorriu. Somente ao ouvir na voz daquela mulher teve certeza de que estava fazendo a coisa certa pelo seu futuro.
— Eu quero mudar, Kurenai-sensei. Meu pai sempre decidiu tudo por mim, mas eu já tenho dezoito anos, posso pelo menos realizar essa troca sem ele, não?
— Claro que pode. Estou te perguntando porque os alunos que pretendem seguir carreira na administração, economia e áreas afins, costumam entrar nessas faculdades de primeira ao realizar o programa de Negócios.
— Entendo, mas… — Hinata mordeu o lábio inferior. Por algum motivo, sentia que podia confiar naquela mulher, então suspirou e foi sincera. — Olha, minha mãe estudou aqui, nessa mesma escola, no final dos anos 90. O nome dela era Hisako e ela integrou o programa de Artes, inclusive foi a responsável por criarem o festival anual de amostras artísticas no final de cada ano.
— Hisako — Kurenai sorriu como se recordasse de algo. — Sim, estudei aqui na mesma época que a sua mãe, Hinata. Ela era dois anos mais velha, mas tinha uma energia cativante. Todos a conheciam!
Foi impossível não sorrir ao ver a forma como a orientadora falou de sua mãe. Aquela era a forma como todos ao redor falavam da Hisako que conheceram, exceto Hiashi Hyuuga, que preferia não tocar no assunto.
— Exatamente, e sei que é impossível que eu seja como ela, em questão de personalidade sou muito mais parecida com o meu pai. Sou fechada, metódica e tenho certeza sobre não ser um espírito livre como Hisako era, mas ainda quero carregar uma parte sua comigo, e sinto que posso fazer isso se integrar o programa de Artes e descobrir como foi a jornada pessoal da minha mãe na Genius.
Kurenai arfou, empolgada com aquela atitude da aluna.
— Isso é muito bonito, Hinata! Não teria como não aceitar a sua troca de programa depois dessa declaração.
— Mesmo? — recebeu um assentir como resposta e vibrou, batendo palminhas enquanto sorria abertamente. — Obrigada, Kurenai-sensei! Mas me diz uma coisa… Meu pai vai ser avisado sobre isso?
Compreensiva, a mulher negou com a cabeça.
— Como você disse, já tem dezoito anos, pode tomar esse tipo de decisão. A única coisa que eu posso fazer é o papel de te orientar, então vamos escolher suas disciplinas desse semestre.
[...]
Com o fim das aulas, Hinata despediu-se de Sakura no pátio da escola e cada uma foi para um lado distinto. Sakura precisava terminar uma tela para a aula de pintura enquanto Hinata queria treinar karatê no ginásio de artes marciais, afinal, já estava desde que chegou em Konoha sem pôr os pés em um tatame e não gostaria de ficar enferrujada.
Ela foi até o vestiário feminino e vestiu o seu dogi completo, amarrando a faixa preta na cintura. Há muitos anos que Hinata era formada naquela arte marcial, e na infância costumava ser a principal competidora da sua antiga escola nos campeonatos de karatê.
Ao adentrar o ginásio, percebeu que poucas pessoas praticavam karatê naquele dojo, e praticamente nenhuma mulher. Franziu o cenho, mas ainda assim se dirigiu ao centro e fez os seus alongamentos. Estava prestes a iniciar um treino solitário de chutes quando Naruto apareceu com um sorriso, vestia um dogi e uma faixa preta igual a dela e seu cabelo loiro estava suado e bagunçado.
— Hinata, você também luta karatê?
— Sim! E você também.
— Sim, e judô, taekwondo e muay thai também. Mas prefiro karatê… É bom finalmente ter uma menina aqui, a minha prima vive reclamando que não tem com quem lutar justamente e que as mulheres deveriam reivindicar seus espaços — Naruto revirou os olhos.
— Bom, ela está certa — Hinata ergueu uma sobrancelha, levando as duas mãos ao cabelo para prender as madeixas em um coque frouxo.
— Sim, não digo o contrário! — Naruto falou rapidamente, parecendo assustado com a possibilidade de ter dito algo errado. — Minha mãe é sensei em várias artes marciais, ela reivindicou esse espaço e me ensinou tudo que sei. É só que a Karin, minha prima, é um saco algumas vezes. Ela é muito chata, sério. Mas vai gostar de saber que tem outra garota com quem treinar agora, uma pena que ela não veio hoje.
— Acho que é normal achar nossos parentes chatos. Eu tenho um primo mais velho, o Neji, ele já está na faculdade, e quando morávamos juntos, ele vivia me perturbando. Mas agora que estamos longe… Até que sinto falta dele!
— Acredite quando eu digo que quando eu for para a faculdade, vou é ficar feliz em me livrar da Karin — Naruto sorriu. — Bom, se bem que ela também quer fazer direito na U-tokyo, então talvez eu não me livre tão facilmente quanto espero…
— Você e o Sasuke-kun são mesmo melhores amigos, querem estudar juntos até na faculdade?
Naruto sorriu e os dois começaram a treinar juntos enquanto ainda conversavam. O loiro confidenciou várias coisas sobre como ele e Sasuke se conheceram ainda na infância, e como eles não se davam muito bem. Hinata achou hilário a forma como Naruto se expressava e contava as suas histórias, e ao fim daquele treino de uma hora, estava certa de que era praticamente impossível não se apaixonar por ele.
Era um rapaz gentil, determinado e engraçado, bem do jeito que ela gostava.
Os dois se acompanharam pelo campus em direção a saída após trocarem de roupa, e enquanto Hinata não conseguia parar de olhar de soslaio para ele, percebeu que ele parar em meio ao gramado enquanto olhava a garota loira com roupa chamativa de ginástica.
Já a conhecia de vista, tinha várias disciplinas básicas junto dela e sabia se tratar de Shion, a líder da equipe de ginástica artística e celebridade em tempo integral. Não que Hinata soubesse muito a respeito dessas duas coisas, mas pelo que foi lhe dito por Sakura e Ino, Shion foi uma atriz e modelo mirim excelente, e só parou de atuar para focar no ensino médio, já que almejava entrar em uma das faculdades Ivy League nos EUA.
Mesmo suada e com o cabelo bagunçado, Shion era deslumbrante. Hinata percebeu que os lábios entreabertos de Naruto, tal qual seus olhos impressionados e bem abertos, denotavam uma óbvia paixão. Suspirou baixinho e pensou que gostaria de ser daquela forma: uma garota legal e bonita, por quem é fácil se apaixonar.
Hinata era bonita e sabia disso, mas seu carisma acabava na gentileza que herdou da própria mãe. Tudo de bom que havia para ser dito a seu respeito se resumia em dois grandes adjetivos: inteligente e educada.
Não pôde se amargurar mais na própria inveja juvenil porque Naruto pareceu voltar à realidade, percebendo que parou de andar enquanto Shion sequer lhe dirigia um olhar. Ela ria de forma estonteante, rodeada pelas outras meninas da equipe de ginástica. Todas belas e tão graciosas quanto ela, mas nenhuma chegava perto de seu brilho ofuscante.
— Hinata, eu preciso ir, tem uma pessoa com quem quero falar. Treinaremos juntos de novo amanhã?
Ainda que Naruto sequer olhasse para seu rosto ao falar aquilo, a Hyuuga sentiu-se feliz por saber que o veria no dia seguinte. Talvez, se construísse e lapidasse aos poucos o que imaginava ser uma relação de amizade entre ambos, um amor bonito como nos filmes pudesse crescer com seus ramos por entre aqueles harmoniosos laços.
— Te vejo amanhã, Naruto-kun.
///
O semblante de Sasuke, sempre tão revolto e mal humorado, naquele dia estava cabisbaixo.
— Isso só pode ser culpa minha, do meu afastamento… — Mikoto levou uma mão ao couro cabeludo enquanto tentava afastar a franja da testa. — Minha ausência é o motivo para você fazer isso, meu filho?
— Não seja boba, Mikoto! — Fugaku contrapôs com raiva. — O problema é que mimamos demais esse garoto, olha o esforço que fazemos todos os dias para lhe dar o melhor estudo, e para quê? Ingratidão! Problemas e mais problemas na melhor instituição escolar de Konoha…
— Talvez se estivéssemos mais presentes, entenderíamos porque ele tem agido assim com as garotas da escola, Fugaku… Nunca tivemos esse problema com Itachi, que sempre foi tão reservado e sequer trouxe uma namorada em casa! — Mikoto usou um lenço branco para limpar uma lágrima que escorria. — É isso, Sasuke, você vai começar a passar com uma psicanalista! Vou pedir indicações para o Minato, ele com certeza conhece alguma que seja boa.
— O quê? Não! — Sasuke finalmente se pronunciou, erguendo os olhos suplicantes para a própria mãe. — Não quero ser atendido por uma psicóloga! Eu tô bem, não é tão ruim quanto você pensa… A diretora exagerou.
— Exagerou também quando disse que você pode perder a oportunidade de ser aceito na U-tokyo?
A voz gélida do pai fez Sasuke se calar. Aquilo não era mentira, e ele sabia disso. Sabia da gravidade da coisa, mas depois de tudo que fizera… Não tinha mais como mudar o passado, então engoliu em seco e esperou o resto do sermão.
— Sasuke, só para você saber, eu estou retirando o seu nome da titularidade do estágio com o Big Four no verão. O estagiário precisa ser alguém que mereça mais essa posição, você não tem feito por merecer.
— Pai, não brinca com isso! Eu mereci esse estágio, fiz aquela prova e enviei uma redação inédita para a pré-seleção, foi mérito meu!
Fugaku franziu o cenho e balançou a cabeça negativamente.
— Não importa, Sasuke. Você precisa de consequências para as suas ações, já tomei a minha decisão e já liguei para o juiz Sakamoto. Você não vai fazer esse estágio! Vai precisar se esforçar o triplo na escola se ainda quiser entrar na U-tokyo depois disso.
O minuto de silêncio que se instaura na sala é quase mais barulhento do que a discussão inteira. Sasuke sente o seu coração acelerado dentro do peito e a desmotivação iminente entupindo seus poros.
— Meu filho, se tem algo acontecendo com você… Algo que seja gatilho para esse tipo de ação… Você deve falar com a gente, tá bom? Não precisa sofrer sozinho!
Aquela frase da sua mãe quase o fez rir. Sasuke sentia-se sozinho desde que Itachi foi para a faculdade e o abandonou com dois pais ausentes, que sequer se lembraram do seu aniversário de dezesseis anos.
Mesmo com a volta de seu irmão para casa naquele começo de ano, nada dentro de si foi solucionado porque já estava impregnado por desesperança e solidão. Não havia o que pudesse fazer que desmanchasse a visão que nutriu dos pais desde a infância.
E se aquilo estava ou não atrelado a sua falta de importância aos boatos que haviam sobre si… Bom, ele não se importava.
— Sasuke, você precisa entender que o que você faz no ensino médio importa e tem consequências — Fugaku tornou a dizer.
— Você era um menino tão bom, meu filho… Sempre estudioso, sempre focado nas atividade extra-curriculares da escola… O que foi que aconteceu? Nem no clube de debates você está mais! Sempre gostou de argumentar…
Apesar de tudo e de toda mágoa, ver a decepção estampada na face de sua mãe, junto das lágrimas que ela derramava, era algo bem difícil de encarar.
Sasuke suspirou e aguardou pacientemente o fim daquele sermão, mas da parte do seu pai só houve mais frieza e tentativas de ensinamentos sobre consequências das atitudes, até que Fugaku se cansou de repetir as mesmas coisas e foi em direção as escadas, subindo para o próprio quarto.
Mikoto, entretanto, uniu suas mãos com as de Sasuke e apertou os dedos do filho entre os seus, olhando-o nos olhos. Ele conseguia sustentar aquele olhar, mas doía em seu âmago.
— Me diz uma coisa, filho… — Mikoto pediu, engolindo o choro para continuar. — Você não tem pretensão de amar uma mulher verdadeiramente um dia?
— O quê? — Sasuke tentou puxar as próprias mãos de volta, mas sua mãe foi mais forte em apertá-las.
— Com essa sua reputação e o tipo de coisa que ouvi… Filho, acho que nenhuma garota seria capaz de sustentar um relacionamento com você, e isso me parte o coração, Sasuke. Você sempre foi um menino tão doce, até mesmo sensível… O que aconteceu com você?
Ele finalmente teve forças para livrar-se do aperto e afastou-se da mãe, sentindo seu coração aos trancos dentro do peito.
— Minha vida amorosa não é da conta de vocês, afinal, eu também não estou por dentro do que lhes acontece enquanto vocês nunca estão por perto.
— Tem razão, e isso me dói muito, Sasuke — a mulher se aproximou novamente e o abraçou por trás.
Sasuke era ligeiramente mais alto que a própria mãe, mas ainda assim, Mikoto conseguiu depositar a cabeça no ombro do filho enquanto tentava fechar os braços ao seu redor. Seu menino havia crescido muito.
— Eu vou ficar mais tempo em casa, mesmo que precise abandonar alguns casos, eu prometo! E você vai começar a análise, e vou cuidar de você… Mas me deixe ajudar, filho, eu não quero que você se torne alguém solitário como o seu irmão — dizendo isso, a mulher o apertou ainda mais.
— Itachi está bem — Sasuke revirou os olhos.
Mikoto parou de falar e apenas concentrou-se em sentir o cheiro de Sasuke. Determinada a passar mais tempo com seus filhos, a mulher limpou as lágrimas e disse que Sasuke deveria tomar um banho e descansar, talvez começar a procurar alguma atividade extra-curricular que pudesse fazer seu pai mudar de ideia a respeito de estágio.
Mesmo que não quisesse admitir, aquela parecia a única possibilidade para Sasuke no momento. De alguma forma, ele precisaria começar a se importar com os boatos, talvez desfazer alguns, e implorar à Tsunade que o deixasse entrar em algumas aulas extras e outras atividades…
Suspirou enquanto ia em direção à cozinha, mas surpreendeu-se ao ver Hinata sentada em um dos banquinhos em frente ao balcão, com um copo de água girando entre os dedos e o olhar baixo.
— Você está aí há muito tempo?
— Uh? — A garota pareceu sair de uma espécie de transe. Seus olhos prateados estavam tristonhos. — Ah, desculpe, Sasuke-kun. Eu cheguei faz um tempo, mas percebi que o assunto de vocês era particular e não quis interromper. Não se preocupe, não ouvi nada, sou boa em me desligar.
Apesar de ser verdade, Hinata ouviu toda a última parte da conversa onde Mikoto perguntou à ele sobre seus relacionamentos. Aquilo a fez pensar sobre como Sasuke deveria carregar mais do que realmente falava ou demonstrava, e de alguma forma, sentia vontade de estar ao lado do rapaz, ser alguém com quem ele pudesse contar em meio a vasta solidão que deveria ter enfrentado.
De certa forma, Hinata entendia. Ela também vinha de uma família de pessoas importantes e após a morte de sua mãe, teve como maior companhia uma babá. Podia contar nos dedos de uma mão as noites em que jantava com o seu pai no espaço de três meses.
Ela vê Sasuke deixar a cozinha sem dizer mais nada, mas sua aura dolorida deixa um rastro para trás. O lado bondoso da Hyuuga fala consigo, e decide que deve definitivamente fazer algo para ajudá-lo.
Fale com o autor