Clichê Agridoce - Sasuhina
5 Capítulo 04
É tarde da sexta-feira da segunda semana de aulas e Hinata vê Sasuke sentado em uma poltrona da sala de estar com o queixo apoiado na mão e fones bluetooth nos ouvidos.
Ele não respondeu às provocações da garota durante toda a semana, além disso, mal ouviu sua voz na escola ou em casa. O Uchiha estava claramente cabisbaixo e desanimado.
Com um suspiro, ela decide fazer o que faz de melhor para animar as pessoas: cozinhar. Pega ingredientes na dispensa e começa a fazer seus famosos rolinhos de canela, seu doce favorito e o único capaz de tirá-la da tristeza aguda que sente durante a TPM. Por isso mesmo, capricha na quantidade de canela e os coloca para assar em seguida, voltando para a sala com o rosto todo sujo de farinha, algo que não passa despercebido pelo Uchiha menor, que tira os fones de ouvido.
— O que aconteceu com o seu rosto?
— O quê? — A garota passa em frente ao espelho no canto da sala, perto do piano de cauda, e dá uma olhada na farinha toda espalhada pelas bochechas redondas. — Ah! Droga, nem percebi que me sujei tanto…
Ela começa a retirar a farinha e volta para o sofá, pegando o controle da televisão em mãos. Sasuke torna a botar os fones enquanto Hinata passa os catálogos dos streamings insistentemente, até que ouve o tilintar do relógio de forno marcando o tempo perfeito para seus rolinhos saírem macios. O segredo era não assar demais e sempre colocar 350ml de leite integral na forma para assar junto, conferindo à massa uma fofura jamais vista nos rolinhos de padaria.
Com uma luva térmica, ela retira a iguaria do forno e percebe Sasuke vindo atrás de si. Sorri para ele enquanto distribui delicadamente o doce em um prato redondo e grande de porcelana com desenhos de morangos.
— Tó, fiz para você — a garota desliza o prato até o Uchiha, que ergue uma sobrancelha a olhando com desconfiança. — Quando eu estou triste, costumo comer isso e me ajuda muito.
— Quem disse que eu estou triste?
Hinata revirou os olhos.
— E precisa dizer? Seu semblante tá me dando depressão só de olhar.
— Suas garrinhas sempre ficam grandes perto de mim — Sasuke brincou sem tirar os olhos do doce. — Bom, Hime, lamento te informar que dessa vez as coisas não serão resolvidas conforme o que a princesa decreta, porque não sou o maior fã de doces. Na verdade, para ser mais prático, eu odeio açúcar em geral.
Foi inevitável corar ao ouvir o apelido antigo que Sasuke costumava direcionar a ela para irritá-la na infância. Sempre funcionou, e agora não foi diferente. As bochechas estavam vermelhas de raiva e o cenho franzido entregava isso. Como ele ousava? Além de recusar o doce que fez com tanto carinho, ainda fazia questão de provocá-la…!
Quando deu por si, já estava pegando um rolinho e enfiando-o direto na boca do Uchiha, que arregalou os olhos com a surpresa. Ele não se moveu, mas sentiu sua boca ser inundada pelo sabor não tão doce da canela. Havia açúcar, mas muito pouco, não era um doce enjoativo como bolos ou mousses. Não, aquele era um doce agradável, com presença forte da iguaria indiana, e ele era fã de culinária sul-asiática pelo tempero, um verdadeiro entusiasta.
Mastigou lentamente enquanto via o semblante bravo se desfazendo no rosto de Hinata, que abria um sorriso à medida que presenciava Sasuke realmente experimentando seus rolinhos.
— Então você gostou, não é? Que bom que não fez desfeita!
— Com a Hime enfiando isso na minha boca, como eu poderia ter alguma opinião? Você não suporta mesmo que não façam suas vontades, não é? Garotinha mimada!
Hinata estava tão feliz com a reação de Sasuke que sequer ficou brava em ser chamada de mimada. Sentia-se realmente bem de vê-lo interagindo e a provocando de volta para variar.
— Mas devo admitir que é realmente melhor do que eu imaginei, não é um doce enjoativo. Acho que a melhor parte é ver a sua cara toda suja de farinha.
Apesar de corar levemente, ela pegou um pequeno bowl com doces para si e voltou para sala, sendo seguida de perto por Sasuke, que a esse ponto já havia deixado os fones para trás.
Ao sentarem-se no grande sofá, Hinata passou todo o gênero de filmes de comédia romântica da Netflix, mas teve o controle puxado da sua mão por Sasuke.
— Comédia romântica? Sério? Ficção científica é bem melhor!
Ela viu ele visitar o catálogo desejado e aí foi a sua vez de revirar os olhos, deixando os doces de lado para puxar o controle de volta para si.
— Nada disso! Eu cheguei primeiro! Você nem queria ver televisão…
Como duas crianças, começaram a brigar pelo controle, apertando os botões sem ligar se estragariam ou não o eletrônico. Entretanto, os dois viraram a cabeça imediatamente para o grande monitor quando ouviram uma musiquinha soando.
Imagens de uma cidade desconhecida passavam, assim como personagens vestindo roupas sociais de escritório. Os dois se entreolharam e soltaram o controle ao ver o título “The Office”, como se fosse um acordo mútuo para experimentarem aquele primeiro episódio do sitcom desconhecido.
Possivelmente a melhor atitude que tomaram. Quando deram por si, já haviam matado a primeira temporada de seis episódios e Hinata estava indo até a cozinha buscar mais doces, enquanto pedia para Sasuke pausar porque ela não poderia perder nem um segundo do primeiro episódio da segunda temporada.
Sasuke também se agradou tanto com a série que sequer viu as milhares de notificações que pipocaram em seu telefone, todas no grupo intitulado The Boys de Konoha, um nome idiota escolhido por Naruto, que não perdia um episódio da série The Boys.
Naruto [17:16]: a gente vai beber, aparece aí @sasuke
Naruto [17:31]: vai ser no ichiraku clube, aquele que vende ramen barato e cerveja boa
Gaara [17:33]: a minha irmã tá junto então vai comprar bebida pra gente
Kiba [18:11]: ué, pq ele não tá respondendo?
Naruto [18:15]: sei lá, ele tá depressivo esses dias
Naruto [18:37]: Sasuke, vem logo
Sai [18:48]: cara, a Ino tá aqui e ela tá UMA GATA!
Gaara [18:49]: como se isso fosse resolver algo, o Sasuke tem quem ele quiser e ele já teve a Ino
Sai [18:49]: não me lembra disso não que eu fico depressivo
Naruto [18:51]: SASUKEEEEEEEEEE! VEM LOGO!
Haviam mais milhares de mensagens daquelas e olhando o horário, percebeu que já passavam das 20h da noite. Era uma sexta-feira e normalmente nessas noites ele realmente estava com os amigos, mas naquela, não havia nenhum outro lugar que gostaria de estar senão o sofá de sua casa, nem outra companhia melhor do que a de Hinata.
Estava gostando de assistir a série com ela, tanto que esqueceu dos próprios problemas. Se fosse para o bar, lembraria de todas as mentiras nas quais estava metido e isso ele preferia evitar.
Com um suspiro, começou a digitar que hoje estava ocupado e enviou a mensagem assim que Hinata retornou com mais doces.
— Dá play! Eu tô ansiosa para ver se o Jim vai logo roubar a Pam daquele cara — Hinata se empolgou enquanto alojava-se ao seu lado no sofá.
— Ele deveria, aquele Roy é um idiota, não merece ela de jeito nenhum. Mas eu tô mais ansioso é pros episódios que focam no Dwight e no Michael, acho que nunca ri tanto igual naquele episódio da diversidade cultural…
— Aquilo foi terrível, você viu o que eles falaram dos asiáticos?
A discussão perdurou durante um tempo enquanto assistiam a série, e quando deram por si, já passava da meia-noite. Hinata foi para o seu quarto descansar e Sasuke a seguiu, parando em frente à própria porta por um momento antes de entrar. Ele gostaria de agradecer a companhia, mas não sabia fazer aquilo, apenas olhou a garota entrando no próprio cômodo.
— Boa noite, Sasuke-kun! Durma bem.
Ele resmungou alguma coisa inaudível de volta e foi logo deitar-se na própria cama, sentindo um calor gostoso alastrar-se por dentro do próprio peito, uma sensação de estar acompanhado que não sentia há muito tempo.
[...]
Era sábado de tarde quando Sakura chegou à residência dos Uchiha e tocou a campainha. Ino lhe bombardeava com mensagens exigindo sua presença, porém a Haruno havia precisado deixar a mãe no hospital antes de ir.
A porta se abriu revelando ninguém mais, ninguém menos, do que o seu professor de introdução musical de cabelos perfeitos e voz angelical. Sakura perdeu as palavras por um momento.
— Sakura? — o Uchiha franziu o cenho.
— Oi, professor… É… Eu sou amiga da Hinata — ela explicou, tentando deixar o constrangimento da situação de lado. — Esqueci que você era o irmão mais velho do Sasuke.
— Não precisa me chamar de professor aqui não — Itachi sorriu e liberou a passagem. — Vamos, entra aí! Espera, aquela moto lá é sua?
A Haruno assentiu e olhou para trás também. Havia uma scooter à combustão branca com detalhes em rosa, e um grande decalque de um galho de cerejeira decorando a lateral que estava à mostra. Aquela era uma moto de grande personalidade, Itachi reparou.
— Maravilhosa! Eu sempre quis uma scooter à combustão, deve ter sido super cara.
— Nem tanto — a Haruno riu da devoção que Itachi parecia demonstrar pela moto. — Na verdade, comprei a maioria das peças ao longo de meses e meu pai me ajudou a montar quando eu morava com ele.
— Além de uma artista exímia você também monta motos nas horas vagas? O que você não sabe fazer, garota?
Sakura corou e desviou o olhar. Normalmente, não sentia-se tímida daquele modo em presenças masculinas, mas Itachi era… Diferente, para dizer o mínimo. Uma companhia sublime que a deixava profundamente nervosa na mínima interação.
— Muitas coisas. Sou péssima em música, não reparou ainda?
Itachi riu.
— Até o fim do semestre, eu te prometo que sairá das minhas aulas sabendo algum dos instrumentos de corda.
Os olhares dos dois se encontraram com um sorriso cúmplice, mas foram interrompidos por uma Yamanaka bastante impaciente.
— Parece que você se perdeu no caminho, testuda — Ino cruzou os braços em frente ao peito e ergueu uma sobrancelha. — Estamos te esperando há uma hora!
— Já sei, já sei — Sakura revirou os olhos. — Tchau, prof… Itachi! Foi mal, ainda não me acostumei.
— Até mais, Sakura. Cuidado com aquela belezura lá fora, hein?
Itachi acabou tropeçando nos próprios pés ao se virar e saiu da sala xingando baixinho. Sakura não falou nada, mas achou a cena uma graça, e mesmo após estar sendo guiada por sua amiga até o quarto de Hinata, ela ainda sentia que poderia ter passado muito mais tempo conversando com o professor de Introdução Musical.
Assim que adentrou o quarto da Hyuuga, viu ela estirada em cima do tapete felpudo lilás com um livro em mãos. Não parecia se importar com a bagunça que o furacão-Ino fez em sua cama, atirando roupas de todos os tipos ali como se nada importasse.
— Sakura! — Assim que a viu, Hinata sentou-se sobre os próprios joelhos e deixou sua edição de “Carmilla” de lado.
A literatura gótica lhe caía bem, Sakura pensou antes de cumprimentá-la e sentar ao seu lado.
As três passaram algum tempo escolhendo roupas, embora Hinata não desse a mínima para aquilo, já que nunca foi a pessoa mais interessada em moda. Ainda assim, não se importou com a escolha que Ino fez para ela: um vestido tomara que caia lilás, com uma saia curta e rodada que terminava em babadinhos brancos. Nos pés, botas pretas por cima de meias longas, também pretas.
Mesmo deixando que escolhesse sua roupa, Hinata fez questão de adicionar alguns toques pessoais. Colocou um colar com pingente de lua, que um dia pertencera à sua mãe; outro com um girassol, presente de Neji; e, por último, um com uma delicada pedra de quartzo rosa, que ganhara de uma cartomante esotérica que conheceu certa vez, e que lhe disse para usá-lo se quisesse encontrar o amor. Uma parte de Hinata ainda queria acreditar naquilo.
Juntos, os colares formavam uma sincronia de pingentes sem se sobreporem. E, devido ao tamanho avantajado do busto, ela também decidiu por colocar um cardigan cor de creme com estrelas pretas bordadas que combinava perfeitamente com o restante das roupas.
— Você tá linda, Hina! Passa esse batom aqui — Ino entregou um batom vermelho bordô à amiga e concentrou-se nos próprios cílios de boneca, aplicando uma quantidade generosa de rímel. — Vocês acham que o Shikamaru vai hoje…?
O tom da Yamanaka não era nada despretensioso, o que fez Sakura erguer uma sobrancelha.
— Esse não é aquele cara que namora uma universitária?
Antes mesmo de aplicar o blush, Ino ficou com as bochechas e orelhas vermelhas, mas fingiu que não estava afetada pela frase procurando mais maquiagens na própria necessaire.
— Ino… Você não deveria gostar de caras comprometidos, isso não é legal — Hinata comentou delicadamente enquanto terminava de passar o batom.
Agora seus lábios pareciam maiores e mais cheios, embora na mesma expressão de boneca de sempre.
— A gente não manda no coração — Ino falou de maneira magoada. — Quando você estiver apaixonada, você vai me entender, Hina.
Embora quisesse ter empatia, Hinata só conseguia pensar que por mais apaixonada que pudesse ficar por Naruto, seria incapaz de magoar outra pessoa apenas para tê-lo. E esperava que tal clareza chegasse a sua nova amiga em breve.
Depois de algum tempo, as três já estavam prontas e partiram em direção à garagem. Sakura iria no carro de Ino e buscaria sua moto depois, portanto a estacionou dentro da grande garagem dos Uchiha e já foi pegando o lugar no banco do carona, enquanto Hinata colocou o cinto de segurança no banco de trás.
No mesmo momento que saíam da garagem, Sasuke tirava seu carro logo à frente, uma belíssima caminhonete quatro portas preta de vidros foscos. Apesar de ter olhado o retrovisor, pareceu ignorar a presença das garotas e não demorou a cantar pneus em direção à avenida principal.
— Ele é um idiota por ir à essa festa com a Karin em vez de com a gente — Ino revira os olhos enquanto pisa no acelerador, deixando a garagem para trás também.
— Quem é Karin?
A pergunta de Hinata faz Sakura e Ino se entreolharam.
— É a insuportável da prima do Naruto — Ino explica. — Ela estudou no mesmo internato para garotas problemáticas que a Sakura e eu, mas já estava lá há algum tempo quando chegamos… Digamos que não é o tipo de amizade feminina que você vai querer ter, Hina.
— O Naruto disse que ela também luta karatê.
— Ah, sim, e ela é ótima, representa a Genius e ganha com frequência as competições. O problema é que ela vive rivalizando com qualquer menina à toa, ela ainda não cresceu e tá presa na década passada.
— Se acha “diferente das outras garotas”, mas é só uma chata — Sakura completou com um revirar de olhos. — Se ela se meter com você, já me avisa que eu acabo com ela!
— E acaba mesmo, não seria a primeira vez — Ino comentou em tom de fofoca, o que atraiu a atenção de Hinata.
Sabia que Sakura era muito estourada, mas também que para fazê-la partir para agressão, Karin devia ter feito algo grave.
— Enfim, tanto faz, não quero estragar minha noite que ainda nem começou. Que mal gosto o Sasuke tem, hein? — Sakura abriu a janela para olhar para fora enquanto falava. — Sabe quem é um gostoso? O irmão mais velho dele!
A empolgação na voz da rosada fez Ino rir.
— Ele é nosso professor, Sakura! Que nojo! — Hinata reprimiu o tom de indignação, mas a verdade é que entendia plenamente porque ela considerava aquilo.
Itachi é um desses caras inacessíveis. Bonito pra caramba, inteligente que só, bom em tudo que se propõe a fazer, gentil e engraçado. O ponto é que ele só tem olhos para os estudos e seus hobbies, ao passo que mal parece perceber a legião de mulheres ao seu redor, torcendo para serem escolhidas enquanto tudo que ele quer tocar é a sua maravilhosa guitarra vermelha.
Hinata desprendeu-se do pensamento ao refletir sobre que tipo de cara Naruto era. Não parecia inacessível. Apertando o quartzo rosa em seu colar e colocando-o para dentro do decote do vestido, ela pensou que talvez pudesse ter uma chance.
[...]
—...Aí, você precisa destruir todas as torres inimigas de pelo menos uma rota, quebrar os inibidores e acessar o Nexus inimigo para destruí-lo também. É assim que você ganha no League of Legends — Naruto explicou enquanto mostrava um vídeo de uma gameplay em seu celular. — Entendeu, Hina?
Hinata sorriu. Foram minutos de explicação sobre algo que ela sequer gostava, mas ficou feliz em ouvi-lo.
— Entendi, e você joga na selva, é isso?
— Sim! É uma responsa, mas eu gosto, carrego várias partidas — Naruto comentou orgulhoso. — Já tentei fazer o Sasuke jogar, mas ele prefere jogos solo, sempre um lobo solitário.
Entre risadas, os dois prosseguiram naquela conversa por mais um tempo. Algo dentro de Hinata sinalizava que passar aquele tempo sozinha com Naruto era bom e que talvez ele fosse interessado nela também, por isso falava tanto de algo que gostava, porque ela estava lá para ouvi-lo.
Ao longe, via suas amigas dançando com outros jovens bêbados, mas não sentia vontade de se juntar a elas. Ino e Sakura davam um verdadeiro show, e Hinata gostava de passar despercebida, principalmente se fosse para dedicar tempo a conversar com Naruto.
Entretanto, foram interrompidos por um rapaz de cabelos castanhos bagunçados e pele morena. Ele vestia uma flanela xadrez e segurava um copo vermelho nas mãos, provavelmente contendo álcool.
— Aí, Naruto! — cumprimentou o amigo com um meio-abraço. — Quer cerveja?
— Agora não, valeu — o loiro guardou o celular no bolso. — Ah, Kiba! Essa aqui é a Hina, ela tá morando na casa do Sasuke, são amigos de infância. Hina, esse é o Kiba, ele tá no programa de Negócios e no time de basquete da escola.
— Então você é a famosa Hinata Hyuuga — Kiba se inclina e beija a bochecha da morena em um cumprimento caloroso que a faz corar. — Prazer em te conhecer.
— O prazer é meu — ela comenta ao se afastar levemente. — F-famosa? Quem tá falando sobre mim?
Kiba riu e Naruto percebeu que ele tornou-se repentinamente mais charmoso perto de Hinata, uma prova de que era um galanteador fajuto.
— A Ino falou bastante de você, nós fazemos alguns trabalhos em grupo. E também, você estava na minha classe na semana passada antes de mudar de programa, mas não deve ter reparado em mim.
Hinata corou.
— Desculpe.
— Não faz mal, eu acabo faltando muita aula por causa dos treinos de basquete.
— E ele nem ganha faltas porque é o nosso principal jogador, a estrela do time! — Naruto disse em tom de indignação.
— Como se você não tivesse regalia alguma sendo presidente do grêmio estudantil, não é?
— Você é o presidente do grêmio estudantil? — Hinata não estava surpresa. A determinação de Naruto parecia levá-lo longe, mesmo que aparentasse ter sérias dificuldades de concentração.
— Não me gabo muito disso — o loiro colocou dois braços atrás da nuca com um sorriso imenso.
— Não, só a cada dois minutos — Kiba revirou os olhos, arrancando um riso de Hinata. Ele sorriu para ela. — E você? Por que mudou de programa? Não gosta de negócios?
— Oh, nem um pouco — a garota admitiu ao dar de ombros. — Minha mãe estudou artes na Genius, e não sou a pessoa mais artística do mundo também, mas estou determinada a descobrir o meu tipo de arte.
— Aí, onde está o Sasuke? — Naruto interrompeu, totalmente alheio ao que Hinata falava.
Kiba revirou os olhos.
— Passei pelo carro dele estacionado na rua quando cheguei, e os sons não eram dos mais agradáveis e a janela estava totalmente embaçada… Acho que é a Karin.
— Porra — Naruto balança a cabeça negativamente, parecendo enjoado. — Ela conseguiu usar ele de novo.
— Como assim de novo?
Diante a pergunta de Kiba, o loiro se esquiva percebendo que pode dar com a língua nos dentes e entregar o segredo do melhor amigo.
— Nada. Ei, tá calor, não tá? Vou pegar bebidas para a gente. Que veneno você toma, Hinata?
A garota sorriu diante da gentileza e pediu que trouxesse qualquer coisa. A verdade é que ela estava preocupada com Sasuke, não era normal o tanto de boatos sexuais que ouviu sobre seu arqui-inimigo de infância desde que entrou na Genius.
Todo mundo sabia quem ele era, e de alguma forma, aquela explosão de informações novas não combinava em nada com o moleque estudioso, competitivo e fã de Star Wars que conheceu na infância. Não, aquela era uma versão de Sasuke que parecia completamente alterada.
Responder aos professores ela entendia. Ele sempre fora um pouco impaciente mesmo, sobretudo quando contrariado em suas teorias e experimentos diversos. Gostava de argumentar e questionar até levar os adultos ao cansaço.
Entretanto, ele pareceu deixar a argumentação de lado. Em vez disso, todos falavam como ele abandonou todas as extra-curriculares, clubes e eletivas apenas para ficar enfiando a língua na garganta de garotas diversas. Matava aula para fumar, beber ou qualquer outra coisa do gênero. foi pego mais de uma vez fazendo coisas impróprias na escola. Se meteu em brigas e quebrou uma cadeira nas costas de um garoto que, inclusive, saiu da Genius apenas uma semana após o incidente. Isso tudo foram coisas que Hinata ouviu no boca-a-boca, e não queria acreditar… Até ouvir pela metade a conversa de Sasuke e Mikoto.
Poderia aquele garoto ter se sentido solitário a ponto de chutar o balde e prejudicar o próprio futuro? Por nostalgia ou gentileza, Hinata compadecia-se com a situação dele e estava determinada a ajudá-lo.
— Mas sério, a coisa parecia pegar fogo lá naquele carro — Kiba estremeceu, tocando no assunto de novo quando Naruto foi em busca das bebidas. — O Sasuke tem algum tipo de mel, porque não é possível. Toda festa ele nos abandona e usa o próprio carro de abatedouro.
A Hyuuga sequer queria imaginar aquilo.
[...]
— Isso, isso, isso! Vai, Sasuke-kun!
Sasuke via a garota ruiva se contorcendo no banco ao lado, sentada com os joelhos um de cada lado de um travesseiro grande enquanto simulava movimentos de cavalgada.
Meio enjoado, o moreno afundou um pouco mais no banco e levou as duas mãos aos cabelo, puxando-os conforme sentia vontade de esmagar o próprio crânio para deixar de ouvir aqueles gemidos perturbadores que Karin fingia.
Mais alguma movimentação, ela deu um grito e fez os dedos escorregarem pelo vidro da janela, formando marcas que fariam os adolescentes lá fora deduzirem o motivo dos vidros estarem embaçados. Ele revirou os olhos e deixou a cabeça cair sobre o volante, acionando a buzina de leve sem querer.
— Bom, isso deve ajudar a acharem que foi intenso — Karin deu um sorrisinho e acariciou a nuca de Sasuke, o que o fez se esquivar. — Ah, qual é. Você só pode ser gay.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas não respondeu o que gostaria de responder à ela.
— Ficar indiferente à uma garota linda gemendo no seu banco do carona não é normal não, você deve ser gay, sim.
— Não vou me esforçar para provar o contrário à alguém que tem um ego comicamente grande a ponto de achar que um cara não se atrair por ela torna ele necessariamente gay.
Indignada, Karin fecha a cara e desafivela o cinto para sair.
— E Karin… Nosso trato já foi cumprido, então vê se não me amola mais.
— Vou fazer questão de dizer pra todo mundo nessa festa o quão mal de cama Sasuke Uchiha é! — Ela abre a porta do carro e olha mais uma vez para ele antes de descer. — E vou dizer também que seu instrumento não serve de porcaria nenhuma!
— Por mim…
Ele dá de ombros, o que a faz praticamente espumar de raiva enquanto bate a porta atrás de si e caminha rapidamente para dentro da casa de Naruto.
Era a segunda vez que fingiam transar do lado de fora de uma festa. Tudo na base da chantagem, mas também porque Karin queria chamar atenção do seu ex-namorado, Suigetsu, que havia largado dela durante as férias após passar um mês inteiro nas Filipinas.
Sasuke percebeu tarde demais o quão grande aquela bola de neve se tornou. Tudo começou apenas com um mal entendido e um favor prestado à Ino no primeiro ano do ensino médio, mas rapidamente escalou ao ponto de, ainda virgem, ser considerado um perigo à saúde sexual das pessoas a nível cósmico.
Agora, as consequências o afetam diretamente de uma forma que ele sequer queria pensar a respeito, mas precisava. E, antes de mais nada, precisava de uma vaga em qualquer extracurricular possível que fosse lhe devolver sua oportunidade de estágio com a Big Four.
Afinal, se não for ele, provavelmente será Karin. E Sasuke se recusa completamente a perder para aquela ruiva maluca e chantageadora.
Bate a porta atrás de si e dá de cara com uma legião de garotos do segundo ano, que sequer deveriam estar ali. Todos eles ergueram seus copos com cheiro de álcool na direção de Sasuke e o parabenizam, vibrando e o chamando de herói. Sasuke revira os olhos, ignora e percorre o caminho de pedra até a entrada da casa dos Uzumaki, na qual já esteve várias vezes antes.
Odiava essas festas, preferia quando apenas as pessoas que ele verdadeiramente gostava eram chamadas. Mas Naruto era festeiro e gostava da sua casa cheia e, principalmente, via nisso uma boa razão para ser sempre reeleito como presidente do grêmio estudantil. Por mais que estivesse em seu último ano e não fosse necessário se reeleger, o Uzumaki ainda falava sobre deixar a sua marca no anuário, mesmo que fosse como o “Rei das Festas”. Sasuke achava aquilo idiotice.
Anotou mentalmente que ficaria alguns minutos e depois iria embora, dormir em sua cama de lençois limpos ao assistir mais episódios de Doctor Who ou jogar Red Dead Redemption 2, o que viesse primeiro.
Dentro da casa, caixas de som bem posicionadas tocavam uma playlist que só podia resumir como típica de Naruto. Tyler The Creator, Kanye West, Sabrina Carpenter e Akon, aqueles eram os artistas que normalmente dominavam festas como essas, e até haviam algumas pessoas dançando, mas a maioria apenas conversava em grupos grandes.
No sofá, ele logo percebeu Naruto, Kiba e… Hinata? Quase esfregou os olhos para ter certeza de que estava vendo a coisa certa, afinal, imaginou que a garota não sairia de perto das próprias amigas, mas ali estava ela, fazendo novas amizades.
Pela maneira como ela ria, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha e olhando para Naruto de forma encantada, Sasuke não demorou a perceber que Kiba parecia estar sobrando ali. Hinata não deixava a desejar no ato de demonstrar interesse, e a julgar pelos olhos brilhantes, deveria estar ouvindo Naruto falar sobre suas baboseiras há vários minutos.
Ele já estava quase chegando no sofá quando percebeu os melhor amigo se afastando. Ao longe, viu Shion virando um shot junto com suas amigas da ginástica, rindo e vestindo roupas provocantes e cheias de brilho. As botas brancas até os joelhos eram seu principal adereço e todo estilo de patricinha y2k da garota chamava a atenção de Naruto como uma torta quentinha de nozes para um esquilo faminto.
Entretanto, seus olhos pairavam sobre Hinata, que foi abandonada junto de Kiba. Ela estava claramente tristonha com o afastamento repentino de Naruto, cabisbaixa para dizer o mínimo, e sequer prestava atenção no que o moleque-cachorro — como Sasuke costumava chamá-lo pelas costas — falava.
— Sasuke! — Ouviu Kiba chamando ao aproximar-se, o rapaz moreno colocou um braço sobre o pescoço de Sasuke e o obrigou a sentar-se junto dele no sofá branco. — Cara, você precisa parar de pegar todas as meninas da escola, depois elas rejeitam seus amigos por acharem que ficaria uma situação chata…
O Uchiha se desvincula do aperto dele e olha para Hinata, que ainda parece chateada. Ele bufa e se volta para Kiba.
— Ou elas usam isso de desculpa porque não querem ficar com você.
— Se isso fosse um filme americano, as garotas deveriam preferir o capitão do time de basquete do que o badboy encrenqueiro que não sabe amar.
Hinata finalmente expressa alguma emoção ao ouvir a reclamação de Kiba, estreitando os olhos e franzindo o cenho.
— Tem muitos filmes e livros que giram em volta do badboy, na verdade. Dez coisas que eu odeio em você, por exemplo, é a garota que faz esporte e fica com um badboy daqueles — ela diz.
— Nunca assisti isso — ele dá de ombros. — Enfim, eu vou ir dançar e ver se alguma gatinha da equipe de ginástica tá afim de fazer bodyshot.
Ao vê-lo se afastar, Sasuke revira os olhos. Gostaria mesmo de entender o que os amigos viam nesse tipo de atitude, por exemplo, beber vodka da barriga de alguém não parecia nada agradável, até meio nojento. Seus olhos alcançam o copo de líquido verde nas mãos de Hinata e ele ergue uma sobrancelha.
— É suco de abacaxi com menta, não é álcool — ela sorri minimamente.
— Faz mais sentido.
— Está se divertindo, Sasuke-kun?
Ela estava disposta a conversar com ele, talvez pudesse ser a companhia que ele precisava, uma amiga que lhe ouve.
— E como — diz ironicamente. — Na real, eu nem queria vir. E quando olho para esses idiotas fazendo esse tipo de coisa, penso que deveria ter ficado em casa mesmo.
Hinata presta atenção para onde ele está olhando. Naruto e Kiba estão falando com as garotas da equipe de ginástica, e Sai, que ela conheceu como outro amigo próximo de Sasuke, está vomitando em um vaso de plantas, sendo amparado pelas mãos gentis de uma garota indiana gótica com camiseta dos matletas, cujo Hinata desconhece o nome, mas sabe ser da sua turma do programa de Artes.
Uma pontada atravessa sua espinha quando repara em Naruto e Kiba indo embora da sala, ambos acompanhados das garotas com quem falavam.
— Você deveria ser mais gentil ao falar sobre os seus amigos, Sasuke-kun, são eles que te aturam todos os dias.
A crueldade implícita na voz da garota máscara que, na verdade, acha doloroso encarar Naruto flertando descaradamente com Shion. Sasuke ergueu as sobrancelhas, surpreso com a intromissão dela.
— Você não faz a mínima ideia do que está falando, Hinata. Até porque, meu único amigo verdadeiro entre aqueles idiotas que não conhecem 1% de mim, é só o Naruto.
Antes que Hinata possa replicar e tudo se torne uma discussão acalorada, Ino abraça os pescoços dos dois por cima do sofá e se inclina sobre ambos, sorrindo abertamente.
— Acabei de encontrar com o Naruto e ele está solicitando a presença de vocês dois lá no escritório do Sr. Namikaze!
A voz animada de Ino faz Hinata aceitar, esperando muito que Shion tivesse ficado para trás neste convite. Sasuke a segue apenas porque não há mais nada para fazer naquela sala cheia de adolescentes bêbados.
Quando entram no escritório do pai de Naruto, percebem que o lugar se tornou uma festa dentro de outra festa. Uma rodinha se formou onde antes parecia ter uma mesa, agora arrastada para perto das estantes de livros, um paraíso para os olhos curiosos da Hyuuga que percorrem todas aquelas prateleiras tentando enxergar títulos que conhece.
— Sentem-se, por favor, estamos prestes a iniciar uma rodada de Eu Nunca — diz o anfitrião com uma cordialidade anormal.
Ao seu lado, estão Shion e a outra amiga dela de quem Hinata não sabe o nome, e ao lado dela, respectivamente, Sakura, Gaara do programa de negócios, Shikamaru e sua namorada universitária que é a irmã mais velha do Gaara e Kiba. Ino vai para o lado dele e deixa espaço para Sasuke e Hinata, que sem querer, acaba sentada ao lado de Naruto.
Ela percebe o nervosismo do loiro em relação a Shion e a proximidade deles, mas resolve ignorar e divertir-se com seus amigos. A face rosada de Sakura denota a empolgação ao vê-la.
— Não vou jogar essa besteira — Sasuke bufa.
— Então sai do escritório, Teme — Naruto advertiu.
— Não vou sair.
— Então você vai jogar — disse Ino de maneira ameaçadora, passando um copo de shot para ele.
Sasuke segurou o copinho contra a sua vontade, mas estava aceitando aquilo principalmente porque Hinata ficaria, e nutria certo nível de preocupação pela garota para não querer abandoná-la prestes a dar seus primeiros goles de vodka, se é que realmente teria algo pelo que beber.
— Okay, eu vou começar! — Cantarolou Ino alegremente. — Eu nunca… Peguei meu ex com uma freira!
Sakura soltou um arfar de ultraje, virou o shot e deu uma risada. Todo mundo olhou para ela chocado.
— O quê? Acham que só porque estava em um internato católico alguém naquele lugar prestava? Nem as freiras!
Diante a fala, todo mundo dá risada e prossegue o jogo. Algumas perguntas depois, Kiba faz uma pergunta que, sem saber, faria todos na roda beberem, menos ele.
— Eu nunca beijei ninguém da roda.
Ao virarem os shots, todo mundo se entreolhou. Sasuke havia revirado os olhos quando bebeu, lembrando-se vagamente do seu primeiro beijo ter sido com Ino no começo do ensino médio. Isso, claro, para não falar do seu primeiro beijo real… com Naruto!
Entretanto, ele abre bem os olhos quando se dá conta que Hinata bebeu e a encara com pura interrogação no olhar. Ino se exaspera de imediato.
— Hinata?!
— Como podem a Hinata e a Sakura terem bebido se estão por aqui há apenas duas semanas? — Naruto ergueu uma sobrancelha.
— Hinata, você ficou com o Sasuke?! — Ino dispara aos gritos, o que faz todo grudar os olhos em Sasuke de imediato, totalmente apavorados com aquela ideia.
Um silêncio toma conta da sala enquanto podem ter apenas o vislumbre da música quebrando nos corredores fora do escritório.
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