Clichê Agridoce - Sasuhina
3 Capítulo 02
Notas iniciais
— Essa saia é tenebrosa de tão curta!
O lamento da Hyuuga veio acompanhado de um suspirar cansado. Não havia dormido quase nada na noite anterior, além disso, o toque esganiçado do despertador contribuiu para o seu leve mau humor.
Hinata ainda não havia falado com Mikoto e Fugaku, pois os dois Uchihas saíram em uma viagem de emergência para um caso a ser tratado no tribunal internacional de Tóquio. Portanto, naquela casa eram somente Hinata, Sasuke e seu irmão mais velho, Itachi.
Por falar nele, o homem se encontrava calmamente degustando um grande copo de café americano enquanto fazia anotações pontuais em um caderno de partituras. Havia um óculos retangular sobre a ponte do nariz e suas marcas de expressão combinadas as olheiras denotavam cansaço. Ainda assim, Itachi pareciam jovem demais.
— Ah, Hinata — ele disse sem erguer o olhar da folha. — Creio que não fomos apresentados, mas minha mãe falou sobre você. Sou o Itachi.
A garota sorriu e estendeu a mão, pois o conhecia muito bem.
Quando mais nova, suas colegas gostavam de ir até a cafeteria mais badalada do centro de Konoha após as aulas, e ficavam sordidamente espiando o Uchiha mais velho estudar para as provas vestibulares.
A maioria das meninas daquela época era pateticamente apaixonada pelo irmão mais velho de Sasuke na infância, e apesar de não ter sido o caso de Hinata, não deixava de achá-lo de uma beleza descomunal e uma inteligência invejável.
— Você quer uma carona? Eu vou sair para a Genius em cinco minutos.
O semblante dela se retorceu em confusão, o que não passou despercebido pelo maior, que sorriu em resposta.
— Eu estou lecionando música lá esse semestre, no programa de Artes. Terminei a faculdade de música há pouco tempo, por isso ainda não tive tempo de arrumar um apartamento por aqui entre o fim do curso e essa oportunidade de emprego repentina.
— Poxa, que bacana! Mas achei que você era advogado…
Itachi riu.
— Isso é uma confusão comum, já que a minha família é inteira formada por advogados, mas minha mãe tem um pé na arte, assim como eu. Aliás, ela conheceu a sua mãe em uma cadeira eletiva de pintura impressionista, não sabia?
Hinata balançou a cabeça em uma resposta negativa, mas seus olhos brilharam. Ficava fascinada por qualquer fragmento que tinha sobre a própria mãe, afinal, desde a morte dela tem vivido longe de suas memórias, já que seu pai resolveu engarrafá-las em vez de enfrentar o luto.
— Pois é, os Uchiha podem ser uma caixinha de surpresas — ao dizer isso, ele prestou atenção em Sasuke atravessando a cozinha com a gravata do uniforme desalinhada e a camisa social amassada, uma completa bagunça. — Bom, menos o Sasuke, esse aí é exatamente o que se espera de um Uchiha. Metódico, nerd e com o incrível sonho de suceder o papai.
O mais novo ergueu o dedo do meio para o irmão.
— Achei que não gostasse mais de coisas de nerd, Sasuke — Hinata provocou.
— Não? — Itachi gargalhou. — Tinha que ver ele brigando com uma criança de 8 anos na loja de videogames por causa do último jogo do Star Wars, que só tinha uma cópia. Ou quando acabou o estoque da revista de astronomia que ele gosta e ele ficou desesperado, implorando pro tio da banca conseguir mais.
Hinata levou a mão sobre os lábios e riu, principalmente ao perceber que Sasuke estava realmente bravo com as revelações de Itachi.
— Vai ficar enchendo o meu saco ou vai ir trabalhar de uma vez, velhote?!
— Olha o respeito com seu novo professor, irmãozinho. Vai querer uma carona ou não?
— Só porque meu carro tá na oficina.
Os três rumaram até a garagem, onde entraram na maravilhosa BMW vermelha de Itachi.
Hinata não pôde deixar de reparar que Sasuke vestia uma jaqueta de couro por cima da camisa social branca do colégio, e os cabelos estavam bagunçados e espetados como se nunca houvesse visto um pente. Ela franziu o cenho e olhou para fora da janela.
Tudo bem que os cabelos do garoto sempre foram um pouco rebeldes, mas de alguma forma, ele parecia mais… Dócil antigamente. Não sabia dizer o que tinha mudado, apenas que muita coisa havia mudado.
Assim que chegaram ao estacionamento do Instituto, Itachi travou o carro e foi em direção a sala dos professores, não deixando de ler as anotações que fez nos cantos do caderno de partituras enquanto caminhava.
Bastou virar o corredor principal para que um corpo fosse jogado contra o seu, fazendo com que o copo de café americano que segurava voasse e arrebentasse em contato com a parede há alguns metros.
Apesar de pingos terem voado em sua camisa branca, o líquido já não estava mais quente o suficiente para queimá-lo.
— Ai! Me perdoa — uma voz aturdida disse e ele se surpreendeu ao pôr os olhos em uma jovem extravagante de cabelos rosas e uniforme personalizado. — E-eu me atrasei logo no meu primeiro dia porque perdi os meus horários, estava indo pedir outro na diretoria, não quis esbarrar em você…
Itachi não conseguiu ficar bravo diante o desespero que a menina parecia nutrir, olhando nervosamente para os lados enquanto se levantava e lhe estendia a mão para ajudá-lo.
— Que bagunça que eu fiz… Me perdoa mesmo, quer que eu te pague outro café? Aqui, toma! — Ela não esperou uma resposta e colocou uma nota de dinheiro nas mãos do rapaz, que tratou de negar e devolver. — De que programa você é?
— Artes, e você?
— Também! Talvez a gente estude junto.
Ele estava confuso, talvez pelo baque, talvez pela forma como aquela garota não parecia se enquadrar no que esperava das meninas mimadas de açúcar da alta sociedade que frequentavam o Instituto Genius.
— Talvez — ele respondeu sem entender porquê.
— Bem, então até mais tarde! E tome cuidado, você também estava lendo enquanto passava pelo corredor, difícil não sofrer um acidente assim…
Falando informalmente daquele modo, ele percebeu que muito provavelmente a garota não sabia que ele seria seu professor. Sorriu ao vê-la se afastar ainda às pressas.
///
— Fecha a boca pra não babar, Dobe — Sasuke avisou enquanto seu melhor amigo não disfarçava o olhar cheio de sugestão que jogava para a loira da última turma do programa de Artes.
Aquela era Shion, a antiga paixão de Naruto. Ele nunca a superou, e apesar de terem saído algumas vezes durante as férias, agora ela mostrava-se terrivelmente desinteressada.
— O que eu fiz de errado?
— Quando você não faz algo de errado?
Naruto olhou com raiva para o melhor amigo, que ria com desdém.
— Relaxa, Dobe. É só uma garota, existem mais umas cem solteiras pela escola, isso para não falar das compromissadas que não ligam de trair.
— Você não presta, Sasuke Uchiha — Ino tomou um lugar ao lado dos amigos nos bancos do gramado do Instituto, cruzando as longas pernas enquanto sorvia o canudo de seu suco de uva light. — Naruto é diferente de você, ele não seria capaz de ser um cafajeste cruel e sem coração.
— Não, mas o Teme pode estar certo — Naruto levou um dedo ao lábio inferior e pensou. — Talvez eu devesse seguir em frente? Isso deve deixar a Shion enciumada e fazê-la me dar atenção de novo.
Sasuke revirou os olhos. Estava achando aquele assunto muito chato, e o pior era saber que ainda precisava cumprir detenção após as aulas, pois a professora de Contabilidade Introdutória não havia gostado de uma resposta torta que dera ao ser questionado do porquê olhava tanto pela janela.
Não poderia responder que é porque tudo que ela estava ensinando ele já sabia, havia aprendido matemática financeira de forma autônoma há anos e era sinceramente um estorvo precisar ouvir todos aqueles conceitos novamente.
— Ei, Hinata!
Ao ouvir a voz alta de seu melhor amigo gritando, ele ergueu o olhar e percebeu a nova hóspede da sua casa vindo na direção deles. Naruto a conhecia? Olhou com interrogação para o amigo.
— Acabamos nos encontrando mesmo, hein? Pessoal, essa é a Hinata, nos conhecemos no ônibus de viagem quando eu estava voltando de Tóquio.
— Bom, tecnicamente foi após a viagem — ela corrigiu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha enquanto sorria educadamente, até que seus olhos pousaram em Sasuke e o sorriso diminuiu.
— Prazer! É bom ver que o Naruto só faz amizade com garotas bonitas — Ino, que era muito expansiva, levantou-se e deu um abraço de lado na azulada. — Nossa, seu cabelo é maravilhoso, uma seda! Você precisa me mostrar o seu cronograma capilar! Aliás, pode me chamar de Ino, futura representante da Yamanaka Hana!
Hinata conhecia aquela empresa. Eles eram uma rede de perfumarias muito famosa em todo o Japão, o que significava que aquela era uma pessoa importante. A Hyuuga achou Ino simpática e bonita para o seu gosto.
— E esse chato aqui é o Sasuke — Naruto apontou para o amigo carrancudo.
— Ah, sim, nos conhecemos — Hinata corou ligeiramente.
— Eh? Não vai me dizer que você também é uma vítima desse cafajeste?
— O quê?! — a garota riu após uma breve expressão de espanto. — Não, nossas mães eram melhores amigas e fizemos o ensino fundamental juntos antes de eu me mudar para Tóquio por uns anos.
— Além disso, ela tá morando lá em casa — Sasuke revelou sem saber exatamente o porquê.
O olhar de Naruto pairou sobre a garota. Ele gostava da franja que ela tinha, dos olhos únicos e do jeitinho doce de se portar e falar. Não pensou muito sobre a atitude que tomou a seguir, apenas fez.
— Hinata, eu vou dar uma festa no sábado da semana que vem, gostaria de se juntar a nós?
Sasuke o olhou embasbacado. Não conseguia imaginar Hinata em uma festa como as que o Uzumaki costumava dar, além disso, esperava veemente que ela tivesse o senso de recusar, pois sabia que era possível que Naruto quisesse usá-la para causar ciúmes em Shion, e não toleraria isso com uma pessoa que ele conheceu na infância, cujo sabia o tamanho da inocência.
— Uma festa? — Ela pareceu pensar por um segundo.
— As festas do Naruto são as mais legais! Tem bebidas porque a mãe dele não se importa, e a gente costuma se divertir com jogos de todos os tipos — Ino sorriu empolgada.
Hinata não demorou em suas ponderações. A verdade é que a sua maior motivação para estudar em Konoha novamente era justamente buscar o seu Grande Talvez, e sabia que não poderia encontrá-lo passando os finais de semana entre livros e filmes clichês de romance.
Também não poderia esconder o fato de que não era nada indiferente a presença daquele loiro de olhos azuis e pele bronzeada. Ele lhe causava um frio muito característico na barriga, e queria a oportunidade de conhecê-lo melhor.
Portanto, sorriu e sacudiu a cabeça em concordância, extraindo uma onomatopeia empolgada de Ino.
— Claro, por que não? Pode me passar o seu endereço, Naruto?
— O Teme pode levar você, ele nunca falta uma festa minha — Naruto indicou Sasuke com a cabeça.
— Não vai dar, tenho compromisso com uma pessoa antes.
Ino revirou os olhos, já imaginando o tipo de compromisso que seu amigo tinha marcado para aquele dia.
— Eu te busco, Hina. Posso te chamar assim?
— Claro, Ino! E muito obrigada.
— Não é nada! Agora vem comigo, vou te apresentar uns lugares bacanas dessa escola — a loira enganchou o braço no de Hinata e se afastou junto a ela.
— Teme, que compromisso é esse que você tem?
Sasuke suspirou.
— É com a Karin.
— Porra, ainda? — Naruto balançou a cabeça em negativa. — Você precisa dar um fim nisso, Teme, isso é muito errado. Ela não pode ficar te chantageando só porque…!
Colocou uma mão sobre a boca de Naruto, sabendo que o loiro não se aguentava e sempre acabava dando com a língua nos dentes. Entretanto, ele era o único em quem confiava para confidenciar suas verdades mais inconvenientes.
— Eu sei, Dobe, mas no momento é isso ou ser expulso da escola, não tô podendo escolher.
— Ainda acho que isso é raiva porque você conseguiu o estágio de verão que ela queria com o Big Four.
— Tanto faz, a escola vai acabar em dois semestres, eu vou fazer esse estágio em julho ela queira ou não, e então eu vou esquecer que essa doida existe quando estiver em Tóquio, na faculdade de Direito.
— E vamos ser colegas de dormitório, não esqueça!
Sasuke revirou os olhos.
— Teme, por que não me falou que tinha uma gata daquelas morando na sua casa? Nossa, ela é muito bonita…
— Hinata não é pro seu bico, Dobe — Sasuke fez questão de deixar um tapa na nuca do amigo, que revidou com um empurrão.
Se isso já não fosse um tratamento normal entre os dois, provavelmente teriam se embolado no chão iniciando uma briga que chamaria atenção dos monitores. Mas estavam acostumados a se agredirem por esporte e irmandade.
— Não estava pensando em nada demais! Você bem sabe que o meu coração pertence à Shion. Mas a Hinata parece agradável para fazer amizade — Naruto insistiu.
///
O intervalo de almoço das turmas do programa de Artes demorou bem mais para começar naquele primeiro dia, mas isso é porque tiveram uma palestra sobre o uso das salas de música e ateliers do instituto durante o que deveria ser o período da aula de Introdução Musical.
Sakura estava impaciente, rabiscando a figura macabra de um cérebro infestado de larvas enquanto tentava não se incomodar com o cara estranho que não parava de encará-la.
Sério, aquele maluco de macacão verde, sobrancelhas grossas e cabelo tigela não tirava seus grandes olhos amendoados de cima da garota, e ela já estava ficando irritada. Entretanto, a aura de mau humor se dissipou quando as luzes se acenderam, tirando Sakura de seus devaneios e fazendo com que ela prestasse atenção na frente da sala.
— …Bem, alunos, eu já tomei tempo demais de vocês. Antes de saírem para almoçar, no entanto, quero apresentá-los ao novo professor que vai ministrar essa aula de Introdução Musical, agora que estou me aposentando. Pode entrar, Itachi Uchiha — o velhinho palestrante e ex-professor clamou.
Sakura raramente ficava corada, mas ao ver o rapaz alto, de rabo de cavalo e grandes marcas de expressão no rosto, ela sentiu que deveria ter virado um pimentão dos mais vermelhos e maduros. Olhou com tanta concentração para o próprio desenho que pensou que se fundiria com as larvas que saíam dos buracos que desenhou naquele órgão rugoso.
Ela ouviu meia-dúzia de palavras saírem dos lábios do professor, mas não assimilou nada. Não bastasse ter esbarrado e derrubado seu café, a garota ainda o confundiu com um estudante, um colega de escola. Havia o desrespeitado integralmente, e o pior é que havia realmente achado que ele era uma graça e que talvez pudesse pegar o telefone dele mais tarde.
É, seus planos foram por água a baixo. Assim que foram liberados, ela se levantou e, de cabeça baixa, começou a caminhar muito rápido para fora da sala de aula. Pensou ter ouvido a voz do professor chamando-a de volta, mas torcia para que fosse um delírio de sua mente e continuou praticamente a correr pelos corredores, buscando um lugar longe o suficiente para que estivesse segura e pudesse assimilar a situação constrangedora.
Foi ao subir as escadas e se deparar com uma varanda entre duas salas que ela finalmente descansou, levando uma mão ao peito enquanto falava a si mesma que estava tudo bem. Bastava pedir desculpas pela insolência na próxima aula, até lá, ele provavelmente nem lembraria dela… Ou de seu cabelo rosa chamativo… Ou do fato de Sakura ter derrubado todo o seu café em sua camisa branquinha que, aliás, ela reparou que ainda estavam com as manchas grotescas e marrons, bem em seu primeiro dia de aula…
Sua vergonha, porém, foi interrompida por vozes femininas que passavam rente à varanda, parando perto do bebedouro enquanto conversavam.
—...Aí, nós podemos pegar classes eletivas do programa de Artes sem problemas, isso inclusive é bom demais pro currículo, mas também pode ser cansativo — Ino dava uma aula completa sobre os programas do Instituto.
— Entendi. Vem cá, Ino… Nós podemos trocar de programa?
A curiosidade de Hinata fez a loira erguer uma sobrancelha.
— Até a segunda semana de aula, isso é possível sim. Você está pensando em trocar?
Hinata bateu os indicadores um no outro, olhando para baixo.
— Não tenho interesse algum no programa de Negócios, só faço porque foi uma orientação do meu pai para que eu pudesse estudar aqui. Por favor, não conte a ninguém!
— Relaxa, Hinata, não sou nenhuma x9. Além do mais, se é o que te faz feliz… É uma pena, teremos uma CEO mulher a menos nesse mundo — Ino deu de ombros com um suspiro.
Sakura segurou a respiração ao ouvir aquele nome. Hinata… E uma voz doce que em nada lhe era estranha. Atentou-se ao resto da conversa não tão particular das meninas.
— Em compensação, aposto que você será uma CEO brilhante — Hinata sorriu.
Assim que elas viraram o corredor, cabelos rosas com cheiro de flores despontaram na direção oposta. Hinata não viu a face da pessoa, e nem precisava, reconheceria aquele perfume e aquela cor única de cabelo a quilômetros de distância.
Virou-se tão rápido que até ficou tonta, e Sakura fez a mesma coisa ao mesmo tempo que ela. As duas se encararam com olhos arregalados e sorrisos enormes, correndo para um abraço enquanto gritavam seus respectivos nomes.
— Sakura!
— Hinata!
Os braços de Sakura apertaram a cintura de Hinata, que era ligeiramente mais baixa que ela. Ela afundou o nariz no cheiro característico de baunilha que a Hyuuga emanava e foi como sentir-se em casa pela primeira vez em dias, um alívio familiar rapidamente percorrendo o seu corpo, fazendo-a esquecer do constrangimento de antes.
— Eu tô perdendo alguma coisa aqui? — Ino voltou alguns passos, observando as duas meninas se separarem daquele abraço caloroso. — Ei, eu te conheço! Sakura-testa, é você?
E, aparentemente em uma peça que o destino pregou, àquelas três adolescentes estavam destinadas a se encontrarem.
[FLASHBACK: Cinco anos atrás — 14 anos — acampamento de Verão em Nami no Kuni]
Hinata estava encolhida no canto da cabana na qual ficaria alojada com os olhos transbordando lágrimas incessantemente. Ao seu lado, jazia uma pilha de fotos polaroids rasgadas no meio, bem como uma garrafa onde costumava ter uma escultura de fada dentro, quebrada.
Seus ombros tremiam enquanto as gotas enormes desciam por suas bochechas redondas. Pelo menos, com o local vazio, ela poderia chorar o quanto quisesse.
Entretanto, sentiu o medo lhe invadir quando a porta de madeira se abriu, revelando uma figura franzina de uma garota com estranhos cabelos rosados e longos.
— Ei! — a garota excêntrica caminhou até Hinata, abaixando-se na frente dela. — Por que você está chorando? Alguém te machucou?
A preocupação genuína nos olhos esmeralda fizeram as lágrimas rolarem ainda mais pelo rosto da azulada. Seu cabelo era curtinho nessa época, e seu corpo acima do peso estava escondido por um casaco grosso com pelugem na touca, ainda que fizesse muito calor lá fora.
— Isso é seu? — a rosada indicou a pilha de fotos e garrafa com a mão, e Hinata sacudiu a cabeça em concordância.
— Eram as m-memórias que eu guardava da minha mãe, e-ela f-faleceu recentemente. — Houve uma pausa onde Hinata tentou recuperar a própria respiração, que por um segundo sumiu com as lágrimas que ameaçavam cair novamente. — As meninas mais velhas destruíram tudo e me ameaçaram…
— Que desgraçadas! — A menina brandiu um punho dando um soco no ar, depois juntou a pilha de fotos e levantou-se, oferecendo a mão para Hinata. — Vem, eu acho que consigo consertar as suas fotos. E nós vamos dar uma pequena lição naquelas cobras!
— N-não quero problemas…
— Escuta aqui — um dedo foi parar no queixo da menor, erguendo seu rosto. Olhos perolados lacrimejantes encararam os verdes determinados. — Não é problema nenhum se defender, e elas mexeram com algo importante para você. Dê o troco, ou veja isso acontecer de novo.
[Fim do Flashback]
A breve explicação de como se conheceram em um acampamento de verão quando Hinata se mudou para Tóquio deixou a garota satisfeita, pois Sakura não deu mais detalhes do que o necessário, nem falou sobre aquela coisa, mostrando que realmente estava perdoada por um ato impulsivo no passado.
Já a Yamanaka dividiu segredos sórdidos sobre o Internato Católico para Meninas Problemáticas, onde conheceu Sakura aos quinze anos, apenas alguns meses após o acampamento.
— Que fase! — A rosada riu enquanto Ino relembrava certa vez em que elas espalharam revistas pornográficas gays pelo dormitório das freiras.
— Nossos pais são malucos se achavam que colocar garotas-problema com outras garotas-problema ia resolver alguma coisa — Ino revirou os olhos.
— Bom, eu não faço mais tanta besteira.
— Eu acho que eu faço o dobro.
A confissão da Yamanaka arrancou mais risos de Sakura.
Hinata era uma companhia um pouco silenciosa, mas principalmente porque metade das experiências que as novas amigas tinham de vida, ela nunca havia vivenciado fora das telinhas e páginas de livros.
Ali morava sua ânsia pelo Grande Talvez que descobriu lendo Quem É Você Alaca? onze vezes nos últimos anos. Esse Grande Talvez pode ser qualquer coisa, até mesmo descobrir que gosta de pular de paraquedas. Não sentia-se pronta para isso, mas para ir à uma festa adolescente com música, baderna e álcool, quem sabe?
///
Sasuke Uchiha não era, de fato, um delinquente como a maioria das pessoas pensava.
Mas ele guardava sim um segredo um pouco inconveniente, que, caso descoberto, poderia ferra-lo de muitas maneiras.
Uma dupla identidade. Sasuke não queria chamar atenção, só queria uma maneira de desabafar a tempestade de emoções que vinha vivenciando a adolescência inteira, e, principalmente, ele descobriu que gostava de fazer algo além de estudar, jogar videogame e ver as estrelas.
Desenhar, esse era o seu hobbie secreto. Mas não qualquer desenho em folhas normais de papel… Ele passou as últimas férias inteiras grafitando os muros atrás do Instituto Genius durante as madrugadas, sem que ninguém além de Naruto soubesse.
Bom, Naruto e aquela outra lá, o grande e ameaçador problema que vinha lhe chantageando.
Entretanto, vivemos em uma era digital onde as notícias pipocam mais pelos telefones celulares do que, de fato, pelos jornais. E por isso mesmo a diretora Tsunade não ficou nada feliz em saber que havia um depredador de propriedades entre eles, pois as referências implícitas nos desenhos eram rapidamente entendidas como desabafos de um aluno em crise.
E, de fato, era um pouco isso mesmo.
Assim que ele chegou para cumprir a detenção que recebeu na primeira aula daquela manhã, foi parado antes de adentrar a sala. A orientadora Shizune o acompanhou até a sala da diretora enquanto passava um sermão muito perspicaz sobre tudo ficar bem no final, desde que você fosse sincero e verdadeiro com as autoridades sobre os crimes cometidos.
Apesar do semblante impassível, até mesmo entediado, Sasuke sentia seu corpo tremelicar por baixo da jaqueta de couro. Não gostava da sensação de ser pego por algo que realmente fez, enquanto as outras mil mentiras que contavam sobre ele não lhe gerava realmente uma comoção.
— Uchiha. Que desprazer ver você aqui tão cedo — Tsunade olhava pela janela quando ele adentrou a sala e sentou-se na cadeira de sempre.
Estava mais acostumado àquele cenário do que gostaria de admitir.
— Vou ir direto ao ponto. Sasuke, foi você que pichou os muros atrás do Instituto?
— Não.
Era bom em mentir, muito bom inclusive. Disso, ele se orgulhava sem arrependimentos, pois é o que lhe proporcionou a dose de tranquilidade perfeita para viver os últimos anos do ensino médio.
— Certo. Então por que temos imagens da câmera de segurança, cujo o cabelo do delinquente parece muito com o seu?
Ela virou lentamente o monitor do computador. A imagem em preto e branco denotava uma figura encapuzada cujo rosto estava escondido por uma máscara cirúrgica e um óculos escuro. Entretanto, por um mínimo segundo o capuz caiu, revelando a cabeleira única e incomum de Sasuke Uchiha.
— O que isso prova exatamente? A senhora sabia que desde o primeiro ano, tem uns caras que tentam imitar o meu cabelo?
Aquilo não era mentira. De fato, o penteado não intencional de Sasuke tornou-se um modelo para muitos garotos que admiravam sua popularidade com as meninas.
— Essa prepotência dos Uchiha não muda nunca, não é? Itachi era do mesmo jeitinho, apesar de ter andado na linha e ter me dado três vezes menos dores de cabeça.
Sasuke revirou os olhos. Odiava ser comparado ao irmão mais velho.
— Sasuke, se você admitir que é você, as consequências não vão ser tão ruins para você. Caso contrário, pode ficar no seu currículo para sempre e dificultar sua entrada na U-tokyo. Você não quer mais estudar direito?
— Diretora Tsunade, não sou eu. Eu sequer gosto de arte, ou você acha que escolhi o programa de Negócios por obrigação? Não, eu não perco meu tempo com esse tipo de idiotice hipster.
Aquele argumento pareceu muito mais coerente para a diretora Senju, que com um olhar desconfiado, começou a reconsiderar a posição de Sasuke.
— Bom, independente da verdade, vou precisar falar com os seus pais.
— O quê?! Mas nem provas concretas você tem…
— Não importa, Uchiha. Seu comportamento nos últimos anos tem sido inadmissível, para não dizer sobre ter pego detenção no primeiro dia de aula. Isso é um record ou o que?
Um sorriso debochado despontou nos lábios de Sasuke. Era um record sim ser mandado para a detenção na primeira aula do primeiro dia de aula, mas não queria piorar as coisas para o seu lado respondendo aquilo.
— …Para não falar sobre os boatos nojentos com as garotas. Espero que esteja com os testes de IST em dia e frequentando as aulas de educação sexual que a escola oferece, Uchiha, isso é coisa séria!
O sorriso sumiu e sua pele empalideceu ainda mais. Gostaria de ser soterrado sob o chão de madeira. Normalmente, não pensava em como aquela história toda que começou no primeiro ano do ensino médio poderia afetá-lo.
— Enfim! Nem quero mais saber sobre você por hoje, chega, é o suficiente! Vá cumprir a sua detenção, que eu vou ligar para os seus pais e marcar um horário para a próxima semana.
Com um suspiro frustrado, o rapaz deixou a sala da diretora e se dirigiu até a detenção, onde cumpriu sua hora de castigo com um tédio descomunal.
Ao ser liberado e caminhar pelo campus em busca de Naruto, reparou que burburinhos rondavam o gramado através dos adolescentes fofoqueiros, que o olhavam com especial atenção. Não era uma novidade ser o alvo das conversas alheias, mas devia admitir que a cada dia isso menos o agradava.
“É apenas mais um ano, Sasuke… Aguente firme”, o garoto pensava consigo mesmo enquanto buscava os óculos escuros no bolso da jaqueta para colocá-los sobre os olhos e sentir-se menos vulnerável.
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